17.6.12

Gordos

Aline era fogo. Chupei, enfiei o dedo, meti, gozamos juntos três vezes. Depois ela veio com aquele peitinho balançando querendo a quarta seguida. Eu disse, “Porra, vai bater sua siririca e me deixe em paz!”. Então Aline tocou seu guita hero, depois fumou um baseado, vestiu seu jeans de marca e bateu a porta. Fiquei ali deitado por um tempo. Depois limpei o cacete no lençol, me levantei e tomei a Coca-Cola da vitória. Foi quando o telefone tocou. Era o Ribas. Disse que havia encontrado um lugar que eu precisava conhecer. Parece que tinham inventado uma fórmula mágica ou um sistema inovador para perder peso. Não tinha nada para fazer naquela tarde. Não custava tentar.

Ribas era gordo e taxista. Mas passava a vida estudando para concurso público. Boa praça. Bom de copo. O típico gordinho amigo de todos. Também vivia procurando uma nova dieta milagrosa. Encontrei-o encostado em seu táxi na porta do local. Com sua barriga redonda e sua cara sacana de feliz.

- Grande Boninho!
- Tomara que essa parada seja boa mesmo, Ribão. Tô puto.
- Qual o caso? Mulher?
- Não. Vim em pé no ônibus.
- O negócio funciona, Boninho.  Já perdi 15 quilos.
- Pra mim, você tá a mesma merda.
- Mas já consigo trepar com Fátima de ladinho.
- Bem, isso é importante. Vamos lá.

Pelo que entendi, não havia nada de inovador no tal sistema de emagrecimento. Era só uma espécie de clínica. Colocavam num só lugar tudo que um gordo precisa para emagrecer. Eles ofereciam academia especializada, nutricionistas, endocrinologistas, psicólogos, terapeutas, mágicos e refeições insossas que vinham em caixinhas na quantidade certa. Além disso, faziam essas reuniões periódicas com algum magro falando para um bando de gordos tudo que ele fazia para ser magro. Naquela noite, era uma dessas reuniões de apresentação. Havia essa putinha gostosa de branco sentada em frente a um semicírculo de gordos. Ribas e eu sentamos nas últimas cadeiras. Então a putinha começou a falar sobre aquele método pós-moderno para emagrecer. Você podia ler na cara dos gordinhos a culpa, o medo, o desespero, o arrependimento. Eu também já estava arrependido. De repente, aquilo tudo começou a me deprimir. Todos os aqueles gordos reunidos. Homens e mulheres atrás de esperança, de uma nova chance de rir de verdade, do sonho de serem espontâneos. Porque o grande Ribas não me enganava com aquela sua gargalhada. No fundo, todo gordo é triste. Acontece que alguns sabem disfarçar. Mas talvez sejam esses os mais infelizes. Uma vez, um escroto engravatado me disse – “Gordo que é feliz, que não precisa mais se preocupar com o que come”. Eu disse – “Porra nenhuma. Eu preferia ter comido mais bucetas nessa vida”. Na verdade, ser gordo é motivo de pânico. Outro dia, no elevador, duas putinhas conversavam sobre academia. Uma delas disse – “Ficar gorda? Prefiro morrer de fome” – Depois notaram minha presença e ficaram constrangidas. E eu disse – “Tudo bem, também tô querendo me matar”. Podemos dizer que gordo é uma piada universal. Uma anedota permitida por lei. Somos sacaneados até pelos negros, judeus, gays, amputados e pacientes com câncer em fase terminal. E deve ser tudo mais difícil para as mulheres. Depois de um viralata faminto, para mim, a coisa mais triste é uma jovem gorda passeando pela praça. Sem ser desejada. Sem ser notada. No fim das contas, mais do que ser comida, toda mulher quer se sentir comível. Talvez por isso as gordinhas sejam safadas. Porque elas precisam se esforçar ainda mais, rebolar ainda mais, chupar ainda mais. Quero dizer, as putinhas pesadas são agradecidas e estão sempre dispostas para qualquer batalha.

Passei o restante da palestra apagando mensagens do celular e jogando meleca no chão. Depois a putinha de branco inventou que nós, os gordos, deveríamos sentar em duplas, um de frente para outro. E cada dupla conversaria sobre suas experiências pessoais, seus fracassos, essas merdas de todo dia. Ribas achou uma gordinha charmosa com cara de boqueteira. Fiquei com essa gordinha de óculos com ar de cola-velcro. Ficamos ali nos encarando por alguns segundos.

- Você não acha isso aqui uma coisa muito louca? – eu disse.
- Tô achando legal.
- Esses gordos reunidos. Parece que vão matar a gente. Você assistiu a Lista de Schindler?
- Qual é o seu problema?
- Ham?
- Qual o seu problema com a comida?
- Nenhum. Pelo contrário. Gosto pra caralho de biscoito. Acho que ninguém come biscoito mais rápido do que eu. Você acredita que uma dia comprei um Passatempo recheado pra ver o jogo do Brasil. Abri assim que Galvão Bueno disse “Bem amigos da Rede Globo”. E matei o pacote antes de terminar o hino nacional?
- Meu problema é minha mãe.
- Sua mãe?
- Ela é gostosa.
- Gostosa?
- Magra, loira, tipo gostosa pra caralho. Todos os homens querem fodê-la. Você não sabe o que é pra uma filha saber que sua mãe, com 20 anos a mais, é muito mais gostosa que ela. Aí toda vez que vejo algum amigo meu dando em cima de minha mãe, fico deprimida e acabo atacando um pote de sorvete.
- Tem uma foto dela?
- Aí parece que entro num tipo de competição. Dou em cima de todos os homens que olham pra ela. Já trepei com vários assim. Dou tudo que eles querem. Duvido que minha mãe foda mais gostoso do que eu, entende? Desculpa. Sei que tudo isso é horrível…
- Não, não, claro que não.
- No fundo, eu amo minha mãe.
- É o seguinte. Isso aqui é deprimente. Que tal ir lá pra casa?
- Ham?
- Lá tem um sofá bacana. A gente pode falar mais de sua mãe. Pedir uma pizza. Um sorvete, se você preferir.
- Você quer dizer trepar?
- Pode ser também.
- Desculpa, cara. Não vai dar. É que você não é nem um pouco atraente, sabe? Não é só porque você gordo. É você como um todo. Sei lá. Transar com você ia fuder ainda mais minha autoestima.
- É, faz sentido.

Acabei não ficando no método revolucionário de emagrecimento. Ser gordo talvez seja o novíssimo mal do século. O problema é que também sou preguiçoso. Então continuo gordo. Além disso, eles cobravam 800 conto para dizer o que eu precisava fazer para perder a barriga. Aquilo não era para mim. Mas a meta do Ribas era perder mais 15 quilos. Talvez ele conseguisse. Ribas é uma boa pessoa. Merece ser magro. Quanto a mim, naquela noite, preferi não dormir cedo. Disquei o número de Aline. Ela apareceu e fizemos também cachorro-quente.