25.1.11

Movimento civil contra os doutores

A consulta era às 14h10. Tudo bem, a gente sabe que essa história de hora marcada não existe. Mesmo assim cheguei 15 minutos antes. Só havia a putinha da recepção e um velhote. Entreguei os documentos e assinei uns papéis.

- Tem quantos em minha frente? – perguntei.
- O senhor é o segundo – respondeu a putinha.
- Qual o seu nome?
- Jaqueline.
- Ok, Jaque. Vamos ser francos um com o outro. Eu vou ser atendido às 14h10?
- Pra falar a verdade, acho que não. Doutor Jorge Luiz ainda não voltou do almoço.

Tento evitar os médicos. Acontece que o meu rim não me deixa em paz. Volta e meia sinto aquele peso aqui do lado. A dor só perde para o medo de sentir outra crise de pedra no rim. Por isso marquei com o excelentíssimo. Mas pelo jeito, ele ainda estava atendendo seu filé com molho madeira.

Logo chegaram outros pacientes. A maioria eram velhos preocupados com seus testículos. Chegaram também essa madame e seu filho. Ela não era nem nova, nem velha. Nem feia, nem bonita. Mas eu comeria. O garoto era apenas um meninão idiota dos seus 18 anos falando ao celular. “Mais tarde eu tô no tênis, aparece lá pra me ver” – dizia ele. Escutei também quando a tal madame disse à Jaqueline que não precisava da carteira do plano porque eram parentes do médico.

14h20 e nada do bonitão. A pequena Jaque tentou colocar um pouco de diversão em nossas vidas e ligou a TV. Passava uma novela de Glória Peres. Meu ovo parecia que ia explodir. Mas as velhotas estavam adorando. De repente, entrou aquela musiquinha do plantão e começaram a falar das enchentes no Rio. “Grava a novela pra mim, que eu tô na rua” – dizia a madame ao celular, perdendo o número atualizado de mortes. Eram imagens terríveis. De vidas destroçadas, minúsculas e impotentes. Uma velha perdeu seu cachorro nas águas. Uma cena de derrubar exércitos. Onde estavam as grandes invenções? Onde estavam os grandes homens? Então Deus apareceu. De jaleco branco. Sim, o próprio Doutor Jorge Luiz de barriga cheia. Cumprimentou a madame e, com toda sua misericórdia, pediu para que Jaqueline deixasse entrar o primeiro paciente.

Eu seria o próximo. Chegaria na agência apenas uma hora atrasado. Mas a imagem daquele cachorro sendo levado pelas águas sem saber que porra estava acontecendo me deixou na merda. Cachorros não têm idéia do que fazemos com o mundo. Cachorros não votam nem usam jalecos. Lembrei do meu cachorro. Dizem que parece comigo. Ainda mais depois da porrada que levou na cabeça. Ficou um pouco nervoso. Ele também anda torto e travado quando não consegue cagar. Velho Huck. Pelo menos ainda enxerga bem e seus rins funcionam.

Meus pensamentos mudaram de cor quando escutei a voz da putinha Jaque, “Bruno Paulo, consultório 01”. E o meninão idiota e sua mãe se levantaram. Meu pai costuma dizer que ando nervoso e sem paciência. Então mantive a serenidade.

- Que putaria é essa, Jaque?
- Desculpa, aqui no sistema você era o segundo, mas...
- Eu vou trabalhar e aquele filho da puta vai jogar tênis.
- Quer saber a verdade?
- Só existe a verdade entre nós.
- A verdade é que Dr. Jorge Luiz chama na ordem que ele quer.
- Jaque, me dá esse caralho dessa guia.

Então peguei a guia do plano, rasguei e joguei no lixo. Saí sem despedir da pequena Jaqueline. Caminhei pelo corredor assobiando uma canção qualquer e esperei o elevador. Eram quase três da tarde quando atravessei a rua e segui meu caminho. Com meus pensamentos destrutivos, minha mesa cheia de jobs, minha intolerância, minhas neuroses, com a contratação do Ronaldinho Gaúcho, minhas contas, meu rim e tudo mais que provavelmente me fariam esquecer de fazer qualquer doação para as vítimas das chuvas.

10.1.11

Fiapos de ano novo

O ano começou e eu estava surdo. O ouvido parecia entupido. Você podia me dizer os maiores desaforos, eu não escutaria porra nenhuma. Então procurei essa médica. “Seu problema é cera” – ela disse – “Tem um acúmulo grande de cera em seu ouvido". Depois ela fez lá uma lavagem que desenterrou do meu ouvido verdadeiras esculturas de cera. Pareciam aquelas frutas cristalizadas. Pensei, porra, era só o que me faltava. Então ela olhou para minha cara fudida e disse, “Você tem sorte de ter uma bela membrana auditiva”. Como se isso fosse me deixar razoavelmente mais feliz. Bem, foi assim que comecei 2011. Quer dizer, além disso rodei o shopping à procura de uma bermuda, mas não encontrei nada para meu tamanho. Pensei, foda-se. Pelo menos tenho uma bela membrana auditiva. Sempre me premiaram com essas pequenas compensações, esses fiapos de sorte, “Ah, Bono é feio, mas é um cara legal”, “É careca, mas é honesto”, “Pô, ele é gordo, mas tem uma puta membrana auditiva”.

Falam em renovar as energias, mas comecei o ano cansado, extremamente cansado. Janeiro está novinho em folha, mas minha alma é uma sucata com dores no rim e pedras de cera no ouvido. As pessoas, digo as pessoas jovens de verdade, elas estão por aí mudando suas rotinas, aproveitando o sol, realizando projetos, trocando o emprego e a cor do cabelo, estão iniciando regimes e comprando uma capa nova para seus Iphones, e eu sigo no meu canto, parado, estagnado, sufocando as horas e escutando canções dos anos 80. Como estão as coisas? Vou continuar dizendo, sem novidades. Aliás, já ia me esquecendo, acertei em cheio a quadra da mega-sena da virada. Em um bolão com os amigos, mas com os números que marquei. 52 conto para cada. Não comi ninguém com essa grana, mas deu para comemorarmos num rodízio de sushi. Bem, o que posso dizer? Sei que não é justo, mas ainda tenho sorte.