18.3.12

A última vez que estive no Acapulco

Já dei minhas roçadas. Isso em outros tempos. Com 15, 16 anos. Ônibus cheio, e eu lá atochado no rabo das putinhas. Agora é mais complicado. Com meu tamanho e minha cara desfigurada, por mais que eu não tente nada, as mulheres me olham com ódio e repulsa, chamam por Deus e se espremem para que eu não encoste em suas bundas. Até entendo. Mesmo assim, naquela noite, ao passar por uma baixinha rabuda, fiz questão que ela sentisse a minha jonga alucinada. Dois pontos depois, desci do ônibus.

Era cedo. Mercado aberto, fila no acarajé e todo movimento do Acapulco. O Acapulco é um desses centros comerciais das antigas, que abriga açougues, chaveiros, barbearias e botecos do quinto mundo. Pensei em cortar o cabelo. Podia ser no Gil. Um barbeiro da nova geração, bom rapaz. O problema é que Gil às vezes enche o saco me pedindo para baixar músicas de bandas novas de rock. Fui parar na barbearia dos três coroas. Seu Valdo, Seu Zelito e Seu Ivanido. Estava tudo no lugar de sempre. O rádio AM, o pequeno ventilador e o cartaz A4 “Precisa-se de barbeiro. Procurar Valdo”, há 3 anos pendurado na parede. Só me assustei com a nova tabela de preço. O corte havia aumentado para 7 conto. Sentei na poltrona esfarrapada e disse, Seu Ivanildo, corta essa porra, que já voltaram a me chamar de Ed Motta.

O bom de cortar o cabelo é que por alguns instantes você pode pensar na vida. Mas depois resolvi parar de pensar. A maioria das pessoas que vejo por aí não cultivam esse hábito e andam se divertindo a beça. De qualquer forma, qualquer pensamento era destruído pelo som do Acapulco. De um lado, um pagode encardido. Do outro, um arrocha da moda. Se você se esforçasse, ainda escutava um Cauby Peixoto vindo de algum lugar por ali. Tudo misturado com o som das gargalhadas. Aquilo me fez lembrar que o Acapulco tinha história. Cheguei a lembrar de uma roda de dominó numa tarde de domingo. Eu e meu amigo Caju contra duas coroas que fumavam mais do que jogavam. Ganhamos fácil. Para pagar uma aposta, uma das coroas me levou até o sanitário apertado do bar, sentou no vaso e me bateu uma punheta. Voltamos para a mesa e continuamos jogando. Depois percebemos que algumas pedras estavam sujas de porra.

20 minutos e meu cabelo estava pronto. Entreguei o dinheiro a Seu Ivanildo, me despedi dos velhos e caí fora. Olhei a noite. Seguia bem. Resolvi dar uma volta no Acapulco. As mesmas paredes desbotadas, o chão molhado das goteiras, as rodas de dominó, o cheiro de sarapatel. Encontrei o boteco que tocava Cauby e parei no balcão. Para lembrar os velhos tempos, pedi uma batida de gengibre. Não estava tão boa. Então advinha quem apareceu? O Farias. Um coroa meio psicótico da barriga grande e classuda.

- Paulo Bono.
- Grande Farias.
- Quanto tempo.
- A vida não tá fácil.
- Não te vejo desde daquela partida que você ganhou de uma forma absurda.
- Quando foi isso?
- Aquela que você adivinhou o meu duque.
- Porra, faz tempo mesmo.
- Até hoje não sei como você adivinhou que eu tinha duque.
- Pois é, já tive sorte na vida.
- Acho que você roubou.
- Você é uma figura.
- Vamos jogar.
- O quê?
- Vamos jogar agora pra ver se você é bom mesmo. Você não é o esperto?
- É o seguinte, Farias. Mudei de religião. E a turma lá disse que o jogo é proibido.
- Mas pode beber?
- Gengibre é bom pra garganta.
- SEU GORDO LADRÃO!
- Ah, caralho...
- NINGUÉM JOGUE DOMINÓ COM ESSE GORDO NÃO, QUE ELE É LADRÃO!

Farias bateu no balcão e saiu. No boteco, todos seguiam suas vidas. Pessoas esgotadas, mas felizes. Rindo, tomando cerveja. Havia algumas mulheres. Já passadas, vencidas pelo tempo. Mas de grande valia em alguma noite de solidão. Quando já ia matando meu gengibre, advinha quem apareceu? Gil, o barbeiro rock’n roll.

- E aí, Paulão.
- Fala, Gil.
- Isso é talco em seu pescoço?
- Talco?
- Que porra é essa?

Cheguei a lembrar que o Seinfeld passou por uma situação parecida na série. Mas não lembrava como ele havia se safado.

- Você cortou o cabelo, Paulão? Você é traíra, caralho? Pensei que só cortasse comigo, porra! Pensei que você era parceiro. Você sabe que eu tenho a manha do seu cabelo. Eu conheço seu cabelo, porra! Que trairagem do caralho é essa?
- Foi bom te encontrar. Tô com um material da Janis.
- Janis Joplin?
- A mulher tá rasgando a garganta.
- Curto pra caralho a Janis Joplin.
- Pois é. Lembrei de você.
- Janis Joplin é pra ouvir muito louco.
- Depois eu trago pra você. Agora tá na minha hora.
- E tem mais o quê de novo?
- Não tenho nada de novo, Gil. Não sei nada de novo.

Então deixei uma nota no balcão, dei um tapinha nas costas de Gil e deixei o Acapulco. Pensei em pegar um acarajé, mas segui direto para casa.

Um comentário:

Alvarêz Dewïzqe disse...

esse é um daqueles que a gente quer ver publicado num livro, para poder ler e reler. tiradas do tipo "Mas depois resolvi parar de pensar. A maioria das pessoas que vejo por aí não cultivam esse hábito e andam se divertindo a beça." só faz quem sabe fazer. Tu é foda Bono, muito bom!