31.7.11

Traumas, xadrez e outras ilusões

Às vezes penso que sou feito de merda. Minha primeira cagada é logo quando chego na agência. Dou outra barrigada depois do almoço. E, a depender do número de reuniões no dia, mando mais uma na hora da saída. Então já passavam das 19h. Eu estava lá mais uma vez descendo o barro. E quando saí do banheiro encontrei Mari e Paty.

- E aí, Bono – Mari disse – vai ver a exposição do Doug?
- Essas coisas não são pra mim.
- A gente tá indo – Paty disse – tô de carro, se quiser carona...
- Ok. É sempre bom a presença de um homem nessas horas.

Embora Doug fosse um bom camarada, não sei que porra eu ia fazer numa exposição. Mas a verdade é que há tempos eu queria juntar essas meninas, quero dizer, peitinho com peitinho, despertá-las para uma nova vida. E quando elas se atracassem, eu queria estar por perto para pegar o rebote.

Era um coquetel de lançamento. Bem, nunca tinha ido numa dessas exposições. Mas me pareceu a história de sempre. Algumas rodinhas de narizes empinados entendedores de arte e dinheiro, putinhas de luxo, alguns viados e aquela turma cult, agora de barbicha e camisa xadrez. Paty foi cumprimentar conhecidos, enquanto Mari e eu procuramos o garçom. Fomos de vinho.

- O que você acha de Paty? – eu disse.
- Como assim? – Mari disse.
- Acha ela bonita?
- Sim, ela é bonita.
- E aí?
- E aí o quê?
- Ficaria com ela?
- O QUÊ?
- Digo, vocês são jovens, bonitas...
- Vá se fuder, Bono.
- E aquele lance de vocês dividirem a comida no almoço?

Mari saiu sem responder. Peguei outra taça de vinho. Não estava muito interessado naqueles quadros e não pretendia fingir entendê-los. Mas havia essa lista de presença. Deduzi que devia ser sinal de boa educação assiná-la. Assinei: Erasmo Carlos. Email: tremendao41@hotmail.com. Então Paty apareceu.

- Cadê Mari?
- Tá doidinha procurando você.
- Encontrei uma amiga que trabalhou comigo na outra agência...
- Você transaria com Mary?
- O QUÊ?
- Digo, vocês são jovens, bonitas...
- Não, Bono. Não tenho a mínima vontade.
- Devia experimentar. As mulheres sabem onde se tocar...
- E por que você não experimenta uma rola?
- Rola é um troço feio. Buceta é uma coisinha bonita. Sabe disso, você mesmo tem uma.
- Onde é que tem vinho?
- Só me diga uma coisa. Com quem você preferia fuder, comigo ou com Mari?
- MIL VEZES com ela...
- Já tá começando a abrir a cabeça...
- Vá se fuder, Bono!

Paty se afastou. Definitivamente aquele não era o meu lugar. Toda aquela gente bonita e elegante me olhando estranho. Como se eu fosse um rinoceronte cubista ou um botijão de gás atrapalhando a passagem. Resolvi ficar no meu canto. E comecei a reparar pelo menos os quadros daquela parede. Bem, não entendo porra nenhuma de arte. Mas eram coisinhas feias, esquisitas e sem sentido, ainda mais depois de ler os títulos. Depois observei que havia certa solidão, loucura e traumas naquilo tudo. Tintas próprias de quem já foi sacaneado nos tempos de escola, humilhado em outras galerias, e comecei a me identificar com aquela porra. Foi nessa hora que Doug apareceu. De camisa xadrez e barba rala no queixo.

- Grande Paulo Bono!
- Parabéns pelo trabalho, Doug.
- Que bom que você veio. Tá gostando?
- Já te falei. Você pinta pra caralho. Mas não curto muito esses seus...
- Casulos...
- Essas porras desses casulos. São meio nojentos.
- Que bom que provoca alguma coisa em você. O importante é isso.
- Esse aqui mesmo lembra meu rim sofrendo com uma pedra.
- Olha lá. Sorria.

O fotógrafo estava prestes a disparar o flash. Pus a mão na frente da câmera.

- Segura aí, parceiro. Que tal tirar foto só das putinhas?
- Deixa lá – Doug disse – esse gordo é anti-holofotes!
- Vai lá, Doug. Mostra pra eles seus casulos.

Aquela exposição já estava um chute no saco. Resolvi dar uma volta para encontrar Mari e Paty. Só encontrei Guismo, um amigo diretor de arte. De camisa xadrez, fiapos de barba e olhos vermelhos e pequenininhos. Observava um quadro.

- E aí? – eu disse
- Uma doideira esses quadros do Doug...
- Viu Mary e Paty por aí?
- Quando cheguei, elas tavam indo embora.
- Merda...
- Esses quadros são tipo...aqueles sonhos loucos que a gente tem.
- Aquelas putas me passaram a perna...
- Tá ligado que no sonho a gente nunca consegue correr rápido? Tipo, você tenta correr, mas não consegue...
- Tô com uma vontade de cagar do caralho...
- Mas se ligue. Peguei a manha pra correr rápido no sonho. Correr de costas.
- Correr de costas?
- Correr de costas. O único jeito de correr rápido no sonho.
- Porra, onde é que fica o banheiro?

17 comentários:

Rodrigo Carreiro disse...

Mais um conto matador. Foda!

Carina disse...

hahahahahaha passo mal de rir! ai,ai... que mania essa dos homens de querer juntar as mulheres...

Adriana Godoy disse...

Pô, vc só fez cagada! Que merda, hein?

Mas o texto é muito bom, matador como disse o Rodrigo.

Inté.

Vai de Táxi! disse...

hahahahahaha.
Paty e Mary não sabem o que elas estão perdendo.

Muito bom... é desses que eu gosto.

Alvarêz Dewïzqe disse...

Bono, meu chapa, fazia tempo que não dava umas boas risadas. Valeu, chapa!
Agora vou alí dar uma cagada.

Paulo Bono disse...

Carreiro,
Falou, parceiro.

Carina,
Experimente você também.

Adriana,
Merda é a minha especialidade.

Taxista,
Essas meninas precisam abrir a cabeça.

Alvarez,
Lave a mão.

Léo Bella disse...

ótimo conto mais uma vez!
estive na sua terra esses dias. no jd de alah, pernambues e no peloh.......
um abraço!

Anônimo disse...

correr de costas? de onde voce tira essas coisas? adorei, como sempre. beijão
joana rizerio

Paulo Bono disse...

Léo,
Aqui tem putinhas que é lugar.

Joana,
Tiro dos sonhos.

abraço

Leo Rodrigues disse...

Muito bom... E o Doug ficará honrado com a presença do Tremendão na lista de presença. Já tentou esse email? Abraco.

Elga Arantes disse...

Correr de costas é fácil, quero ver conseguir voar, nos sonhos. Nunca consigo.

Quanto a cagança,sou tipo assim, 3 vezes ao dia. E não acho que sou feita de merda, a vida é que é... às vezes, mais ou menos, três vezes ao dia, sacou?

Mwho disse...

Acho que seus argumentos de rinoceronte cubista foram convincentes: suas amigas foram embora juntas... No próximo capítulo, você conta como foi a experiência delas. Quem sabe não rola uma gratidão pelas dicas e a justa recompensa?
Abraço,
Mwho.

Paulo Bono disse...

Leo,
Tentei, sim. Voltou. Caixa lotada.

Elga,
Só sei que cagar faz bem.

Mwho,
Essas putinhas me enlouquecem.

abraço

A viajante disse...

A vantagem de ler vc, em qualquer dia, é ter a certeza de que iremos nos surpreender com sua ousadia e cara de pau! Adorei, mais uma vez!

Clau Souza disse...

Hahahaha.. Muito bom!!!!
É... Acho que vc ia se dar bem com minha amiga, Lanne... Pena que ela já não trabalha mais comigo. ;)



Abraço, cara.

Paulo Bono disse...

Viajante,
é, sou um gordo cara de pau.

Clau,
Lanne é um bom nome.
E pelo que vi, você manda bem nas histórias.

abraço

a dama da livre poesia disse...

porra bono, escreve logo, parece que tem um ano...