19.11.12

Os últimos centavos

Era minha última noite em Feira de Santana. O último round. E eu estava esgotado. Deixei a agência sem me despedir. Caminhei pela avenida morta sem uma noção exata de futuro. Sem grandes objetivos, ao não ser o de me livrar da cidade. Entrei numa delicatessen encardida. Comprei um bauru e uma garrafa de vinho. Continuei caminhando até encontrar essa trabalhadora embaixo de uma árvore. Perguntei como estava a carne. Setenta, sem o toba. “Vamos nessa” – eu disse – “E ainda tenho aqui pra gente uma garrafinha e um bauru sensacional”. Ela disse que topava o bauru, mas que não bebia em serviço. Então minha nova e última amiga de Feira me seguiu na avenida. Logo estávamos abrindo a porta do meu quarto.

- Cara, você dorme numa esteira – ela disse.
- Mas o chuveiro é quente, baby.
- Ah, você comprou o bauru na Deli-Deli. É o melhor da cidade.
- Vamos combinar o seguinte. Eu emborco meu vinho e você chupa.
- Tudo bem.

Meu último suspiro em Feira. De calça arreada e virando uma garrafa de vinho no gargalo enquanto uma puta fazia seu bocketshow. Era uma jovem bonita e esforçada. Mas o show era amador e sem jeito. Aquela maldita pressa das putas baratas. Eu apenas bebia. Não sentia nada. Tomei mais um gole e a mandei ficar de quatro. Ela obedeceu e se jogou na esteira. Botei a porra da camisinha e me aproximei.

- AAAAAAHHHHHHH, DELÍCIA!
- Calma, caralho! Eu nem meti ainda.
- Ah, tá.
- Agora receba!
- YAHHHHHHH!! UUUOOOHHHHHH!!, VAAAAIIIIII, DELÍCIA!
- Mais baixo, porra! Dona Zeni é evangélica.
- Dona Zeni?
- A senhoria. Ela mora embaixo e é chata pra caralho.
- Ah, desculpa.
- Outra coisa. Não me chame de delícia.
- Você não gosta, paixão?
- É que tenho certeza que não sou delícia. E eu sei que você não me acha delícia. Então não precisa fingir que sou delícia. Vamos jogar limpo. Vamos agir naturalmente.
- Tá bom, paixão.
- Sem paixão também.

Comecei a meter. Mas a coisa ainda não funcionava. Eu fazia força para me concentrar. Fechei os olhos e pensei na Vera Fischer de Riacho Doce, na Mônica Bellucci sendo estuprada e na dona Marta, que servia quentinha na agência. Mas era um vai e vem sem propósito, um movimento automático de carne sem vida. Eu me derretia em suor e sabia que não conseguiria gozar. Talvez já fosse o vinho fazendo efeito. Quando os abri os olhos, percebi que enquanto eu metia alucinadamente, ela lia e fazia anotações numa revista da Avon. Parei e enxuguei o rosto. Virei mais um golada do vinho e deitei ao seu lado.

- Que foi? Não tá conseguindo? – ela disse.
- Mais tarde bato uma.
- Me passa o bauru.
- Qual o caso da revista?
- Eu também vendo Avon. Comecei agora.
 - Reparou que todo mundo em Feira tá sempre negociando alguma coisa?
- Quer pedir alguma coisa? Vem dia 28. Eu posso trazer aqui.
- Pode ser uma daquelas promoções de desodorante roll-on.
- Massa. Deixa eu anotar.
- Se eu não estiver, pode deixar com Dona Zeni.
- Humm. Esse é o melhor bauru que existe. Quer um pedaço?
- Tô enjoado.
- Você é legal.
- E você, uma délicia.

Logo depois, paguei o serviço e ela deixou o quarto. Não passava nada na velha Toshiba 14 polegadas. Matei o vinho e fiquei na janela observando a pobreza da rua. Era uma noite sem charme. Como todas as noites naquela cidade. De certa forma, pude viver Feira de Santana. Pulando de pensão em pensão, escapando com vida de um colega de quarto psicopata, perseguido por um ex-marido ciumento e estúpido, brigando em mesas de dominó, perdendo o salário em mesas de poker e vivendo a base do pastel do tio da unha preta. Eu tinha 20 e pouco anos e aprendi bastante. Sobre oportunismo, desonestidade, traições, manobras, mesquinhez, artifícios e fachadas. Dizem que Feira é um dos maiores polos de desmanches de carros roubados do Brasil. Não tenho certeza. As pessoas exageram. Só sei que eu sentia pena dos desmanchadores de carros, dos ladrões de carteira e das putas de Feira de Santana. Eles estavam cercados. Aquela cidade amava o dinheiro. E eu fazia questão de não levar comigo nenhum centavo que lembrasse suas avenidas, seus negócios e escambos. Eu ainda tinha 30 conto no bolso. A passagem para Salvador era 25 reais. Então abri a porta e desci as escadas. Atravessei a rua e fui até o copo sujo da esquina. Pedi uma garrafa de vinho. A mais barata. São Jorge. R$ 4,25. Restariam ainda no meu bolso 75 centavos daquela cidade. Mas ao deixar o boteco, atirei as duas malditas moedas no esgoto. De volta para os ratos.

10 comentários:

Renato Gomes disse...

Genial, Bono, genial!
Devia ter pagado esses 5 contos pelo toba pra ver se a "carne" ganhava mais vida!

Alvarêz Dewïzqe disse...

Definitivamente não preciso mais escrever, o negócio é passar aqui, ler e me dar por satisfeito!

Jana disse...


Wooooow! gênio!

Paulo Bono disse...

Renato,
5 conto não pagava aquele toba.

Alvarez,
Vá se fuder. Escreve essa porra.

Jana,
Wooow!

Careca disse...

Grande Bono, fiquei curioso quanto ao colega psicopata e a história do ex-marido ciumento. Abç,

Leo disse...

Grande retorno, Bono. Sensacional.

A viajante disse...

Ah, voltou a escrever mais que arrotos?? Que bom! Viva!

Paulo Bono disse...


Carecone,
Sobre o psicopata, acho que ja comentei algo em alguma história sobre Feira. Posso contar mais detalhes em outra oportunidade. E o ex-marido ciumento foi coisa de louco. Merece também uma história.

Leo,
Valeu,

Viajante,
Mas os arrotos fazem bem à saúde.

abraço





Chris Betlheen disse...

Finalmente você voltou!

Diário indiscreto e outras confissões... disse...

Histórias de vielas escuras, mentes sujas, fracassados, bebuns e bebida.Adoro tudo isso, adorei aqui!