26.6.11

O que é preciso para ser um redator?

Acho que tudo começou no exato momento que deixei a barriga da minha mãe e algum escroto me deixou bater a cabeça. É a única razão que explica eu conseguir a façanha de perder no vestibular para propaganda. Entrei em uma coisa chamada Relações Públicas. Que porra é essa? Até hoje não sei. Sei que depois de quatro anos, passei mais dois estudando os classificados religiosamente todos os finais de semana. Cheguei a decorar os anúncios. Quais eram repetidos, quais eram furadas, quais nem adiantava mandar currículo. Naquele tempo eu tinha assinatura da Você S/A e tentava seguir todas aquelas regrinhas bacanas para ser bem sucedido. Você sabe, falar inglês, aprender sobre computadores, ler o jornal, essas coisas. Não adiantava muito. Nos anúncios eles diziam, “Necessário ter boa aparência”. O problema é que eu não pretendia nascer de novo. Mesmo assim mandei muitos currículos, fui a centenas de entrevistas e dinâmicas de grupo. Para trainee de supermercado, trainee de banco, relações públicas júnior, assistente de atendimento, assistente administrativo, vendedor de curso de inglês, vendedor de seguros e todas essas merdas que eles inventam. Eu chegava nas entrevistas exatamente como mandava a Você S/A. Cabelo cortado, barba feita e camisa social por dentro da calça. Mas é aquela coisa, gordo com camisa por dentro parece mais imbecil. Lembro de uma vez que a putinha da recepção disse – “Pois não, senhor?” – Eu disse – “Eu vim pra vaga de atendimento” – E a desgraçada olhou para o lado e riu com as colegas. De qualquer forma nunca passei da primeira fase das entrevistas. Começavam com uma entrevista coletiva, faziam lá aquela roda, algumas perguntinhas idiotas e iam eliminando candidatos. Geralmente os primeiros dispensados eram os negros, os albinos, as velhas, eu e minha camisa por dentro. Difícil era voltar o caminho todo no ônibus pensando em uma nova desculpa para os meus velhos, uma nova razão para ser dispensado em mais uma entrevista. Às vezes eu preferia dizer que havia recusado o trabalho por pagarem pouco. Então os velhos me enchiam os colhões para correr atrás dos concursos. Mas nunca fui bom em provas. De modo que o tempo passou, não renovei a assinatura da Você S/A e passei aqueles dois anos como um vagabundo. Se eu me importava? Bem, havia crescido com aquele sonho clichê anos 80 de passar no vestibular e chegar aos 25 com um carro do ano e uma puta carreira respeitada. E agora descobria que não sabia fazer nada, e a não ser que mandasse um currículo para o circo, eu não era apto a nenhuma outra função da humanidade, pois mesmo que fizesse um MBA no caralho que fosse, eu não tinha uma boa aparência.

Então fiz esse curso de editoração eletrônica. Sabe esses cursos que ensinam a mexer nas ferramentas do Corel Draw e do Photoshop e o cara sai do curso com um cartão de visitas em papel vergê dizendo que é designer? Pois é. Fiz um desses e um dia vi no mural esse anúncio com uma vaga para estágio em computação gráfica. O bom é que não falavam nada sobre boa aparência. Quando cheguei lá descobri que era uma gráfica de etiquetas e conversei com esse barbudo dos dentes amarelos.

- Nosso negócio é etiquetas – ele disse.
- Parece interessante – eu disse.
- Você vai ficar na computação.
- E o salário?
- Por enquanto é estágio. Dou vale-transporte.
- Não tem salário?
- Tá bom, garoto. Gostei de você. Te dou vale e almoço.
- Fechado.

A tal gráfica funcionava em um bairro distante, numa rua esquecida, numa casa velha e desbotada. Minha sala ficava nos fundos. Um cubículo onde mal cabiam duas cadeiras, dois computadores 386, uma impressora e um ventilador. O lugar se encaixava no meu perfil profissional. Escondido, esquecido, longe das vitrines, dos olhares e sorrisos, bem distante das relações públicas. Enfim, eu tinha um emprego. Meu trabalho era fazer a arte das etiquetas. Não dava para criar muita coisa, já que a maioria dos clientes eram lojas de informática que só precisavam dessas etiquetazinhas que servem como lacre de garantia. Então descobri que na verdade meu trabalho era imprimir as etiquetas, que saíam da impressora em alta velocidade e era preciso enrolá-las rapidamente formando um rolo compacto e organizado. Esse era o problema. Atividades manuais também nunca foram o meu forte. De repente, lá estava a impressora trabalhando a todo vapor, e eu derrubando os rolos, pisando e amassando aquele mar de etiquetas pelo chão. “PUTA QUE PARIU!” – gritava o supervisor – “O ESTAGIÁRIO COTÓ ERA MAIS RÁPIDO QUE VOCÊ, GORDO!”. Passei longos três dias nessa guerra, cultivando a certeza que tinha um sério problema de coordenação motora quando no quarto dia, bateram na porta para dizer que o almoço havia chegado. Sentávamos todos numa pequena mesa de madeira. Na quentinha estava escrito “Paulo / Lasanha”. Aquilo podia salvar o meu dia. Mas quando abri a quentinha descobri o ineditismo de uma lasanha feita com quitute. Isso mesmo. Mandaram para mim uma porra de uma lasanha seca e massuda recheada com aquela carne sebosa e processada que a gente comia quando era pequeno. Por Deus, fiquei deprimido e pensei em matar todos eles. Por Deus, desde esse dia, nunca mais pedi lasanha em quentinha. Então me levantei, não me despedi de ninguém e voltei o caminho todo no ônibus pensando numa nova desculpa para os meus velhos.

Naquela mesma noite o telefone tocou. Era a Cris, uma amiga dos tempos de escola que agora estava morando em Feira de Santana.

- Arranjou emprego? – ela disse
- As coisas tão difíceis.
- Tô numa agência de propaganda.
- Legal.
- Eles tão precisando de redator. É isso que você faz?
- O que é que faz um redator?
- Acho que redige, né?
- O pior é que eu sempre me fudi em redação.
- Tão pagando 350.
- Foda-se. Não custa tentar.

10 comentários:

jogadorcaro disse...

Cara, eu também já tentei essa porra de carreira e sei lá porque desisti. Hoje não sei se posso dizer se sou mais alegre ou mais triste. Mais alegre por não trabalhar numa agência movida a fama e aparências. Mais triste pois fui da publicidade pra gastronomia e hoje sei como é bom trabalhar sendo contaminado pela radiação dos monitores. Enfim, não sei se escrevo do mesmo jeito ridículo de 4, 5 anos atrás ou mudei minimamente para melhor. Dai quem me lê é que decide. Contudo, ainda gostaria de escrever algo para alguma coisa, nem que fosse peça pra fertilizante (Sua rosa fica mais cheirosa com nossa merda, por exemplo).

Anônimo disse...

tb sou formado em rp :/
abraço,
marcelopgp

jesus disse...

Paulobono, meu caro,

melhor vai ser quando você receber o convite de uma editora pra ser escritor exclusivo e ganhar uma verbíssima! Aguarde.

simon disse...

De fato, acho que é só uma questão de tempo. Logo alguma editora descobrirá que o seu talento precisa ser eternizado Bono.

Paulo Bono disse...

Jogador,
A gente nunca sabe nada.

Marcelo,
O que é isso?

Jesus,
Amém.

Simom,
Porra de ser eternizado.

abraço

Alvarêz Dewïzqe disse...

é isso mano, o tempo passa, e a gente continua tentando.

Carina disse...

ahahahahaha adorei sua trajetória! quem sabe vc não tem outra reviravolta na vida e larga essa vida ingrata de publicitário? escritor... roteirista...

bjão

Ane Brasil disse...

Eu sempre fui meio bolada com o fato de você ser publicitário.... pq todo o publicitário que eu conheci até hoje ou era abostado, ou era muito abostado ou era um abostado se esforçando pra evoluir... o fato de você não ter feito publicidade foi o que te salvou, acredite.
"boa apareência" hauhauhaua vixe, sei como é isso: com a cara parecendo um choquito de tanta espinha e o cabelo mais armado que juba de leão... a nega aqui sempre sifu nas tais entrevistas.
Sorte e saúde pra todos!

Paulo Bono disse...

Alvarêz,
Isso aprendi. Tentar.

Carina,
De certa forma, todas as carreiras são ingratas.

Ane,
Não me fale de entrevistas.

abraço

Anônimo disse...

rp = relações públicas
:/ = cara de cú
abraço
marcelopgp