25.2.13

2ª divisão

São dois motivos que me fazem ter vontade de emagrecer. Conseguir fuder de ladinho e jogar bola.

Era uma confraternização da agência. A turma bebeu, comeu e trocou alguns presentes. Depois alguém disse, “Ei, vamos bater esse baba!”. Fazia mais de dez anos que eu não chutava uma bola. Mas precisavam de mim para completar o time. Então resolvi encarar. Sete de cada lado, fora os goleiros. Me colocaram na frente, na banheira, onde eu não pudesse fazer tanto estrago. Era um belo gramado. Dava para a bola correr macia e jogar um bom futebol. Mas como tirei os óculos, eu precisava apertar os olhos para enxergar meu time. Meu peso também não me deixava correr. Era como se eu carregasse fardos de cimento sobre as costas e correntes de chumbo me segurassem ao chão. Nem sempre foi assim. É difícil de acreditar, mas já fiz meus golzinhos em outros tempos. Com os anos, fiquei cada vez mais gordo e me afastei dos babas. Era impossível jogar com os boleiros, esses que levam o jogo a sério. A cada lance que eu perdia, algum escroto gritava – “Porra, gordo!” – e eu dizia – “Vai tomar no cu! ” – E as coisas não acabavam muito bem. Mas aquele baba da agência tinha o nível que eu precisava. Os caras estavam bêbados, outros chapados de maconha, alguns já tinham cabelos brancos, outros nunca jogaram bola. Queríamos apenas matar o tempo, se divertir, esquecer os problemas. Lembro que teve esse lance. Um cara chamado Bob Jones. Desconfiávamos até da sua sexualidade, mas era o melhor do meu time. Ele driblou o primeiro, driblou o segundo e arrancou pela esquerda. Como manda a cartilha do bom centroavante, acompanhei a jogada correndo na diagonal. Aquela jogada clássica. Bob Jones chegou à linha de fundo, ergueu a cabeça e cruzou. A pelota veio girando em supercâmera lenta, me antecipei ao goleiro, tomei impulso e pulei. Mas só consegui pular na altura de uma gilete e ainda caí de uma maneira ridícula. A turma toda riu. As putinhas que assistiam ao jogo acharam aquilo o máximo. Fiquei ali, deitado na grama por alguns instantes, sem respirar, sentindo uma navalha cortar minha garganta e o coração bater em disparado. Foi nessa hora que pedi para ir para o gol, e meu time perdeu a partida.

Não é fácil aceitar a crueldade do tempo e perceber que temos um prazo curto de validade. Lembrar de quem você já foi e reconhecer quem está hoje diante do espelho. Não falo de cabelos brancos ou rugas. Talvez de energia. A mente pedir e corpo não obedecer. Isso pode fazer muito homem chorar ou parar no hospício. Outro dia assisti ao amistoso do velho Zicão. O cara ainda sabia tocar na bola. Mas em um lance simples, o Galinho esticou a perna, tropeçou no vento e caiu melancolicamente diante do gol vazio. Como se Deus estivesse praticando uma de suas piadas de mau gosto e ainda vestido com a camisa do Vasco. Meu caso é mais simples. Meu peso e minha coluna já não me deixam fazer muita coisa. Por outro lado, não chego me sentir tão mal. Porque nunca fui um camisa 10, nunca fiz um gol de bicicleta, nem nunca levantei a taça de campeão. Sempre estive no banco de reservas, e a vida toda fui um jogador da segunda divisão.

Enquanto isso, vou me relacionando com o futebol apenas pela TV. Se que bem que o próprio futebol anda um chute no saco. Há muita violência, torcedores idiotas, mais marketing do que futebol. De alguma forma, perdeu a graça, a espontaneidade. Dizem até que não há nada mais vulgar do que eu torcer pelo Flamengo. Isso porque meu documento de identidade diz que nasci em Salvador. Mas vamos fazer o seguinte. No dia que alguém pagar todas as minhas contas, eu torço para o time que você quiser.