22.7.13

PEC de cu é rola


Foi tudo muito rápido. Eu estava em casa com o peito cheio de dor e gases. Estrangulava a tarde com bobagens na internet enquanto aguardava por um maldito arroto. Foi quando vi esse vídeo do Pelé dizendo para esquecermos as manifestações e apoiarmos o time do Felipão. Só mesmo a Xuxa para dar a buceta a um cara desses. De alguma forma, aquele vídeo me fez mal. Então peguei o telefone, liguei pro Guismo e disse – “Tô dentro”. Bati a porta e desci a rua. Passei num desses armarinhos coloridos e pedi uma cartolina e uma caneta Piloto. Escrevi a frase enquanto a putinha do balcão observava suas unhas. “Só se fala nesse protesto” – ela disse – “mas é contra o quê mesmo?”. Eu disse – “Vamos fuder a bastilha, baby!”. Depois peguei um ônibus e logo estava no Campo Grande já arrependido de ter deixado meu sofá para trás.

A praça estava lotada. Jovens retardados, cocô-boys, xixi-girls, velhos porra-loucas, novos maconheiros, estudantes radicais e pseudorevoltados, como eu, concentravam suas forças e seus cartazes para uma caminhada rumo à Fonte Nova. Uruguai X Nigéria. Prometia um bom jogo. Mas a turma queria acabar com a festa. Um dos problemas era a polícia e suas bombas de gás. O outro é que eu começava a lembrar que eu não passava de um covarde. Nunca fui engajado ou patriota. Sempre caguei pro futuro do nação. Ter apenas compartilhado a porra daquele vídeo xingando o Pelé e o Edson já estaria de bom tamanho e proporcional à minha consciência política. De qualquer forma, andei um pouco pela praça e acabei encontrando o Guismo. Ele estava tocando os Alquimistas numa roda repleta de outros guismos. Todos iguais. Barbicha, camisa xadrez e cabelos assanhados. Como se tivesse chovido a manhã toda e eles tivessem se multiplicado aos montes. Até as putinhas pareciam ter pentelhos no queixo. Guismo se levantou e veio em minha direção. Tinha os olhos vermelhos. Longes e vermelhos.

- Jorge Bem Jor é foda – ele disse.
- Seguinte: – eu disse –  o clima tá bacana, mas acho que vou cair fora.
- Relaxa, gordo. Tem mulher pra caralho aqui.
- Não sirvo pra esse lance de protesto.
- Se eu soubesse que esse negócio de manifestação tinha tanta gostosa, eu já tinha virado presidente da CUT, UNE, MST, essas putaria toda.
- Eu sou alienado, porra...
- Deixa eu ver seu cartaz.
- Tô cheio de gases, uma dor do caralho...
- Hehehehe...de fuder, o cartaz.
- E também não passei Hipoglós na perna, vou me fuder nessa história.
- Segura aí que o Barbosa vai falar.

Então um dos guismos subiu numa das esculturas da praça e começou a falar com ajuda de um megafone. Fez lá uma saudação com os punhos fechados no ar e a turma foi ao delírio. Pareciam estar brincando de revolta, como se imitassem algo que eles viram na TV. O tal Barbosa tinha uns óculos idiotas que lhe faziam parecer um rapazinho educado, mas falava com raiva e cuspe, algo deixaria sua vó morta de vergonha. O barulho na praça e meu déficit de atenção não me deixaram escutar muito bem. Peguei apenas frases soltas como “abaixo a corrupção”, “copa para ricos”, “não sei o que lá do passe livre” e “dedo no cu de Feliciano”, uma coisa dessas. Por fim, Barbosa levantou o punho mais uma vez e a turma bateu palmas. Depois, ele desceu da escultura e se aproximou. Guismo fez as apresentações.

- Barbosa, esse é Bono, o gordo que te falei. Ele trouxe um cartaz maneiro.
- Seja bem-vindo, companheiro Bono. O momento é esse mesmo, de luta, de união.
- Na verdade – eu disse – tava até falando com Guismo que esse negócio de luta...
- Esse é seu cartaz?
- Minha letra é uma merda, mas...
- Muito bom, companheiro Bono. Quer dizer, não diz nada sobre nossa pauta de reivindicações, mas precisamos também dessas afirmativas que não dizem nada, mas também dizem tudo porque é a voz do povo, entendeu? Essa é a voz do povo. Parabéns pelo cartaz, companheiro Bono.
- Ok, se quiser, eu te empresto...
- É que o gordo tá com medo da polícia. – Guismo disse.
- Não chega a ser medo. É que esse lance de bala de borracha...
- Companheiro Bono – Barbosa disse - essa semana eu vi uma mensagem interessante no facebook. Dizia assim, “Se tiver com medo, vai com medo mesmo”.
- Tudo bem, mas vou logo avisando que não pego em arma.
- Nós somos de paz, Companheiro Bono.
- Ok, tudo bem, positivo, companheiro Barbosa. Mas a gente tem algum plano B? Digo, se der merda?
- Companheiro Guismo, toca essa viola. O plano é acordar o gigante.

Barbosa partiu na frente e puxou os rebeldes. Guismo tocou primeiro aquela do Vandré. Ou foi uma de Gonzaguinha, não lembro direito. Não tinha certeza se meu lugar era no front, mas segui o movimento. Ao sair da praça, um neofotógrafo pediu para fazer uma foto do meu cartaz. Eu disse, tudo bem. Mais adiante, com a rua mais estreita, os passos ficaram mais curtos. As cabeças cheias de merda se aproximaram umas das outras formando uma massa sólida e coesa que engolia o asfalto, as calçadas e janelas. Aquilo me fez sentir mais confiante. Talvez até patriota. Foda-se se aquela turma não tinha uma pauta definida. Fodam-se os definidores da razão e da pauta. Foda-se o Pelé e, antes que me esqueça, foda-se o Ronaldo. Vou dizer uma coisa. A avenida estava tomada e não era fevereiro. Aqueles políticos estavam fudidos.

Foi quando dobrávamos o Politeama que escutei alguém chamar o meu nome. Um negro com mais de dois metros, usando boné, óculos escuros e capuz, gesticulava em minha direção. Foi difícil, mas reconheci. Era o Big. Um velho amigo dos tempos do segundo grau. Avisei a Guismo que ficaria um pouco para trás e fui até a esquina. A especialidade de Big era basquete, mas jogamos juntos no lendário My Eggs, o pior time da história. E quando digo pior time, quero dizer que éramos do terceiro ano e levamos 8 X 0 dos moleques da sétima-série.

- Que é que tá fazendo aqui, gordo? – Big disse.
- Que é que você tá fazendo aqui, Big? Tá parecendo um traficante, porra. A sua é essa agora? Vender pó pra estudante?
- Eu sou Federal, porra.
- Virou POLÍCIA?
- Fala baixo, desgraça. Senão essa gente me mata. Passei num concurso em Manaus, lá na casa do caralho, mosquito pra caralho, mas como sou foda, entrei nesse grupo especial, e me trouxeram pra ajudar na segurança dessa copa de merda. Pelo menos aproveito pra ver minha mãe. Tô dando cobertura a uns bacanas e políticos da Nigéria. Mas tô à paisana, disfarçado, monitorando a área.
- Sei como é, tipo Anjos da Lei.
- Só um minuto – disse Big pressionando o dedo num ponto de escuta em seu ouvido -“Pode falar...afirmativo...por enquanto só código 07...o quê?...sei, sei...pão branco....ok...afirmativo, capitão!”.
- O ministro da Nigéria – disse Big – cismou que quer comer Subway. Frango Teriaki.
- Já foi bom. Antigamente eles caprichavam. Hoje, esses escrotos já deixam o franguinho só melado com quase nada de Teriaki.
- E que cartaz é esse? Virou agitador? A sua agora é essa? Você é agitador?
- Melhor do que é ser um reaça.
- Reaça, o caralho.
- E se seus comparsas da federal soubessem que você morria de medo de camundongos?
- Bono, o passado fica no passado. Agora me diga, qual é o plano desses vândalos?
- Caguetar meus companheiros de luta nunca foi o meu estilo.
- Velho, você não acha que eu também queria escrever um cartaz com tudo que eu penso sobre esse país de merda e poder botar minha foto no Facebook? A minha vontade era de enfiar não um Frango Teriaki, mas um B.M.T de 30 cm, no pão de aveia e mel, cheio daqueles carocinhos, bem no meio do cu daquele ministro e de qualquer político desses. Mas só tô fazendo meu trabalho e tô louco pra acabar meu plantão e ir comer a mariscada que minha mãe fez. Você acredita que naquela porra daquela Amazônia ninguém faz uma mariscada decente?
- Ok, Big. Tô emocionado. Então se prepara que o objetivo da galera é invadir o campo, furar a bola e acabar com o baba.
 - Então segura o cu, vocês. Porque os homem armaram duas linhas de quatro no dique, que não passa porra nenhuma. E se eu fosse você, me picava pra casa, porque um passarinho verde e amarelo me disse que o pau vai cantar.

Foram mais ou menos as últimas palavras do Big, que agora é era da Federal. Depois nos despedimos, aperto de mão e tapa nas costas. Enquanto ele partiu para uma diligência até a Subway do corredor da Vitória, eu voltei para a caminhada e acelerei o passo para tentar reencontrar Guismo e Barbosa. O protesto desceu o Politeama e o Vale dos Barris até esbarrar nos arredores do Dique do Tororó próximo ao estádio.

Como o Big havia dito, um cordão de policiais fechou qualquer passagem ao redor do Dique, com direito a polícia montada e helicóptero na cobertura. Foi então que os rebeldes estancaram o passo. Nenhum sinal dos companheiros Guismo e Barbosa. Ainda assim, o clima seguia tranquilo. Jovenzinhos sorridentes e até idosos com faixa na cabeça ainda ficaram por ali erguendo seus cartazes e cantarolando rimas fáceis exigindo isso e aquilo do governo. Foi quando notei essa pequena rebelde. Sozinha, peitudinha, cheia de personalidade. Seu cartaz dizia algo sobre o amor não ter cura. Sempre acho que, na hora de fuder, essas ativistas radicais se convertem e só querem um macho que mostre quem é que manda no pedaço. Me aproximei.

- Pelo jeito, o negócio aqui esfriou – eu disse.
- O quê?
- É que sei de um lugarzinho ali na Carlos Gomes...
- Do que você falando, cara?
- Que a gente podia fazer verdadeira revolução. O que acha?
- Seu cartaz...
- Gostou?
- Só não é mais idiota que você.

BOOM!!!BOOM!!!!BOOM!!!!

As bombas de gás vieram de todos os lados, inclusive dos céus. Então larguei meu cartaz e disse – “CORRE, PUTA!”. Agora, a luta era pela sobrevivência. As pessoas corriam, choravam, cobriam os rostos e se batiam umas nas outras. Fiz minha parte e improvisei um plano B. Corri feito o mais autêntico dos covardes. Corri como um filho da puta que foge à luta. Corri e finalmente arrotei. E quando meus olhos começaram a arder, corri sem medo de fazer a ridícula cena de um gordo correndo. “Voltem! Voltem” - uma sapatona engajada gritou – “Não corram! É isso que eles querem!” – “Vá tomar no cu!” – Joguei de volta. Corri até atravessar o Politeama e a Avenida Sete. A estratégia era me afastar ao máximo da zona de conflito. Só desacelerei quando alcancei a Carlos Gomes. Mas continuei em passos firmes. Siga em frente, gordo, e não olhe para trás. Você não serve pra isso. Pensei nos meus companheiros. Talvez Guismo já não tivesse mais um violão. E a essa altura, o promissor Barbosa já estaria levando choque nos ovos. Eu já não tinha mais fôlego. Então parei numa dessas barracas que vende tudo e pedi uma Coca-Cola. A TV estava ligada. A Espanha metia 7 no Taiti. “Respira, gordo” – disse o coroa da barraca – “Tava no protesto?”. Virei um gole da Coca-Cola e disse “Caralho, eles meteram bomba do nada”. Jovens ainda caminhavam apressados. As putinhas estavam histéricas, irracionais. Escutei novos estouros e lembrei Michel Corleone. “Política é saber a hora de puxar o gatilho”. Pênalti pra Espanha. Soltei um grande arroto. O cara bateu pra fora. O goleiro do Taiti comemorou, vibrou com todas as forças como se fosse uma grande vitória. Engraçado. Era a segunda vez naquele dia que eu lembrava do My Eggs.   

9 comentários:

Guives disse...

PEC de cu é rola! era isso que estava no cartaz, eu lembro, td mal feito de hidrocor.

Sensacional. Adorei!

Caio disse...

Virei um Personagem! te cuida gordim as feminista vai lhe capar!!! kkkkk

Careca disse...

Bono, foi hilário. O cartaz deveria ter sido capa de jornal.
Um abraço,

Mwho disse...

Atual e tal!
Abraço,
Mwho.

Badou Sarcass disse...

Ótimo como sempre, Bono.

Ilton Santana disse...

caramba, rs
muito bom
não deu pra ler tudo (não param de incomodar por aqui, mas gostei... e volto)

abraços

Adriano disse...

Daew man, muito bom o texto, achei seu blog enquanto lia um texto no papo de homem, salvei agora nos favoritos e vou acompanhá-lo, se quiser dá uma passadinha lá no meu também .
Forte abraço!

Michelle Siqueira disse...

Ri demais! Todos os esteriótipos manjados, as ideologias fajutas, os movimentos hipócritas e todos os palavrões que a gente sente vontaded e soltar quando vê essa merda toda.

Henrique Miné disse...

mais de um ano sem postar nada e pau no seu cu, hein!

poxa ):