27.4.11

Os vermes do pântano

Eles voltaram a reprisar Seinfeld nas noites de sexta. Então eu estava lá, acompanhando um episódio dos bons, aquele que eles apostam quem consegue ficar mais tempo sem bater uma punheta. Quando o telefone tocou.

- Alô?
- Bono, é o Pará.
- Diga, índio.
- Preciso de erva.
- Acontece que eu não fumo.
- Eu sei. É que a massa tá em falta. Tô ligando pra todo mundo.
- Cara, eu tô assistindo Seinfeld.
- Porra de Seinfeld! Não conhece ninguém pra me arranjar uma lenha? A patota da Lapinha? Do Queimadinho? Os ciganos? Os duendes de Brotas? Cadê a turma do mato? Dos bueiros? Cadê os vermes do pântano?
- Por que você não planta sua porra?
- E aquele cara, o Miro?
- Tá em cana.
- E o Procóia?
- Overdose.
- O Gangrena?
- Virou evangélico.
- E aquele maluco, do show de Otto?
- Valdemort?
- Isso.
- Bem, talvez ele possa te ajudar. O problema é que ele é meio cismado.
- Cismado de cu é rola. Vamos lá.

Conheci o Pará numa pequena roda de palitinho à cachaça. Parecia aquele cara do filme Um Morto muito Louco. Seu lema é viver até a última ponta. Bem, não deixa de ser uma boa filosofia.

Liguei para o Valdemort e falei do que se tratava. Meia hora depois, Pará e eu estávamos pelas bandas de Itinga, mais precisamente batendo na porta de Valdemort.

- Haja o que houver, não fique encarando ele – eu disse.
- Encarando como?

A esposa de Valdemort nos recebeu e disse para que esperássemos na sala. Havia esse garoto de uns 10 anos jogando vídeo-game. Ele parou de jogar e ficou olhando para as nossas caras de merda.

- Tá jogando o quê, campeão? – Pará disse ao garoto.
- Você também quer o cigarro de meu pai?
- O quê?
- Meu pai não deixa eu pegar o cigarro dele.
- Quantos anos você tem, guri? – perguntei.
- Ele disse que quando eu crescer, eu vou comprar o meu.

Então Valdemort apareceu com seus olhos alucinados e mandou o garoto ir para o quarto. Fiz as apresentações. O negócio tinha que ser rápido.

- Tenho boldo, açúcar, docinho, drops, o que você quiser – disse Valdemort.
- Hoje vou ficar só orégano – disse Pará.
- Que porra vocês tão falando? – eu disse.
- Então você é do Pará? – disse Valdemort – Torce pra quem, Caprichoso ou Garantido?
- Isso é Amazônia. Sou de Belém. Não tem nada a ver uma coisa com a outra.
- Você tá me encarando? – perguntou Valdemort
- Como assim?
- NÃO GOSTO DE HOMEM ME ENCARANDO! – disse Valdemort se levantando.
- Puta merda – eu disse.
- Eu não tô encarando ninguém. Só quero um pouco de lenha.
- VÁ PROCURAR UMA LENHA PRA SENTAR EM BELÉM, NO ACRE, NA CASA DO CARALHO!
- Calma, Valdemort – eu disse.
- BONO, LEVE SEU AMIGO DAQUI! VOCÊ SABE QUE EU TENHO UMA ARMA! EU TENHO UMA ARMA, VOCÊ SABE DISSO!

Logo depois, Pará e eu já estávamos fazendo o caminho de volta.

- Você também ficou encarando o cara – eu disse.
- Encarando como, porra?
- E aquele guri?
- É pra falar com ele olhando pra parede? Maluco dos infernos.
- O guri é um vermezinho.
- Preciso urgente de um beck...
- Eu também pensava que aquele negócio do boi garantido era no Pará.
- Amazonas.
- Sei lá, tudo a mesma coisa.
- Mesma coisa, a minha pica.

10.4.11

As loucuras do Dr. Rubens

Eu havia acabado de inventar esse negócio de escrever um blog. É aquela coisa, quando se está desempregado, você precisa inventar algumas pílulas para não enlouquecer. De qualquer forma, eu estava lá, encarando a tela em branco do computador, tentando me lembrar de alguma história, mas não conseguia digitar duas linhas que valessem à pena. Foi quando bateram na porta. Fui atender. Era Seu Rubens.

- Fósforos, Seu Rubens? – perguntei.
- CADÊ ROSÁLIA?
- Não faço a menor idéia, Seu Rubens. Já procurou em sua cozinha?
- CADÊ ROSÁLIA, MINHA ESPOSA AMADA?
- Eu tô ocupado agora, Seu Rubens. Se quiser, eu tenho fósforos.
- EU SEI QUE ELA TÁ AÍ DENTRO, SEU SAFADO! CADÊ ROSÁLIA!?!?

Para entender esta cena, preciso primeiro contar a história de Seu Rubens. Eu conhecia o velho há mais de 20 anos. Naquela época era um advogado sério, cheio de estilo. Andava por aí com sua pasta e sua gravata. Até que um dia, Seu Rubens subiu na sacada de um prédio e disse que estava a fim de pular. Gritava alguma coisa sobre leis, carros e prostitutas, e queria acabar com tudo. Não lembro quem foi, mas algum mensageiro da paz tirou Seu Rubens lá de cima. Tempo depois, disseram que o problema não eram as putas, o caso é que Seu Rubens sofria de esquizofrenia. Bem, já havia me deparado com um desses tipos antes, nos tempos da Lapinha, o Fred Maluco. O cara simplesmente desenhava submarinos enormes na parede, cheios de equações matemáticas de trás para frente. E fazia discursos ensandecidos, chegava a mencionar a bomba atômica. Porra, eu me cagava de medo do Fred Maluco. Mas Seu Rubens era diferente. Ficava apenas andando por aí, detonando carteiras de cigarro e pedindo dinheiro para comprar sorvete ou Coca-Cola. De vez em quando dava alguns ataques, se por acaso se esquecesse de tomar os remédios. Já vi Seu Rubens quebrar o balcão de uma farmácia, rolar uma ladeira metendo a porra num traveco, jogar sua aposentadoria pela janela, vender suas cuecas para outro doido, chorar feito criança por causa de um gato, dar um soco num vira-lata e tentar pular de um prédio pelo menos mais duas vezes. E certa vez, Seu Rubens baixou as calças na frente de duas beatas evangélicas, afirmando que seu pau estava possuído. No mais, o velho era amigo de todos no bairro. Ele também tinha mania de bater nas portas para pedir fósforos. Mas não era o caso dessa vez. - Fósforos, Seu Rubens? – perguntei.

- CADÊ ROSÁLIA?
- Não faço a menor idéia, Seu Rubens. Já procurou em sua cozinha?
- CADÊ ROSÁLIA, MINHA ESPOSA AMADA?
- Eu tô ocupado agora, Seu Rubens. Se quiser, eu tenho fósforos.
- EU SEI QUE ELA TÁ AÍ DENTRO, SEU SAFADO! CADÊ ROSÁLIA!?!?
- O senhor tomou seu remédio?
- VOCÊ TÁ COMENDO ROSÁLIA, PAULO? VOCÊ TÁ COMENDO ROSÁLIA?
- Um amigo não come a mulher do outro, Seu Rubens. Esqueceu?
- COMO É QUE VOCÊ FAZ ISSO COMIGO? NÃO COMA ROSÁLIA NÃO!
- Fique tranquilo. Ela deve ter ido no mercado.
- TENHA CONSCIÊNCIA! TENHA CONSCIÊNCIA! EU SOU DOENTE!
- Ou então ela fugiu com o chinês, Seu Rubens.
- CHINÊS?
- Abra o olho, Seu Rubens.
- CHINÊS?
- Aquele que vende panela.
- CHINÊS?
- Diz ele que tem o pau maior que o seu.
- MENTIRA! É MENTIRA!
- Agora chega, Seu Rubens. Vai querer o fósforo?
- CADÊ ROSÁLIA? EU VOU TE MATAR! EU VOU TE MATAR!

Foi quando Seu Rubens lançou o braço e me acertou um meio soco no nariz. Pegou de raspão, mas forte o suficiente para eu perder o equilíbrio e me bater na parede. Bem, eu não queria brigar com Seu Rubens, e o velho era louco. Eu estava perdido. Então escutei a voz de um anjo.

- RUBENS!? CADÊ VOCÊ, RUBENS!?
- É ROSÁLIA! ROSÁLIA CHEGOU!

Seu Rubens saiu sem se despedir. Pude escutar a velha dizendo que estava na farmácia. Fechei a porta e fui ao banheiro. Me olhei no espelho. O nariz sangrava um pouco. Mas o que incomodava era uma puta vontade de espirrar. Lavei o rosto e decidi dar uma cagada. Fiquei ali pensando naquilo tudo. Tentei imaginar Seu Rubens e Dona Rosália trepando. Depois pensei que eu precisava era de um emprego de verdade, precisava de dinheiro. Talvez um dia escrevesse alguma coisa sobre Seu Rubens. Vontade de espirrar. E não espirrava.

No dia seguinte, logo na manhã seguinte, eu saía para mais uma entrevista de emprego que provavelmente eu seria reprovado. E encontrei Seu Rubens na esquina.

- ME DÁ UMA MOEDA, PAULO, PRA EU COMPRAR SORVETE?
- Hoje não vai dar, Seu Rubens. Tô liso.
- ENTÃO TOMA 2 REAIS PRA VOCÊ!
- Não precisa, Seu Rubens.
- EU FAÇO QUESTÃO, PAULO. TOMA 2 REAIS.
- Vou aceitar porque a coisa tá feia.
- TOMA MEU CARTÃO. MEU CARTÃO!

Seu Rubens me deu um cartão de visitas e depois saiu distribuindo para todos na rua. Estava escrito: Dr. Pedro F. Rubens. Advogado. Com o número da OAB e aquele símbolo da justiça, uma balançazinha. Um cartão mal recortado com impressão vagabunda.