10.4.11

As loucuras do Dr. Rubens

Eu havia acabado de inventar esse negócio de escrever um blog. É aquela coisa, quando se está desempregado, você precisa inventar algumas pílulas para não enlouquecer. De qualquer forma, eu estava lá, encarando a tela em branco do computador, tentando me lembrar de alguma história, mas não conseguia digitar duas linhas que valessem à pena. Foi quando bateram na porta. Fui atender. Era Seu Rubens.

- Fósforos, Seu Rubens? – perguntei.
- CADÊ ROSÁLIA?
- Não faço a menor idéia, Seu Rubens. Já procurou em sua cozinha?
- CADÊ ROSÁLIA, MINHA ESPOSA AMADA?
- Eu tô ocupado agora, Seu Rubens. Se quiser, eu tenho fósforos.
- EU SEI QUE ELA TÁ AÍ DENTRO, SEU SAFADO! CADÊ ROSÁLIA!?!?

Para entender esta cena, preciso primeiro contar a história de Seu Rubens. Eu conhecia o velho há mais de 20 anos. Naquela época era um advogado sério, cheio de estilo. Andava por aí com sua pasta e sua gravata. Até que um dia, Seu Rubens subiu na sacada de um prédio e disse que estava a fim de pular. Gritava alguma coisa sobre leis, carros e prostitutas, e queria acabar com tudo. Não lembro quem foi, mas algum mensageiro da paz tirou Seu Rubens lá de cima. Tempo depois, disseram que o problema não eram as putas, o caso é que Seu Rubens sofria de esquizofrenia. Bem, já havia me deparado com um desses tipos antes, nos tempos da Lapinha, o Fred Maluco. O cara simplesmente desenhava submarinos enormes na parede, cheios de equações matemáticas de trás para frente. E fazia discursos ensandecidos, chegava a mencionar a bomba atômica. Porra, eu me cagava de medo do Fred Maluco. Mas Seu Rubens era diferente. Ficava apenas andando por aí, detonando carteiras de cigarro e pedindo dinheiro para comprar sorvete ou Coca-Cola. De vez em quando dava alguns ataques, se por acaso se esquecesse de tomar os remédios. Já vi Seu Rubens quebrar o balcão de uma farmácia, rolar uma ladeira metendo a porra num traveco, jogar sua aposentadoria pela janela, vender suas cuecas para outro doido, chorar feito criança por causa de um gato, dar um soco num vira-lata e tentar pular de um prédio pelo menos mais duas vezes. E certa vez, Seu Rubens baixou as calças na frente de duas beatas evangélicas, afirmando que seu pau estava possuído. No mais, o velho era amigo de todos no bairro. Ele também tinha mania de bater nas portas para pedir fósforos. Mas não era o caso dessa vez. - Fósforos, Seu Rubens? – perguntei.

- CADÊ ROSÁLIA?
- Não faço a menor idéia, Seu Rubens. Já procurou em sua cozinha?
- CADÊ ROSÁLIA, MINHA ESPOSA AMADA?
- Eu tô ocupado agora, Seu Rubens. Se quiser, eu tenho fósforos.
- EU SEI QUE ELA TÁ AÍ DENTRO, SEU SAFADO! CADÊ ROSÁLIA!?!?
- O senhor tomou seu remédio?
- VOCÊ TÁ COMENDO ROSÁLIA, PAULO? VOCÊ TÁ COMENDO ROSÁLIA?
- Um amigo não come a mulher do outro, Seu Rubens. Esqueceu?
- COMO É QUE VOCÊ FAZ ISSO COMIGO? NÃO COMA ROSÁLIA NÃO!
- Fique tranquilo. Ela deve ter ido no mercado.
- TENHA CONSCIÊNCIA! TENHA CONSCIÊNCIA! EU SOU DOENTE!
- Ou então ela fugiu com o chinês, Seu Rubens.
- CHINÊS?
- Abra o olho, Seu Rubens.
- CHINÊS?
- Aquele que vende panela.
- CHINÊS?
- Diz ele que tem o pau maior que o seu.
- MENTIRA! É MENTIRA!
- Agora chega, Seu Rubens. Vai querer o fósforo?
- CADÊ ROSÁLIA? EU VOU TE MATAR! EU VOU TE MATAR!

Foi quando Seu Rubens lançou o braço e me acertou um meio soco no nariz. Pegou de raspão, mas forte o suficiente para eu perder o equilíbrio e me bater na parede. Bem, eu não queria brigar com Seu Rubens, e o velho era louco. Eu estava perdido. Então escutei a voz de um anjo.

- RUBENS!? CADÊ VOCÊ, RUBENS!?
- É ROSÁLIA! ROSÁLIA CHEGOU!

Seu Rubens saiu sem se despedir. Pude escutar a velha dizendo que estava na farmácia. Fechei a porta e fui ao banheiro. Me olhei no espelho. O nariz sangrava um pouco. Mas o que incomodava era uma puta vontade de espirrar. Lavei o rosto e decidi dar uma cagada. Fiquei ali pensando naquilo tudo. Tentei imaginar Seu Rubens e Dona Rosália trepando. Depois pensei que eu precisava era de um emprego de verdade, precisava de dinheiro. Talvez um dia escrevesse alguma coisa sobre Seu Rubens. Vontade de espirrar. E não espirrava.

No dia seguinte, logo na manhã seguinte, eu saía para mais uma entrevista de emprego que provavelmente eu seria reprovado. E encontrei Seu Rubens na esquina.

- ME DÁ UMA MOEDA, PAULO, PRA EU COMPRAR SORVETE?
- Hoje não vai dar, Seu Rubens. Tô liso.
- ENTÃO TOMA 2 REAIS PRA VOCÊ!
- Não precisa, Seu Rubens.
- EU FAÇO QUESTÃO, PAULO. TOMA 2 REAIS.
- Vou aceitar porque a coisa tá feia.
- TOMA MEU CARTÃO. MEU CARTÃO!

Seu Rubens me deu um cartão de visitas e depois saiu distribuindo para todos na rua. Estava escrito: Dr. Pedro F. Rubens. Advogado. Com o número da OAB e aquele símbolo da justiça, uma balançazinha. Um cartão mal recortado com impressão vagabunda.

10 comentários:

Fabrício Romano disse...

rs, sempre foda.

Leo disse...

Figuraça o Dr. Rubens. Essas criaturas sempre dão uma boa história. Só não podem enveredar pelo lado negro da força.

Careca disse...

Boa Bono, ainda bem que a Rosália não demorou. Abç,

Bruno disse...

Agora, o lance do chinês foi maldade, hein, Bono?

Marcondes disse...

Péssimo blog. Mau gosto para todos os lados. Baixaria e insensibilidade em todos os posts.

Tenho certeza que sua vida é do MODO como você escreve...

Não é a toa que vc é um NADA.

Quer fazer um bem? Pule de uma ponte... com uma corda amarrada numa pedra no pescoço.. sabe, só por garantia... pq BANHA boia..

Nathalia disse...

mereceu o meio soco por colocar o cara das panelas no meio. haha

bukólicos alkólicos disse...

salve a loucura, chapa.

Mila disse...

Não é pq eu perdi na oab, nem nada. Nem pq odeio isso q fiz, mas esse povo de direito é danado pra virar maluco.
Seu Rubens, ao menos, dá 2 reais e não toma, como alguns, disfarçados de doutores protegendo seus clientes.

Mwho disse...

Bono,
Excelente!
Literatura de primeira!
Abraço,
Mwho.

Dexter disse...

Conheci um tipos desses que era veterinário e pirou. Ficava andando pelas ruas do bairro com um grupo de vira-latas.
Esse não tinha atos violentos. Era mais chegado a declamar pensamentos filosóficos e poesias, que a galera não entendia quase nada.