20.5.12

Meu tio Geraldo

Eu estava longe das agências já há algum tempo. Andava batendo a cabeça numa série de entrevistas de emprego. Me sentia um parasita, o mais inútil dos gordos. Foi quando uma velha tia me ofereceu trabalho. Como vendedor. Na sua pequena fábrica de biscoitos artesanais. Bem, eu precisava de dinheiro. Resolvi encarar. Na primeira semana, me mandaram para a Ceasa do Rio Vermelho. Eu e um motorista numa Kombi velha lotada de sequilhos. Eu tinha que ir de loja em loja oferecer a mercadoria, anotar os pedidos, voltar até a Kombi, carregar os fardos de biscoito, distribuí-los e pegar o dinheiro. Não parecia tão difícil. Ataquei a primeira. Delícia da Terra, Doces da Bahia, uma coisa dessas. Havia esse coroa bigodudo cortando requeijão.

- Bom dia, chefe – eu disse – vai querer biscoito?
- Só um minuto!
- Tudo bem.

Encostei no balcão de azulejo e observei o lugar. Aqueles homens e mulheres da Ceasa, carregando fardos e caixotes de frutas e outras especiarias, aquelas pessoas trabalhavam sem ar-condicionado, suavam de verdade. Ainda assim pareciam autênticas e felizes. Ou pelo menos pareciam. Passaram-se vinte minutos, e o bigodudo não me atendeu. Ficava cortando a porra do requeijão, atendia clientes e outros vendedores, mas me ignorava completamente.

- Vai querer o biscoito, campeão? – insisti.
- Tá com pressa, rapaz?
- Só acho que o senhor esqueceu de mim.
- Baixe o tom, garoto!
- Mas eu não tô falando alto.
- Que porra de biscoito velho você tem pra me mostrar?
- Essa belezura aqui.
- Mas quem vendia esse era o finado Geraldo.
- Ele era meu tio.
- PORRA NENHUMA!
- Porra nenhuma o quê?
- Que Geraldo era seu tio.
- Meu tio.
- Duvido.
- Mas era.
- Eu não acredito em você.
- Por parte de pai.
- PORRA NENHUMA!
- Caralho...
- Geraldo era profissional, porra. Sabia conversar, negociar, o melhor vendedor que tinha aqui. Fazia seresta pra gente com o saxofone. Todo mundo gostava dele. Geraldo era boa praça, gente fina. E você é...
- Vamos abri o jogo, amigão. Não sou gente fina. Não sou vendedor. Mas facilite meu processo. Vai querer o biscoito?
- NÃO VOU QUERER BISCOITO PORRA NENHUMA!
- Então se foda.

“DIZ ELE QUE É SOBRINHO DO FINADO GERALDO!” – o bigodudo disse enquanto eu deixava a loja. Ainda escutei alguns risos. Dei mais alguns passos, e apareceu esse viado com um lenço amarrado na cabeça.

- É verdade que você é sobrinho de Geraldo?
- Desculpa, amigo. Só gosto de xoxota.
- Que horror.
- Vai querer biscoito?
- Eu só trabalho com flores.
- Tudo bem.
- Sabe, eu tenho saudades do seu tio.
- Ele continua no cemitério. Por que não leva flores pra ele?

Depois ataquei mais algumas lojas, mas não tive sucesso. Não consegui vender nada. Na verdade, as pessoas mal me recebiam. Eram quase 12 horas. Resolvi parar pra comer. Sentei num copo sujo por ali mesmo. Pedi um PF e uma Coca-Cola. De garrafa. O gosto é bem melhor. Sentei do lado de fora. Mesa de plástico, um calor dos infernos, um vira-lata transitava procurando restos. Parecia pensar em suicídio. Uma putinha trouxe o PF e a Coca. Um prato bem servido. Dois pedaços grandes de bife. Cheguei a me sentir melhor. Mas quando olhei, o bife de baixo era puro nervo. Paciência. Eu estava no meio das garfadas, quando essa morena sentou na minha frente. Carnuda, bronzeada, um belo decote.

- Ouvi dizer que você é sobrinho do Geraldo.
- Por parte de pai.
- Lembra um pouco. A cabeça redonda.
- Ele era mais alto.
- E mais classudo.
- Quer um copo?
- Eu era louca por seu tio.
- Um desgraçado sortudo.
- Ele também era louco por mim.
- Tinha motivo.
- Eu morro de saudades da Geraldina.
- Que Geraldina?
- Como era conhecida a pirocona dele.
- Eu nunca tinha ouvido falar da Geraldina.
- Sabia que ele gostava de tocar o sax enquanto eu chupava a Geraldina?
- Bem, eu não sei tocar sax. Mas posso te apresentar a Bonete.

Então a morena inclinou o corpo e agarrou meu pau sobre a calça. Apalpou. Eu tomei um gole da Coca. Depois ela largou.

- Pelo jeito, você não parece nada com seu tio.
- Se você parar pra pensar, a Bonete é sobrinha da Geraldina.
- Acontece que eu tô com fome e a Geraldina enchia o meu prato.

A morena se levantou e eu fiquei ali. Dei mais algumas garfadas. Então comecei a palitar o dente. Eu já estava com quase trinta. Para alguns, as coisas pareciam mais fáceis. Podia ser uma questão de sorte. Ou o problema era minha cara de idiota. Era o mais provável. Foi naquela mesa que pensei que um dia eu podia tentar escrever sobre aquilo tudo. Não digo sobre o tio Geraldo. Mas sobre quem não sabe vender biscoito ou consertar um carro ou escrever um título criativo ou construir uma casa ou pintar um quadro, sei lá. Podia contar sobre como quando as coisas não dão muito certo, sobre aqueles que nunca venceram. Esses são a maioria. A tarde seria longa. Eu tinha que voltar pra Kombi. Então matei a Coca-Cola e joguei o resto da carne para o vira-lata.        

10 comentários:

Careca disse...

Muito bom.
Abç,

Anônimo disse...

Mortal!

Manda mais,

Marcelo

Alvarêz Dewïzqe disse...

o foda é pensar que gente estúpida aparece na TV dizendo que foi molestada na infância ou que gosta de passar creminho no corpo e ganha fortunas por isso. bem, isso tanto faz.
onde eu queria chegar: cara, tá mais que na hora de você lançar um livro, ganhar alguns prêmios com ele, e na hora de pedir música, desdenhar.

Paulo Bono disse...

Careca,
Tô precisando ler suas crônicas.

Marcelo,
Vou tentar.

Alvarez,
Estamos na luta, parceiro.
E tenha certeza que não pedirei música porra nenhuma.


abraço

Adriana Godoy disse...

Pô! Adorei essa história e o seu Tio Geraldo! Beijo

Celso Jr. disse...

Como sempre, muito bom. A mesma elegância de sempre.

Luisa Chequer disse...

Sempre leio seu blog. Seus textos são muito muito bons. Parabéns!!

Paulo Bono disse...

Adriana,
Imagine você e a Geraldina.

Celso,
Sou gordo, cara. O oposto de elegante.

Luisa,
Parabéns você, pela tolerância.

creu disse...

Porra gordo! heuiehue bom texto cara, muito bom!

Pequena disse...

Bono meu problema sempre foi com título criativo... eu começava sempre pelo texto e depois passava horas pensando no título. Qdo já não aguentava mais tentar algo bom eu escrevia qualquer coisa só pra me livrar daquilo.
Bj