30.1.12

Being Paulo Bono

A primeira coisa que me lembro é que eu tinha medo de cagar. Devia ter uns quatro, cinco anos. Sei lá, devia pensar que era algo errado, absurdo. Então me escondia embaixo da mesa ou atrás do sofá. Depois minha velha me encontrava, e eu estava lá, agachado, sujando as calças escondido. Mas não era bem isso que eu queria dizer. É que nesse tempo, além de um cabelo ridículo partido de lado, eu usava óculos terríveis, com hastes que davam a volta na orelha. Acho que chamavam aquilo de rabo de macaco. Para os óculos não caírem. O fato é que por causa desse cabelo e dessa porra desses óculos, meus primos não se aproximavam de mim, me achavam esquisito e com cara de imbecil. Não deixavam de ter razão.

Depois tem um flash em branco. E a próxima imagem que me vem à cabeça aconteceu alguns anos depois. Eu e um amigo pulamos o muro da vizinha para pegar uma bola. De repente, nos deparamos com a vizinha, a Dona Lia, só de calcinha lavando roupa no tanque. Um peitão da porra. Fecho os olhos e tenho toda a cena novamente. Dona Lia, com suas celulites e seu peitão escuro balançando no tanque. Deu a maior merda. Dona Lia fez um escândalo. Tempo depois, esse meu amigo pegaria tétano e passaria a ser chamado de Capenga. Mas aquela cena carnuda mudou a minha vida. Foi bem na época da Lapinha. Quando eu era mais um dos pivetes que dava pequenos golpes para roubar figurinhas na banca. Vivia cercado de gente feia e pobre. Gente que em sua maioria não tinha futuro algum, iria morrer ali mesmo, naquele inferno.

Bem, mas meus velhos me tiraram da ladeira. Mais ou menos na mesma época, se enforcaram e me colocaram em um colégio de rico. Não era o meu lugar. E era aquela coisa. Naquela idade, enquanto o problema mais grave de alguns era ter espinhas no rosto, eu era o novato gordo, e que morava na periferia. Nesse contexto, me vem na lembrança outra cena. Quando convidei essa garota para uma festa e ela topou. O nome era estranho, não lembro agora. Mas era linda, loira, corpo maravilhoso. Seria a minha redenção, minha vitória eterna. Mas chegando lá, a putinha me deu um beijinho, como quem concede um pedaço de brigadeiro. Depois foi se chupar com outro cara. Eu descobria a porra do meu papel no mundo. O de otário. O que talvez só servisse para contar piadas. Ou quem sabe, ser a própria piada.

Acho que o resto foi conseqüência. Espécie de efeito borboleta. Faculdade, trabalho, mulheres. Eu não estava nem lá nem cá. Como se eu tivesse ficado no meio do caminho. Estava no showroom, no grande palco, cercado de estrelas, mas continuava sendo o gordo da Lapinha de óculos rabo de macaco. Chega um tempo que você diz, foda-se. Passei eu mesmo a desprezar a todos. Enjoei das pessoas. Passei a recusar qualquer tipo de convite, encontro ou oportunidade. Recusei a fazer parte de qualquer fotografia dessa Bahia, terra de gente alegre e bonita.

Por que estou dizendo tudo isso? Não sei ao certo. Mas eu estava há dias sem conseguir escrever nada, nem um conto, nem uma historia. Nenhuma inspiração. Quando li uma entrevista com esse puta roteirista de cinema, o Charlie Kaufman. E ele disse que só escreve sobre o que conhece muito bem. Então ele só escreve sobre ele mesmo. De certa forma, acho que foi o que sempre tentei fazer. Mas vamos lá. O que mais posso dizer? Realmente palito os dentes onde quer que eu esteja. Não gosto de sair de casa. Por isso pago mais de 150 canais, mesmo assistindo 5 ou 6, no máximo. Não saio de casa porque sou preguiçoso e me irrito fácil. Ou porque irrito ou constranjo facilmente as pessoas. Discuto nas filas. Não consigo mais jogar futebol. Qualquer dor que sinto, penso que é câncer. Tenho uma série de tocs, entre eles desenrolar fios de telefone. Também me reservo o direito de não entrar no elevador com pessoas que apertam o botão errado para chamar o elevador. As mulheres ainda me desprezam. Continuo batendo minha punheta. Alguns me acham de otário. Alguns me chamam de ogro. E tem gente que acha que a coisa mais chata do mundo é eu estar vivo. Sinto saudade da Lapinha, sou um publicitário medíocre, me acho um merda, mas acho que meu gosto é superior na hora de falar sobre filmes. Comemoro feito um idiota quando meu time ganha. Mas dizem que fico bem melhor deprimido ou puto da vida. Mais realidade do que isso? É uma noite quente, estou tentando terminar esse negócio, e a filha da vizinha não para de chorar.

22 comentários:

Juliana Canoura disse...

Toda vez que te leio [ e faz algum tempo,dois anos talvez? Já nem lembro onde te achei..quem sabe no 'acepipes escritos' passo por lá também.. ] eu fico na dúvida se o que você conta é a verdade,o que de fato aconteceu,se é o que tu realmente acha,ou se são floreios ou invenções. Acho graça no seu mau humor,e na sua acidez, mas não consigo acreditar que você pense tão pouco de si. Penso que seja a licença poética,que traz o exagero aos textos. Textos esses que eu adoro ler,você me diverte,mesmo quando se deprecia,porque eu não acredito que sua visão corresponda a realidade. Por mais que você venha a afirmar que corresponde,eu não iria acreditar,porque certamente é culpa desses óculos,não mais de rabo de macaco,que só veem e exacerbam o que te faz humano. E ó,quando eu sinto alguma dor,penso que é uma doença incurável,que ainda não descobriram,e que vai me matar no auge da minha juventude.

As pessoas me irritam também,não gosto delas,pra ser sincera,mas ainda existem os que façam parte do nosso clube,é só facilitar pra achar e ser achado. =)

Boa semana,menino Bono!

Juliana Canoura[leitora não mais tão anônima rs ]

Mila disse...

Acho q eu tô ficando assim, hein? "Chega um tempo que você diz, foda-se. Passei eu mesmo a desprezar a todos. Enjoei das pessoas."
Não vou aqui dizer que vc é genial, e que não precisa se depreciar assim, pq eu sei q não é exatamente o q a gente pensa sobre nós, é o q a gente sente.
Mas eu quero te pedir que continue escrevendo sobre isso q vc sabe, sobre vc, sua vida e as pessoas que vc encontra porque vc faz isso de uma forma foda e inspiradora.
Cheia de clichê e sentimentalidades, eu quero te dizer que eu gosto mais de vc, Paulo Bono, do que de grande parte das pessoas com as quais eu convivo. Elas são até legais, mas vc é sensacional.
Obrigada por escrever no espalitando.

Adriana Godoy disse...

Bono, se isso é verdade ou não...sei lá. O que importa é que quando a gente lê os seus textos é um delírio.Tem uma identificação imediata. Valeu, Beijo

Jesus disse...

pode ser o primeiro.
ou o último. ainda dá tempo, porra.
manda pra editora.

Felipe disse...

Rpz... quando comecei a ler, veio aos meus ouvidos aquela musica do plantão da globo...tan tan tan taran ta tatan... gordo rouba fuzil de traficante da lapinha e sai atirando, depois rouba tres carro... as vitimas são pessoas que apertaram o botão do elevador errado, vascaino e loira que te deu fora quando criança.... Bonão, sabe o que vc tem mais que eu?? tem mais eh que se fuder( essa vi no face e lembrei de vc) Não eh so pq te dei a idéias q vc venha primeiro atrás de mim com aquele fuzil que vc guardou quando criança de seus amigos" sem futuro da lapinha" que ganhou de amigo secreto.... abraço

Paulo Bono disse...

Juliana,
Sei que não morri e não tive um auge na juventude.

Mila,
Obrigado por ler o Espalitando.

Adriana,
Identificação? Então você tá fudida.

Jesus.
O tempo é o Senhor.

Felipe,
Tô pensando em comprar uma arma de fogo.

abraço

Leo disse...

Além dos textos fodas, sabe o que tb é legal por aqui? São as suas respostas aos comentários. Abraço.

Vitor disse...

Anda meio pra depressivo, Bono. Continuam excelentes, os textos, entretanto.

carlos disse...

Só me resta indicar um filme então: Citizen X. Recomendo. Não dá pra bater umas, mas a história é verídica. Pensando bem, tem umas cenas de estupro que até dá. Tenta lá. Abç

Paulo Bono disse...

Leo,
Os comentários são melhores que as histórias.

Vitor,
Tô até feliz esses tempos.

Carlos,
Valeu a dica.

abraço

Careca disse...

Não entendi "Também me reservo o direito de não entrar no elevador com pessoas que apertam o botão errado para chamar o elevador."

Seja como for, eu não entro em elevador com pessoas que gritam para chamar o elevador antes de entrar.

Abç,

Rodrigo Carreiro disse...

Porra Bono, você é foda.

Rodrigo Carreiro disse...

Ah, eu também li essa entrevista, que na real era pra ter sido uma palestra para roteiristas. Fiquei intrigado justamente com essa parte. Li e reli e vi que era a pura verdade. Acho que quanto mais da gente colocamos no texto fictício, mais ele soa "correto". Kauffman, como sempre, gênio.

A viajante disse...

Estava com saudade de suas palavras doidas e cômicas! Cada cena, um filme. Escreva mais e mais sobre você, sua especialidade! Abraço.

Paulo Bono disse...

Careca,
Gente que quer subir, e aperta o botão de descer. Porque quer "chamar o elevador".

Carreiro,
O cara é sensacional.

Viajante,
Vou tentar.

abraço

Alvarêz Dewïzqe disse...

Uma coisa é certa, se tornou um puta contista! O resto que se foda, camarada.

Elga Arantes disse...

Paulo, vc foi minha inspiração, hoje. Vc me acordou pra vida! rs. Vai lá...

Analu Bittencourt disse...

Talvez por sermos muito diferentes, gosto de ler seus textos. E ainda que sejamos assim, também quebro as convenções da "boa educação à mesa" e acho maravilhoso espalitar (palitar?) os dentes. Vai entender...

Paulo Bono disse...

Alvarez,
Puta contista não. Só uma puta mesmo.

Elga,
Se fui inspiração, vc tá fudida.

Analu,
Se somos diferentes, você deve ser uma pessoa bem bacana.

abraço

Patrícia Mendes disse...

Vc parece ter baixa auto-estima, por quê não faz um tratamento contra obesidade? Tipo uma cirurgia bariátrica? Ia ser o impulso que precisa pra começar a mudar de vida e parar de se achar medíocre ou otário. Boa sorte!!!

Paulo Bono disse...

Patrícia,
tô pensando em suicídio.

André Paz disse...

huahuahuhuah Não sei se são melhores os comentários ou as histórias.. Se juntasse algumas das histórias, daria um bom filme. hahaha!