20.2.11

Jardim do Amigo

Lembrei do meu cachorro. Dizem que parece comigo. Ainda mais depois da porrada que levou na cabeça. Ficou um pouco nervoso. Ele também anda torto e travado quando não consegue cagar. Velho Huck. Pelo menos ainda enxerga bem e seus rins funcionam.



Dizem que um ano equivale a sete anos na vida de um cachorro. O negócio é quando você envelhece sete anos em um dia. Bati na porta da clínica logo cedo, com Huck em meus braços, enrolado numa toalha desbotada. “Tá morto”, disse o doutor de animais.

O Grande Huck não teve muita chance. Só dois dias antes descobrimos que seu coração era uma latinha velha. Agora estava ali naquela mesa. Ou pelo menos o que sobrou dele. Apenas um corpinho. Um corpinho de quatro patas. Com os olhinhos arregalados. Vida de merda. Já disse que chorei como uma mulherzinha assistindo aquela porra daquele filme Marley & Eu? Mas não era hora para sentimentalismos. Liguei para minha irmã e dei a notícia. Ela chorava como uma irmã caçula. Minha velha estava sedada. Eram as verdadeiras donas do cachorro. Só podiam mesmo estar afundadas na merda para contar comigo para alguma coisa. Na maior parte do tempo sou o inútil da família. Huck também se fudeu por ter que contar comigo. Perguntei ao doutor qual era o procedimento. Ele falou sobre uma espécie de cemitério de animais e me passou o endereço. Liguei para um velho amigo que trabalhava por ali. “Cabrito, preciso de sua ajuda”. Enquanto Cabrito não chegava, restaram apenas Huck e eu naquela sala. Então lembrei do cara do gás. De Huck botando o coitado parar correr as escadas com o bujão nas costas. Lembrei também que já saí muitas vezes com Huck para ver se tinha chance com alguma putinha sensível que gostasse de cachorros. Mas a minha cara fudida não ajudava, nem as reações de violência gratuita de Huck perante a quem passasse na rua. Sempre me identifiquei com esse cachorro. Poodles só são queridos por quem não tem alternativa, por quem é obrigado a gostar e pronto. Tentei fechar seus olhos, não consegui. Nessa hora, o doutor entrou e me ofereceu uma caixa de papelão. Era uma caixa pequena. Embalei Huck como uma carcaçazinha torta e inútil. Cabrito apareceu e nos mandamos.

O lugar era longe, pelas bandas de Lauro de Freitas. Mas é incrível como há momentos na vida que você percebe que não há mais sentido para pressa. No meio do caminho ainda pensei, aí, filho da puta, não estava procurando uma história para contar na porra de seu blog?

Era um lugar agradável. Jardim do Amigo. Bom nome. A putinha da recepção me recebeu com uns papéis para preencher. Nome do cachorro, data de nascimento, falecimento, causa da morte, nome dos donos, essas coisas. 200 conto era o valor do serviço. Fiquei devendo mais essa a Cabrito. Só na hora de assinar os papéis percebi que meu braço estava sujo de merda. Então apareceu um garoto e pegou Huck. Enquanto isso, fui ao banheiro e lavei as mãos. Lavei também o rosto. Me olhei no espelho. Eu parecia mais feio do que nunca. E mais careca também. Depois a putinha perguntou se eu gostaria de acompanhar o sepultamento. Bem, fui criado na Lapinha e sempre vou até o fim. “Paulão, só não vou com você porque fico na merda”, disse Cabrito. “Tudo bem, amigo”, eu disse.

Então o garoto me mostrou Huck em uma nova caixa. Bem melhor do que eu havia embalado. Huck estava coberto por um tecido fino. Tinha os olhos fechados. Parecia calmo e relaxado, finalmente. Então segui o garoto até o local. Digamos que foi uma cerimônia simples. O garoto ajustou Huck no lugar certo e começou a jogar a terra. Fazia um sol dos infernos. Eu olhava em volta. Havia dezenas de lápides. Bingo, Lupi, Kate, Thomás, Rhanna, Xuxa, Max, Ricky, Lady, Lennon, Nick, Michel, Black, Thalia, Magali. Havia a algumas lápides maiores, com frases e bonequinhos estúpidos de enfeite. Pensei que talvez pudesse voltar outro dia e escrever na lápide de Huck: “O cachorro que botava pra fuder” e talvez colocasse um escudo do Flamengo, quem sabe.

- Como é seu nome? – perguntei ao garoto que terminava seu trabalho.
- Valdir.
- Caralho, Valdir. Você não fica na merda com esses cachorros?
- A gente acostuma. O senhor quer ficar mais um pouco?
- Que nada. Vamos sair daqui que esse sol tá foda.

Assim que entrei no carro de Cabrito, liguei para minha irmã. Para dizer que Huck estava bem na fita. Que era um lugar limpo, sério e digno. E que o nome era Jardim do Amigo.

O restante do dia passou rápido. Cheguei atrasado na agência. Participei de três reuniões. Uma delas com cliente. Nunca me sinto à vontade com clientes. Essa turma prefere conversar com gente fina e elegante. Depois escrevi alguns títulos, que o filho da puta do diretor de criação disse que precisavam de mais molho, e a maioria era mesmo de se jogar no lixo. Então escrevi mais alguns títulos, olhei a caixa de emails, caminhei até o ponto, comi amendoim japonês no ônibus, cheguei em casa, abri o chuveiro e chorei.

23 comentários:

Simone disse...

Parei de prestar atenção quando você disse que gastou 200contos, Voltei a prestar atenção quando você choro. Mas GOSTEI!

Vitorsemc disse...

Porra Bono, lamento pelo Huck. Mas concordo com o que você disse sobre poodles.

Eu mesmo odeio o meu poodle até ele morrer. Quando morrer, vou sentir uma falta do caralho.

Carina disse...

Quase chorei... lembrei do meu Veludo que já tá nas últimas...
Nem posso mostrar esse texto pra minha mãe, senão ela vai junto com o Veludo.

Mila disse...

Eu sou apaixonada por cachorros. Tocou lá fundo no meu coração isso aí, ficou bem real e cheio de sentimento. Nó na garganta aqui...
Vc sabe terminar textos como ninguém.
beijo!

Vai de Táxi! disse...

Os brutos também choram sacana...

Careca disse...

Bono, história triste pra cachorro.

Anônimo disse...

Bono, vc chorando no chuveiro......muito legal seu texto. Seu cachorro tinha um dono que o amava. Isso é vida!

Paulo Bono disse...

Simone,
Não entendi porra nenhuma.

Vitor,
Poodles são neuróticos.

Carina,
Sinto por veludo.

Mila,
é a vontade de terminar logo.

Taxista,
Quem é bruto?

Careca,
Não queria que fosse triste.

Anonimo,
Eu chorando no chuveiro. Realmente é a cena do inferno.

abraço

Adriana Godoy disse...

Mesmo querendo não comover, vc comoveu. Essa história, embora permeada de merda, foi tão bem escrita, uma coisa bonita, sei lá. Gostei. Beijo

Alvarêz Dewïzqe disse...

bela história, chapa. lembrei da minha poodle, que sentava para tomar cerveja comigo. mas veio a idade, a diabetes, a cegueira, o câncer e depois disso ela partiu.

abraço.

Dexter disse...

Sofri muito com a morte do meu pastor alemão. Quando a gente gosta mesmo do bicho, ele se torna um membro da família, muitas vezes até o mais querido.
Mas não gastei nada pra despachar o corpo dele. Coloquei num container da minha rua mesmo. Ta morto, não tem mais nada ali, só uma carcaça.

Abraço.

Paulo Bono disse...

Adriana,
Merda é a minha especialidade.

Alvarez,
Bela cachorra.

Dexter,
Difícil encarar assim, mas é verdade.

abraço

Fernanda disse...

Lindo texto! Ri e chorei.

Elga Arantes disse...

Ah...

Eu nao!

Não tenho apego. Já tive, uma vez.

Ah...

Mateus Henrique Zanelatti disse...

Pelo menos ele ainda enxergava bem e seus rins funcionavam; e pode ser ainda que ele tinha uma bela membrana auditiva.

Gosto muito de cachorros; e das suas histórias.

Abraço!

Juliana Canoura disse...

Eu tenho um poodle também,no altos do seus 14 anos. O Nick.


Sinto muito pelo Huck,Bono =/

Fernando disse...

Bono,

O cachorro da foto do blog é ele?

Neguinha da Fé disse...

Sobre o texto, só elogios. Adoro bichos.

No mais,escreva mais e lance vários livros! Tem uma escrita viciante. Entrei em seu blog e li todo em um dia. Daí virei seguidora e espero ansiosamente o próximo texto que me libertará da rotina tediosa de leituras jurídicas ignóbeis.

Myself disse...

Este é um momento que temo demais, pois tenho uma gatinha velha que amo muito!


Os animais são mais gente do que muita gente que morre e cagamos pra eles.

bjs!

Mwho disse...

Bono,
Cachorros merecem...
Abraço,
Mwho.

Paulo Bono disse...

Fernanda,
Valeu.

Elga,
Difícil pra caralho não se apegar.

Mateus,
Huck era foda.

Juliana,
Brinque com o Nick.

Fernando,
Não, Huck é outro.
Esse da foto não sei quem é, mas parece uma grande figura.

Neguinha,
Qualquer merda parece interessante se comparada a um texto jurídico.

Mwho,
Merecem.

abraço

Andre disse...

Caraca! Minha poodle tb foi colocada numa caixa de papelão, me desloquei da pituba até esse Jardim do Amigo e a enterrei lá. Chorei mt no Marley & eu, vergonhosamente.

Anônimo disse...

Cara, muito bons os seus textos. Parabéns!