25.9.11

Freddy, Jason e o donzelo

Dizem que é infalível. Basta tocar violão que você pega uma putinha. Só que isso nunca funcionou comigo. Certa vez, eu estava passando o fim de semana na casa desse primo, o Rubão. Num desses condomínios chiques, de casas bacanas, jardins, piscinas e tudo mais. E os amigos de Rubão sabiam como matar o tempo. Nessa noite, ficamos apenas encostados na porta desse tal Roni Cabeça. Alguns enchendo a cara, outros fumando um baseado, outros se chupando dentro dos carros. Bem, eu queria me enturmar e também perder a virgindade. Então peguei o violão e arrisquei alguma coisa. Nada demais. Só algumas de três acordes que a gente aprendia nas revistinhas. Primeiro, cheguei nessa ruivinha chamada Lari e mandei uma boa da Legião.

- Legião é um porre – ela disse –, um bando de viadinhos do bem!

Depois teve essa Zuzu. Sentada no gramado da calçada. Cara de porra-louca. Diziam que era toda avançadinha. Devia fuder. Joguei uma do Cazuza. E no meio da música, a puta vomitou na minha frente. Dei um tempo, sentei embaixo de uma árvore e dedilhei alguma coisa. Essa Rafa sentou ao meu lado. Senti a possibilidade. Era minha chance. Rafa tinha cara de sensível e bobinha. Tentei adivinhar e mandei uma do Kid Abelha.

- Adoro essa música – ela disse.
- Sabia que você ia gostar.
- Sério, acho que é a música da minha vida.
- Eu podia fazer uma música inteirinha sobre sua boca, o que acha?
- Sério?
- Ou eu podia dar um beijo em sua boca que valeria um disco inteiro do Kid Abelha.
- Ah, Paulo. Bem que Rubão disse. Você é inteligente, engraçado, mas sabe, é que você é...gordo. Desculpa, não vai dar.

A desgraçada se levantou antes que eu pudesse quebrar o violão na sua cabeça. A noite seguia. Rubão investia numa baixinha que ele era apaixonado. E eu continuava donzelo. Fiquei ali apenas dedilhando a viola e observando aquela turma. Matando suas cervejas, detonando sua maconha. Todos felizes. Com suas mesadas anualmente reajustadas. Mas eu só tinha ódio de Rafa. Foi nessa hora que bateu a vontade de cagar. Logo de início, senti que o negócio era sério. O problema é que minutos antes o Roni Cabeça entrou em sua casa para fazer alguns capetas e avisou que ninguém entrasse, pois os cachorros estavam soltos. Mas eu não tinha muito tempo. A parada veio com tudo. Estrondou tudo lá dentro. Era merda mole. Em questão de segundos eu só tinha duas opções. Ou cagar ou morrer. Foi quando esse cara, o Tonico, se aproximou completamente chapado.

- Sabe tocar aquela do Guns?
- O QUÊ?
- Aquela do assobio...
- Que porra de assobio?
- Aquela assim, naaaaaaannn nanann nanananaaaaann, nanan nan.....
- SEGURA ESSA PORRA, QUE EU PRECISO CAGAR!

Joguei a viola na mão de Tonico e corri pra casa do Roni Cabeça. Empurrei o portão e encontrei Roni Cabeça voltando com um copo de liquidificador cheio de capeta.

- TÁ MALUCO, GORDO? FREDDY E JASON TÃO SOLTOS!
-FODAM-SE FREDDY E JASON! ONDE É QUE TEM UM BANHEIRO, CARALHO?
- VAI NAQUELA PORTA AMARELA!

Corri, atravessei o jardim, entrei no banheiro, baixei a bermuda e larguei. Muita merda. Um jato mole e fedido. Mas um grande alívio. Morra, Rafa. Foda-se, Paula Toller. Deus salve o nosso sagrado direito de cagar em paz. E só quando saiu a última gota, notei que não havia papel. Pensei em me limpar com a cueca e escondê-la na lixeira. Mas também não havia lixeira. Nem pensei mais. Abri a torneira da pia, levantei o bundão e tome-lhe água. Splash, splash, splash e água amarronzada descendo pelo ralo. Cheguei a rir só de imaginar a mãe do Roni Cabeça lavando o rosto naquela pia cheirosa. Então abri a porta do banheiro e fiz o caminho de volta no jardim. Quando vi os mensageiros da morte: Freddy e Jason. Dois rottweilers cheios de baba na boca e ódio no coração. E quando eles vieram, só tive uma chance. Pulei na piscina. Freddy e Jason ficaram ali, latindo e babando na borda.

- VÃO TOMAR NO CU, SEUS MERDA!

Bem, se aqueles diabos pulassem, eu estaria perdido. Você sabe, gordos não conseguem sair facilmente pela borda de uma piscina. Gritei por socorro pra ver se alguém lá fora ou dentro da casa me ouvia. Nada. Nessa hora, notei um rolo de papel higiênico em cima de uma mesa da piscina. E quando um dos dois, ou Freddy ou Jason, já passava a patinha pra ver se água estava fria, Roni Cabeça apareceu com seu copo de liquidificador vazio.

- TÁ FAZENDO O QUE AÍ, GODO?
- NADA DEMAIS. SÓ ESSES PORRAS QUE TENTARAM ME MATAR!
- PULAR NA PISCINA É SACANAGEM! MINHA MÃE VAI PIRAR!
- E QUE PORRA AQUELE PAPEL HIGIÊNICO TÁ FAZENDO EM CIMA DA MESA?

Então Roni Cabeça segurou Freddy e Jason. E voltei lá pra fora. Todo ensopado. Rubão parecia ter se dado bem com a baixinha. E a puta da Rafa também se roçava com um cabeludo embaixo da árvore. É isso, atravessei a adolescência com dois objetivos. Sobreviver. E conseguir uma buceta. Bem, eu estava vivo. Só que mais uma vez voltava sozinho pra casa. Depois disso, tentei ainda teclado, gaita e acordeom. Mas também não adiantou nada.

4.9.11

Menos um

Dois tiros na cabeça. E Anísio saiu do jogo. Amigo dos tempos de escola. Outro dia até nos reencontramos num desses eventos de ex-alunos. Disse que havia montado uma pequena loja de autopeças, estava se saindo bem. Não entendi direito, mas parece que Anísio anunciou uma moto nos classificados, e um cara ligou demonstrando interesse. Então esse cara apareceu na loja e pediu pra testar a moto. Anísio disse, tudo bem, e subiu no carona. Três quarteirões depois, apareceu um comparsa do cara e pegou Anísio em cheio. Dois tiros. Muita gente no enterro. Aquilo de sempre. A mãe chorou pra caralho, esposa, professoras, me lembrei dos tempos de escola. Fiquei na merda.

No caminho de volta, passei no supermercado. Precisava comprar mantimentos. Por um instante, tive a estranha sensação de que não era a primeira vez que eu passava num supermercado depois de um enterro. Não entendi o que isso poderia dizer, e deixei pra lá. Peguei biscoitos, pão, salsicha, papel higiênico. Estava nos sabonetes quando vi essa putinha promotora. Conversava com uma amiga, mas olhava pra mim. Bem, não era tão bonita. Mas qualquer mulher parece gostosa naquela calça colada que as promotoras vestem, você sabe, como qualquer uma também parece tesuda sentada na garupa de uma moto. A putinha me deu umas duas encaradas. Não alimentei esperanças. Não devia ser nada. Como sempre. Depois passei por uma dessas putinhas demonstradoras. Oferecia torradinhas aos clientes. Essa turma me vê e sempre acha que vou querer degustar qualquer coisa. Recusei e cheguei ao freezer de hambúrgueres prontos, bem próximo à putinha demonstradora. Um garoto de uns seis anos devorava as torradinhas, e gritava com a mãe que queria mais e mais. A mãe tentou falar baixo, mas pude ouvir ela dizer, “Você quer ficar gordão igual àquele homem? Então não pode comer mais torradinha!”. Guri escroto. Aprendeu uma lição. Peguei ainda iogurtes e uns Toddynhos. Resolvi passar mais uma vez no corredor da putinha promotora. Conversava com uma cliente. Voltou a me dar uma encarada. Levei o carrinho devagar, encostei numa prateleira, fingi procurar por algo. Olhei novamente. Ela deu um sorriso. Se aquela putinha estivesse mesmo me paquerando, seria um fato inédito na minha vida. Não conseguia nem conceber a remota possibilidade de uma mulher estranha acordar um belo dia e resolver paquerar um gordo no corredor de um supermercado. Aquilo só podia ser uma ação promocional. Só sei que a putinha continuava me encarando. E comer aquela promotora poderia me ajudar a esquecer o lance de Anísio. A putinha se aproximou, eu já tava de pau duro, então ela sorriu e disse,“Boa tarde, o senhor já conhece o Pantene Pro-V Controle de Queda?”. Maldita mania de ter esperança. Eu disse apenas, não, e segui meu caminho. A fila do caixa estava grande. Atrás de mim duas mulheres especulavam sobre o final da novela das oito. Na minha frente, havia esses caras falando de futebol, dizendo que o time do Bahia era roubado em todos os jogos. Eu estava cansado daquilo tudo. A fila realmente não andava. Resisti apenas cinco minutos. Larguei as compras e fui pra casa.

Subi as escadas e abri a porta pensando nisso, que você começa cercado de pessoas. Gente por todos os lados. Aos poucos vão desaparecendo. Uns mudam de cidade, outros casam, outros morrem de câncer no cu, outros levam tiro, outros você não fazem idéia, outros apenas deixam recados no Facebook. É muito sutil. Um a um. Você percebe sem querer. Menos um amigo, menos outro amigo, menos um ídolo, menos um pai, menos um avô, menos um amor, menos um cachorro, menos um vizinho, menos um conhecido, menos outro amigo, menos um, menos um, menos um. Como se restasse apenas você. E quando me perguntava onde essa turma toda foi parar, descobri que a felicidade é um resto de yakisoba no fundo da geladeira.