29.5.13

04 de junho

Acho que tudo começou quando meu amigo Cidade me deu de presente Numa Fria. Um livro de contos que falava sobre putas, bêbados, peidos e loucuras. Tudo muito divertido e bem próximo da realidade. Então corri atrás do autor e encontrei o Misto Quente. Caralho, pensei, o que é isso? O cara vomitava naquelas páginas toda a merda que foi a sua vida, seu desprezo pela humanidade, os traumas e decepções que se acumularam em forma de pus no seu rosto. Era uma mistura de raiva, humor e melancolia. Eu nunca tinha lido nada parecido. Me identifiquei imediatamente. Bukowski era um soco que quebrava todas as pedras do meu rim direito. O problema, como vi uma vez o Reinaldo Moraes dizer, é que o Velho era tão direto, que todo mundo pensava que era fácil e que podia fazer igual. Agora eu estava ali. Diante da tela em branco do computador. Queria escrever, mas não sabia por onde começar. Logo eu, que cultivava o mesmo vocabulário desde os 12 anos, que pelo jeito não era capaz de escrever nem meros títulos publicitários ou mensagens de 30 segundos para vender carro em promoção. O interessante é que o Buk escrevia textos monstruosos contando apenas como foi o seu dia. Bem, eu podia escrever que mais uma vez eu estava desempregado, que fui até o outro lado da cidade cobrar um freelance e o sacana me enrolou mais uma vez. E que no caminho de volta peguei um ônibus lotado com um escroto ouvindo pagode no volume máximo do celular, e que enquanto muitos acham isso uma maravilhosa demonstração da espontaneidade e da alegria do povo baiano, eu vejo como uma cena asquerosa que me separa cada vez mais da minha cidade. Eu só não queria escrever que agora eu teria que voltar a morar na casa dos meus pais. Isso me faria parecer um idiota. Eu queria ser um cara durão. Pelo menos nos textos. Esse era o problema. O Velho Safado dormiu nas ruas, viu a miséria, foi preso, passou fome, levou muita cacetada. Escrevia com sangue nas mãos. Eu não apanhei tanto assim. Os covardes não apanham muito. Mas também eu nunca havia subido no pódio de chegada. Eu estava no meio da estrada. Nem lá, nem cá. No meio termo. Na média. Na métrica da vida, eu me equilibrava no que eles chamam de mediocridade. Talvez eu não tivesse nada interessante para contar sobre minha vida. Então lembrei de um velho amigo e resolvi contar sua história. Cheguei a escrever o título “O homem que só trepava em Salvador”. Foi nessa hora que Nina abriu a porta. Ela ainda tinhas as chaves. No seu chaveiro dos Smiths.

- Oi.
- Se tivesse me avisado que vinha, eu tinha comprado, sei lá, umas salsichas pra fazer cachorro-quente.

Nina sentou no sofá. Seus peitos continuavam gostosos.

- Como é que você tá? – ela disse.
- Você não avisou. Acho que só tem cream-cracker com Nescau.
- Não vou demorar. Só vim pegar umas coisas.
- Tô aqui tentando escrever um blog.
- Já sei, sobre o Flamengo.
- Acho que sobre tudo. Vai se chamar Espalitando Dente.
- Combina com você – ela disse indo em direção ao quarto – você vai no casamento de Claudinho?
- Acho que não.
- Você tem que sair de casa. E Claudinho é seu amigo. Não é você que diz que a gente tem que considerar os amigos?
- Não tenho roupa pra casamento. Esse negócio de calça social, camisa social, eu fico que nem um idiota com roupa social. Acho que a única camisa social que tenho foi do tempo da minha formatura. Nem dá mais. Caralho, essa turma tem que entender que gordo não tem roupa sobrando no guarda-roupa. E foda-se! Eu não tô afim de pegar um busu lá pro Comércio, só pra ir pra ir na Loja do Gordinho comprar uma porra de uma calça social. Vai tomar no cu. Aliás, não tenho nem dinheiro pra isso.
- Paulo...
- E também não tô afim de ver um padre bancar o porreta dando mensagem sobre o que faz um casamento feliz...cambada de padre safado!
- Paulo, foi só uma pergunta. Não vá.
- Manda um abraço pro Claudinho. Diz a ele que eu não tinha calça pra ir.
- Por que você não vai trabalhar com seu pai?
- Já tentou trabalhar com seu pai?
- Vou levar esses CDs, ok?
- Você já tá transando com alguém?
- Essas vasilhas são de sua mãe.
- Fale a verdade.
- Aqui, vou deixar as chaves.
- Se não responder, é porque já tá transando.
- Pronto. Vou ficar só com o chaveiro.
- Já vai? Caralho, eu podia ter feito um cachorro-quente.
- Tchau, Paulo. Se cuida – Nina disse batendo a porta.

Nina era um mulherão. Já devia ter arranjado outro cara. A essa altura, ela já devia ter contado pro filho da puta que seu ex era gordo, tinha o pau pequeno e não conseguia trepar de ladinho. Com certeza, estavam rindo às minhas custas todas as noite depois de uma foda. A presença de Nina naqueles minutos me deixou de pau duro. Depois de conseguir escrever meu primeiro texto, eu bateria uma punheta em sua homenagem. É isso. Eu escreveria um puta texto, sem respirar, do início ao fim, e depois do ponto final, eu abriria alguns sites de sacanagem e bateria uma bela bronha para Nina. Ou talvez não precisasse ser para Nina. Seria para alguma putinha do site. Primeiro o texto, depois a punheta, um banho e cama. Ou podia bater uma durante o banho, sei lá. Ou então eu escreveria apenas o primeiro parágrafo para abrir o caminho. Pra ter certeza do que eu quero dizer, depois bateria minha bronha, depois voltaria pro texto. Todo dia tem uma putinha nova nesses sites. Tudo bem, era só meu primeiro texto. Podia esperar. Então abri logo umas duas páginas de putaria e mandei ver.

Bem, isso faz uns seis ou sete anos. Não sei. Agora, estou olhando para o livro em minha frente. Está ali, impresso, registrado, bem diagramado, com um cachorro vira-lata na capa, como sempre imaginei. Um trabalho bacana do editor Saulo Ribeiro e de toda sua equipe da Editora Cousa. Bem, agora, só me resta continuar escrevendo. Ao menos vou tentar. Quero escrever porque preciso. Quero escrever pra ver se consigo. Vou escrever porque ninguém me perguntou. Vou escrever pra sorrir um pouco e botar cabeça no travesseiro tranquilo. Vou escrever porque fora das linhas não passo de um covarde. É por aí. Porque apesar do livro publicado, continuo gordo. Nada mudou. Os dias continuam difíceis. Mas vamos em frente. O lançamento é 04 de junho, num lugar bacana chamado Visca Sabor & Arte, pelas bandas do Rio Vermelho. A gente se vê por lá.


8 comentários:

Chris Betlheen disse...

Vou comprar! Diga o nome do livro! Parabéns!

Simone Mnovas disse...

"Ou então eu escreveria apenas o primeiro parágrafo para abrir o caminho. Pra ter certeza do que eu quero dizer, depois bateria minha bronha, depois voltaria pro texto."
As vezes isso tb acontece comigo, mas acho importante, torna o texto real.
Eu me pergunto se isso não deixa seu braço mais forte. rs

Alvarêz Dewïzqe disse...

Você chegou lá, cara. E isso tava na cara que iria acontecer. Quero um exemplar dessaporrae!!!

A viajante disse...

ohhhhhhhh que delícia te ler! Gostaria muito de ir... pena que moro [atualmente] em Maceió... faz um lançamento aqui!!! Parabéns!!

Paulo Bono disse...

Chris,
O nome do livro é Espalitando.

Simone,
Sei que o braço e o corpo todo fica mais relaxado.

Alvarez,
Cheguei lá onde porra?

Viajante,
Não dá pra viajar pra Salvador e ir ao lançamento?
Quer dizer que esse seu nick é só fachada.

abraço.

Careca disse...

Bono, escrever não emagrece. Vou querer um livro, depois coloque no blog um jeito para que pessoas de outros estados o adquiram. Ah, e depois do lançamento trate de apagar a frase que diz "Isso aqui não é literatura". Grande abraço,

anjobaldio disse...

Muito massa teu texto. Grande abraço!

Giovana F. disse...

Cara, sem palavras. Assim como o velho Buk escrevia sua realidade, você escreve a sua e eu achei digno pra cacete. Eu também escrevo, mas é uma merda tão grande que eu tenho vergonha, posto no blog, mas foda-se, quem já leu deve morar em outro planeta. Acho que no fim só elogiam porque tinham dificuldade em português na época da escola e não tem saco pra fazer redações. Enfim, acabei de descobrir teu blog depois de uma busca no google sobre como ser redator. E, simplesmente foda. Espero que você consiga uma grana aí e algum reconhecimento antes de morrer, como raramente acontece.

Abração !