30.1.13

Tempo de violência

A Lapinha até que era um lugar decente. Onde famílias sentavam-se nas portas de suas casas, casais se espremiam atrás da igreja e crianças corriam com algodão doce, esse tipo de coisa. Como uma pequena cidade do interior perdida bem no meio da capital. E no final da tarde, você ia comprar o pão escutando aquele chiado escroto das cigarras. Mas nem tudo era poesia naquelas ruas de paralelepípedo.

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Passamos quarenta minutos de tocaia. Apenas observando o movimento na banca de Seu Antônio. Éramos eu, Queixão, Rubalo, Vaca e Ultraseven. Seu Antônio tinha uma banca de revistas na esquina. Um senhor de idade, seus reflexos já não eram lá essas coisas. O plano era simples. Eu e Rubalo distrairíamos o velho, enquanto os outros atacavam a lateral da banca para roubar figurinhas do campeonato brasileiro. Eram os anos 80. Precisávamos nos divertir.

- Quanto é a Playboy, Seu Antônio?
- Ham?
- Essa com a loira na capa.
- É pra maior de 18, filho. Vocês não podem ver essas coisas.
- Então me dá aquela de quadrinhos.
- Qual?
- Aquela.
- Chico Bento?
- Não, a outra.
- Essa?
- A outra.
- Mas essa também é de ozadia.
- Porra, Seu Antônio.
- Por que não levam a do Chico Bento? Eu me divirto com Chico Bento.
- Então vou levar só uma jujuba.

A missão foi um sucesso. Depois nos encontramos na porta da igreja. Dividimos o bolo de figurinhas em partes iguais. Durante o golpe, Queixão também pegou figurinhas dos Ursinhos Carinhosos. Não entendemos direito. Mas ele disse que era um presente para sua irmã. Então cada um separou seus cromos favoritos, e reservamos alguns para a disputa no bafo. Foi nessa hora que um sabugo de milho chupado acertou em cheio a cabeça de Rubalo. Eram os pivetes da Avenida Peixe que estavam invadindo o Largo da Lapinha. Vaca foi o primeiro a correr. Depois, Queixão, Rubalo e Ultraseven também fugiram deixando para trás suas figurinhas. Eu não consegui sair do lugar.

A Avenida Peixe sempre foi barra pesada. Além de mais altos e mais fortes, aqueles caras costumavam andar armados com facas e porretes. Eram jovens marginais promissores, que hoje devem ser chefes do crime na cidade. Quero dizer, os pivetes da Avenida Peixe eram o nosso maior pesadelo. E agora, quatro deles vinham em minha direção, liderados por ninguém menos que César Diabo. O mais temido na Lapinha, na Avenida Peixe, na Liberdade e também no inferno.

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Hora de contar a história de Vander Crioulo. Muitos ainda se lembram de Crioulo como um dos maiores delinquentes da Lapinha. Vivia de roubos, arrombava casas e carros com a mesma facilidade, bom de briga, jogava capoeira, desvirginava mocinhas inocentes, batia em velhos e doentes, tocava o terror, botava fogo em cachorro e talvez fosse o maior ladrão de io-iôs da Coca-Cola. Certa vez cismou comigo, me deu um tapa na cara e jogou minha sandália no telhado sem o menor motivo. Pois é. Um dia Vander Crioulo inventou de roubar uma sorveteria na Avenida Peixe. Parece que César Diabo não gostou da ideia. Além de arrebentar vários dentes de Crioulo na base do soco, César Diabo quebrou-lhe uma porta na cabeça e o fez prometer que nunca mais pisaria na Avenida Peixe. E mesmo Crioulo chorando de joelhos e pedindo penico com a boca cheia de sangue, César Diabo ainda enfiou um picolé de nata goiaba no cu de Crioulo, que gritou feito uma garotinha virgem de cu. Depois desse episódio, Vander Crioulo virou um dos maiores viados do bairro, com short enfiado e tudo, e passou a se chamar Vander Goiaba.

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Então lá estava eu sentado na porta da igreja diante de um César Diabo com os punhos fechados. Seus capangas seguravam canivetes. Eu já fazia uma prece silenciosa pedindo para que não comessem o meu rabo.

- Por que não correu, gordo? – disse o diabo.
- Vocês iam me pegar de qualquer jeito.
- Você é o espertinho da turma?
- Claro que não. Sou só o gordo.
- Acaba com ele, diabo. – disse um dos capangas.
- Mostre que sabe apanhar – disse Cesar Diabo arrancando minha sandália e jogando em cima do telhado mais próximo.
- Merda, de novo... – eu disse, me levantando.
- Não fui com a cara desse gordo – disse outro capanga.
- QUE DESGRAÇA! – gritou César Diabo.
- Qual foi, diabo? – perguntou um capanga.
- Um fiapo de milho no meu dente. Não quer sair nem com a porra. Fico agoniado. São duas coisas que eu odeio, esses otários da Lapinha e fiapo no dente. Gordo, tô com vontade de rachar sua cara só por causa desse fiapo no meu dente.
- Calma – eu disse – a gente consegue um palito no bar do Miguel.
- Fiapo no dente é uma miséria – disse um dos capangas – só sai com palito, diabo.
- Cala a boca – disse diabo.
- O gordo tem figurinha dos Ursinhos Carinhosos.
- Tô dizendo – disse César Diabo – Na Lapinha só tem viado!
- Calma, pessoal – eu disse – Isso aí é da puta da irmã do cara.
- PORRA NENHUMA, O GORDO É VIADO!
- As minhas são essas – eu disse mostrando os cromos do campeonato.
- Torce pra que time, gordo?
 - Veja bem, eu sou Flamengo, é que...
- Eu também sou Flamengo. Zico é meu fã.
- É o contrário.
- O quê?
- Você é fã de Zico.
- Isso que eu disse, porra. Zico é meu fã. Eu bato falta que nem o Zico.
- Diabo chuta que nem o Zico – disse um dos capangas.
- Gordo, vou liberar você só por causa do Zico.
- Verdade, o galinho é foda.
- Mas vou te pedir uma coisa.
- Já sei. A figurinha do Andrade?
- Porra de figurinha. Eu sou viado?
- O gordo acha que o diabo é viado que nem ele.
- Você conhece Téo Robocop?
- Que tem um poodle chato?
- Quero que você dê um recado a ele.
- Tudo bem.
- Diga a Téo Robocop que ele tinha que dar o dinheiro do bagulho ontem. Hoje já é hoje. Se ele não aparecer com a porra do meu dinheiro, vou meter fogo nele e naquele cachorro nojento dele – disse César Diabo levantando a camisa e revelando que os pivetes da Avenida Peixe agora também trabalhavam com armas de fogo.

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À noite, o Largo já estava mais tranquilo. Parecia bem mais aquele cenário do interior. Alguns casais dividiam pipoca no palanque e taxistas comiam acarajé na baiana que instalava seu tabuleiro junto à banca de Seu Antônio. Ultraseven e eu estávamos sentados na porta da igreja. Eu contava sobre meu embate com César Diabo quando Vaca apareceu com uma novidade. “Se querem fuder, me sigam!”.

Seguimos Vaca até o antigo prédio ao lado da igreja. Subimos as escadas e paramos no 102. Havia muito barulho, sobretudo um latido de cachorro. Alguém abriu a porta e entramos. Jamais vou esquecer aquela imagem. Uma sala sem móvel algum, piso de tacos, apenas um colchão no meio. E sobre o colchão, Tico Pé de Pato comia Matilde Maluca, na presença de um poodle ensandecido.

Matilde Maluca era a louca da Lapinha. Surgia do nada e ficava transitando por ali, sempre com seu vestido azul florido. Conseguia restos no bar do Miguel, sentava no palanque, conversava sozinha e dava voltas ao redor na igreja catando pontas de cigarro. Agora ela estava ali, com as pernas abertas, e Tico Pé de Pato metendo feito um animal. Matilde Maluca apenas sorria. E havia uma turma assistindo. Era os “caras grandes”, uma geração mais velha da Lapinha. Estavam Big Juca, Perninha, Fred Feijão, Júnior Três Dentes, Jessé, Silvio Negão e Téo Robocop. Alguns bebendo, outros com o pau na mão, outros rindo. Cada um esperava sua vez. Quando Tico Pé de Pato acabou o serviço, Fred Feijão se aproximou e derramou um gole de cachaça na boca de Matilde Maluca. Então Jessé baixou a bermuda e meteu.

- A gente vai poder meter também? – Vaca disse.
- É só vocês entrarem com a grana da cachaça – disse Téo Robocop – Essa doida gosta de cachaça. A gente deu dois copinhos, ela ficou doida, pediu mais, a gente deu. Matilde Maluca ficou maluquinha.

Jessé gemeu engraçado e gozou rápido. Era o a vez de Silvio Negão.

- Ela tem uma xota cabeluda – Ultraseven disse.
- Ás vezes, essa puta grita – disse Téo Robocop – Por isso eu trouxe o Shazam. Ele late e abafa a gritaria. Pra não chama a atenção dos vizinhos. Não foi uma boa ideia?
- César Diabo mandou um recado – eu disse.
- Gordo – disse Téo Robocop – por que você tá de Conga? Parece um tabaréu.
- Se você não pagar o que deve, ele vai te matar.
- Esquece o diabo, gordo.
- E vai meter a porra no Shazam também.
- E vocês? Não vão botar seus pauzinhos naquele buraco molhado? Não querem deixar de ser donzelos? É a chance. Mas vou logo avisando. Tem uns caras usando camisinha, outros não. Deve tá uma sopa ali dentro.

Silvio Negão meteu de algum jeito que Matilde Maluca começou a gritar. Mas o poodle latia mais alto. Quando Silvio Negão acabou, Vaca ganhou a sua chance. Eu não queria participar daquilo. Se os caras vissem o meu pau, eu seria a piada da noite. Além disso, algo me dizia que aquilo não estava certo. Parecia um show de horror, de covardia. Ou talvez eu fosse o maior de todos os covardes por não tentar impedi-los nem sequer meter a pica. Ao invés disso, preferi deixar o apartamento, correr de volta pra casa e bater uma punheta pensando em Matilde Maluca.

De certa forma, essa história tem até um final feliz. Téo Robocop e o poodle sobreviveram. E Matilde Maluca ainda teve um bebê. Ninguém jamais soube quem era o pai de verdade. Diziam ser de Ultraseven. Porque o garotinho era negro e cabeçudo.