30.7.12

A punheta da vida

Meu sonho era comer Andrea Canivete. Eu devia ter 17 ou 18. Era uma das putinhas mais avançadas da área. Diziam que chupava como uma profissional. Só que eu já era gordo e suficientemente feio. Essas coisas não aconteciam comigo. Até que uma noite, depois de uma festa, ela me deu uma chance. Estava bêbada. E aconteceu uma coisa estranha. Não consegui gozar. Eu estava lá, todo enfiado no meio daquelas pernas, e pensava, “Nossa, estou comendo Andrea Canivete”, mas não chegava a lugar algum. Tentei de tudo, mudamos de posição, eu suava feito um porco, mas Andrea disse, “Cara, desista!”. A vida é mesmo uma grande punheta. Passamos a maior parte dela nos preparando, nos aquecendo para o que estar por vir, colecionando ferramentas em formatos de sonhos, expectativas, especializações e promessas de amor, e, no fim da contas, nada disso serve para grande coisa, e você ainda acaba vendo tudo aquilo que você era escorrer lentamente pelo ralo. Não tenho conseguido segurar o blog. Na verdade, não venho escrevendo nada. Nem uma linha. Hoje, esse amigo cineasta ligou. Cobrava os diálogos que lhe prometi para seu curta. Um projeto interessante. Era minha chance de me ligar a algo que realmente valesse à pena. Não saí do lugar. Página em branco. O texto simplesmente não flui, não corre solto. Meus dias seguem – ou não seguem – da mesma forma. Tem essa coluna fudida que não me permite ficar sentado por muito tempo. Mas não consigo concluir os exames. Da última vez, não resisti à tortura da sala de espera e caí fora. Por que diabos toda clínica sintoniza a TV na Ana Maria Braga? A burocracia do plano de saúde também é violenta. Tudo é muito demorado, lento, perverso. Algo pior só nas ruas de Salvador. Já calculo uma hora para chegar a qualquer ponto da cidade. Parece uma corrida estúpida. Se um dia despertássemos todos transformados em baratas, talvez o trânsito fosse menos asqueroso. É a punheta da vida. Uma força que nos impede de seguir em frente, do dia correr macio. É aquela sensação de ter nosso tempo estrangulado por uma reunião de trabalho ridícula e desnecessária. Ou um cliente que vai e volta dezenas de vezes o mesmo layout, optando no fim pela primeira opção.  Mas tenha cuidado. A punheta da vida está em qualquer lugar. No trânsito, na TV, no Facebook, no telemarketing, na conta que você se esquece de pagar, no caixa, na fila do banco, no celular sem sinal, nos imbecis que apertam o botão errado para chamar o elevador, na página em branco ou num pote de biscoito que você não consegue abrir nem com a porra. São dez e pouca da noite. Abro minha caixa de emails, e tem lá uma mensagem do editor. Falava sobre metas, prazos, custos, algo assim. Parece que o livro não sai mais esse ano. Interessante saber disso ao mesmo tempo que percebo que o blog está morrendo. Lembrei de Andrea Canivete. Não tenho sono. Para estender a noite, resolvo abrir um site de sacanagem. Andrea Canivete, onde quer que esteja, ainda penso em você. Sua puta.

13 comentários:

A Viajante disse...

Esse é um post que fica claro que, apesar de estar literalmente gordo de tantas punhetas, você não morreu, portanto... boa sorte no projeto do livro... e avisa quando for lançar!!!!

Mina Cara disse...

Porra cara, entrei aqui depois de um tempão, e quando reconheci seu blog pensei: opa, vou ler, esse cara escreve bem.

Cara, escreva.

abraço,

A Mina do Cara te ama!

Oralsemfrescura disse...

Achei que esse tipo de coisa só acontecesse comigo. Muito bom saber que o seu blog também vai fracassar e cair no esquecimento.
Mas quero um livro seu, óbvio.
Abç

Alvarêz Dewïzqe disse...

Esse é daqueles contos que leio, balanço a cabeça e digo "porra, eu deveria ter escrito isso".

Paulo Bono disse...

Viajante,
esse negócio de livro está uma punheta.

Mina,
desculpa. não te amo.

Oral,
você é um fracassado bom pra caralho.

Alvarez,
Você teria feito melhor, porra.

abraço

Mi Poulain disse...

Bono, só não vale desistir daqui de vez.. posta qualquer merda que seja.. você consegue ser bom mesmo sem pretensão nenhuma.

Simone Mnovas disse...

Fiquei um tempo sem entrar aqui por falta de tempo e tomo esse susto.
Espero que não esteja desistindo, todo mundo tem um momento de baixa, estou passando por um agora, mas é só questão de tempo e inspiração.

Livro? essa foi a parte boa. Vou comprar com certeza.

Paulo Bono disse...

Mi,
Na próxima, conta uma piada.

Simonovas,
Minha vida é um momento de baixa.

abraço

Silly Walker disse...

Olha cara, este blog é uma das melhores coisas que achei na rede, tirando a pornografia. Em parte porque me identifico, em parte porque teus textos tem muita qualidade. Não tem motivos pra aceitar a opinião de um completo desconhecido, mas talvez saber que alguém admira o que tu escreve deve ser legal pra ti. Enfim, esse comentário é só um feedback. Abs!

Ócio, viagens e gastronomia disse...

Triste com o post.
Quando lançar o livro, faz barulho, plisss.
Leio essa bagaça desde 2008...
Avisa qdo enterrar o blog pra eu tirar dos favoritos...
beijos

Danilo Lemos disse...

Muita saudade, Bono. Quando sair o livro, manda um link do site de compra. Vou comprar uns 10 e distribuir pelo Rio.

Um grande abraço, rapaz!

Fábio Dusset disse...

E ai Bono vc tá vivo?

Anônimo disse...

Descanse em paz!