31.10.11

Vencidinho

Só saí de casa hoje porque a geladeira estava vazia. Não fui longe. Apenas caminhei pelo bairro, o que para mim já é doloroso o bastante. Por aqui, as pessoas escutam pagode no volume máximo. Feirantes e freguesas também negociam no volume máximo. Não consigo resistir muito tempo. Então parei logo no vencidinho. Um cara que fica lá com um tabuleiro e umas caixas de produtos prestes a vencer pela metade do preço ou até 80% mais barato. Vez em quando rola coisas legais como Toddyinho, iogurte, pizza Sadia, essas coisas. Sei lá como esse escroto consegue essas mercadorias. Provavelmente algum esquema de carga roubada ou coisa assim. Dessa vez, tinha esses sanduíches Hot Pocket. Peguei dois. Seria meu almoço e minha janta. Bem, não são lá essas maravilhas, mas no supermercado eles vendem um Hot Pocket por 5 conto. E eu paguei 2 por 3 reais no vencidinho. Só porque venceriam amanhã. Digo, depois de amanhã não serviria mais. Sei muito bem o que é isso. Acho que também venho perdendo minha validade. Aliás, sempre foi assim. Volta e meia, uma pequena dose do mundo vinha e dizia, “Ei, cara, já não preciso mais de você”. Foi mais ou menos assim que perdi alguns amigos, que encontraram outros amigos. Perdi também mulheres que, sei lá, me trocaram por outro homem com um pau maior. E certa vez, um amigo disse, “Se prepara, Bono. Depois dos 30, redator é só decadência. Os caras gostam da garotada”. Bem, já estou com 34. Descendo a ladeira. Talvez o baque não seja tão grande porque meus títulos sempre foram perecíveis. Ok, nem sempre fui vitima. Já joguei muita coisa e muita gente na lixeira também. Então você pode dizer, pois é, todos nós temos um tempo de vida útil. Verdade. De qualquer forma, quando me olho no espelho e vejo minha cara vencida, deteriorada e fora do lugar, penso que a minha vida sempre foi um grande desperdício e uma enorme perda de tempo. E ao contrário do que os famosos falam nas entrevistas de TV, me arrependo de quase tudo. Faria quase tudo diferente. Esse blog acaba de completar 5 anos. Deve estar no tabuleiro do vencidinho também. Não digo que vence amanhã. Mas antes eu escrevia com mais vontade, mais leveza. Sei lá, tenho andado sem tempo, sem gás. Talvez outro dia eu escreva uma história mais divertida e escrota. Hoje vou parar por aqui. Agora vou deitar e ficar lá zapeando aquela caralhada de canais, sem encontrar nada de interessante e matando o tempo que eu não tenho.  

15.10.11

Duas fodas

Eu não vivo. Simplesmente me acomodo. Talvez por isso tenha passado tanto tempo com Regina. Regina era advogada e acreditava que isso significava alguma coisa. Ela também só gostava de freqüentar os motéis mais caros. Nesse dia, era algo como dois anos de namoro. E Regina escolheu essa puta suíte. Já que aquelas três horas não seriam baratas, eu queria fuder. Mas Regina não queria que eu a chupasse, porque sentia cócegas. Não podia ser de quatro porque doía. Não queria na piscina para não molhar o cabelo. De ladinho não dava, porque, sei lá, a lua era minguante. Fomos no velho papai e mamãe. Ela abriu as pernas e eu meti. Talvez Regina também estivesse de saco cheio de mim. O certo é que eu não estava sozinho na solidão daquele sexo. Seco. Pragmático. Eu metia e ela gemia na hora certa. Eu metia e percebia o tamanho da minha barriga. Eu metia e pensava, porra, o jogo do Flamengo é hoje ou amanhã? Interrompi meus pensamentos com vontade de mijar. Então acelerei as metidas até gozar. Aliás, eu não gozava. Simplesmente sujava Regina. Depois fui dar minha prazerosa mijada. Regina passou por mim, falou alguma coisa sobre jantar e entrou no chuveiro. Entrei na piscina. Recostei a cabeça na borda. E comecei a bater uma bronha de leve, tentando lembrar algo excitante. Foi quando que me lembrei de Aline.

Aline trabalhava no caixa de uma farmácia no centro da cidade. Não tivemos nada sério. Saímos poucas vezes. Ela era divertida, espontânea. Só queria fuder, de vez em quando. Como naquela noite. Encontramos um quarto no Love Story. Em meio ao fim do expediente dos camelôs na Rua Carlos Gomes. Não houve preliminares. Houve putaria. Chupa aqui, chupa ali, uma pirraça ou outra, risos, Aline gostava que eu lhe batesse uma siririca com a cabeça do pau, essas coisas. Depois meti de quatro. Primeiro, devagar. E ela fazendo miséria com aquele rabo. Depois comecei a bombar. Eu metia com força e Aline olhava para trás misturando dor com um riso safado. Eu metia e me sentia o rei daquela bunda. Comecei a socar o pau lá dentro. Com força, estupidez e fome. Aquilo pegava fogo. Ela berrava, xingava, chacoalhava o corpo. Pura insanidade. Uma foda assassina. Daquelas que se escuta pelas paredes finas dos motéis baratos. Uma homenagem a todos os estupradores da história. Não sou chegado à poesia, mas fuder é dar amor a uma buceta, e naquela noite eu amei a buceta de Aline. Amei imensamente.

Mas voltando à Regina. Quando ela saiu do banheiro, eu já havia largado minha porra na água da piscina. Ela procurava seus brincos.

- Tô morrendo de fome – ela disse
- Vamos no Oliveira.
- Chega de pizza. Queria uma coisa diferente.
- O quê?
- Vamos no Chez Bernard.
- Como é o nome?
- Chez Bernard.

Bem, eu não fazia idéia do que estava comendo. Mas o lugar tinha uma bela vista. Sabia que era caro. Mas Regina estava pagando. Nunca me importei com isso. Ela tentava me ensinar algumas coisas sobre o prato. O pior é que eu não conseguia mais ser engraçado para Regina. Esse é um momento crítico numa relação. Faltava graça naquela mesa. Então ela mudou de assunto e começou a falar da carreira. Que sua irmã havia se dado bem nos concursos públicos, que pensava em fazer um desses cursinhos especializados e mais alguma coisa que não prestei a mínima cota educada de atenção porque, por uns instantes, comecei a lembrar da última cena daquela noite com Aline no centro da cidade. Quando caminhamos até à Estação da Lapa e paramos para comer hambúrguer com sucão de laranja. Coisa de 2 reais. Aline com o olho vermelho porque eu havia gozado na sua cara, rindo e contando histórias engraçadas dos clientes da farmácia.

- Desculpa pelo olho – eu disse
- Eu devia jogar esse catchup picante no seu olho.
- Sério. Me sinto culpado pra caralho quando isso acontece.
- Só desculpo se você me pagar outro hambúrguer.
- Claro, vou querer outro também. Só não gostei do suco.
- Também achei azedo.