17.3.11

4 Amigos

Agora eles estão fazendo campanha pelo beijo gay nas novelas. Acontece que também nunca vi um gordo chupando a boca de uma mocinha. Aliás, existem gordos na TV? Ah, claro, alguém tem que fazer o papel de idiota. Sacanear gordo é permitido. Ainda não é crime. Outro dia um filho da puta veio com esse papo, “Gordo que é feliz, não se preocupa com o que come”. Confesso que me faria feliz ter comido mais gente nessa vida. Pelo menos sou homem. Mulheres gordas sofrem mais. De qualquer forma, adquiri certa blindagem contra essa coisa toda. Como se a gordura do meu corpo tivesse se transformado com o tempo em calos sujos e grosseiros. Estou cansado e alcancei uma curva da vida que simplesmente não preciso nem quero me preocupar. Já não ando mais pelos pátios do segundo grau. Já não preciso vestir a camisa por dentro da calça. Já não espero agarrar uma buceta num sábado à noite. Também não penso em fazer novela nem saltar de bung jump. Saúde? Sei que um dia eu morro. Problema mesmo só quando as calças não fecham mais.

Hoje almocei com os caras. Num desses rodízios de pizza de shopping. Aquele inferno. Preferia uma maniçoba numa mesa de plástico ou coisa assim. Mas fui voto vencido. Encarei o rodízio apenas pelo prazer de almoçar com a turma. Camaça, Ploc Monster, Belchior e eu. Éramos apenas quatro amigos tentando esquecer as cobranças, o trânsito, as picuinhas, as mesas de jobs, a insanidade das horas, experimentando um pouco de lucidez com fatias de queijo e boas risadas. A gente sempre ri nesses encontros. Me lembra as conversas dos tempos da Lapinha. Bobagens, piadas de duplo de sentido, rimas rápidas, xoxotas, e cada um relembrando os pontos fracos do outro, passagens antigas, clássicas, cômicas e ridículas, como o dia em que eu ameacei quebrar a agência se colocassem na web um vídeo em que eu aparecia jogando Mãozinha ou quando um viado coroa passou a noite querendo pegar no pau do Camaça durante uma festa. Bem, estávamos lá atacando as pizzas, eu invariavelmente reclamando que a putinha não trazia minha Coca-Cola quando apareceu essa garota. Que personalidade. Uma cadeirante atravessando as mesas, pedindo passagem aos garçons e atrapalhando o almoço daquela gente bípede e bonita, guiando sua cadeira até chegar a nossa mesa.

- Licença – ela disse – você é Paulo Bono?

Eu nunca havia sido abordado por uma cadeirante. Não fazia idéia de como responder.

- É, esse é meu defeito – eu disse.
- Reconheci pela foto no blog e...
- É, acho que eu tinha mais cabelo...
- Meu nome é Lorena, só queria dizer que adoro seus textos.
- Ah, obrigado, Lorena. Tem coisas bem melhores por aí.
- E aí, tudo bem?
- Mais ou menos. Só tão passando atum.
- É verdade. Bem, é isso.
- Tudo bem então, Lorena.

E lá se foi a garota com sua cadeira fazendo o caminho de volta.

- Aí, Bono – disse Camaça – Vai meter na aleijadinha.
- Peitinho bonito da porra – disse Belchior
- Já fica na altura do bola-gato, Bono – disse Ploc.
- Eu comeria fácil – eu disse – mas não diga nada pra sua mãe, Ploc.

Depois a putinha trouxe minha Coca-Cola, matamos mais algumas fatias de atum e pagamos a conta. Na hora de sair, passamos pela garota. Como sempre, não sabia se cumprimentava ou não. Ela acenou e apenas respondi. Parecia uma garota esperta. Onde arranjava tempo e paciência para ler as merdas que escrevo? Tendo que encarar diariamente todos aqueles malditos sorrisinhos de pena. Tendo ela mesma que sorrir para a vida o tempo todo e ser agradecida por aquela cadeira. Sem poder xingar e ter seus acessos de ódio. Cadeirantes se fodem. Mulheres cadeirantes se fodem ainda mais. Mas a pequena Lorena também já devia ter adquirido seus calos. Era bonita, a moleca. Eu lascaria toda, com cadeira de rodas e tudo. Se ela também não fudesse com gordo? Foda-se. Tirasse uma foto, fizesse uma carteirinha e entrasse para o clube.