4.9.11

Menos um

Dois tiros na cabeça. E Anísio saiu do jogo. Amigo dos tempos de escola. Outro dia até nos reencontramos num desses eventos de ex-alunos. Disse que havia montado uma pequena loja de autopeças, estava se saindo bem. Não entendi direito, mas parece que Anísio anunciou uma moto nos classificados, e um cara ligou demonstrando interesse. Então esse cara apareceu na loja e pediu pra testar a moto. Anísio disse, tudo bem, e subiu no carona. Três quarteirões depois, apareceu um comparsa do cara e pegou Anísio em cheio. Dois tiros. Muita gente no enterro. Aquilo de sempre. A mãe chorou pra caralho, esposa, professoras, me lembrei dos tempos de escola. Fiquei na merda.

No caminho de volta, passei no supermercado. Precisava comprar mantimentos. Por um instante, tive a estranha sensação de que não era a primeira vez que eu passava num supermercado depois de um enterro. Não entendi o que isso poderia dizer, e deixei pra lá. Peguei biscoitos, pão, salsicha, papel higiênico. Estava nos sabonetes quando vi essa putinha promotora. Conversava com uma amiga, mas olhava pra mim. Bem, não era tão bonita. Mas qualquer mulher parece gostosa naquela calça colada que as promotoras vestem, você sabe, como qualquer uma também parece tesuda sentada na garupa de uma moto. A putinha me deu umas duas encaradas. Não alimentei esperanças. Não devia ser nada. Como sempre. Depois passei por uma dessas putinhas demonstradoras. Oferecia torradinhas aos clientes. Essa turma me vê e sempre acha que vou querer degustar qualquer coisa. Recusei e cheguei ao freezer de hambúrgueres prontos, bem próximo à putinha demonstradora. Um garoto de uns seis anos devorava as torradinhas, e gritava com a mãe que queria mais e mais. A mãe tentou falar baixo, mas pude ouvir ela dizer, “Você quer ficar gordão igual àquele homem? Então não pode comer mais torradinha!”. Guri escroto. Aprendeu uma lição. Peguei ainda iogurtes e uns Toddynhos. Resolvi passar mais uma vez no corredor da putinha promotora. Conversava com uma cliente. Voltou a me dar uma encarada. Levei o carrinho devagar, encostei numa prateleira, fingi procurar por algo. Olhei novamente. Ela deu um sorriso. Se aquela putinha estivesse mesmo me paquerando, seria um fato inédito na minha vida. Não conseguia nem conceber a remota possibilidade de uma mulher estranha acordar um belo dia e resolver paquerar um gordo no corredor de um supermercado. Aquilo só podia ser uma ação promocional. Só sei que a putinha continuava me encarando. E comer aquela promotora poderia me ajudar a esquecer o lance de Anísio. A putinha se aproximou, eu já tava de pau duro, então ela sorriu e disse,“Boa tarde, o senhor já conhece o Pantene Pro-V Controle de Queda?”. Maldita mania de ter esperança. Eu disse apenas, não, e segui meu caminho. A fila do caixa estava grande. Atrás de mim duas mulheres especulavam sobre o final da novela das oito. Na minha frente, havia esses caras falando de futebol, dizendo que o time do Bahia era roubado em todos os jogos. Eu estava cansado daquilo tudo. A fila realmente não andava. Resisti apenas cinco minutos. Larguei as compras e fui pra casa.

Subi as escadas e abri a porta pensando nisso, que você começa cercado de pessoas. Gente por todos os lados. Aos poucos vão desaparecendo. Uns mudam de cidade, outros casam, outros morrem de câncer no cu, outros levam tiro, outros você não fazem idéia, outros apenas deixam recados no Facebook. É muito sutil. Um a um. Você percebe sem querer. Menos um amigo, menos outro amigo, menos um ídolo, menos um pai, menos um avô, menos um amor, menos um cachorro, menos um vizinho, menos um conhecido, menos outro amigo, menos um, menos um, menos um. Como se restasse apenas você. E quando me perguntava onde essa turma toda foi parar, descobri que a felicidade é um resto de yakisoba no fundo da geladeira.

14 comentários:

Careca disse...

Bono, restam poucos tão bons quanto você. Grande abraço,

Mila disse...

Caralho, você é genial mesmo. Como se não bastasse os que morrem de tiro, tem aqueles que morrem "vivos" ao se transformarem em babacas. Pessoas que você admirava e tinha certeza de que não ia te deixar, se tornam essas pessoinhas que você não queria estar convivendo.
Texto excelente, excelente. No ponto. Bono, parabéns!

Vai de Táxi! disse...

A vida é uma longa subtracão...


Muito bom, Bono.
DO caralho esse final.

Paulo Bono disse...

Carecone,
Poucos como eu? Sorte do mundo.

Mila,
Como sempre, você complementando bem as histórias.

Taxista,
"Subtração". O título podia ter sido esse.

abraço

jesus disse...

top 5

Adriana Godoy disse...

Pois é, com um texto desse, você é um a mais, faz a diferença! Duca! Beijo

Alvarêz Dewïzqe disse...

Bono, mais um de primeira, pra não perder o costume!
E elas, meu chapa, estarão eternamente no comando, nos pondo de joelhos.

Paulo Bono disse...

Jesus,
amém

Adriana,
um gordo a mais,

Alvarêz,
Sempre.

Isadora disse...

Porra, eu tinha me esquecido de como era bom passar por aqui...!

Neguinha da Fé disse...

escreva aqui todo dia!

Clau Souza disse...

Eu enjoei de Yakisoba! ;)

Christiana Fausto disse...

Paulo,

vc, comos sempre, genial, mordaz, certeiro. Amei "Menos um". Tanto q publiquei no facebook. Para minha surpresa tem um outro Espalitando Dentes (no plural, de uma perua do Maranhão - uma putinha, vc diria). Só estou informando, não sei se sabe da existencia dessa tchóia (q é como eu chamo as putinhas). Bj e vida longuíssima a um dos meus blogs preferidos, christiana fausto.

Paulo Bono disse...

Isadora,
Passe mais vezes porra.

Neguinha,
Não consigo.

Clau,
Gosto pra caralho.

Chris,
É uma putinha mesmo.

abraço

Mwho disse...

Bono,
O fim mais triste é o cara que vira amigo de Facebook: não tem amizade que resista a uma inundação de notícias idiotas...
Texto poético e filosófico.
Triste por definição...