27.12.12

Comprei um queijo cuia

Véspera de Natal. Aproveitei a tarde para cortar o cabelo. A cada dezembro, são menos fios de cabelo. Por isso foi rápido. Depois encarei o mercado e comprei um queijo cuia. Finalmente. Digo, finalmente, porque sempre achei caro demais.

No caminho de volta, a rua estava daquele jeito. A humanidade em ação. Comprando, gritando, gesticulando, se esbarrando e cuspindo. Ambulantes ouviam Roberto Carlos em versão de arrocha. O calor só piorava as coisas. Achei que fosse enlouquecer. Se continuasse ali, eu poderia matar alguém em pleno Natal. Foi quando vi essa igreja com a porta aberta. Entrei. Estava vazia. Apenas algumas velhas beatas arrumavam o altar. Escolhi um banco e sentei. Só conhecia igrejas em dias de casamento e batizado. Sem as pessoas, parecia um lugar agradável. Por um momento me senti em paz. Queria permanecer assim e sem pensar em nada. Mas acabei pensando naquelas pessoas lá fora. Era mesmo o inferno, mas pareciam felizes em comprar. Talvez não haja nenhum mal nisso. Vejo muita gente meter o cacete no Natal. Eles dizem que não passa de uma festa consumista. Mas percebo também que são as mesmas pessoas que passam o ano todo à espera do novo modelo do iphone. Fala alguma coisa, Jesus Cristo. O que acha disso tudo? O silêncio me fez pensar também no ano que passou. Encarei uma grande guerra e caminhei por campos minados. Além disso, teve protusão discal, alergias, TOC, dores na nuca, o futebol medíocre do Flamengo. Foi um ano difícil. Eu merecia mesmo aquele queijo cuia. Um cara entrou na igreja e começou a instalar um teclado na caixa de som. Lembrei de uma tecladista que tocou certa vez num casamento. Era cega. Uma coisa linda. Um dia ainda como uma ceguinha. Direi que sou bonito, ela vai acreditar, e faremos amor no escurinho. Essa ideia me deixou de pau duro. Bem que eu toparia uma trepada na igreja. Só acho que não seria nada original. Então uma beata ouviu meus pensamentos e se aproximou.

- O senhor pode nos ajudar?
- Desculpa, não sou católico, eu só tô…
- Pra colocar a cortina. É que somos baixinhas.
- Cacete, vamos lá.

A beata me levou até uma pequena sala. Havia mais duas velhinhas ali dentro. Apontaram os ganchos da cortina lá em cima e a porra de uma escadinha enferrujada.

- Mas esse negócio não vai me aguentar – eu disse.
- É uma boa escada.
- É que sou pesado.
- Quer que eu segure o queijo?
- Tudo bem.

Então botei o pé no primeiro degrau, e a escada começou a tremer e a ranger. “Pode ir, a gente tá segurando!”. Voltei a sentir aquela sensação de paz e tranquilidade. Não havia mais nenhum sinal de medo naquela sala. Subi a escada, encaixei a cortina no primeiro gan-CRAABUUMMM! Foi tudo muito rápido. Logo a porra da escadinha estava partida ao meio e eu estirado no chão.

- PUTA QUE PARIU!
- Valha-me, Nossa Senhora!
- CARALHO!
- Jesus, Maria e José!
- BUCETA!
- Ajuda ele, Isaura! Ajuda ele!
- TÔ ALEIJADO PORRA!

Bem, era apenas uma puta dor nas costas. Mas eu ainda estava vivo.

- Desculpa pela escada. Mas preciso ir agora.
- Não entendi. Era uma escada tão forte.
- Me passa o queijo.
- É que ele é pesado.
- Bom natal pra vocês.

Quando deixei a igreja, a rua estava mais calma. O sol já estava se pondo. Cheguei em casa e liguei a TV. As costas aindam doíam. Resolvi tomar um banho quente. Depois abri a lata do queijo cuia, cortei três toras de queijo e coloquei num pão. Passava uma retrospectiva dos gols mais bonitos do ano. Depois entrou esse comercial do chester da Seara. Enquanto preparava o chester, uma mãe branca conversava com sua pequena filha negra. Falava sobre carinho, amor e cumplicidade. Bem, não tinha Papai Noel, renas ou duendes. Mas acho que vendia essa coisa do Natal.

10.12.12

Esquece, Arnô

Alguns anos são mais complicados. Naquele tempo eu dividia as minhas horas em entrevistas de emprego e deitado no sofá. Com tempo de sobra, eu também conseguia assistir o Intercine todos os dias. Mas nunca cheguei a ligar para escolher o filme. Numa daquelas madrugadas, o telefone tocou. Era o Arnô. Um velho amigo que também só andava com os bolsos vazios.

- Tá assistindo o Intercine? – Disse
- Tô.
- Eu sabia. Eu também.
- E aí?
- Precisamos fazer alguma coisa.
- Do que você tá falando?
- A gente precisa trabalhar. Ganhar dinheiro.
- Eu tento, mas eles não me querem.
- Vamos abrir uma agência?
- Como assim, abrir uma agência?
- Você não é formando em publicidade?
- Relações Públicas.
- Que porra é essa?
- Eu também não sei.
- Acho que teríamos uma boa agência.
- Eu não sei o que precisa para montar uma agência.
- Podia ter paredes coloridas, e a gente ia tocar violão a tarde toda.
- Esquece, Arnô.
- Então vamos abrir um escritório de engenharia.
- Engenharia, eu?
- Acho que dá certo. Eu tô quase formado. E podia ser engenharia com webdesign. Você não mexe com esse negócio de Corel, porra?
- Esquece, Arnô.
- Já sei. Televisão.
- O quê?
- A gente podia ter um programa de TV e contar várias piadas, várias histórias.
- Puta que pariu, Arnô.
- Falar nisso, você precisa conhecer Seu Totonho. Ele sabe cada história engraçada.
- Quem é seu Totonho?
- O velho que consertou meu bandolim.

 Isso já faz quase uma década. Arnô já ligou mais algumas vezes com outras propostas. Já me chamou para abrir uma loja de peixes, uma casa de bonsai, um bloco de carnaval, um puteiro em brotas, uma franquia do habib's e um cursinho pré-vestibular via internet. Certa vez insistiu que devíamos mandar um email com nossos currículos para a TV Bandeirantes para trabalharmos no CQC. Não sei se Arnô é louco ou algum tipo de gênio. Só sei que para a grande maioria das pessoas todos os anos são complicados. O mar nunca está calmo. Tenho amigos procurando emprego. Tenho amigos infelizes em suas mesas. Chegamos aos trinta e poucos e ainda não avistamos a terra firme. Onde é a linha de chegada? É uma pergunta idiota. Porque o mundo vai estar sempre lá fora dizendo, “Vamos, desgraçado, não pare de nadar”.

Enquanto isso, Arnô segue seu caminho. Hoje me mandou um email propondo sociedade num projeto para mudar o futebol baiano e talvez revolucionar o futebol mundial. O projeto tinha três linhas. Respondi: “Esquece, Arnô. Para mim, o futebol está perdendo a graça”. Também já atravessei várias noites buscando uma ideia que transformasse meus dias. Então percebia que eu não sabia fazer nada. Bem, é verdade que consegui entrar numa agência de propaganda. Tem até um violão sobre a mesa. Mas só sei tocar as mesmas músicas de sempre.