14.2.12

Notícias da guerra

Dia movimentado. Como qualquer pessoa mentalmente saudável, numa sexta-feira, eu fingia trabalhar. Checava emails, quando o celular tocou. Era minha velha. Aflita. “Já explodiram dois ônibus” – disse – “Cuidado, pelo amor de Deus!”. O celular tocou novamente. Minha irmã, que não costuma ligar. “Tão fazendo arrastão pela cidade toda!” – ela disse. Os policiais em greve conseguiram. A cidade estava um inferno. Policiais encapuzados fechando ruas, lojas invadidas pelo povo, galpões em chamas, arrastões, assassinatos. Também não se podia acreditar em tudo que diziam. Na verdade, não era possível distinguir policiais, assassinos, marginais, jornalistas, mensageiros de facebook e uma população faminta e oportunista. Bem, mas era o que todos queriam. Emoção. Assunto para falar. Para postar. Motivo para sair do trabalho mais cedo. Carnaval antecipado. Só não dava para prestigiar uma greve liderada por um filho da puta que dava entrevista vestindo uma camisa com a marca daquele jacarezinho escroto. Não sei nem se tem uma camisa dessas para o meu tamanho. De qualquer forma, eu já tinha minha vida, minha própria guerra.

Enfim, a agência também liberou mais cedo, peguei o busu e caí fora. Salvador estava um caos. Engarrafamento desgraçado na Rótula do Abacaxi. As pessoas no ônibus só falavam da greve. Não aguentei e desci do carro. Resolvi entrar no mercado, pelo menos para fazer hora. Caminhava pelo estacionamento quando apareceu esse cara de olhos esbugalhados e sem os dois braços. “É UM ASSALTO! É UM ASSALTO!” – ele berrava. Eu disse – “Vai fazer o quê, cara? Me morder?”. O cotó correu desesperado. Foi então que entendi que estavam assaltando o mercado. Antes que eu pudesse raciocinar, vieram dois tiros não sei de onde. Quem estava no estacionamento começou a se jogar no chão. Me joguei entre um Uno e outro carro lá que eu não conhecia. O celular tocou novamente. “Sr. Paulo, é sobre o seu débito com a Sky” – disseram do outro lado. Do lado de cá, eu disse “Vá tomar no cu”, e desliguei. Olhei para a outra fila de carros. Havia uma putinha executiva deitada no chão. Chorava. Cheguei a pensar em dar início à onda de estupros. Mas veio outro tiro. Então fiquei ali, deitado por algum tempo. Havia uma tampinha de cerveja embaixo do Uno. Comecei a pensar. Talvez fosse hora de trocar o plano do meu celular. De conta para pré-pago. É, Paulo Bono. Entrar pra turma que só fala em crédito de celular, que antes de ligar sempre pergunta qual a operadora. Ia dar uma boa economizada. Também me sentiria um pouco livre das putinhas burras de telemarketing das operadoras. Então a putinha executiva se levantou e notei que os tiros já haviam passado. Me levantei e não vi mais nada. As pessoas voltaram a caminhar normalmente, a pegar seus carrinhos e entrar no mercado. Desisti das compras e voltei andando para casa. Foi um dia movimentado e cansativo. Eu lembrava do escroto com a camisa do jacarezinho quando o celular tocou. Era meu velho amigo Kurtz, do outro lado do país.

- Bono, porra!
- Quanto tempo, capitão.
- Que é que tá acontecendo aí, caralho?
- Um terrorismo de merda...
- O nome disso é motim.
- Sei lá, acho que já é carnaval.
- O nome disso é motim.
- Que é que me conta?
- Tem que mandar descer os paraquedistas.
- Que paraquedistas, porra?
- Paraquedistas têm no mínimo 1,90m! Pra descer atirando.
- Acho que já acertaram um. Mas foi bala de borracha.
- De borracha, o caralho! Tem que ser bala de verdade!
- É uma boa tática.
- Paraquedistas, Bono! E viva o exército, porra!

9 comentários:

Marcos disse...

hahahaha Sensacional, Bono! Abs!

Leo disse...

"Me morder?"
Só faltava a putinha executiva ficar com medo do cotó iniciar a onda de estupros.
E o Rambo no final, louco pra exterminar alguns.
Muita doideira.
Excelente.
Abcs.

Careca disse...

Grande Bono,

Paulo Bono disse...

Marcos,
Valeu, tricolor.

Leo,
O Rambo é atirador profissa.

Careca,
Grande Careca.

Patrícia Mendes disse...

Eu nunca ri tanto lendo uma crônica como eu ri agora com essa, rsrs, obrigada!!!

Alvarêz Dewïzqe disse...

daqui foi foda entender o que estava realmente acontecendo, já que quem trazia a notícia eram tabloides sensacionalistas tipo Folha de São Paulo e Jornal Nacional. de qualquer forma deve ter sido foda.

Pequena disse...

Falaaa amigo Bono!!! Hj, domingo, aquele dia que fico "meio assim sei lá" e essa semana mais do que nunca. Resolvi então olhar seu blog pra ver se tinha um conto novo, pra me animar mais e eis que encontro esse.
Bono, me explica aí como é que uma pessoa no meio de um tiroteio pensa em mudar o plano de celular? PQP me ensina essa técnica, pq no mínimo eu teria um ataque do coração só pensando besteira... acho que isso é coisa de baiano, sempre paciente, relaxadão, que espera a crise passar, levanta e segue a vida.
Preciso aprender isso!

Paulo Bono disse...

Patrícia,
segue em frente.

Alvarêz,
Cara, rolaram algumas coisas. Mas foi menos terrível do que pareceu.

Pequena,
Mas é que eu realmente precisava mudar meu plano.

abraço

antesdoazul disse...

Sensacional!