27.12.12

Comprei um queijo cuia

Véspera de Natal. Aproveitei a tarde para cortar o cabelo. A cada dezembro, são menos fios de cabelo. Por isso foi rápido. Depois encarei o mercado e comprei um queijo cuia. Finalmente. Digo, finalmente, porque sempre achei caro demais.

No caminho de volta, a rua estava daquele jeito. A humanidade em ação. Comprando, gritando, gesticulando, se esbarrando e cuspindo. Ambulantes ouviam Roberto Carlos em versão de arrocha. O calor só piorava as coisas. Achei que fosse enlouquecer. Se continuasse ali, eu poderia matar alguém em pleno Natal. Foi quando vi essa igreja com a porta aberta. Entrei. Estava vazia. Apenas algumas velhas beatas arrumavam o altar. Escolhi um banco e sentei. Só conhecia igrejas em dias de casamento e batizado. Sem as pessoas, parecia um lugar agradável. Por um momento me senti em paz. Queria permanecer assim e sem pensar em nada. Mas acabei pensando naquelas pessoas lá fora. Era mesmo o inferno, mas pareciam felizes em comprar. Talvez não haja nenhum mal nisso. Vejo muita gente meter o cacete no Natal. Eles dizem que não passa de uma festa consumista. Mas percebo também que são as mesmas pessoas que passam o ano todo à espera do novo modelo do iphone. Fala alguma coisa, Jesus Cristo. O que acha disso tudo? O silêncio me fez pensar também no ano que passou. Encarei uma grande guerra e caminhei por campos minados. Além disso, teve protusão discal, alergias, TOC, dores na nuca, o futebol medíocre do Flamengo. Foi um ano difícil. Eu merecia mesmo aquele queijo cuia. Um cara entrou na igreja e começou a instalar um teclado na caixa de som. Lembrei de uma tecladista que tocou certa vez num casamento. Era cega. Uma coisa linda. Um dia ainda como uma ceguinha. Direi que sou bonito, ela vai acreditar, e faremos amor no escurinho. Essa ideia me deixou de pau duro. Bem que eu toparia uma trepada na igreja. Só acho que não seria nada original. Então uma beata ouviu meus pensamentos e se aproximou.

- O senhor pode nos ajudar?
- Desculpa, não sou católico, eu só tô…
- Pra colocar a cortina. É que somos baixinhas.
- Cacete, vamos lá.

A beata me levou até uma pequena sala. Havia mais duas velhinhas ali dentro. Apontaram os ganchos da cortina lá em cima e a porra de uma escadinha enferrujada.

- Mas esse negócio não vai me aguentar – eu disse.
- É uma boa escada.
- É que sou pesado.
- Quer que eu segure o queijo?
- Tudo bem.

Então botei o pé no primeiro degrau, e a escada começou a tremer e a ranger. “Pode ir, a gente tá segurando!”. Voltei a sentir aquela sensação de paz e tranquilidade. Não havia mais nenhum sinal de medo naquela sala. Subi a escada, encaixei a cortina no primeiro gan-CRAABUUMMM! Foi tudo muito rápido. Logo a porra da escadinha estava partida ao meio e eu estirado no chão.

- PUTA QUE PARIU!
- Valha-me, Nossa Senhora!
- CARALHO!
- Jesus, Maria e José!
- BUCETA!
- Ajuda ele, Isaura! Ajuda ele!
- TÔ ALEIJADO PORRA!

Bem, era apenas uma puta dor nas costas. Mas eu ainda estava vivo.

- Desculpa pela escada. Mas preciso ir agora.
- Não entendi. Era uma escada tão forte.
- Me passa o queijo.
- É que ele é pesado.
- Bom natal pra vocês.

Quando deixei a igreja, a rua estava mais calma. O sol já estava se pondo. Cheguei em casa e liguei a TV. As costas aindam doíam. Resolvi tomar um banho quente. Depois abri a lata do queijo cuia, cortei três toras de queijo e coloquei num pão. Passava uma retrospectiva dos gols mais bonitos do ano. Depois entrou esse comercial do chester da Seara. Enquanto preparava o chester, uma mãe branca conversava com sua pequena filha negra. Falava sobre carinho, amor e cumplicidade. Bem, não tinha Papai Noel, renas ou duendes. Mas acho que vendia essa coisa do Natal.

10.12.12

Esquece, Arnô

Alguns anos são mais complicados. Naquele tempo eu dividia as minhas horas em entrevistas de emprego e deitado no sofá. Com tempo de sobra, eu também conseguia assistir o Intercine todos os dias. Mas nunca cheguei a ligar para escolher o filme. Numa daquelas madrugadas, o telefone tocou. Era o Arnô. Um velho amigo que também só andava com os bolsos vazios.

- Tá assistindo o Intercine? – Disse
- Tô.
- Eu sabia. Eu também.
- E aí?
- Precisamos fazer alguma coisa.
- Do que você tá falando?
- A gente precisa trabalhar. Ganhar dinheiro.
- Eu tento, mas eles não me querem.
- Vamos abrir uma agência?
- Como assim, abrir uma agência?
- Você não é formando em publicidade?
- Relações Públicas.
- Que porra é essa?
- Eu também não sei.
- Acho que teríamos uma boa agência.
- Eu não sei o que precisa para montar uma agência.
- Podia ter paredes coloridas, e a gente ia tocar violão a tarde toda.
- Esquece, Arnô.
- Então vamos abrir um escritório de engenharia.
- Engenharia, eu?
- Acho que dá certo. Eu tô quase formado. E podia ser engenharia com webdesign. Você não mexe com esse negócio de Corel, porra?
- Esquece, Arnô.
- Já sei. Televisão.
- O quê?
- A gente podia ter um programa de TV e contar várias piadas, várias histórias.
- Puta que pariu, Arnô.
- Falar nisso, você precisa conhecer Seu Totonho. Ele sabe cada história engraçada.
- Quem é seu Totonho?
- O velho que consertou meu bandolim.

 Isso já faz quase uma década. Arnô já ligou mais algumas vezes com outras propostas. Já me chamou para abrir uma loja de peixes, uma casa de bonsai, um bloco de carnaval, um puteiro em brotas, uma franquia do habib's e um cursinho pré-vestibular via internet. Certa vez insistiu que devíamos mandar um email com nossos currículos para a TV Bandeirantes para trabalharmos no CQC. Não sei se Arnô é louco ou algum tipo de gênio. Só sei que para a grande maioria das pessoas todos os anos são complicados. O mar nunca está calmo. Tenho amigos procurando emprego. Tenho amigos infelizes em suas mesas. Chegamos aos trinta e poucos e ainda não avistamos a terra firme. Onde é a linha de chegada? É uma pergunta idiota. Porque o mundo vai estar sempre lá fora dizendo, “Vamos, desgraçado, não pare de nadar”.

Enquanto isso, Arnô segue seu caminho. Hoje me mandou um email propondo sociedade num projeto para mudar o futebol baiano e talvez revolucionar o futebol mundial. O projeto tinha três linhas. Respondi: “Esquece, Arnô. Para mim, o futebol está perdendo a graça”. Também já atravessei várias noites buscando uma ideia que transformasse meus dias. Então percebia que eu não sabia fazer nada. Bem, é verdade que consegui entrar numa agência de propaganda. Tem até um violão sobre a mesa. Mas só sei tocar as mesmas músicas de sempre.

19.11.12

Os últimos centavos

Era minha última noite em Feira de Santana. O último round. E eu estava esgotado. Deixei a agência sem me despedir. Caminhei pela avenida morta sem uma noção exata de futuro. Sem grandes objetivos, ao não ser o de me livrar da cidade. Entrei numa delicatessen encardida. Comprei um bauru e uma garrafa de vinho. Continuei caminhando até encontrar essa trabalhadora embaixo de uma árvore. Perguntei como estava a carne. Setenta, sem o toba. “Vamos nessa” – eu disse – “E ainda tenho aqui pra gente uma garrafinha e um bauru sensacional”. Ela disse que topava o bauru, mas que não bebia em serviço. Então minha nova e última amiga de Feira me seguiu na avenida. Logo estávamos abrindo a porta do meu quarto.

- Cara, você dorme numa esteira – ela disse.
- Mas o chuveiro é quente, baby.
- Ah, você comprou o bauru na Deli-Deli. É o melhor da cidade.
- Vamos combinar o seguinte. Eu emborco meu vinho e você chupa.
- Tudo bem.

Meu último suspiro em Feira. De calça arreada e virando uma garrafa de vinho no gargalo enquanto uma puta fazia seu bocketshow. Era uma jovem bonita e esforçada. Mas o show era amador e sem jeito. Aquela maldita pressa das putas baratas. Eu apenas bebia. Não sentia nada. Tomei mais um gole e a mandei ficar de quatro. Ela obedeceu e se jogou na esteira. Botei a porra da camisinha e me aproximei.

- AAAAAAHHHHHHH, DELÍCIA!
- Calma, caralho! Eu nem meti ainda.
- Ah, tá.
- Agora receba!
- YAHHHHHHH!! UUUOOOHHHHHH!!, VAAAAIIIIII, DELÍCIA!
- Mais baixo, porra! Dona Zeni é evangélica.
- Dona Zeni?
- A senhoria. Ela mora embaixo e é chata pra caralho.
- Ah, desculpa.
- Outra coisa. Não me chame de delícia.
- Você não gosta, paixão?
- É que tenho certeza que não sou delícia. E eu sei que você não me acha delícia. Então não precisa fingir que sou delícia. Vamos jogar limpo. Vamos agir naturalmente.
- Tá bom, paixão.
- Sem paixão também.

Comecei a meter. Mas a coisa ainda não funcionava. Eu fazia força para me concentrar. Fechei os olhos e pensei na Vera Fischer de Riacho Doce, na Mônica Bellucci sendo estuprada e na dona Marta, que servia quentinha na agência. Mas era um vai e vem sem propósito, um movimento automático de carne sem vida. Eu me derretia em suor e sabia que não conseguiria gozar. Talvez já fosse o vinho fazendo efeito. Quando os abri os olhos, percebi que enquanto eu metia alucinadamente, ela lia e fazia anotações numa revista da Avon. Parei e enxuguei o rosto. Virei mais um golada do vinho e deitei ao seu lado.

- Que foi? Não tá conseguindo? – ela disse.
- Mais tarde bato uma.
- Me passa o bauru.
- Qual o caso da revista?
- Eu também vendo Avon. Comecei agora.
 - Reparou que todo mundo em Feira tá sempre negociando alguma coisa?
- Quer pedir alguma coisa? Vem dia 28. Eu posso trazer aqui.
- Pode ser uma daquelas promoções de desodorante roll-on.
- Massa. Deixa eu anotar.
- Se eu não estiver, pode deixar com Dona Zeni.
- Humm. Esse é o melhor bauru que existe. Quer um pedaço?
- Tô enjoado.
- Você é legal.
- E você, uma délicia.

Logo depois, paguei o serviço e ela deixou o quarto. Não passava nada na velha Toshiba 14 polegadas. Matei o vinho e fiquei na janela observando a pobreza da rua. Era uma noite sem charme. Como todas as noites naquela cidade. De certa forma, pude viver Feira de Santana. Pulando de pensão em pensão, escapando com vida de um colega de quarto psicopata, perseguido por um ex-marido ciumento e estúpido, brigando em mesas de dominó, perdendo o salário em mesas de poker e vivendo a base do pastel do tio da unha preta. Eu tinha 20 e pouco anos e aprendi bastante. Sobre oportunismo, desonestidade, traições, manobras, mesquinhez, artifícios e fachadas. Dizem que Feira é um dos maiores polos de desmanches de carros roubados do Brasil. Não tenho certeza. As pessoas exageram. Só sei que eu sentia pena dos desmanchadores de carros, dos ladrões de carteira e das putas de Feira de Santana. Eles estavam cercados. Aquela cidade amava o dinheiro. E eu fazia questão de não levar comigo nenhum centavo que lembrasse suas avenidas, seus negócios e escambos. Eu ainda tinha 30 conto no bolso. A passagem para Salvador era 25 reais. Então abri a porta e desci as escadas. Atravessei a rua e fui até o copo sujo da esquina. Pedi uma garrafa de vinho. A mais barata. São Jorge. R$ 4,25. Restariam ainda no meu bolso 75 centavos daquela cidade. Mas ao deixar o boteco, atirei as duas malditas moedas no esgoto. De volta para os ratos.

30.7.12

A punheta da vida

Meu sonho era comer Andrea Canivete. Eu devia ter 17 ou 18. Era uma das putinhas mais avançadas da área. Diziam que chupava como uma profissional. Só que eu já era gordo e suficientemente feio. Essas coisas não aconteciam comigo. Até que uma noite, depois de uma festa, ela me deu uma chance. Estava bêbada. E aconteceu uma coisa estranha. Não consegui gozar. Eu estava lá, todo enfiado no meio daquelas pernas, e pensava, “Nossa, estou comendo Andrea Canivete”, mas não chegava a lugar algum. Tentei de tudo, mudamos de posição, eu suava feito um porco, mas Andrea disse, “Cara, desista!”. A vida é mesmo uma grande punheta. Passamos a maior parte dela nos preparando, nos aquecendo para o que estar por vir, colecionando ferramentas em formatos de sonhos, expectativas, especializações e promessas de amor, e, no fim da contas, nada disso serve para grande coisa, e você ainda acaba vendo tudo aquilo que você era escorrer lentamente pelo ralo. Não tenho conseguido segurar o blog. Na verdade, não venho escrevendo nada. Nem uma linha. Hoje, esse amigo cineasta ligou. Cobrava os diálogos que lhe prometi para seu curta. Um projeto interessante. Era minha chance de me ligar a algo que realmente valesse à pena. Não saí do lugar. Página em branco. O texto simplesmente não flui, não corre solto. Meus dias seguem – ou não seguem – da mesma forma. Tem essa coluna fudida que não me permite ficar sentado por muito tempo. Mas não consigo concluir os exames. Da última vez, não resisti à tortura da sala de espera e caí fora. Por que diabos toda clínica sintoniza a TV na Ana Maria Braga? A burocracia do plano de saúde também é violenta. Tudo é muito demorado, lento, perverso. Algo pior só nas ruas de Salvador. Já calculo uma hora para chegar a qualquer ponto da cidade. Parece uma corrida estúpida. Se um dia despertássemos todos transformados em baratas, talvez o trânsito fosse menos asqueroso. É a punheta da vida. Uma força que nos impede de seguir em frente, do dia correr macio. É aquela sensação de ter nosso tempo estrangulado por uma reunião de trabalho ridícula e desnecessária. Ou um cliente que vai e volta dezenas de vezes o mesmo layout, optando no fim pela primeira opção.  Mas tenha cuidado. A punheta da vida está em qualquer lugar. No trânsito, na TV, no Facebook, no telemarketing, na conta que você se esquece de pagar, no caixa, na fila do banco, no celular sem sinal, nos imbecis que apertam o botão errado para chamar o elevador, na página em branco ou num pote de biscoito que você não consegue abrir nem com a porra. São dez e pouca da noite. Abro minha caixa de emails, e tem lá uma mensagem do editor. Falava sobre metas, prazos, custos, algo assim. Parece que o livro não sai mais esse ano. Interessante saber disso ao mesmo tempo que percebo que o blog está morrendo. Lembrei de Andrea Canivete. Não tenho sono. Para estender a noite, resolvo abrir um site de sacanagem. Andrea Canivete, onde quer que esteja, ainda penso em você. Sua puta.

11.7.12

UTI

É o tempo escasso. É a falta de talento. Tem também essa coluna fudida que não me deixa ficar muito tempo sentado. Sei que não venho conseguindo escrever. Infelizmente, sinto que esse blog está agonizando. Vou tentar ainda alguma coisa, quem sabe. De qualquer forma, quem tiver interesse pode acompanhar a fanpage do Espalitando Dente.
Por lá, rolam alguns arrotos. A maioria de muito mau gosto, mas tem alguns bacanas.
    

17.6.12

Gordos

Aline era fogo. Chupei, enfiei o dedo, meti, gozamos juntos três vezes. Depois ela veio com aquele peitinho balançando querendo a quarta seguida. Eu disse, “Porra, vai bater sua siririca e me deixe em paz!”. Então Aline tocou seu guita hero, depois fumou um baseado, vestiu seu jeans de marca e bateu a porta. Fiquei ali deitado por um tempo. Depois limpei o cacete no lençol, me levantei e tomei a Coca-Cola da vitória. Foi quando o telefone tocou. Era o Ribas. Disse que havia encontrado um lugar que eu precisava conhecer. Parece que tinham inventado uma fórmula mágica ou um sistema inovador para perder peso. Não tinha nada para fazer naquela tarde. Não custava tentar.

Ribas era gordo e taxista. Mas passava a vida estudando para concurso público. Boa praça. Bom de copo. O típico gordinho amigo de todos. Também vivia procurando uma nova dieta milagrosa. Encontrei-o encostado em seu táxi na porta do local. Com sua barriga redonda e sua cara sacana de feliz.

- Grande Boninho!
- Tomara que essa parada seja boa mesmo, Ribão. Tô puto.
- Qual o caso? Mulher?
- Não. Vim em pé no ônibus.
- O negócio funciona, Boninho.  Já perdi 15 quilos.
- Pra mim, você tá a mesma merda.
- Mas já consigo trepar com Fátima de ladinho.
- Bem, isso é importante. Vamos lá.

Pelo que entendi, não havia nada de inovador no tal sistema de emagrecimento. Era só uma espécie de clínica. Colocavam num só lugar tudo que um gordo precisa para emagrecer. Eles ofereciam academia especializada, nutricionistas, endocrinologistas, psicólogos, terapeutas, mágicos e refeições insossas que vinham em caixinhas na quantidade certa. Além disso, faziam essas reuniões periódicas com algum magro falando para um bando de gordos tudo que ele fazia para ser magro. Naquela noite, era uma dessas reuniões de apresentação. Havia essa putinha gostosa de branco sentada em frente a um semicírculo de gordos. Ribas e eu sentamos nas últimas cadeiras. Então a putinha começou a falar sobre aquele método pós-moderno para emagrecer. Você podia ler na cara dos gordinhos a culpa, o medo, o desespero, o arrependimento. Eu também já estava arrependido. De repente, aquilo tudo começou a me deprimir. Todos os aqueles gordos reunidos. Homens e mulheres atrás de esperança, de uma nova chance de rir de verdade, do sonho de serem espontâneos. Porque o grande Ribas não me enganava com aquela sua gargalhada. No fundo, todo gordo é triste. Acontece que alguns sabem disfarçar. Mas talvez sejam esses os mais infelizes. Uma vez, um escroto engravatado me disse – “Gordo que é feliz, que não precisa mais se preocupar com o que come”. Eu disse – “Porra nenhuma. Eu preferia ter comido mais bucetas nessa vida”. Na verdade, ser gordo é motivo de pânico. Outro dia, no elevador, duas putinhas conversavam sobre academia. Uma delas disse – “Ficar gorda? Prefiro morrer de fome” – Depois notaram minha presença e ficaram constrangidas. E eu disse – “Tudo bem, também tô querendo me matar”. Podemos dizer que gordo é uma piada universal. Uma anedota permitida por lei. Somos sacaneados até pelos negros, judeus, gays, amputados e pacientes com câncer em fase terminal. E deve ser tudo mais difícil para as mulheres. Depois de um viralata faminto, para mim, a coisa mais triste é uma jovem gorda passeando pela praça. Sem ser desejada. Sem ser notada. No fim das contas, mais do que ser comida, toda mulher quer se sentir comível. Talvez por isso as gordinhas sejam safadas. Porque elas precisam se esforçar ainda mais, rebolar ainda mais, chupar ainda mais. Quero dizer, as putinhas pesadas são agradecidas e estão sempre dispostas para qualquer batalha.

Passei o restante da palestra apagando mensagens do celular e jogando meleca no chão. Depois a putinha de branco inventou que nós, os gordos, deveríamos sentar em duplas, um de frente para outro. E cada dupla conversaria sobre suas experiências pessoais, seus fracassos, essas merdas de todo dia. Ribas achou uma gordinha charmosa com cara de boqueteira. Fiquei com essa gordinha de óculos com ar de cola-velcro. Ficamos ali nos encarando por alguns segundos.

- Você não acha isso aqui uma coisa muito louca? – eu disse.
- Tô achando legal.
- Esses gordos reunidos. Parece que vão matar a gente. Você assistiu a Lista de Schindler?
- Qual é o seu problema?
- Ham?
- Qual o seu problema com a comida?
- Nenhum. Pelo contrário. Gosto pra caralho de biscoito. Acho que ninguém come biscoito mais rápido do que eu. Você acredita que uma dia comprei um Passatempo recheado pra ver o jogo do Brasil. Abri assim que Galvão Bueno disse “Bem amigos da Rede Globo”. E matei o pacote antes de terminar o hino nacional?
- Meu problema é minha mãe.
- Sua mãe?
- Ela é gostosa.
- Gostosa?
- Magra, loira, tipo gostosa pra caralho. Todos os homens querem fodê-la. Você não sabe o que é pra uma filha saber que sua mãe, com 20 anos a mais, é muito mais gostosa que ela. Aí toda vez que vejo algum amigo meu dando em cima de minha mãe, fico deprimida e acabo atacando um pote de sorvete.
- Tem uma foto dela?
- Aí parece que entro num tipo de competição. Dou em cima de todos os homens que olham pra ela. Já trepei com vários assim. Dou tudo que eles querem. Duvido que minha mãe foda mais gostoso do que eu, entende? Desculpa. Sei que tudo isso é horrível…
- Não, não, claro que não.
- No fundo, eu amo minha mãe.
- É o seguinte. Isso aqui é deprimente. Que tal ir lá pra casa?
- Ham?
- Lá tem um sofá bacana. A gente pode falar mais de sua mãe. Pedir uma pizza. Um sorvete, se você preferir.
- Você quer dizer trepar?
- Pode ser também.
- Desculpa, cara. Não vai dar. É que você não é nem um pouco atraente, sabe? Não é só porque você gordo. É você como um todo. Sei lá. Transar com você ia fuder ainda mais minha autoestima.
- É, faz sentido.

Acabei não ficando no método revolucionário de emagrecimento. Ser gordo talvez seja o novíssimo mal do século. O problema é que também sou preguiçoso. Então continuo gordo. Além disso, eles cobravam 800 conto para dizer o que eu precisava fazer para perder a barriga. Aquilo não era para mim. Mas a meta do Ribas era perder mais 15 quilos. Talvez ele conseguisse. Ribas é uma boa pessoa. Merece ser magro. Quanto a mim, naquela noite, preferi não dormir cedo. Disquei o número de Aline. Ela apareceu e fizemos também cachorro-quente. 

20.5.12

Meu tio Geraldo

Eu estava longe das agências já há algum tempo. Andava batendo a cabeça numa série de entrevistas de emprego. Me sentia um parasita, o mais inútil dos gordos. Foi quando uma velha tia me ofereceu trabalho. Como vendedor. Na sua pequena fábrica de biscoitos artesanais. Bem, eu precisava de dinheiro. Resolvi encarar. Na primeira semana, me mandaram para a Ceasa do Rio Vermelho. Eu e um motorista numa Kombi velha lotada de sequilhos. Eu tinha que ir de loja em loja oferecer a mercadoria, anotar os pedidos, voltar até a Kombi, carregar os fardos de biscoito, distribuí-los e pegar o dinheiro. Não parecia tão difícil. Ataquei a primeira. Delícia da Terra, Doces da Bahia, uma coisa dessas. Havia esse coroa bigodudo cortando requeijão.

- Bom dia, chefe – eu disse – vai querer biscoito?
- Só um minuto!
- Tudo bem.

Encostei no balcão de azulejo e observei o lugar. Aqueles homens e mulheres da Ceasa, carregando fardos e caixotes de frutas e outras especiarias, aquelas pessoas trabalhavam sem ar-condicionado, suavam de verdade. Ainda assim pareciam autênticas e felizes. Ou pelo menos pareciam. Passaram-se vinte minutos, e o bigodudo não me atendeu. Ficava cortando a porra do requeijão, atendia clientes e outros vendedores, mas me ignorava completamente.

- Vai querer o biscoito, campeão? – insisti.
- Tá com pressa, rapaz?
- Só acho que o senhor esqueceu de mim.
- Baixe o tom, garoto!
- Mas eu não tô falando alto.
- Que porra de biscoito velho você tem pra me mostrar?
- Essa belezura aqui.
- Mas quem vendia esse era o finado Geraldo.
- Ele era meu tio.
- PORRA NENHUMA!
- Porra nenhuma o quê?
- Que Geraldo era seu tio.
- Meu tio.
- Duvido.
- Mas era.
- Eu não acredito em você.
- Por parte de pai.
- PORRA NENHUMA!
- Caralho...
- Geraldo era profissional, porra. Sabia conversar, negociar, o melhor vendedor que tinha aqui. Fazia seresta pra gente com o saxofone. Todo mundo gostava dele. Geraldo era boa praça, gente fina. E você é...
- Vamos abri o jogo, amigão. Não sou gente fina. Não sou vendedor. Mas facilite meu processo. Vai querer o biscoito?
- NÃO VOU QUERER BISCOITO PORRA NENHUMA!
- Então se foda.

“DIZ ELE QUE É SOBRINHO DO FINADO GERALDO!” – o bigodudo disse enquanto eu deixava a loja. Ainda escutei alguns risos. Dei mais alguns passos, e apareceu esse viado com um lenço amarrado na cabeça.

- É verdade que você é sobrinho de Geraldo?
- Desculpa, amigo. Só gosto de xoxota.
- Que horror.
- Vai querer biscoito?
- Eu só trabalho com flores.
- Tudo bem.
- Sabe, eu tenho saudades do seu tio.
- Ele continua no cemitério. Por que não leva flores pra ele?

Depois ataquei mais algumas lojas, mas não tive sucesso. Não consegui vender nada. Na verdade, as pessoas mal me recebiam. Eram quase 12 horas. Resolvi parar pra comer. Sentei num copo sujo por ali mesmo. Pedi um PF e uma Coca-Cola. De garrafa. O gosto é bem melhor. Sentei do lado de fora. Mesa de plástico, um calor dos infernos, um vira-lata transitava procurando restos. Parecia pensar em suicídio. Uma putinha trouxe o PF e a Coca. Um prato bem servido. Dois pedaços grandes de bife. Cheguei a me sentir melhor. Mas quando olhei, o bife de baixo era puro nervo. Paciência. Eu estava no meio das garfadas, quando essa morena sentou na minha frente. Carnuda, bronzeada, um belo decote.

- Ouvi dizer que você é sobrinho do Geraldo.
- Por parte de pai.
- Lembra um pouco. A cabeça redonda.
- Ele era mais alto.
- E mais classudo.
- Quer um copo?
- Eu era louca por seu tio.
- Um desgraçado sortudo.
- Ele também era louco por mim.
- Tinha motivo.
- Eu morro de saudades da Geraldina.
- Que Geraldina?
- Como era conhecida a pirocona dele.
- Eu nunca tinha ouvido falar da Geraldina.
- Sabia que ele gostava de tocar o sax enquanto eu chupava a Geraldina?
- Bem, eu não sei tocar sax. Mas posso te apresentar a Bonete.

Então a morena inclinou o corpo e agarrou meu pau sobre a calça. Apalpou. Eu tomei um gole da Coca. Depois ela largou.

- Pelo jeito, você não parece nada com seu tio.
- Se você parar pra pensar, a Bonete é sobrinha da Geraldina.
- Acontece que eu tô com fome e a Geraldina enchia o meu prato.

A morena se levantou e eu fiquei ali. Dei mais algumas garfadas. Então comecei a palitar o dente. Eu já estava com quase trinta. Para alguns, as coisas pareciam mais fáceis. Podia ser uma questão de sorte. Ou o problema era minha cara de idiota. Era o mais provável. Foi naquela mesa que pensei que um dia eu podia tentar escrever sobre aquilo tudo. Não digo sobre o tio Geraldo. Mas sobre quem não sabe vender biscoito ou consertar um carro ou escrever um título criativo ou construir uma casa ou pintar um quadro, sei lá. Podia contar sobre como quando as coisas não dão muito certo, sobre aqueles que nunca venceram. Esses são a maioria. A tarde seria longa. Eu tinha que voltar pra Kombi. Então matei a Coca-Cola e joguei o resto da carne para o vira-lata.        

22.4.12

Que porra é protusão discal?

Dor nas costas. Uma dor terrível. Não podia sentar, ficar de pé, caminhar, deitar, escrever, tomar banho, abrir a geladeira, abrir uma Coca-Cola, peidar, respirar, olhar o horizonte, eu não podia existir sem sentir essa dor, como uma espada cortando meu fôlego. Resolvi procurar um médico. Plano de saúde fudido. Só tinha vaga para duas semanas depois. No dia, apareci no consultório. O cara me mandou inclinar a coluna pra frente e pra trás, depois disse:

- Não é nada, filho.
- Nada como?
- Só um desgaste da coluna. É da idade.
- Mas só tenho 34.
- É a vida. Vou passar uns comprimidos, vai dar tudo certo.
- Mas tô quase partindo ao meio.
- Outra coisa: você precisa perder peso, isso sim.

Foram menos de 5 minutos. Acho até que saí pior do consultório. Os dias se passaram e a coisa só fez piorar. Além da dor nas costas, começaram a vir esses choques na perna. Eu podia estar em qualquer lugar, que de repente sentia a dor se transformando numa carga elétrica e se alastrando pela perna. Resolvi procurar outro médico. Só havia vaga para duas semanas depois. No dia, apareci e fui logo atacando.

- Me ajuda. Acho que tô ficando aleijado!
- Calma, rapaz. Me conta aí.
- Tem essa dor forte nas costas que depois vira um choque escroto na perna.
- Hiii...você disse choque escroto na perna?
- Pelo amor de Deus. Foi isso mesmo que eu disse. Choque escroto na perna. Por quê?
- Tá me parecendo hérnia.
- É grave?
- Eu tive um paciente com hérnia. Um dia ele tava atravessando a rua, a hérnia atacou, ele simplesmente travou, não conseguia mais andar...
- Sério?
- Ficou ali, parado no meio da rua...
- Que merda...
- Aí veio uma Fiorino e atropelou ele.
- CARALHO!
- Brincadeira...não veio carro nenhum.
- VÁ SE FUDER, DOUTOR!
- Falando sério. Hérnia, se não cuidar, o bicho pega. Vou pedir uma ressonância magnética pra ver o que você tem.
- Vamos nessa.

Pedir autorização do plano. Esperar autorização. Marcar exame. Dez dias depois, lá estava eu fazendo a ressonância. Me deram um short verde-bebê ridículo. O short ficou tão apertado que eu mal conseguia andar ou mesmo erguer a perna para subir na mesa. “O senhor tem mais de 120 kg?” – perguntou o viadinho da ressonância. Eu disse, “Vamos em frente, campeão. Eu tô no jogo”. Eeitei, e eles ligaram a máquina. Eu estava sendo engolido pelo aparelho. Praticamente entalado ali dentro. Depois veio o barulho imponente e ensurdecedor. No início, pensei que ia enlouquecer. Depois fui me acostumando. E comecei a me sentir bem. Lá fora estavam a conta do condomínio, a carteira vazia, a falta de perspectiva para um redator em Salvador, a hipocrisia, o cinismo, a tragédia, meus 34 e conta do plano. Não escutava nada além daquele barulho, nem uma nota de pagode. Há muito não me sentia tão vivo, como naquele instante. Eu poderia morar dentro daquela máquina.

Mais dois dias, depois um feriado prolongado na Bahia, o resultado ficou pronto. Liguei para o médico. Estava em um congresso lá na casa da porra. Esperei mais uma semana. Levei os exames.

- Pelo que tô vendo aqui, você vai poder atravessar a rua tranquilo.
- O senhor vai bem nas piadas, chefe. Mas o que é que tenho?
- Só uma protusão discal na L4-L5l.
- Ok. Que porra é protusão discal?
- Quase uma hérnia. Vai ter que fazer RPG e fisioterapia.
- Fala a verdade, eu vou ficar aleijado.
- Você precisa perder um pouco de peso, isso sim.

O plano não cobria as sessões de RPG e de fisioterapia ao mesmo tempo. Decidi fazer o RPG por ser novidade. Ainda não entendi direito do que se trata. Só sei que fico lá com as pernas penduradas pra cima, enquanto a doutora estica minha coluna. Por sinal, uma bela doutora. Passo a sessão toda concentrado para não peidar na cara dela. Bem, lá se foram as últimas semanas. Crianças cheias de vida brincando lá fora, enquanto por aqui eu seguia apodrecendo, perdendo a cor e forma. É a vida. O cronograma. Gordo, careca, semicego, especialista em crises de calculo renal, a caminho de uma hérnia de disco e deitado de lado vendo meu time levar na bunda na Libertadores de uma maneira ridícula. Alguém me mate, por favor.

31.3.12

O homem ricota

Geralmente só recebo putaria. Mas certa vez chegou esse email de uma estudante. Fazia jornalismo. Dizia que o Espalitando Dente era seu blog favorito e queria me entrevistar para um trabalho de faculdade. Sobre blogueiros de Salvador, uma coisa dessas. Levei dez dias para responder. Evitei ao máximo. Além da minha aversão a conhecer gente nova, no fundo, sabia que eu não tinha nada para falar, acrescentar, contribuir. Mas acabei caindo na velha armadilha da vaidade, de me achar importante e notório. Você sabe, como a maioria das pessoas que vemos por aí que, graças às redes sociais, viraram críticos sagazes de cinema, música, política, realidade social e humor brasileiro. Então respondi o email e passei meus contatos. Ela ligou e marcamos. A garota apareceu na agência por volta do meio-dia. Era nova. Um corpinho ótimo. Toda sorridente. Como sempre, eu não sabia como cumprimentá-la. Apertamos as mãos, trocamos beijinhos no rosto, depois a levei para um canto mais sossegado. “Se um dia você escrever sobre essa entrevista” – ela disse – “vai me chamar de putinha?” Eu disse “talvez”. Então ela apertou o gravador e vieram as perguntas. Perguntou sobre minhas influências, sobre a Lapinha, mulheres e outros blogueiros. Falei alguma coisa de Bukowski e Seinfeld, comentei que a Lapinha já foi um bom lugar pra se morar, que nunca fui o preferido das mulheres e que queria saber escrever como o Dewizqe e o Wiscow. “E todas aquelas histórias?” – ela disse – “sempre me perguntei se tudo aquilo foi verdade”. “Veja minha carreira como redator” – respondi – “Não tenho tanto talento pra criar”. Depois ela começou a ficar diferente. Parecia entediada. Distante. Como uma namorada comendo pipoca num estádio de futebol. Ela acendeu um cigarro e mandou outras perguntas, que já não lembro porque estava concentrado nos seus peitinhos. Depois ela colocou os óculos escuros, agradeceu o papo e nos despedimos com mais beijinhos no rosto. Nunca tive notícias sobre a tal entrevista.

De um modo geral, isso é o que sempre acontece. As pessoas descobrem que sou uma farsa. É um dos motivos pelos quais evito convites, encontros, reuniões e mesas de bar. Tem gente que acha que sou um cara bacana. Quando me conhece, vê que o show não é tão divertido. Outro dia, num bar, minha irmã me apresentou a uma amiga. A mulher disse que era fã dos meus textos, depois ficou lá sentada em minha frente.

- Cara, acho que você escreve umas coisas legais.
- Obrigado.
- E aí?
- E aí o quê?
- Aposto que você tá pensando em sacanagem.
- Também. Mas tô fazendo pensamento positivo pra não ter dor de barriga.
- Tá se sentindo mal?
- Eu tô bem. É que o banheiro aqui é apertado pra caralho.
- Ahh...
-...
-...

Então a mulher se levantou e foi embora. Quero dizer, se ela quisesse trepar, eu toparia. Não pensaria duas vezes. Mas eu não tinha nada pra dizer. É o efeito Bono. Uma puta habilidade de deixar o clima chato ou entediante. Quando escrevo, talvez as coisas pareçam mais leves, loucas e divertidas. Mas não sei lidar com as pessoas, não tenho assunto, nem sei mais contar piadas. Sou um cara sem cor, sem sabor, sem graça, essa é a verdade, como se eu fosse um pedaço de ricota.

Lembrei disso tudo porque um dia desses, a jornalista falou comigo numa dessas redes sociais. Perguntou se eu conhecia nomes criativos para o cu. Bem, não sei o que ela pretendia fazer com essa informação. Mas citei lá, rabicó, roscofe, brioco, fofinho, enrrugadinho, boga, boiote, máquina de fazer churros, cortador de charutos, buziguito, disco, tubi, caneco, rosca, frasco e ratioflay. Aproveitei e perguntei sobre a entrevista. E a putinha disse que depois daquele trabalho, ela perdeu a matéria.

18.3.12

A última vez que estive no Acapulco

Já dei minhas roçadas. Isso em outros tempos. Com 15, 16 anos. Ônibus cheio, e eu lá atochado no rabo das putinhas. Agora é mais complicado. Com meu tamanho e minha cara desfigurada, por mais que eu não tente nada, as mulheres me olham com ódio e repulsa, chamam por Deus e se espremem para que eu não encoste em suas bundas. Até entendo. Mesmo assim, naquela noite, ao passar por uma baixinha rabuda, fiz questão que ela sentisse a minha jonga alucinada. Dois pontos depois, desci do ônibus.

Era cedo. Mercado aberto, fila no acarajé e todo movimento do Acapulco. O Acapulco é um desses centros comerciais das antigas, que abriga açougues, chaveiros, barbearias e botecos do quinto mundo. Pensei em cortar o cabelo. Podia ser no Gil. Um barbeiro da nova geração, bom rapaz. O problema é que Gil às vezes enche o saco me pedindo para baixar músicas de bandas novas de rock. Fui parar na barbearia dos três coroas. Seu Valdo, Seu Zelito e Seu Ivanido. Estava tudo no lugar de sempre. O rádio AM, o pequeno ventilador e o cartaz A4 “Precisa-se de barbeiro. Procurar Valdo”, há 3 anos pendurado na parede. Só me assustei com a nova tabela de preço. O corte havia aumentado para 7 conto. Sentei na poltrona esfarrapada e disse, Seu Ivanildo, corta essa porra, que já voltaram a me chamar de Ed Motta.

O bom de cortar o cabelo é que por alguns instantes você pode pensar na vida. Mas depois resolvi parar de pensar. A maioria das pessoas que vejo por aí não cultivam esse hábito e andam se divertindo a beça. De qualquer forma, qualquer pensamento era destruído pelo som do Acapulco. De um lado, um pagode encardido. Do outro, um arrocha da moda. Se você se esforçasse, ainda escutava um Cauby Peixoto vindo de algum lugar por ali. Tudo misturado com o som das gargalhadas. Aquilo me fez lembrar que o Acapulco tinha história. Cheguei a lembrar de uma roda de dominó numa tarde de domingo. Eu e meu amigo Caju contra duas coroas que fumavam mais do que jogavam. Ganhamos fácil. Para pagar uma aposta, uma das coroas me levou até o sanitário apertado do bar, sentou no vaso e me bateu uma punheta. Voltamos para a mesa e continuamos jogando. Depois percebemos que algumas pedras estavam sujas de porra.

20 minutos e meu cabelo estava pronto. Entreguei o dinheiro a Seu Ivanildo, me despedi dos velhos e caí fora. Olhei a noite. Seguia bem. Resolvi dar uma volta no Acapulco. As mesmas paredes desbotadas, o chão molhado das goteiras, as rodas de dominó, o cheiro de sarapatel. Encontrei o boteco que tocava Cauby e parei no balcão. Para lembrar os velhos tempos, pedi uma batida de gengibre. Não estava tão boa. Então advinha quem apareceu? O Farias. Um coroa meio psicótico da barriga grande e classuda.

- Paulo Bono.
- Grande Farias.
- Quanto tempo.
- A vida não tá fácil.
- Não te vejo desde daquela partida que você ganhou de uma forma absurda.
- Quando foi isso?
- Aquela que você adivinhou o meu duque.
- Porra, faz tempo mesmo.
- Até hoje não sei como você adivinhou que eu tinha duque.
- Pois é, já tive sorte na vida.
- Acho que você roubou.
- Você é uma figura.
- Vamos jogar.
- O quê?
- Vamos jogar agora pra ver se você é bom mesmo. Você não é o esperto?
- É o seguinte, Farias. Mudei de religião. E a turma lá disse que o jogo é proibido.
- Mas pode beber?
- Gengibre é bom pra garganta.
- SEU GORDO LADRÃO!
- Ah, caralho...
- NINGUÉM JOGUE DOMINÓ COM ESSE GORDO NÃO, QUE ELE É LADRÃO!

Farias bateu no balcão e saiu. No boteco, todos seguiam suas vidas. Pessoas esgotadas, mas felizes. Rindo, tomando cerveja. Havia algumas mulheres. Já passadas, vencidas pelo tempo. Mas de grande valia em alguma noite de solidão. Quando já ia matando meu gengibre, advinha quem apareceu? Gil, o barbeiro rock’n roll.

- E aí, Paulão.
- Fala, Gil.
- Isso é talco em seu pescoço?
- Talco?
- Que porra é essa?

Cheguei a lembrar que o Seinfeld passou por uma situação parecida na série. Mas não lembrava como ele havia se safado.

- Você cortou o cabelo, Paulão? Você é traíra, caralho? Pensei que só cortasse comigo, porra! Pensei que você era parceiro. Você sabe que eu tenho a manha do seu cabelo. Eu conheço seu cabelo, porra! Que trairagem do caralho é essa?
- Foi bom te encontrar. Tô com um material da Janis.
- Janis Joplin?
- A mulher tá rasgando a garganta.
- Curto pra caralho a Janis Joplin.
- Pois é. Lembrei de você.
- Janis Joplin é pra ouvir muito louco.
- Depois eu trago pra você. Agora tá na minha hora.
- E tem mais o quê de novo?
- Não tenho nada de novo, Gil. Não sei nada de novo.

Então deixei uma nota no balcão, dei um tapinha nas costas de Gil e deixei o Acapulco. Pensei em pegar um acarajé, mas segui direto para casa.

29.2.12

4 séries de 200 estocadas

Quem diria? Lá estava eu. 115 quilos de pura merda matriculados na academia. Por quê? Não sei. Alguns escalam montanhas, outros pedem pizza de milho verde. A gente faz tanta coisa sem sentido. De qualquer forma, lá estava eu. Veio esse instrutor, cercado de putinhas e disse, “Meia hora de bicicleta, meia hora de esteira, quatro séries de vinte disso, quatro séries de vinte daquilo”. Passou uma caralhada de exercícios. Fingi entender tudo. O primeiro passo foi esquecer aquele papo de bicicleta. Bicicleta dói a bunda pra caralho. Procurei as esteiras. Cheguei a torcer para não encontrar nenhuma disponível. Assim podia desistir de daquela palhaçada e voltar para a casa mais cedo. Infelizmente, havia uma esteira vaga. Pra variar, eu não sabia como ligar aquela coisa. Passou um faxineiro com um balde d´água, e eu disse, “Chefe, como é que liga essa porra?”. O camarada ativou a esteira, e lá estava eu dando meus primeiros passos. Nada muito rápido. Só na manha.

No fim das contas, eu sabia que aquele não era o meu lugar. Podia apostar que devia ter gente ali dentro apontando, “Olha lá o gordinho, deve ter sofrido um infarto e tá correndo atrás do prejuízo” ou “Olha o gordinho, que bermudão ridículo”. Mas vamos em frente. Eu tinha uma boa visão do lugar. Uma academia como outra qualquer. Havia aquela turminha de marombeiros, falando alto, discutindo sobre carros e vitaminas, medindo os bíceps uns dos outros. Havia também as putinhas, é claro. Putinhas gostosas. A maioria com aquela cara de quem tem dificuldade de entender piadas. Mas estavam lá com seus corpinhos suados, shortinhos colados dividindo a xota, bundinhas que subiam e desciam. Volta e meia, uma delas passava por perto e inclinava seu rabinho para cair de boca no bebedouro. Já pensou? Bater uma punheta na esteira rolante?

Da esteira também eu conseguia ver uma dessas aulas de aeróbica, com aqueles degraus e tudo mais. Pra variar, tinha um viado na frente, mandando ver. Esses caras são os CDFs das academias. Fazem todos os exercícios corretamente e se sentem orgulhosos quando os professores pedem para eles irem adiantando a aula com os outros alunos. A aula de aeróbica, você sabe, era aquele TUM-TIS-TUM-TIS-TUM-TIS-TUM-TIS-TUM! Todo mundo animado, o professor sorrindo, gritando, erguendo os braços, mandando todos deixarem a preguiça de fora, “E UM! E DOIS! E TRÊS! E VAI! E UM! E DOIS! E TRÊS! E VAI!” Vai tomar no cu porra, com tanta energia. Me perguntava por que diabo tem que parecer idiota pra frequentar academia, por que caralho só se pode malhar com essa porra de TUM-TIS-TUM-TIS-TUM-TIS-TUM-TIS-TUM! Enquanto isso eu seguia na minha esteira, aumentando o volume para Everyboy Hurts no meu mp3 barato com um fone mais fudido ainda. As coisas estavam sob controle até acabar a aeróbica e começar uma aula chamada swing baiano. Não me pergunte que porra é essa. Só sei que tocaram um pagode e o CDF lá começou rebolar alucinadamente. Acabou minha paciência, desisti da esteira e deixei a sala.

Pensei em procurar o instrutor para repassar os exercícios. Mas sempre acho que estou atrapalhando esses caras. Eu também não gostaria de ser incomodado por um gordo, se eu estivesse cercado de putinhas. Então sentei no primeiro aparelho que vi pela frente. Um desses que você puxa o peso pra cima e pra baixo. Vamos lá. Quatro séries de vinte. Passou um coroa com uma toalhinha no ombro, um squeeze na mão e disse “VAMOS LÁ, GORDINHO!”. Pensei em mandar o coroa tomar no cu. Foi quando apareceu essa putinha e sentou bem na minha frente. Uma loira escrota do caralho com shortinho azul-claro colado no corpo. Eu tentava completar minha segunda série, quando essa puta começou a executar o aparelho, abrindo e fechando as pernas, revelando o que parecia ser a maior buceta do universo. Cheguei a pensar em botar o pau pra fora e bater uma ali mesmo. A putinha abria e fechava a perna, e o bucetão parecia ter vida própria. Vou dizer uma coisa, aquela buceta marombeira, musculosa e estúpida devia tomar anabolizante, ser campeã de muay thai e o caralho. Eu não conseguia parar de olhar. Aquele xoxotasso merecia quatro séries de duzentas estocadas. Mas sabia que eu não tinha chance. Gordos não têm a mínima chance com putinhas em academias. É meio que um paradoxo, é como um time pereba querer ganhar na casa do adversário. Então a putinha terminou e foi embora. Fiquei um tempo ali de pau duro, parado, perdido nas minhas séries de exercícios. Depois escutei, “NÃO PARA NÃO, GORDINHO! NÃO PARA NÃO! Acho que foi um bom começo. Então me levantei e caí fora. Antes de sair, ainda pude ver outra putinha jogando praticamente uma garrafa inteira de álcool para desinfetar o aparelho que eu estava sentado.

Isso foi ontem. Hoje estou aqui. Deitado na rede. Já olhei três vezes pela janela, me perguntando se vai chover. Se chover, não vou poder ir à academia. Talvez não precise. Hoje é quarta. Se eu for, posso perder o início do jogo. Flamengo e Boa Vista. Ainda teria que procurar um par de meias limpas. Acho que vai chover. Deixa lá. A gente faz tanta coisa sem sentido.

14.2.12

Notícias da guerra

Dia movimentado. Como qualquer pessoa mentalmente saudável, numa sexta-feira, eu fingia trabalhar. Checava emails, quando o celular tocou. Era minha velha. Aflita. “Já explodiram dois ônibus” – disse – “Cuidado, pelo amor de Deus!”. O celular tocou novamente. Minha irmã, que não costuma ligar. “Tão fazendo arrastão pela cidade toda!” – ela disse. Os policiais em greve conseguiram. A cidade estava um inferno. Policiais encapuzados fechando ruas, lojas invadidas pelo povo, galpões em chamas, arrastões, assassinatos. Também não se podia acreditar em tudo que diziam. Na verdade, não era possível distinguir policiais, assassinos, marginais, jornalistas, mensageiros de facebook e uma população faminta e oportunista. Bem, mas era o que todos queriam. Emoção. Assunto para falar. Para postar. Motivo para sair do trabalho mais cedo. Carnaval antecipado. Só não dava para prestigiar uma greve liderada por um filho da puta que dava entrevista vestindo uma camisa com a marca daquele jacarezinho escroto. Não sei nem se tem uma camisa dessas para o meu tamanho. De qualquer forma, eu já tinha minha vida, minha própria guerra.

Enfim, a agência também liberou mais cedo, peguei o busu e caí fora. Salvador estava um caos. Engarrafamento desgraçado na Rótula do Abacaxi. As pessoas no ônibus só falavam da greve. Não aguentei e desci do carro. Resolvi entrar no mercado, pelo menos para fazer hora. Caminhava pelo estacionamento quando apareceu esse cara de olhos esbugalhados e sem os dois braços. “É UM ASSALTO! É UM ASSALTO!” – ele berrava. Eu disse – “Vai fazer o quê, cara? Me morder?”. O cotó correu desesperado. Foi então que entendi que estavam assaltando o mercado. Antes que eu pudesse raciocinar, vieram dois tiros não sei de onde. Quem estava no estacionamento começou a se jogar no chão. Me joguei entre um Uno e outro carro lá que eu não conhecia. O celular tocou novamente. “Sr. Paulo, é sobre o seu débito com a Sky” – disseram do outro lado. Do lado de cá, eu disse “Vá tomar no cu”, e desliguei. Olhei para a outra fila de carros. Havia uma putinha executiva deitada no chão. Chorava. Cheguei a pensar em dar início à onda de estupros. Mas veio outro tiro. Então fiquei ali, deitado por algum tempo. Havia uma tampinha de cerveja embaixo do Uno. Comecei a pensar. Talvez fosse hora de trocar o plano do meu celular. De conta para pré-pago. É, Paulo Bono. Entrar pra turma que só fala em crédito de celular, que antes de ligar sempre pergunta qual a operadora. Ia dar uma boa economizada. Também me sentiria um pouco livre das putinhas burras de telemarketing das operadoras. Então a putinha executiva se levantou e notei que os tiros já haviam passado. Me levantei e não vi mais nada. As pessoas voltaram a caminhar normalmente, a pegar seus carrinhos e entrar no mercado. Desisti das compras e voltei andando para casa. Foi um dia movimentado e cansativo. Eu lembrava do escroto com a camisa do jacarezinho quando o celular tocou. Era meu velho amigo Kurtz, do outro lado do país.

- Bono, porra!
- Quanto tempo, capitão.
- Que é que tá acontecendo aí, caralho?
- Um terrorismo de merda...
- O nome disso é motim.
- Sei lá, acho que já é carnaval.
- O nome disso é motim.
- Que é que me conta?
- Tem que mandar descer os paraquedistas.
- Que paraquedistas, porra?
- Paraquedistas têm no mínimo 1,90m! Pra descer atirando.
- Acho que já acertaram um. Mas foi bala de borracha.
- De borracha, o caralho! Tem que ser bala de verdade!
- É uma boa tática.
- Paraquedistas, Bono! E viva o exército, porra!

30.1.12

Being Paulo Bono

A primeira coisa que me lembro é que eu tinha medo de cagar. Devia ter uns quatro, cinco anos. Sei lá, devia pensar que era algo errado, absurdo. Então me escondia embaixo da mesa ou atrás do sofá. Depois minha velha me encontrava, e eu estava lá, agachado, sujando as calças escondido. Mas não era bem isso que eu queria dizer. É que nesse tempo, além de um cabelo ridículo partido de lado, eu usava óculos terríveis, com hastes que davam a volta na orelha. Acho que chamavam aquilo de rabo de macaco. Para os óculos não caírem. O fato é que por causa desse cabelo e dessa porra desses óculos, meus primos não se aproximavam de mim, me achavam esquisito e com cara de imbecil. Não deixavam de ter razão.

Depois tem um flash em branco. E a próxima imagem que me vem à cabeça aconteceu alguns anos depois. Eu e um amigo pulamos o muro da vizinha para pegar uma bola. De repente, nos deparamos com a vizinha, a Dona Lia, só de calcinha lavando roupa no tanque. Um peitão da porra. Fecho os olhos e tenho toda a cena novamente. Dona Lia, com suas celulites e seu peitão escuro balançando no tanque. Deu a maior merda. Dona Lia fez um escândalo. Tempo depois, esse meu amigo pegaria tétano e passaria a ser chamado de Capenga. Mas aquela cena carnuda mudou a minha vida. Foi bem na época da Lapinha. Quando eu era mais um dos pivetes que dava pequenos golpes para roubar figurinhas na banca. Vivia cercado de gente feia e pobre. Gente que em sua maioria não tinha futuro algum, iria morrer ali mesmo, naquele inferno.

Bem, mas meus velhos me tiraram da ladeira. Mais ou menos na mesma época, se enforcaram e me colocaram em um colégio de rico. Não era o meu lugar. E era aquela coisa. Naquela idade, enquanto o problema mais grave de alguns era ter espinhas no rosto, eu era o novato gordo, e que morava na periferia. Nesse contexto, me vem na lembrança outra cena. Quando convidei essa garota para uma festa e ela topou. O nome era estranho, não lembro agora. Mas era linda, loira, corpo maravilhoso. Seria a minha redenção, minha vitória eterna. Mas chegando lá, a putinha me deu um beijinho, como quem concede um pedaço de brigadeiro. Depois foi se chupar com outro cara. Eu descobria a porra do meu papel no mundo. O de otário. O que talvez só servisse para contar piadas. Ou quem sabe, ser a própria piada.

Acho que o resto foi conseqüência. Espécie de efeito borboleta. Faculdade, trabalho, mulheres. Eu não estava nem lá nem cá. Como se eu tivesse ficado no meio do caminho. Estava no showroom, no grande palco, cercado de estrelas, mas continuava sendo o gordo da Lapinha de óculos rabo de macaco. Chega um tempo que você diz, foda-se. Passei eu mesmo a desprezar a todos. Enjoei das pessoas. Passei a recusar qualquer tipo de convite, encontro ou oportunidade. Recusei a fazer parte de qualquer fotografia dessa Bahia, terra de gente alegre e bonita.

Por que estou dizendo tudo isso? Não sei ao certo. Mas eu estava há dias sem conseguir escrever nada, nem um conto, nem uma historia. Nenhuma inspiração. Quando li uma entrevista com esse puta roteirista de cinema, o Charlie Kaufman. E ele disse que só escreve sobre o que conhece muito bem. Então ele só escreve sobre ele mesmo. De certa forma, acho que foi o que sempre tentei fazer. Mas vamos lá. O que mais posso dizer? Realmente palito os dentes onde quer que eu esteja. Não gosto de sair de casa. Por isso pago mais de 150 canais, mesmo assistindo 5 ou 6, no máximo. Não saio de casa porque sou preguiçoso e me irrito fácil. Ou porque irrito ou constranjo facilmente as pessoas. Discuto nas filas. Não consigo mais jogar futebol. Qualquer dor que sinto, penso que é câncer. Tenho uma série de tocs, entre eles desenrolar fios de telefone. Também me reservo o direito de não entrar no elevador com pessoas que apertam o botão errado para chamar o elevador. As mulheres ainda me desprezam. Continuo batendo minha punheta. Alguns me acham de otário. Alguns me chamam de ogro. E tem gente que acha que a coisa mais chata do mundo é eu estar vivo. Sinto saudade da Lapinha, sou um publicitário medíocre, me acho um merda, mas acho que meu gosto é superior na hora de falar sobre filmes. Comemoro feito um idiota quando meu time ganha. Mas dizem que fico bem melhor deprimido ou puto da vida. Mais realidade do que isso? É uma noite quente, estou tentando terminar esse negócio, e a filha da vizinha não para de chorar.