13.5.11

Sem título

Eu precisava espalhar mais algumas tomadas pela casa. Então chamei esse eletricista, Seu Raimundo. Acontece que o velho só chegou depois das onze. De qualquer forma, expliquei onde ficariam as novas tomadas e saí para resolver outras coisas. Cortar o cabelo, comprar a comida do peixe, passar no mercado e na casa lotérica. Mas o atraso de Seu Raimundo me fez perder praticamente toda a manhã. Parece que esses caras, pedreiros, pintores, eletricistas, encanadores, têm problema com horários. É universal. Bem, toda classe tem seu câncer, sua pose.

Outro dia mostrei a uma amiga um comercial que escrevi, um puta comercial com atriz famosa e tudo, e ela disse que achou bem normal. Foi como um chute no saco. Teve também o dia que mostrei a minha mãe um anúncio que ajudei a criar e que saiu numa grande revista. Era um anúncio legal, tinha conceito, essas coisas. E ela perguntou se eu só tinha escrito aquela frasezinha lá em cima. Me senti um merda. Oh, Senhor, minha mãe não sabia como era difícil escrever, pensar, criar um título. Não fazia idéia de como um bom título podia salvar o mundo. E assim a vida segue. Gente por aí salvando vidas, procurando a cura da AIDS, construindo arranha-céus, restaurando livros, pintando quadros, colando tijolos, varrendo a cidade, enquanto a gente fica tuitando por aí que já passa das nove e ainda estamos na agência, fechando anúncio e comendo pizza. Isso para dizer que nossa barra é pesada, mas claro, também para compartilhar com os amigos como somos criativos e trabalhamos com TV, modelos, atrizes, jingles e outdoors. Por Deus, chegamos a ser pegajosos. A verdade é que minha mãe e o mundo, exceto nós mesmos, estão cagando para aquele anúncio premiado. Pelo menos nunca comi ninguém por dizer que sou publicitário. Além do mais, criamos o que o cliente deseja vender e o consumidor precisa entender. O que há de genial nisso? Se amo minha profissão? É o que eu sempre quis fazer. Mas vou dizer uma coisa, é um só trabalho, cara. Só um trabalho, como outro qualquer, que pede um descanso aos sábados e domingos.

Por falar nisso, não deu tempo de cortar o cabelo, mas pelo menos Seu Raimundo eletricista terminou o serviço. Dei uma conferida e disse:

- Tenho impressão que aquela tomada tá torta.
- É só impressão – disse Seu Raimundo
- Tudo bem. Agora me diga uma coisa, o senhor ama seu trabalho?
- Que jeito? Tenho que pagar as contas.

Pobre Seu Raimundo. Será que alguém ia curtir se ele dissesse lá no Facebook “Sábado de sol, e eu aqui colocando tomadas na casa de um gordo maldito!”? No mais, já passa da meia noite, não achei um título criativo pra esse texto e não consigo dormir olhando para aquela tomada torta.