22.4.12

Que porra é protusão discal?

Dor nas costas. Uma dor terrível. Não podia sentar, ficar de pé, caminhar, deitar, escrever, tomar banho, abrir a geladeira, abrir uma Coca-Cola, peidar, respirar, olhar o horizonte, eu não podia existir sem sentir essa dor, como uma espada cortando meu fôlego. Resolvi procurar um médico. Plano de saúde fudido. Só tinha vaga para duas semanas depois. No dia, apareci no consultório. O cara me mandou inclinar a coluna pra frente e pra trás, depois disse:

- Não é nada, filho.
- Nada como?
- Só um desgaste da coluna. É da idade.
- Mas só tenho 34.
- É a vida. Vou passar uns comprimidos, vai dar tudo certo.
- Mas tô quase partindo ao meio.
- Outra coisa: você precisa perder peso, isso sim.

Foram menos de 5 minutos. Acho até que saí pior do consultório. Os dias se passaram e a coisa só fez piorar. Além da dor nas costas, começaram a vir esses choques na perna. Eu podia estar em qualquer lugar, que de repente sentia a dor se transformando numa carga elétrica e se alastrando pela perna. Resolvi procurar outro médico. Só havia vaga para duas semanas depois. No dia, apareci e fui logo atacando.

- Me ajuda. Acho que tô ficando aleijado!
- Calma, rapaz. Me conta aí.
- Tem essa dor forte nas costas que depois vira um choque escroto na perna.
- Hiii...você disse choque escroto na perna?
- Pelo amor de Deus. Foi isso mesmo que eu disse. Choque escroto na perna. Por quê?
- Tá me parecendo hérnia.
- É grave?
- Eu tive um paciente com hérnia. Um dia ele tava atravessando a rua, a hérnia atacou, ele simplesmente travou, não conseguia mais andar...
- Sério?
- Ficou ali, parado no meio da rua...
- Que merda...
- Aí veio uma Fiorino e atropelou ele.
- CARALHO!
- Brincadeira...não veio carro nenhum.
- VÁ SE FUDER, DOUTOR!
- Falando sério. Hérnia, se não cuidar, o bicho pega. Vou pedir uma ressonância magnética pra ver o que você tem.
- Vamos nessa.

Pedir autorização do plano. Esperar autorização. Marcar exame. Dez dias depois, lá estava eu fazendo a ressonância. Me deram um short verde-bebê ridículo. O short ficou tão apertado que eu mal conseguia andar ou mesmo erguer a perna para subir na mesa. “O senhor tem mais de 120 kg?” – perguntou o viadinho da ressonância. Eu disse, “Vamos em frente, campeão. Eu tô no jogo”. Eeitei, e eles ligaram a máquina. Eu estava sendo engolido pelo aparelho. Praticamente entalado ali dentro. Depois veio o barulho imponente e ensurdecedor. No início, pensei que ia enlouquecer. Depois fui me acostumando. E comecei a me sentir bem. Lá fora estavam a conta do condomínio, a carteira vazia, a falta de perspectiva para um redator em Salvador, a hipocrisia, o cinismo, a tragédia, meus 34 e conta do plano. Não escutava nada além daquele barulho, nem uma nota de pagode. Há muito não me sentia tão vivo, como naquele instante. Eu poderia morar dentro daquela máquina.

Mais dois dias, depois um feriado prolongado na Bahia, o resultado ficou pronto. Liguei para o médico. Estava em um congresso lá na casa da porra. Esperei mais uma semana. Levei os exames.

- Pelo que tô vendo aqui, você vai poder atravessar a rua tranquilo.
- O senhor vai bem nas piadas, chefe. Mas o que é que tenho?
- Só uma protusão discal na L4-L5l.
- Ok. Que porra é protusão discal?
- Quase uma hérnia. Vai ter que fazer RPG e fisioterapia.
- Fala a verdade, eu vou ficar aleijado.
- Você precisa perder um pouco de peso, isso sim.

O plano não cobria as sessões de RPG e de fisioterapia ao mesmo tempo. Decidi fazer o RPG por ser novidade. Ainda não entendi direito do que se trata. Só sei que fico lá com as pernas penduradas pra cima, enquanto a doutora estica minha coluna. Por sinal, uma bela doutora. Passo a sessão toda concentrado para não peidar na cara dela. Bem, lá se foram as últimas semanas. Crianças cheias de vida brincando lá fora, enquanto por aqui eu seguia apodrecendo, perdendo a cor e forma. É a vida. O cronograma. Gordo, careca, semicego, especialista em crises de calculo renal, a caminho de uma hérnia de disco e deitado de lado vendo meu time levar na bunda na Libertadores de uma maneira ridícula. Alguém me mate, por favor.