29.2.12

4 séries de 200 estocadas

Quem diria? Lá estava eu. 115 quilos de pura merda matriculados na academia. Por quê? Não sei. Alguns escalam montanhas, outros pedem pizza de milho verde. A gente faz tanta coisa sem sentido. De qualquer forma, lá estava eu. Veio esse instrutor, cercado de putinhas e disse, “Meia hora de bicicleta, meia hora de esteira, quatro séries de vinte disso, quatro séries de vinte daquilo”. Passou uma caralhada de exercícios. Fingi entender tudo. O primeiro passo foi esquecer aquele papo de bicicleta. Bicicleta dói a bunda pra caralho. Procurei as esteiras. Cheguei a torcer para não encontrar nenhuma disponível. Assim podia desistir de daquela palhaçada e voltar para a casa mais cedo. Infelizmente, havia uma esteira vaga. Pra variar, eu não sabia como ligar aquela coisa. Passou um faxineiro com um balde d´água, e eu disse, “Chefe, como é que liga essa porra?”. O camarada ativou a esteira, e lá estava eu dando meus primeiros passos. Nada muito rápido. Só na manha.

No fim das contas, eu sabia que aquele não era o meu lugar. Podia apostar que devia ter gente ali dentro apontando, “Olha lá o gordinho, deve ter sofrido um infarto e tá correndo atrás do prejuízo” ou “Olha o gordinho, que bermudão ridículo”. Mas vamos em frente. Eu tinha uma boa visão do lugar. Uma academia como outra qualquer. Havia aquela turminha de marombeiros, falando alto, discutindo sobre carros e vitaminas, medindo os bíceps uns dos outros. Havia também as putinhas, é claro. Putinhas gostosas. A maioria com aquela cara de quem tem dificuldade de entender piadas. Mas estavam lá com seus corpinhos suados, shortinhos colados dividindo a xota, bundinhas que subiam e desciam. Volta e meia, uma delas passava por perto e inclinava seu rabinho para cair de boca no bebedouro. Já pensou? Bater uma punheta na esteira rolante?

Da esteira também eu conseguia ver uma dessas aulas de aeróbica, com aqueles degraus e tudo mais. Pra variar, tinha um viado na frente, mandando ver. Esses caras são os CDFs das academias. Fazem todos os exercícios corretamente e se sentem orgulhosos quando os professores pedem para eles irem adiantando a aula com os outros alunos. A aula de aeróbica, você sabe, era aquele TUM-TIS-TUM-TIS-TUM-TIS-TUM-TIS-TUM! Todo mundo animado, o professor sorrindo, gritando, erguendo os braços, mandando todos deixarem a preguiça de fora, “E UM! E DOIS! E TRÊS! E VAI! E UM! E DOIS! E TRÊS! E VAI!” Vai tomar no cu porra, com tanta energia. Me perguntava por que diabo tem que parecer idiota pra frequentar academia, por que caralho só se pode malhar com essa porra de TUM-TIS-TUM-TIS-TUM-TIS-TUM-TIS-TUM! Enquanto isso eu seguia na minha esteira, aumentando o volume para Everyboy Hurts no meu mp3 barato com um fone mais fudido ainda. As coisas estavam sob controle até acabar a aeróbica e começar uma aula chamada swing baiano. Não me pergunte que porra é essa. Só sei que tocaram um pagode e o CDF lá começou rebolar alucinadamente. Acabou minha paciência, desisti da esteira e deixei a sala.

Pensei em procurar o instrutor para repassar os exercícios. Mas sempre acho que estou atrapalhando esses caras. Eu também não gostaria de ser incomodado por um gordo, se eu estivesse cercado de putinhas. Então sentei no primeiro aparelho que vi pela frente. Um desses que você puxa o peso pra cima e pra baixo. Vamos lá. Quatro séries de vinte. Passou um coroa com uma toalhinha no ombro, um squeeze na mão e disse “VAMOS LÁ, GORDINHO!”. Pensei em mandar o coroa tomar no cu. Foi quando apareceu essa putinha e sentou bem na minha frente. Uma loira escrota do caralho com shortinho azul-claro colado no corpo. Eu tentava completar minha segunda série, quando essa puta começou a executar o aparelho, abrindo e fechando as pernas, revelando o que parecia ser a maior buceta do universo. Cheguei a pensar em botar o pau pra fora e bater uma ali mesmo. A putinha abria e fechava a perna, e o bucetão parecia ter vida própria. Vou dizer uma coisa, aquela buceta marombeira, musculosa e estúpida devia tomar anabolizante, ser campeã de muay thai e o caralho. Eu não conseguia parar de olhar. Aquele xoxotasso merecia quatro séries de duzentas estocadas. Mas sabia que eu não tinha chance. Gordos não têm a mínima chance com putinhas em academias. É meio que um paradoxo, é como um time pereba querer ganhar na casa do adversário. Então a putinha terminou e foi embora. Fiquei um tempo ali de pau duro, parado, perdido nas minhas séries de exercícios. Depois escutei, “NÃO PARA NÃO, GORDINHO! NÃO PARA NÃO! Acho que foi um bom começo. Então me levantei e caí fora. Antes de sair, ainda pude ver outra putinha jogando praticamente uma garrafa inteira de álcool para desinfetar o aparelho que eu estava sentado.

Isso foi ontem. Hoje estou aqui. Deitado na rede. Já olhei três vezes pela janela, me perguntando se vai chover. Se chover, não vou poder ir à academia. Talvez não precise. Hoje é quarta. Se eu for, posso perder o início do jogo. Flamengo e Boa Vista. Ainda teria que procurar um par de meias limpas. Acho que vai chover. Deixa lá. A gente faz tanta coisa sem sentido.

14.2.12

Notícias da guerra

Dia movimentado. Como qualquer pessoa mentalmente saudável, numa sexta-feira, eu fingia trabalhar. Checava emails, quando o celular tocou. Era minha velha. Aflita. “Já explodiram dois ônibus” – disse – “Cuidado, pelo amor de Deus!”. O celular tocou novamente. Minha irmã, que não costuma ligar. “Tão fazendo arrastão pela cidade toda!” – ela disse. Os policiais em greve conseguiram. A cidade estava um inferno. Policiais encapuzados fechando ruas, lojas invadidas pelo povo, galpões em chamas, arrastões, assassinatos. Também não se podia acreditar em tudo que diziam. Na verdade, não era possível distinguir policiais, assassinos, marginais, jornalistas, mensageiros de facebook e uma população faminta e oportunista. Bem, mas era o que todos queriam. Emoção. Assunto para falar. Para postar. Motivo para sair do trabalho mais cedo. Carnaval antecipado. Só não dava para prestigiar uma greve liderada por um filho da puta que dava entrevista vestindo uma camisa com a marca daquele jacarezinho escroto. Não sei nem se tem uma camisa dessas para o meu tamanho. De qualquer forma, eu já tinha minha vida, minha própria guerra.

Enfim, a agência também liberou mais cedo, peguei o busu e caí fora. Salvador estava um caos. Engarrafamento desgraçado na Rótula do Abacaxi. As pessoas no ônibus só falavam da greve. Não aguentei e desci do carro. Resolvi entrar no mercado, pelo menos para fazer hora. Caminhava pelo estacionamento quando apareceu esse cara de olhos esbugalhados e sem os dois braços. “É UM ASSALTO! É UM ASSALTO!” – ele berrava. Eu disse – “Vai fazer o quê, cara? Me morder?”. O cotó correu desesperado. Foi então que entendi que estavam assaltando o mercado. Antes que eu pudesse raciocinar, vieram dois tiros não sei de onde. Quem estava no estacionamento começou a se jogar no chão. Me joguei entre um Uno e outro carro lá que eu não conhecia. O celular tocou novamente. “Sr. Paulo, é sobre o seu débito com a Sky” – disseram do outro lado. Do lado de cá, eu disse “Vá tomar no cu”, e desliguei. Olhei para a outra fila de carros. Havia uma putinha executiva deitada no chão. Chorava. Cheguei a pensar em dar início à onda de estupros. Mas veio outro tiro. Então fiquei ali, deitado por algum tempo. Havia uma tampinha de cerveja embaixo do Uno. Comecei a pensar. Talvez fosse hora de trocar o plano do meu celular. De conta para pré-pago. É, Paulo Bono. Entrar pra turma que só fala em crédito de celular, que antes de ligar sempre pergunta qual a operadora. Ia dar uma boa economizada. Também me sentiria um pouco livre das putinhas burras de telemarketing das operadoras. Então a putinha executiva se levantou e notei que os tiros já haviam passado. Me levantei e não vi mais nada. As pessoas voltaram a caminhar normalmente, a pegar seus carrinhos e entrar no mercado. Desisti das compras e voltei andando para casa. Foi um dia movimentado e cansativo. Eu lembrava do escroto com a camisa do jacarezinho quando o celular tocou. Era meu velho amigo Kurtz, do outro lado do país.

- Bono, porra!
- Quanto tempo, capitão.
- Que é que tá acontecendo aí, caralho?
- Um terrorismo de merda...
- O nome disso é motim.
- Sei lá, acho que já é carnaval.
- O nome disso é motim.
- Que é que me conta?
- Tem que mandar descer os paraquedistas.
- Que paraquedistas, porra?
- Paraquedistas têm no mínimo 1,90m! Pra descer atirando.
- Acho que já acertaram um. Mas foi bala de borracha.
- De borracha, o caralho! Tem que ser bala de verdade!
- É uma boa tática.
- Paraquedistas, Bono! E viva o exército, porra!