31.3.12

O homem ricota

Geralmente só recebo putaria. Mas certa vez chegou esse email de uma estudante. Fazia jornalismo. Dizia que o Espalitando Dente era seu blog favorito e queria me entrevistar para um trabalho de faculdade. Sobre blogueiros de Salvador, uma coisa dessas. Levei dez dias para responder. Evitei ao máximo. Além da minha aversão a conhecer gente nova, no fundo, sabia que eu não tinha nada para falar, acrescentar, contribuir. Mas acabei caindo na velha armadilha da vaidade, de me achar importante e notório. Você sabe, como a maioria das pessoas que vemos por aí que, graças às redes sociais, viraram críticos sagazes de cinema, música, política, realidade social e humor brasileiro. Então respondi o email e passei meus contatos. Ela ligou e marcamos. A garota apareceu na agência por volta do meio-dia. Era nova. Um corpinho ótimo. Toda sorridente. Como sempre, eu não sabia como cumprimentá-la. Apertamos as mãos, trocamos beijinhos no rosto, depois a levei para um canto mais sossegado. “Se um dia você escrever sobre essa entrevista” – ela disse – “vai me chamar de putinha?” Eu disse “talvez”. Então ela apertou o gravador e vieram as perguntas. Perguntou sobre minhas influências, sobre a Lapinha, mulheres e outros blogueiros. Falei alguma coisa de Bukowski e Seinfeld, comentei que a Lapinha já foi um bom lugar pra se morar, que nunca fui o preferido das mulheres e que queria saber escrever como o Dewizqe e o Wiscow. “E todas aquelas histórias?” – ela disse – “sempre me perguntei se tudo aquilo foi verdade”. “Veja minha carreira como redator” – respondi – “Não tenho tanto talento pra criar”. Depois ela começou a ficar diferente. Parecia entediada. Distante. Como uma namorada comendo pipoca num estádio de futebol. Ela acendeu um cigarro e mandou outras perguntas, que já não lembro porque estava concentrado nos seus peitinhos. Depois ela colocou os óculos escuros, agradeceu o papo e nos despedimos com mais beijinhos no rosto. Nunca tive notícias sobre a tal entrevista.

De um modo geral, isso é o que sempre acontece. As pessoas descobrem que sou uma farsa. É um dos motivos pelos quais evito convites, encontros, reuniões e mesas de bar. Tem gente que acha que sou um cara bacana. Quando me conhece, vê que o show não é tão divertido. Outro dia, num bar, minha irmã me apresentou a uma amiga. A mulher disse que era fã dos meus textos, depois ficou lá sentada em minha frente.

- Cara, acho que você escreve umas coisas legais.
- Obrigado.
- E aí?
- E aí o quê?
- Aposto que você tá pensando em sacanagem.
- Também. Mas tô fazendo pensamento positivo pra não ter dor de barriga.
- Tá se sentindo mal?
- Eu tô bem. É que o banheiro aqui é apertado pra caralho.
- Ahh...
-...
-...

Então a mulher se levantou e foi embora. Quero dizer, se ela quisesse trepar, eu toparia. Não pensaria duas vezes. Mas eu não tinha nada pra dizer. É o efeito Bono. Uma puta habilidade de deixar o clima chato ou entediante. Quando escrevo, talvez as coisas pareçam mais leves, loucas e divertidas. Mas não sei lidar com as pessoas, não tenho assunto, nem sei mais contar piadas. Sou um cara sem cor, sem sabor, sem graça, essa é a verdade, como se eu fosse um pedaço de ricota.

Lembrei disso tudo porque um dia desses, a jornalista falou comigo numa dessas redes sociais. Perguntou se eu conhecia nomes criativos para o cu. Bem, não sei o que ela pretendia fazer com essa informação. Mas citei lá, rabicó, roscofe, brioco, fofinho, enrrugadinho, boga, boiote, máquina de fazer churros, cortador de charutos, buziguito, disco, tubi, caneco, rosca, frasco e ratioflay. Aproveitei e perguntei sobre a entrevista. E a putinha disse que depois daquele trabalho, ela perdeu a matéria.

18.3.12

A última vez que estive no Acapulco

Já dei minhas roçadas. Isso em outros tempos. Com 15, 16 anos. Ônibus cheio, e eu lá atochado no rabo das putinhas. Agora é mais complicado. Com meu tamanho e minha cara desfigurada, por mais que eu não tente nada, as mulheres me olham com ódio e repulsa, chamam por Deus e se espremem para que eu não encoste em suas bundas. Até entendo. Mesmo assim, naquela noite, ao passar por uma baixinha rabuda, fiz questão que ela sentisse a minha jonga alucinada. Dois pontos depois, desci do ônibus.

Era cedo. Mercado aberto, fila no acarajé e todo movimento do Acapulco. O Acapulco é um desses centros comerciais das antigas, que abriga açougues, chaveiros, barbearias e botecos do quinto mundo. Pensei em cortar o cabelo. Podia ser no Gil. Um barbeiro da nova geração, bom rapaz. O problema é que Gil às vezes enche o saco me pedindo para baixar músicas de bandas novas de rock. Fui parar na barbearia dos três coroas. Seu Valdo, Seu Zelito e Seu Ivanido. Estava tudo no lugar de sempre. O rádio AM, o pequeno ventilador e o cartaz A4 “Precisa-se de barbeiro. Procurar Valdo”, há 3 anos pendurado na parede. Só me assustei com a nova tabela de preço. O corte havia aumentado para 7 conto. Sentei na poltrona esfarrapada e disse, Seu Ivanildo, corta essa porra, que já voltaram a me chamar de Ed Motta.

O bom de cortar o cabelo é que por alguns instantes você pode pensar na vida. Mas depois resolvi parar de pensar. A maioria das pessoas que vejo por aí não cultivam esse hábito e andam se divertindo a beça. De qualquer forma, qualquer pensamento era destruído pelo som do Acapulco. De um lado, um pagode encardido. Do outro, um arrocha da moda. Se você se esforçasse, ainda escutava um Cauby Peixoto vindo de algum lugar por ali. Tudo misturado com o som das gargalhadas. Aquilo me fez lembrar que o Acapulco tinha história. Cheguei a lembrar de uma roda de dominó numa tarde de domingo. Eu e meu amigo Caju contra duas coroas que fumavam mais do que jogavam. Ganhamos fácil. Para pagar uma aposta, uma das coroas me levou até o sanitário apertado do bar, sentou no vaso e me bateu uma punheta. Voltamos para a mesa e continuamos jogando. Depois percebemos que algumas pedras estavam sujas de porra.

20 minutos e meu cabelo estava pronto. Entreguei o dinheiro a Seu Ivanildo, me despedi dos velhos e caí fora. Olhei a noite. Seguia bem. Resolvi dar uma volta no Acapulco. As mesmas paredes desbotadas, o chão molhado das goteiras, as rodas de dominó, o cheiro de sarapatel. Encontrei o boteco que tocava Cauby e parei no balcão. Para lembrar os velhos tempos, pedi uma batida de gengibre. Não estava tão boa. Então advinha quem apareceu? O Farias. Um coroa meio psicótico da barriga grande e classuda.

- Paulo Bono.
- Grande Farias.
- Quanto tempo.
- A vida não tá fácil.
- Não te vejo desde daquela partida que você ganhou de uma forma absurda.
- Quando foi isso?
- Aquela que você adivinhou o meu duque.
- Porra, faz tempo mesmo.
- Até hoje não sei como você adivinhou que eu tinha duque.
- Pois é, já tive sorte na vida.
- Acho que você roubou.
- Você é uma figura.
- Vamos jogar.
- O quê?
- Vamos jogar agora pra ver se você é bom mesmo. Você não é o esperto?
- É o seguinte, Farias. Mudei de religião. E a turma lá disse que o jogo é proibido.
- Mas pode beber?
- Gengibre é bom pra garganta.
- SEU GORDO LADRÃO!
- Ah, caralho...
- NINGUÉM JOGUE DOMINÓ COM ESSE GORDO NÃO, QUE ELE É LADRÃO!

Farias bateu no balcão e saiu. No boteco, todos seguiam suas vidas. Pessoas esgotadas, mas felizes. Rindo, tomando cerveja. Havia algumas mulheres. Já passadas, vencidas pelo tempo. Mas de grande valia em alguma noite de solidão. Quando já ia matando meu gengibre, advinha quem apareceu? Gil, o barbeiro rock’n roll.

- E aí, Paulão.
- Fala, Gil.
- Isso é talco em seu pescoço?
- Talco?
- Que porra é essa?

Cheguei a lembrar que o Seinfeld passou por uma situação parecida na série. Mas não lembrava como ele havia se safado.

- Você cortou o cabelo, Paulão? Você é traíra, caralho? Pensei que só cortasse comigo, porra! Pensei que você era parceiro. Você sabe que eu tenho a manha do seu cabelo. Eu conheço seu cabelo, porra! Que trairagem do caralho é essa?
- Foi bom te encontrar. Tô com um material da Janis.
- Janis Joplin?
- A mulher tá rasgando a garganta.
- Curto pra caralho a Janis Joplin.
- Pois é. Lembrei de você.
- Janis Joplin é pra ouvir muito louco.
- Depois eu trago pra você. Agora tá na minha hora.
- E tem mais o quê de novo?
- Não tenho nada de novo, Gil. Não sei nada de novo.

Então deixei uma nota no balcão, dei um tapinha nas costas de Gil e deixei o Acapulco. Pensei em pegar um acarajé, mas segui direto para casa.