30.11.11

Os caras

A segunda-feira sempre chega. Mas não há nada de novo. Os jobs estavam lá sobre a mesa. A falta de perspectiva também. Já me chamaram até de pessimista. Mas eles não me dão motivo parar pensar de outra forma.

Pela manhã, conversei com esse amigo, o André, que também é redator. Desempregado, já cortaram sua luz, plano de saúde, e estão tentando também tomar seu carro. Pra piorar, seu garoto de nove caiu da escada, e tiveram que levar pra um hospital público. Quero dizer, uma emergência de um hospital público brasileiro. Diz André que ficou na merda. Não pelo garoto, que não foi nada grave. Mas pelo que viu na emergência. E quando perguntei sobre o futuro, André disse que se sentia em decadência, falou sobre o mercado baiano de propaganda e que precisava achar outra saída. O que de certa forma me deixou constrangido. Sempre acho que qualquer redator lá fora merece o meu lugar.

Tenho tentado cultivar essa coisa chamada paciência. Digo porque na hora do almoço, entrei no elevador e havia essa velha lá dentro.

- Boa tarde – disse a ela.
- É “bom dia” ou “boa tarde”?
- 12h40, acho que é “boa tarde”.
- Ah, pra mim é “bom dia”. Se eu não almocei ainda, pra mim é “bom dia”.
- Tudo bem – eu disse.

O elevador parou no sétimo e entrou essa putinha sorridente.

- Bom dia – a putinha disse.
- Tá vendo que não é só eu? – disse a velha.
- O quê? – disse a putinha.
- Ele disse que é “boa tarde”. Mas eu disse que eu não almocei ainda, então pra mim ainda é “bom dia”. Veja só, aí você entrou e disse “bom dia” também.
- É, acho que é bom dia – disse a putinha.

Cheguei a pensar em suicídio. Homicídio também. Antes estupraria a garota, é claro. Mas resolvi apenas me virar para o pequeno monitor de propaganda. Então paramos no primeiro andar, e entrou esse elemento engravatado, que não disse uma palavra.

- Moço – disse a velha – pro senhor é “bom dia” ou “boa tarde”?
- “Bom dia” – ele disse – eu ainda não almocei.
- AHH, TÁ VENDO QUE EU TÔ CERTA! – disse a velha me olhando com seu ar de vitória.

Puta que pariu, eu pensei. Não sei se pensei alto. Mas resolvi acreditar que a velha era invencível. Esperei o elevador abrir e segui minha vida. O que salvou o dia foi o Linha de Passe. Depois dos jogos do Flamengo, o melhor programa da televisão brasileira. Pelo menos para quem gosta de uma boa mesa redonda. Sem apresentadores estrelas, quadros idiotas ou convidados musicais que não fazem idéia do que seja um campeonato de pontos corridos. Digo, os caras conversam sério sobre futebol. Mas também não levam o futebol tão a sério. Sabem que existem outros lados. Metem o pau na Educação, na Saúde pública, cospem no tapetão do congresso, chutam os ovos do Ricardo Teixeira. Falam sem medo. Discordam entre si. Falam o que pensam, isso é o mais importante. Os caras sustentam a minha noite. E são capazes de rir e esquecer o tempo, simplesmente votando no gol mais bonito da rodada. Consigo me imaginar com esses caras sentados na porta da igreja da Lapinha, comendo acarajé e discutindo futebol. Eu e o Kfouri trocando ironias, Calazans e Guedes sentindo falta do Pelé, Trajano reclamando de tudo, e o monstro do PVC provando com números que estamos todos errados. E eu diria, não é que o sacana tem razão?

21.11.11

A puta de 30 conto

Era uma cidade perdida no meio do mato. Um desses fins de mundo onde você não tem outdoors, engarrafamentos, Sky, Passatempo recheado, sinal de celular, essas coisas. Mas aquela história que o cara da cidade grande come todas no interior nunca funcionou comigo, é claro. De modo que eu estava há dois dias naquele lugar e não havia lascado ninguém. Então perguntei ao vendedor de algodão-doce, e ele me garantiu a localização exata do puteiro.

Eles chamavam o lugar de Castelinho. De um lado, uma borracharia. Do outro, apenas mato. Não tinha uma lâmpada acesa do lado de fora. Mas era possível escutar alguma música tocando lá dentro. Havia também esse matuto de boné sentado em sua bicicleta, apoiando-se entre uma Kombi e o portão de entrada.

- E aí, campeão – eu disse – as meninas tão no serviço?
- Tão sim. Tu é de Salvador?
- Sou.
- Quer ovo?
- Ovo?
- 2 real, a dúzia. De galinha de quintal.
- Parece bom. Mas hoje só quero uma xotinha caipira.
- Então tá certo. Mas se tu quiser ovo, meu nome é Zé da Monark.
- Tudo bem, Zé.

Foi entrar no Castelinho e sentir o cheiro de buceta. As paredes estavam impregnadas com aquele cheiro. O lugar era escuro, mas consegui achar uma mesa no canto. Havia realmente pouquíssima luz, mas era possível ver do outro lado do bar um grupo de tabaréus apostando a vida numa mesa de sinuca. Incrível como esses caras do interior manjam de sinuca. De sinuca e fazer contas rápidas. Havia também um pequeno salão, e dois casais dançavam, juntinhos, uma versão brega do caralho de One, do U2. E apesar da música, eu conseguia escutar o choro de uma criança vindo de algum lugar daquele inferno. E claro, havia também as putas. Putas feias. Sentadas no colo da rapaziada, bebericando cerveja e rindo da vida na roça. Falando nisso, já que estava por ali, eu pensava seriamente em comer logo a dona do Castelinho. Sei lá, sempre achei que fuder a dona de um brega era como chegar à fase final e encarar o chefão. Então esse cara se aproximou. Alto, branco, pele avermelhada, quase careca. Parecia muito puto com a vida que Deus lhe reservou. E não sei dizer se era canhoto, mas ele não tinha o braço direito.

- VAI QUERER O QUÊ? – perguntou.
- Quem é a dona do puteiro?
- MINHA MÃE.
- Sua mãe?
- VAI QUERER O QUÊ?
- Vodka.
- SÓ TEM CACHAÇA.
- Serve.
- MAS ALGUMA COISA?
- Desculpa perguntar, mas sua mãe parece com você?
- PARECE.
- Então me vê só a cachaça.

Logo, o herdeiro do castelo trouxe meu copinho.

- Cara, acho que tem alguma criança chorando por aí – eu disse.
- É MEU FILHO.
- Então tá em casa...
- MAS ALGUMA COISA?
- Tudo certo, chefe.

E lá se foi o paizão. Dei o primeiro trago e fiquei ali tentando lembrar como a vida me trouxe até aquela mesa. A propaganda que me chutou a bunda. A minha falta de adequação. Falta de grana. Os anos que passavam. Os cabelos que caíam. A falta de algum futuro. A vida encolhendo e se escondendo no meio do mato. Então dei mais um trago e esqueci os pensamentos. Foi quando notei aquela puta sentadinha no fim do balcão. Ao contrário das outras putas, estava sozinha, não bebia, não ria. Só estava ali, no escuro. Esquecida. E foi essa porra dessa mania de me identificar com os desprezados que me fez levantar e me aproximar do balcão. Morena. Cabelos longos. Corpinho no ponto. Era comível, a puta.

- Qual o seu nome?
- Arlene.
- Já deu a buceta hoje, Arlene?
- Não.
- Por que tá sozinha?
- Você também tava sozinho.
- Ok. Qual o preço?
- 40.
- 40??
- Faço por 30. Mas sem cu.
- O que você faz por 30 conto?
- Chupo, dou o xibiu, faço ver estrelas.
- É tudo que eu preciso.

Arlene me puxou pela mão e me levou por um corredor sem fim, onde você só escutava as putas levando nabo e o choro estridente do filhinho do Canhota. O quarto era escuro. Só tinha a cama e uma cortina na janela. Arlene sentou, pegou meu pau e começou a chupar. Mas a coitada não tinha classe. Algo não funcionava. Pedi um tempo, corri pra janela, mas vomitei na cortina. Foi quando bateram na porta. Bateram forte. Abri e era o Canhota. Com um braço só, aquele escroto fazia um barulho desgraçado.

- Vai me dizer que Arlene é sua irmã? – eu disse.
- TERMINOU?
- Como assim, caralho?
- O NEGÓCIO É RÁPIDO. TEM MAIS GENTE QUERENDO O QUARTO.
- Tá de sacanagem, canhota?
- ANDA LOGO. E NADA DE BATER NA MOÇA.
- Você que manda.  

Fechei a porta. Voltei pra Arlene. Mandei ela ficar de quatro, botei a camisinha e meti. Quer dizer, acho que meti. Ou meti no meio das pernas, sei lá, a porra era folgada, meu pau pequeno demais, só sei que eu não sentia as paredes, nenhum tipo de atrito. Foi me dando uma suadeira. E o suor ardia nos olhos. Foi uma luta, uma caçada, foi a batalha do século, mas consegui gozar. Então Arlene se levantou, acendeu a luz, se vestiu e ajeitou o cabelo. Foi nessa hora que peguei um lance estranho. Parecia que Arlene não tinha um olho. Ou era um olho de vidro. Ou era uma mancha branca. Sei lá que diabo era. E sem querer, deixei soltar um “puta que pariu!”.

- Que foi? – Arlene disse.
- Ham?
- É meu olho?
- Que olho?
- Tu se incomodou com meu olho?
- Não entendi. Que é que tem seu olho?
- TU JÁ SE OLHOU NO ESPELHO?
- Não tem nada demais no seu olho.
- TU TAMBÉM É FEIO!
- Arlene...
- TU É GORDO!
- Tá vendo esse olho aqui? Eu também não enxergo desse olho...
- TU É GORDO!
- Sério, não enxergo porra nenhuma...
- TU É FEIO QUE NEM A BEXIGA!
- Ceguinho, ceguinho...
- TU É FEIO COMO A DOR DA MORTE!
- A gente não precisa disso, Arlene. Vamos ficar numa boa. Olha, vou te dar 50. Você merece. Você é linda, Arlene. Você é linda.

Arlene sorriu na mesma hora que escutamos o bracinho pesado do Canhota bater na porta. Fizemos as pazes. Enfim, foi uma boa noite. Deixei o Castelinho e voltei pro meu quarto. Fazia uma lua bonita. Fiquei ali imaginando. Quem sabe eu podia abandonar tudo, morar naquela cidade perdida, casar com Arlene, montar uma mercearia bacana. Esquecer a cidade que me esquecia. Já pensou uma vida sem fila pra entrar em elevadores? Deixei pra lá. Precisava descansar um pouco. O ônibus saía às 6h. Botei o relógio pra 5h45 e fechei os olhos. A rodoviária ficava do ladinho da pousada.