13.12.11

Preliminares

- Fica no quinto andar.
- O quê?
- O cofre.
- Que horas eles saem?
- Nove horas, não tem mais ninguém.
- Sem alarme?
- Sem alarme.
- E o velho da limpeza?
- Não trabalha mais à noite.
- O vigia?
- Ronca depois das dez.
- Tem certeza que não tem alarme?
- Tem uma coisa.
- O quê?
- Ninguém precisa morrer.
- Como assim?
- Você pode ficar histérica se alguém aparecer. Mulher costuma ficar histérica nessas horas.
- Eu não vou ficar histérica.
- Eu ainda tenho muita vontade de matar alguém nessa vida, mas não precisa ser dessa vez. Então não vá fazer nenhuma besteira.
- Mas a gente vai ter alguma arma?
- Tá doida, caralho?
- E você vai saber abrir?
- O quê?
- O cofre.
- Eu fico nervoso com esses trabalhos manuais, acabo fazendo merda. Melhor você abrir.
- Ah, eu tenho medo. Melhor desistir.
- Tudo bem. Então é melhor jogar na mega da virada.
- Pode ser. Mas não dou sorte nessas coisas.
- Ano passado acertamos a quadra no bolão da agência.
- Sério?
- Com os números que eu marquei.
- Massa.
- 600 conto.
- Pra cada um?
- 60 pra cada.
- Nunca ganhei um centavo.
- Comemoramos no Takê.
- Minha mãe que tem sorte nesse negócio de loteria...
- Me passa o vinho.
- Se eu ganhasse ia passar o resto da vida viajando...
- Se eu ganhasse, eu ia ser mau...
- Passar um ano na Europa...
- Eu ia ser mau caráter mesmo, andar por aí arrogante, ia humilhar muita gente, mandar muita gente tomar no cu, botar pra fuder...
- Ridículo.
- Sabe o que eu ia fazer?
- Gostei desse vinho, macio...
- Ia entrar numa dessas lojas de grife. Dessas caras, chiquezinhas, que os vendedores são tudo uns viadinhos metidos ou umas putinhas empinadas que se acham melhor que a gente. Ia entrar numa loja dessas, de bermuda e sandália, parar assim no meio da loja, coçar meu ovo e dizer, ME VÊ A CALÇA MAIS CARA DESSA PORRA! Aí o viadinho ia fazer aquela cara, tipo, “Não tem nada do seu tamanho aqui, seu ogro nojento”. E eu ia dizer, VOCÊ É SURDO, VIADO? ME TRAGA A CALÇA MAIS CARA DESSA PORRA! Nisso, teria uma a putinha vendedora assustada assim no canto, e eu diria, E VOCÊ, FIQUE QUIETINHA, SUA PUTA, QUE DEPOIS VOU QUERER COMER SEU CU!. E quando o viadinho chegasse com a calça, uma porra de uma calça de 1500 reais que não entraria nem no meu dedão do pé, eu ia arriar a bermuda, me agachar, dar uma cagada violenta no meio da loja, e me limpar com a porra calça. Depois eu jogava o dinheiro no chão e saía...
- Você é ridículo...
- O quê?
- Fica pensando essas coisas, nessas besteiras, por isso que nunca vai ganhar.
- Porra nenhuma. Já acertei a quadra ano passado...
- Ninguém ia gostar de você.
- Não seja ingênua, Eu seria rico. Todo mundo ia querer gostar de mim. As BUCETAS iam gostar de mim.
- Seu estúpido...
- Eu ia falar outra coisa, esqueci...
- Devia ser outra besteira...
- Porra, esqueci...
- Ainda vai querer vinho?
- Se eu tomar mais, não consigo gozar.
- Nossa, e já tá duro assim, é?
- Pois é. Dê logo uma chupadinha, na manha...
- Porra, por que sempre tem que começar com uma chupada?
- Questão de princípios, pequena.
- Idiota...
- Ôpa, devagar...isso...isso...puta que pariu...ô linguinha sacana...ah, lembrei o que ia dizer...
- Hum?
- Se eu ganhasse na mega, ia botar também uma piscina térmica em casa. Acho de fuder uma piscininha de água quente...

30.11.11

Os caras

A segunda-feira sempre chega. Mas não há nada de novo. Os jobs estavam lá sobre a mesa. A falta de perspectiva também. Já me chamaram até de pessimista. Mas eles não me dão motivo parar pensar de outra forma.

Pela manhã, conversei com esse amigo, o André, que também é redator. Desempregado, já cortaram sua luz, plano de saúde, e estão tentando também tomar seu carro. Pra piorar, seu garoto de nove caiu da escada, e tiveram que levar pra um hospital público. Quero dizer, uma emergência de um hospital público brasileiro. Diz André que ficou na merda. Não pelo garoto, que não foi nada grave. Mas pelo que viu na emergência. E quando perguntei sobre o futuro, André disse que se sentia em decadência, falou sobre o mercado baiano de propaganda e que precisava achar outra saída. O que de certa forma me deixou constrangido. Sempre acho que qualquer redator lá fora merece o meu lugar.

Tenho tentado cultivar essa coisa chamada paciência. Digo porque na hora do almoço, entrei no elevador e havia essa velha lá dentro.

- Boa tarde – disse a ela.
- É “bom dia” ou “boa tarde”?
- 12h40, acho que é “boa tarde”.
- Ah, pra mim é “bom dia”. Se eu não almocei ainda, pra mim é “bom dia”.
- Tudo bem – eu disse.

O elevador parou no sétimo e entrou essa putinha sorridente.

- Bom dia – a putinha disse.
- Tá vendo que não é só eu? – disse a velha.
- O quê? – disse a putinha.
- Ele disse que é “boa tarde”. Mas eu disse que eu não almocei ainda, então pra mim ainda é “bom dia”. Veja só, aí você entrou e disse “bom dia” também.
- É, acho que é bom dia – disse a putinha.

Cheguei a pensar em suicídio. Homicídio também. Antes estupraria a garota, é claro. Mas resolvi apenas me virar para o pequeno monitor de propaganda. Então paramos no primeiro andar, e entrou esse elemento engravatado, que não disse uma palavra.

- Moço – disse a velha – pro senhor é “bom dia” ou “boa tarde”?
- “Bom dia” – ele disse – eu ainda não almocei.
- AHH, TÁ VENDO QUE EU TÔ CERTA! – disse a velha me olhando com seu ar de vitória.

Puta que pariu, eu pensei. Não sei se pensei alto. Mas resolvi acreditar que a velha era invencível. Esperei o elevador abrir e segui minha vida. O que salvou o dia foi o Linha de Passe. Depois dos jogos do Flamengo, o melhor programa da televisão brasileira. Pelo menos para quem gosta de uma boa mesa redonda. Sem apresentadores estrelas, quadros idiotas ou convidados musicais que não fazem idéia do que seja um campeonato de pontos corridos. Digo, os caras conversam sério sobre futebol. Mas também não levam o futebol tão a sério. Sabem que existem outros lados. Metem o pau na Educação, na Saúde pública, cospem no tapetão do congresso, chutam os ovos do Ricardo Teixeira. Falam sem medo. Discordam entre si. Falam o que pensam, isso é o mais importante. Os caras sustentam a minha noite. E são capazes de rir e esquecer o tempo, simplesmente votando no gol mais bonito da rodada. Consigo me imaginar com esses caras sentados na porta da igreja da Lapinha, comendo acarajé e discutindo futebol. Eu e o Kfouri trocando ironias, Calazans e Guedes sentindo falta do Pelé, Trajano reclamando de tudo, e o monstro do PVC provando com números que estamos todos errados. E eu diria, não é que o sacana tem razão?

21.11.11

A puta de 30 conto

Era uma cidade perdida no meio do mato. Um desses fins de mundo onde você não tem outdoors, engarrafamentos, Sky, Passatempo recheado, sinal de celular, essas coisas. Mas aquela história que o cara da cidade grande come todas no interior nunca funcionou comigo, é claro. De modo que eu estava há dois dias naquele lugar e não havia lascado ninguém. Então perguntei ao vendedor de algodão-doce, e ele me garantiu a localização exata do puteiro.

Eles chamavam o lugar de Castelinho. De um lado, uma borracharia. Do outro, apenas mato. Não tinha uma lâmpada acesa do lado de fora. Mas era possível escutar alguma música tocando lá dentro. Havia também esse matuto de boné sentado em sua bicicleta, apoiando-se entre uma Kombi e o portão de entrada.

- E aí, campeão – eu disse – as meninas tão no serviço?
- Tão sim. Tu é de Salvador?
- Sou.
- Quer ovo?
- Ovo?
- 2 real, a dúzia. De galinha de quintal.
- Parece bom. Mas hoje só quero uma xotinha caipira.
- Então tá certo. Mas se tu quiser ovo, meu nome é Zé da Monark.
- Tudo bem, Zé.

Foi entrar no Castelinho e sentir o cheiro de buceta. As paredes estavam impregnadas com aquele cheiro. O lugar era escuro, mas consegui achar uma mesa no canto. Havia realmente pouquíssima luz, mas era possível ver do outro lado do bar um grupo de tabaréus apostando a vida numa mesa de sinuca. Incrível como esses caras do interior manjam de sinuca. De sinuca e fazer contas rápidas. Havia também um pequeno salão, e dois casais dançavam, juntinhos, uma versão brega do caralho de One, do U2. E apesar da música, eu conseguia escutar o choro de uma criança vindo de algum lugar daquele inferno. E claro, havia também as putas. Putas feias. Sentadas no colo da rapaziada, bebericando cerveja e rindo da vida na roça. Falando nisso, já que estava por ali, eu pensava seriamente em comer logo a dona do Castelinho. Sei lá, sempre achei que fuder a dona de um brega era como chegar à fase final e encarar o chefão. Então esse cara se aproximou. Alto, branco, pele avermelhada, quase careca. Parecia muito puto com a vida que Deus lhe reservou. E não sei dizer se era canhoto, mas ele não tinha o braço direito.

- VAI QUERER O QUÊ? – perguntou.
- Quem é a dona do puteiro?
- MINHA MÃE.
- Sua mãe?
- VAI QUERER O QUÊ?
- Vodka.
- SÓ TEM CACHAÇA.
- Serve.
- MAS ALGUMA COISA?
- Desculpa perguntar, mas sua mãe parece com você?
- PARECE.
- Então me vê só a cachaça.

Logo, o herdeiro do castelo trouxe meu copinho.

- Cara, acho que tem alguma criança chorando por aí – eu disse.
- É MEU FILHO.
- Então tá em casa...
- MAS ALGUMA COISA?
- Tudo certo, chefe.

E lá se foi o paizão. Dei o primeiro trago e fiquei ali tentando lembrar como a vida me trouxe até aquela mesa. A propaganda que me chutou a bunda. A minha falta de adequação. Falta de grana. Os anos que passavam. Os cabelos que caíam. A falta de algum futuro. A vida encolhendo e se escondendo no meio do mato. Então dei mais um trago e esqueci os pensamentos. Foi quando notei aquela puta sentadinha no fim do balcão. Ao contrário das outras putas, estava sozinha, não bebia, não ria. Só estava ali, no escuro. Esquecida. E foi essa porra dessa mania de me identificar com os desprezados que me fez levantar e me aproximar do balcão. Morena. Cabelos longos. Corpinho no ponto. Era comível, a puta.

- Qual o seu nome?
- Arlene.
- Já deu a buceta hoje, Arlene?
- Não.
- Por que tá sozinha?
- Você também tava sozinho.
- Ok. Qual o preço?
- 40.
- 40??
- Faço por 30. Mas sem cu.
- O que você faz por 30 conto?
- Chupo, dou o xibiu, faço ver estrelas.
- É tudo que eu preciso.

Arlene me puxou pela mão e me levou por um corredor sem fim, onde você só escutava as putas levando nabo e o choro estridente do filhinho do Canhota. O quarto era escuro. Só tinha a cama e uma cortina na janela. Arlene sentou, pegou meu pau e começou a chupar. Mas a coitada não tinha classe. Algo não funcionava. Pedi um tempo, corri pra janela, mas vomitei na cortina. Foi quando bateram na porta. Bateram forte. Abri e era o Canhota. Com um braço só, aquele escroto fazia um barulho desgraçado.

- Vai me dizer que Arlene é sua irmã? – eu disse.
- TERMINOU?
- Como assim, caralho?
- O NEGÓCIO É RÁPIDO. TEM MAIS GENTE QUERENDO O QUARTO.
- Tá de sacanagem, canhota?
- ANDA LOGO. E NADA DE BATER NA MOÇA.
- Você que manda.  

Fechei a porta. Voltei pra Arlene. Mandei ela ficar de quatro, botei a camisinha e meti. Quer dizer, acho que meti. Ou meti no meio das pernas, sei lá, a porra era folgada, meu pau pequeno demais, só sei que eu não sentia as paredes, nenhum tipo de atrito. Foi me dando uma suadeira. E o suor ardia nos olhos. Foi uma luta, uma caçada, foi a batalha do século, mas consegui gozar. Então Arlene se levantou, acendeu a luz, se vestiu e ajeitou o cabelo. Foi nessa hora que peguei um lance estranho. Parecia que Arlene não tinha um olho. Ou era um olho de vidro. Ou era uma mancha branca. Sei lá que diabo era. E sem querer, deixei soltar um “puta que pariu!”.

- Que foi? – Arlene disse.
- Ham?
- É meu olho?
- Que olho?
- Tu se incomodou com meu olho?
- Não entendi. Que é que tem seu olho?
- TU JÁ SE OLHOU NO ESPELHO?
- Não tem nada demais no seu olho.
- TU TAMBÉM É FEIO!
- Arlene...
- TU É GORDO!
- Tá vendo esse olho aqui? Eu também não enxergo desse olho...
- TU É GORDO!
- Sério, não enxergo porra nenhuma...
- TU É FEIO QUE NEM A BEXIGA!
- Ceguinho, ceguinho...
- TU É FEIO COMO A DOR DA MORTE!
- A gente não precisa disso, Arlene. Vamos ficar numa boa. Olha, vou te dar 50. Você merece. Você é linda, Arlene. Você é linda.

Arlene sorriu na mesma hora que escutamos o bracinho pesado do Canhota bater na porta. Fizemos as pazes. Enfim, foi uma boa noite. Deixei o Castelinho e voltei pro meu quarto. Fazia uma lua bonita. Fiquei ali imaginando. Quem sabe eu podia abandonar tudo, morar naquela cidade perdida, casar com Arlene, montar uma mercearia bacana. Esquecer a cidade que me esquecia. Já pensou uma vida sem fila pra entrar em elevadores? Deixei pra lá. Precisava descansar um pouco. O ônibus saía às 6h. Botei o relógio pra 5h45 e fechei os olhos. A rodoviária ficava do ladinho da pousada.

31.10.11

Vencidinho

Só saí de casa hoje porque a geladeira estava vazia. Não fui longe. Apenas caminhei pelo bairro, o que para mim já é doloroso o bastante. Por aqui, as pessoas escutam pagode no volume máximo. Feirantes e freguesas também negociam no volume máximo. Não consigo resistir muito tempo. Então parei logo no vencidinho. Um cara que fica lá com um tabuleiro e umas caixas de produtos prestes a vencer pela metade do preço ou até 80% mais barato. Vez em quando rola coisas legais como Toddyinho, iogurte, pizza Sadia, essas coisas. Sei lá como esse escroto consegue essas mercadorias. Provavelmente algum esquema de carga roubada ou coisa assim. Dessa vez, tinha esses sanduíches Hot Pocket. Peguei dois. Seria meu almoço e minha janta. Bem, não são lá essas maravilhas, mas no supermercado eles vendem um Hot Pocket por 5 conto. E eu paguei 2 por 3 reais no vencidinho. Só porque venceriam amanhã. Digo, depois de amanhã não serviria mais. Sei muito bem o que é isso. Acho que também venho perdendo minha validade. Aliás, sempre foi assim. Volta e meia, uma pequena dose do mundo vinha e dizia, “Ei, cara, já não preciso mais de você”. Foi mais ou menos assim que perdi alguns amigos, que encontraram outros amigos. Perdi também mulheres que, sei lá, me trocaram por outro homem com um pau maior. E certa vez, um amigo disse, “Se prepara, Bono. Depois dos 30, redator é só decadência. Os caras gostam da garotada”. Bem, já estou com 34. Descendo a ladeira. Talvez o baque não seja tão grande porque meus títulos sempre foram perecíveis. Ok, nem sempre fui vitima. Já joguei muita coisa e muita gente na lixeira também. Então você pode dizer, pois é, todos nós temos um tempo de vida útil. Verdade. De qualquer forma, quando me olho no espelho e vejo minha cara vencida, deteriorada e fora do lugar, penso que a minha vida sempre foi um grande desperdício e uma enorme perda de tempo. E ao contrário do que os famosos falam nas entrevistas de TV, me arrependo de quase tudo. Faria quase tudo diferente. Esse blog acaba de completar 5 anos. Deve estar no tabuleiro do vencidinho também. Não digo que vence amanhã. Mas antes eu escrevia com mais vontade, mais leveza. Sei lá, tenho andado sem tempo, sem gás. Talvez outro dia eu escreva uma história mais divertida e escrota. Hoje vou parar por aqui. Agora vou deitar e ficar lá zapeando aquela caralhada de canais, sem encontrar nada de interessante e matando o tempo que eu não tenho.  

15.10.11

Duas fodas

Eu não vivo. Simplesmente me acomodo. Talvez por isso tenha passado tanto tempo com Regina. Regina era advogada e acreditava que isso significava alguma coisa. Ela também só gostava de freqüentar os motéis mais caros. Nesse dia, era algo como dois anos de namoro. E Regina escolheu essa puta suíte. Já que aquelas três horas não seriam baratas, eu queria fuder. Mas Regina não queria que eu a chupasse, porque sentia cócegas. Não podia ser de quatro porque doía. Não queria na piscina para não molhar o cabelo. De ladinho não dava, porque, sei lá, a lua era minguante. Fomos no velho papai e mamãe. Ela abriu as pernas e eu meti. Talvez Regina também estivesse de saco cheio de mim. O certo é que eu não estava sozinho na solidão daquele sexo. Seco. Pragmático. Eu metia e ela gemia na hora certa. Eu metia e percebia o tamanho da minha barriga. Eu metia e pensava, porra, o jogo do Flamengo é hoje ou amanhã? Interrompi meus pensamentos com vontade de mijar. Então acelerei as metidas até gozar. Aliás, eu não gozava. Simplesmente sujava Regina. Depois fui dar minha prazerosa mijada. Regina passou por mim, falou alguma coisa sobre jantar e entrou no chuveiro. Entrei na piscina. Recostei a cabeça na borda. E comecei a bater uma bronha de leve, tentando lembrar algo excitante. Foi quando que me lembrei de Aline.

Aline trabalhava no caixa de uma farmácia no centro da cidade. Não tivemos nada sério. Saímos poucas vezes. Ela era divertida, espontânea. Só queria fuder, de vez em quando. Como naquela noite. Encontramos um quarto no Love Story. Em meio ao fim do expediente dos camelôs na Rua Carlos Gomes. Não houve preliminares. Houve putaria. Chupa aqui, chupa ali, uma pirraça ou outra, risos, Aline gostava que eu lhe batesse uma siririca com a cabeça do pau, essas coisas. Depois meti de quatro. Primeiro, devagar. E ela fazendo miséria com aquele rabo. Depois comecei a bombar. Eu metia com força e Aline olhava para trás misturando dor com um riso safado. Eu metia e me sentia o rei daquela bunda. Comecei a socar o pau lá dentro. Com força, estupidez e fome. Aquilo pegava fogo. Ela berrava, xingava, chacoalhava o corpo. Pura insanidade. Uma foda assassina. Daquelas que se escuta pelas paredes finas dos motéis baratos. Uma homenagem a todos os estupradores da história. Não sou chegado à poesia, mas fuder é dar amor a uma buceta, e naquela noite eu amei a buceta de Aline. Amei imensamente.

Mas voltando à Regina. Quando ela saiu do banheiro, eu já havia largado minha porra na água da piscina. Ela procurava seus brincos.

- Tô morrendo de fome – ela disse
- Vamos no Oliveira.
- Chega de pizza. Queria uma coisa diferente.
- O quê?
- Vamos no Chez Bernard.
- Como é o nome?
- Chez Bernard.

Bem, eu não fazia idéia do que estava comendo. Mas o lugar tinha uma bela vista. Sabia que era caro. Mas Regina estava pagando. Nunca me importei com isso. Ela tentava me ensinar algumas coisas sobre o prato. O pior é que eu não conseguia mais ser engraçado para Regina. Esse é um momento crítico numa relação. Faltava graça naquela mesa. Então ela mudou de assunto e começou a falar da carreira. Que sua irmã havia se dado bem nos concursos públicos, que pensava em fazer um desses cursinhos especializados e mais alguma coisa que não prestei a mínima cota educada de atenção porque, por uns instantes, comecei a lembrar da última cena daquela noite com Aline no centro da cidade. Quando caminhamos até à Estação da Lapa e paramos para comer hambúrguer com sucão de laranja. Coisa de 2 reais. Aline com o olho vermelho porque eu havia gozado na sua cara, rindo e contando histórias engraçadas dos clientes da farmácia.

- Desculpa pelo olho – eu disse
- Eu devia jogar esse catchup picante no seu olho.
- Sério. Me sinto culpado pra caralho quando isso acontece.
- Só desculpo se você me pagar outro hambúrguer.
- Claro, vou querer outro também. Só não gostei do suco.
- Também achei azedo.

25.9.11

Freddy, Jason e o donzelo

Dizem que é infalível. Basta tocar violão que você pega uma putinha. Só que isso nunca funcionou comigo. Certa vez, eu estava passando o fim de semana na casa desse primo, o Rubão. Num desses condomínios chiques, de casas bacanas, jardins, piscinas e tudo mais. E os amigos de Rubão sabiam como matar o tempo. Nessa noite, ficamos apenas encostados na porta desse tal Roni Cabeça. Alguns enchendo a cara, outros fumando um baseado, outros se chupando dentro dos carros. Bem, eu queria me enturmar e também perder a virgindade. Então peguei o violão e arrisquei alguma coisa. Nada demais. Só algumas de três acordes que a gente aprendia nas revistinhas. Primeiro, cheguei nessa ruivinha chamada Lari e mandei uma boa da Legião.

- Legião é um porre – ela disse –, um bando de viadinhos do bem!

Depois teve essa Zuzu. Sentada no gramado da calçada. Cara de porra-louca. Diziam que era toda avançadinha. Devia fuder. Joguei uma do Cazuza. E no meio da música, a puta vomitou na minha frente. Dei um tempo, sentei embaixo de uma árvore e dedilhei alguma coisa. Essa Rafa sentou ao meu lado. Senti a possibilidade. Era minha chance. Rafa tinha cara de sensível e bobinha. Tentei adivinhar e mandei uma do Kid Abelha.

- Adoro essa música – ela disse.
- Sabia que você ia gostar.
- Sério, acho que é a música da minha vida.
- Eu podia fazer uma música inteirinha sobre sua boca, o que acha?
- Sério?
- Ou eu podia dar um beijo em sua boca que valeria um disco inteiro do Kid Abelha.
- Ah, Paulo. Bem que Rubão disse. Você é inteligente, engraçado, mas sabe, é que você é...gordo. Desculpa, não vai dar.

A desgraçada se levantou antes que eu pudesse quebrar o violão na sua cabeça. A noite seguia. Rubão investia numa baixinha que ele era apaixonado. E eu continuava donzelo. Fiquei ali apenas dedilhando a viola e observando aquela turma. Matando suas cervejas, detonando sua maconha. Todos felizes. Com suas mesadas anualmente reajustadas. Mas eu só tinha ódio de Rafa. Foi nessa hora que bateu a vontade de cagar. Logo de início, senti que o negócio era sério. O problema é que minutos antes o Roni Cabeça entrou em sua casa para fazer alguns capetas e avisou que ninguém entrasse, pois os cachorros estavam soltos. Mas eu não tinha muito tempo. A parada veio com tudo. Estrondou tudo lá dentro. Era merda mole. Em questão de segundos eu só tinha duas opções. Ou cagar ou morrer. Foi quando esse cara, o Tonico, se aproximou completamente chapado.

- Sabe tocar aquela do Guns?
- O QUÊ?
- Aquela do assobio...
- Que porra de assobio?
- Aquela assim, naaaaaaannn nanann nanananaaaaann, nanan nan.....
- SEGURA ESSA PORRA, QUE EU PRECISO CAGAR!

Joguei a viola na mão de Tonico e corri pra casa do Roni Cabeça. Empurrei o portão e encontrei Roni Cabeça voltando com um copo de liquidificador cheio de capeta.

- TÁ MALUCO, GORDO? FREDDY E JASON TÃO SOLTOS!
-FODAM-SE FREDDY E JASON! ONDE É QUE TEM UM BANHEIRO, CARALHO?
- VAI NAQUELA PORTA AMARELA!

Corri, atravessei o jardim, entrei no banheiro, baixei a bermuda e larguei. Muita merda. Um jato mole e fedido. Mas um grande alívio. Morra, Rafa. Foda-se, Paula Toller. Deus salve o nosso sagrado direito de cagar em paz. E só quando saiu a última gota, notei que não havia papel. Pensei em me limpar com a cueca e escondê-la na lixeira. Mas também não havia lixeira. Nem pensei mais. Abri a torneira da pia, levantei o bundão e tome-lhe água. Splash, splash, splash e água amarronzada descendo pelo ralo. Cheguei a rir só de imaginar a mãe do Roni Cabeça lavando o rosto naquela pia cheirosa. Então abri a porta do banheiro e fiz o caminho de volta no jardim. Quando vi os mensageiros da morte: Freddy e Jason. Dois rottweilers cheios de baba na boca e ódio no coração. E quando eles vieram, só tive uma chance. Pulei na piscina. Freddy e Jason ficaram ali, latindo e babando na borda.

- VÃO TOMAR NO CU, SEUS MERDA!

Bem, se aqueles diabos pulassem, eu estaria perdido. Você sabe, gordos não conseguem sair facilmente pela borda de uma piscina. Gritei por socorro pra ver se alguém lá fora ou dentro da casa me ouvia. Nada. Nessa hora, notei um rolo de papel higiênico em cima de uma mesa da piscina. E quando um dos dois, ou Freddy ou Jason, já passava a patinha pra ver se água estava fria, Roni Cabeça apareceu com seu copo de liquidificador vazio.

- TÁ FAZENDO O QUE AÍ, GODO?
- NADA DEMAIS. SÓ ESSES PORRAS QUE TENTARAM ME MATAR!
- PULAR NA PISCINA É SACANAGEM! MINHA MÃE VAI PIRAR!
- E QUE PORRA AQUELE PAPEL HIGIÊNICO TÁ FAZENDO EM CIMA DA MESA?

Então Roni Cabeça segurou Freddy e Jason. E voltei lá pra fora. Todo ensopado. Rubão parecia ter se dado bem com a baixinha. E a puta da Rafa também se roçava com um cabeludo embaixo da árvore. É isso, atravessei a adolescência com dois objetivos. Sobreviver. E conseguir uma buceta. Bem, eu estava vivo. Só que mais uma vez voltava sozinho pra casa. Depois disso, tentei ainda teclado, gaita e acordeom. Mas também não adiantou nada.

4.9.11

Menos um

Dois tiros na cabeça. E Anísio saiu do jogo. Amigo dos tempos de escola. Outro dia até nos reencontramos num desses eventos de ex-alunos. Disse que havia montado uma pequena loja de autopeças, estava se saindo bem. Não entendi direito, mas parece que Anísio anunciou uma moto nos classificados, e um cara ligou demonstrando interesse. Então esse cara apareceu na loja e pediu pra testar a moto. Anísio disse, tudo bem, e subiu no carona. Três quarteirões depois, apareceu um comparsa do cara e pegou Anísio em cheio. Dois tiros. Muita gente no enterro. Aquilo de sempre. A mãe chorou pra caralho, esposa, professoras, me lembrei dos tempos de escola. Fiquei na merda.

No caminho de volta, passei no supermercado. Precisava comprar mantimentos. Por um instante, tive a estranha sensação de que não era a primeira vez que eu passava num supermercado depois de um enterro. Não entendi o que isso poderia dizer, e deixei pra lá. Peguei biscoitos, pão, salsicha, papel higiênico. Estava nos sabonetes quando vi essa putinha promotora. Conversava com uma amiga, mas olhava pra mim. Bem, não era tão bonita. Mas qualquer mulher parece gostosa naquela calça colada que as promotoras vestem, você sabe, como qualquer uma também parece tesuda sentada na garupa de uma moto. A putinha me deu umas duas encaradas. Não alimentei esperanças. Não devia ser nada. Como sempre. Depois passei por uma dessas putinhas demonstradoras. Oferecia torradinhas aos clientes. Essa turma me vê e sempre acha que vou querer degustar qualquer coisa. Recusei e cheguei ao freezer de hambúrgueres prontos, bem próximo à putinha demonstradora. Um garoto de uns seis anos devorava as torradinhas, e gritava com a mãe que queria mais e mais. A mãe tentou falar baixo, mas pude ouvir ela dizer, “Você quer ficar gordão igual àquele homem? Então não pode comer mais torradinha!”. Guri escroto. Aprendeu uma lição. Peguei ainda iogurtes e uns Toddynhos. Resolvi passar mais uma vez no corredor da putinha promotora. Conversava com uma cliente. Voltou a me dar uma encarada. Levei o carrinho devagar, encostei numa prateleira, fingi procurar por algo. Olhei novamente. Ela deu um sorriso. Se aquela putinha estivesse mesmo me paquerando, seria um fato inédito na minha vida. Não conseguia nem conceber a remota possibilidade de uma mulher estranha acordar um belo dia e resolver paquerar um gordo no corredor de um supermercado. Aquilo só podia ser uma ação promocional. Só sei que a putinha continuava me encarando. E comer aquela promotora poderia me ajudar a esquecer o lance de Anísio. A putinha se aproximou, eu já tava de pau duro, então ela sorriu e disse,“Boa tarde, o senhor já conhece o Pantene Pro-V Controle de Queda?”. Maldita mania de ter esperança. Eu disse apenas, não, e segui meu caminho. A fila do caixa estava grande. Atrás de mim duas mulheres especulavam sobre o final da novela das oito. Na minha frente, havia esses caras falando de futebol, dizendo que o time do Bahia era roubado em todos os jogos. Eu estava cansado daquilo tudo. A fila realmente não andava. Resisti apenas cinco minutos. Larguei as compras e fui pra casa.

Subi as escadas e abri a porta pensando nisso, que você começa cercado de pessoas. Gente por todos os lados. Aos poucos vão desaparecendo. Uns mudam de cidade, outros casam, outros morrem de câncer no cu, outros levam tiro, outros você não fazem idéia, outros apenas deixam recados no Facebook. É muito sutil. Um a um. Você percebe sem querer. Menos um amigo, menos outro amigo, menos um ídolo, menos um pai, menos um avô, menos um amor, menos um cachorro, menos um vizinho, menos um conhecido, menos outro amigo, menos um, menos um, menos um. Como se restasse apenas você. E quando me perguntava onde essa turma toda foi parar, descobri que a felicidade é um resto de yakisoba no fundo da geladeira.

21.8.11

Cu alto faixa amarela

Eu tentava novos dias em uma nova cidade. Depois de duas semanas numa pensão barulhenta e fedida, resolvi procurar um lugar melhor. Peguei os classificados, liguei para alguns números e num só dia visitei todos. Numa dessas, quem me recebeu foi essa morena, uma jovem corretora em início de carreira.

- Você trabalha em quê? – ela disse.
- Propaganda.
- Então você engana as pessoas?
- Mais ou menos como os corretores.
- Tá certo. Então é melhor eu fazer meu trabalho. Esse lugar é ótimo, bem localizado, um quarto e sala que parece dois quartos, a geladeira funciona, chuveiro quente, olha o tamanho desse quarto, o condomínio é barato e você ainda tem esse sofá...

Ela caminhava e apontava os objetos. Percebi que ela não era tão bonita, mas seu rabo merecia mais respeito que o papa. Quero dizer, não era uma bunda tão grande. Mas aquela corretorazinha tinha o que chamamos de cu alto. Sabe, cu alto? Daqueles que ficam lá em cima, nas costas, todo empinado, arrebitado, parecendo um desses bancos com design moderno que ninguém consegue sentar. Um caso clássico de cu alto. Enquanto ela abria as janelas, eu calculava que devia dar um trabalho danado comer aquele parreco. Me aproximei da janela, observei a vizinhança. Uma padaria, uma banca de jornal e uma roda de dominó. O que mais eu podia querer? De qualquer forma, eu disse que havia gostado e qualquer coisa ligava.

Conferi mais uns cinco lugares naquele dia. Ou caros demais ou eram encardidos ou não vinham com geladeira ou eram distantes do ponto de ônibus. Então liguei para a morena perguntando se podíamos nos encontrar novamente para fechar negócio. Ela disse, tudo bem. Chegando lá, dessa vez, ela vestia uma saia estampada que fazia seu incrível rabo trapezista parecer mais vivo do que nunca. Pedi para abrir a janela novamente. Já havia escurecido, e a roda de dominó ainda estava por ali. Aquele era meu lugar.

- Vou ficar – eu disse.
- Esqueci de perguntar. De onde você é?
- Salvador.
- Dizem que baiano é tudo safado...
- Se o resto do país não gosta de safadeza, a culpa não é nossa.
- O pagamento é todo dia 5.
- Mas como é esse lance de mostrar apartamentos a estranhos?
- Como assim?
- Digo, estamos aqui sozinhos. Eu podia tentar lhe estuprar.
- Você podia tentar. Mas sou faixa amarela de hapkido.
- Hapkido?
- Defesa pessoal. Posso te deixar aleijado.
- Porra, já deixou algum homem aleijado?
- Ainda não. Por enquanto o professor só me coloca pra lutar com garotos.
- Então você luta com garotos?
- Por enquanto. Ontem mesmo lutei com um de 12.
- Garoto esperto. E o safado aqui sou eu.
- O que você quer dizer?
- Quero dizer que nesse exato momento, esse guri tá fazendo uma bela homenagem a sua pessoa.
- Homenagem?
- Digo, você fica lá atracada com ele, agarra aqui, pega ali, lixa o assoalho, um roça-roça da porra, é claro que ele tá descascando uma pensando em você. Uma homenagem bem merecida.
- É só uma criança de 12 anos.
- Eu comecei com 10.
- Baiano é tudo safado.
- Não esquenta. É um processo natural.
- O menino não tem nem pêlo na cara.
- Vá por mim, ele vai se lembrar de você o resto da vida.
- Você tá exagerando, baiano.
- E digo mais, todos os outros garotos que assistiam vocês lutarem também bateram.
- Você é doente.
- E esse negócio de rapkidô funciona?
- É HAPKIDO!

Foi nessa hora que avancei sobre ela e agarrei firme seu corpo contra o meu. Ela tentou dar uma joelhada no meu saco, mas tranquei suas pernas.

- ME SOLTA, SEU LOUCO DE MERDA!
- Sua puta!

Mergulhei minha língua em sua boca. Ela tentou morder meu lábio. Apertei com força seu peito e ela gritou. Então girei seu corpo com força e agarrei-a por trás, de modo que eu ficava roçando naquele rabo gigantesco. Ela tentava me dar cotoveladas e cabeçadas.

- AGGGGHHHHHH, ME LARGA!!!
- Calminha, Shun Lee!

Então a carreguei até o velho sofá. Com uma das mãos, inclinei seu corpo de bruços sobre a cabeceira e com a outra levantei sua saia, afastei sua calcinha e enchi a mão em sua xoxota. Ela deu um pequeno gemido. Sacudia o corpo, tentava se soltar, mas já estava molhada. Minha mão simplesmente deslizava lá dentro, dois dedos, três dedos, bati uma firme pra ela. Ela começou a gemer, respirar mais forte e empinar aquele seu cu cada vez mais alto, cada vez mais alto, até gozar e seu corpo amolecer de vez.

- Seu puto desgraçado! – ela disse ofegante.
- Rapkidô de cu é rola, sua putinha.
- É hapkido...
- Agora é minha vez, Lucy Liu. Você conhece o velho golpe da vara?

31.7.11

Traumas, xadrez e outras ilusões

Às vezes penso que sou feito de merda. Minha primeira cagada é logo quando chego na agência. Dou outra barrigada depois do almoço. E, a depender do número de reuniões no dia, mando mais uma na hora da saída. Então já passavam das 19h. Eu estava lá mais uma vez descendo o barro. E quando saí do banheiro encontrei Mari e Paty.

- E aí, Bono – Mari disse – vai ver a exposição do Doug?
- Essas coisas não são pra mim.
- A gente tá indo – Paty disse – tô de carro, se quiser carona...
- Ok. É sempre bom a presença de um homem nessas horas.

Embora Doug fosse um bom camarada, não sei que porra eu ia fazer numa exposição. Mas a verdade é que há tempos eu queria juntar essas meninas, quero dizer, peitinho com peitinho, despertá-las para uma nova vida. E quando elas se atracassem, eu queria estar por perto para pegar o rebote.

Era um coquetel de lançamento. Bem, nunca tinha ido numa dessas exposições. Mas me pareceu a história de sempre. Algumas rodinhas de narizes empinados entendedores de arte e dinheiro, putinhas de luxo, alguns viados e aquela turma cult, agora de barbicha e camisa xadrez. Paty foi cumprimentar conhecidos, enquanto Mari e eu procuramos o garçom. Fomos de vinho.

- O que você acha de Paty? – eu disse.
- Como assim? – Mari disse.
- Acha ela bonita?
- Sim, ela é bonita.
- E aí?
- E aí o quê?
- Ficaria com ela?
- O QUÊ?
- Digo, vocês são jovens, bonitas...
- Vá se fuder, Bono.
- E aquele lance de vocês dividirem a comida no almoço?

Mari saiu sem responder. Peguei outra taça de vinho. Não estava muito interessado naqueles quadros e não pretendia fingir entendê-los. Mas havia essa lista de presença. Deduzi que devia ser sinal de boa educação assiná-la. Assinei: Erasmo Carlos. Email: tremendao41@hotmail.com. Então Paty apareceu.

- Cadê Mari?
- Tá doidinha procurando você.
- Encontrei uma amiga que trabalhou comigo na outra agência...
- Você transaria com Mary?
- O QUÊ?
- Digo, vocês são jovens, bonitas...
- Não, Bono. Não tenho a mínima vontade.
- Devia experimentar. As mulheres sabem onde se tocar...
- E por que você não experimenta uma rola?
- Rola é um troço feio. Buceta é uma coisinha bonita. Sabe disso, você mesmo tem uma.
- Onde é que tem vinho?
- Só me diga uma coisa. Com quem você preferia fuder, comigo ou com Mari?
- MIL VEZES com ela...
- Já tá começando a abrir a cabeça...
- Vá se fuder, Bono!

Paty se afastou. Definitivamente aquele não era o meu lugar. Toda aquela gente bonita e elegante me olhando estranho. Como se eu fosse um rinoceronte cubista ou um botijão de gás atrapalhando a passagem. Resolvi ficar no meu canto. E comecei a reparar pelo menos os quadros daquela parede. Bem, não entendo porra nenhuma de arte. Mas eram coisinhas feias, esquisitas e sem sentido, ainda mais depois de ler os títulos. Depois observei que havia certa solidão, loucura e traumas naquilo tudo. Tintas próprias de quem já foi sacaneado nos tempos de escola, humilhado em outras galerias, e comecei a me identificar com aquela porra. Foi nessa hora que Doug apareceu. De camisa xadrez e barba rala no queixo.

- Grande Paulo Bono!
- Parabéns pelo trabalho, Doug.
- Que bom que você veio. Tá gostando?
- Já te falei. Você pinta pra caralho. Mas não curto muito esses seus...
- Casulos...
- Essas porras desses casulos. São meio nojentos.
- Que bom que provoca alguma coisa em você. O importante é isso.
- Esse aqui mesmo lembra meu rim sofrendo com uma pedra.
- Olha lá. Sorria.

O fotógrafo estava prestes a disparar o flash. Pus a mão na frente da câmera.

- Segura aí, parceiro. Que tal tirar foto só das putinhas?
- Deixa lá – Doug disse – esse gordo é anti-holofotes!
- Vai lá, Doug. Mostra pra eles seus casulos.

Aquela exposição já estava um chute no saco. Resolvi dar uma volta para encontrar Mari e Paty. Só encontrei Guismo, um amigo diretor de arte. De camisa xadrez, fiapos de barba e olhos vermelhos e pequenininhos. Observava um quadro.

- E aí? – eu disse
- Uma doideira esses quadros do Doug...
- Viu Mary e Paty por aí?
- Quando cheguei, elas tavam indo embora.
- Merda...
- Esses quadros são tipo...aqueles sonhos loucos que a gente tem.
- Aquelas putas me passaram a perna...
- Tá ligado que no sonho a gente nunca consegue correr rápido? Tipo, você tenta correr, mas não consegue...
- Tô com uma vontade de cagar do caralho...
- Mas se ligue. Peguei a manha pra correr rápido no sonho. Correr de costas.
- Correr de costas?
- Correr de costas. O único jeito de correr rápido no sonho.
- Porra, onde é que fica o banheiro?

10.7.11

A Estrada

Homem joga pedra em gato, abandona criança em lata de lixo, faz promessas na TV, rouba vaga de aleijado, desvia dinheiro da saúde, não devolve troco que veio a mais, humilha quem é preto, chuta quem é pobre, taca fogo em índio, esmaga quem é diferente, vende a alma, não paga o salário, mente, sente inveja, mata por tudo, mata por nada, atropela e foge. O jegue é bom, o homem é mau.



Quando eu soube do Pina, pensei, no fim das contas, a vida não passa de um jogo, um jogo sujo, num campo de várzea, sem leis, sem regras, sem bom senso, sem desculpas, um joguete que mais cedo ou mais tarde você vai perder de qualquer jeito. Conheci Pina nos tempos de estágio. Sua vida era na estrada. Dormindo em hotéis baratos, comendo em postos de gasolina e conhecendo putinhas interestaduais. Seu objetivo era conhecer o país de cima a baixo, seguindo o calor da estrada. Nunca fui tão longe com Pina, no máximo até Ilhéus. Minha viagem sempre foi a preguiça. Mas a diferença entre nós dois era que Pina acreditava nas pessoas. Uma espécie de Dom Quixote que realmente acreditava na bondade do ser-humano.

“Você ainda vai se fuder numa dessas” – eu dizia. Acontece que Pina tinha essa mania. Dava carona a qualquer pessoa. Homem, mulher, velho, criança, traveco, até freira, qualquer um que lhe estendesse a mão, Pina abria maldita porta do carro. Eu dizia – “você é louco” – “Já fui carona, Bono” – ele dizia – “Na estrada, tem sempre alguém precisando de ajuda”. Porra de ajuda. Uma vez conheci um taxista que já tinha sido assaltado 19 vezes, sendo que, numa dessas, ele havia parado para uma puta que supostamente estava dando à luz. Disse que hoje em dia não parava à noite nem que avistasse o próprio Jesus Cristo distribuindo pão com manteiga. Vou dizer uma coisa, também não espero boa coisa do meu semelhante, prefiro me surpreender com gestos de bondade, mas não aposto minhas fichas em seres humanos. Mas vamos lá, talvez eu seja apenas um gordo amargo e revoltado só porque já levei alguns tropeços nessa vida, e Pina fosse uma pessoa bem melhor que eu. A caminho do hospital, lembrei da nossa última viagem. Uma mulher e dois garotos na beira da estrada. Pina parou o carro.

- Caralho, Pina. Não para não – eu disse
- Uma mulher e dois garotos – disse Pina
- Depois o pai sai do mato com uma machadinha na mão.
- Prefiro fazer a minha parte, Bono.
- Merda, o guri é a cara do Charles Bronson.

Mas dessa vez não houve tempo para carona. Pelo que entendi, Pina avistou um mochileiro estendendo a mão. Parou no acostamento, perguntou para onde ia e ofereceu a carona. Mas disse que antes ia dar uma mijada. Então Pina desceu do carro, caminhou alguns metros e bateu o mijão. Acontece que quando Pina voltava para o carro, veio de lá outro veículo desgovernado e acertou a porta o carro e de alguma forma atingiu Pina e depois um velho e um burro que vinham mais adiante. O escroto fugiu sem dar socorro.

Encontrei Pina todo enfaixado, só com os olhinhos de fora. Quebrou o fêmur, rachou a cabeça e fudeu com algumas costelas. Cheguei na hora da fisioterapia. Ele não ia poder dirigir por algum tempo. Mas estava animado. Pina era uma pessoa melhor do que eu.

- Foi o carona que pediu socorro – disse Pina – o que você me diz agora?
- Você é um merda.
- Eu faço a minha parte, Bono.
- Disseram que tinha um velho com um burrinho?
- O velho tá melhor que eu. Mas parece que o bicho teve que ser sacrificado.
- Porra, você tá feio pra caralho.
- Depois fico bonito de novo. E você, seu gordo??
- Depois a gente vai pra Fortaleza. Mas vamos de avião. Tá rolando umas promoções de passagem.
- Comer barra de cereal? Sou mais pegar a estrada e encarar aquele pastel gigante do posto.

26.6.11

O que é preciso para ser um redator?

Acho que tudo começou no exato momento que deixei a barriga da minha mãe e algum escroto me deixou bater a cabeça. É a única razão que explica eu conseguir a façanha de perder no vestibular para propaganda. Entrei em uma coisa chamada Relações Públicas. Que porra é essa? Até hoje não sei. Sei que depois de quatro anos, passei mais dois estudando os classificados religiosamente todos os finais de semana. Cheguei a decorar os anúncios. Quais eram repetidos, quais eram furadas, quais nem adiantava mandar currículo. Naquele tempo eu tinha assinatura da Você S/A e tentava seguir todas aquelas regrinhas bacanas para ser bem sucedido. Você sabe, falar inglês, aprender sobre computadores, ler o jornal, essas coisas. Não adiantava muito. Nos anúncios eles diziam, “Necessário ter boa aparência”. O problema é que eu não pretendia nascer de novo. Mesmo assim mandei muitos currículos, fui a centenas de entrevistas e dinâmicas de grupo. Para trainee de supermercado, trainee de banco, relações públicas júnior, assistente de atendimento, assistente administrativo, vendedor de curso de inglês, vendedor de seguros e todas essas merdas que eles inventam. Eu chegava nas entrevistas exatamente como mandava a Você S/A. Cabelo cortado, barba feita e camisa social por dentro da calça. Mas é aquela coisa, gordo com camisa por dentro parece mais imbecil. Lembro de uma vez que a putinha da recepção disse – “Pois não, senhor?” – Eu disse – “Eu vim pra vaga de atendimento” – E a desgraçada olhou para o lado e riu com as colegas. De qualquer forma nunca passei da primeira fase das entrevistas. Começavam com uma entrevista coletiva, faziam lá aquela roda, algumas perguntinhas idiotas e iam eliminando candidatos. Geralmente os primeiros dispensados eram os negros, os albinos, as velhas, eu e minha camisa por dentro. Difícil era voltar o caminho todo no ônibus pensando em uma nova desculpa para os meus velhos, uma nova razão para ser dispensado em mais uma entrevista. Às vezes eu preferia dizer que havia recusado o trabalho por pagarem pouco. Então os velhos me enchiam os colhões para correr atrás dos concursos. Mas nunca fui bom em provas. De modo que o tempo passou, não renovei a assinatura da Você S/A e passei aqueles dois anos como um vagabundo. Se eu me importava? Bem, havia crescido com aquele sonho clichê anos 80 de passar no vestibular e chegar aos 25 com um carro do ano e uma puta carreira respeitada. E agora descobria que não sabia fazer nada, e a não ser que mandasse um currículo para o circo, eu não era apto a nenhuma outra função da humanidade, pois mesmo que fizesse um MBA no caralho que fosse, eu não tinha uma boa aparência.

Então fiz esse curso de editoração eletrônica. Sabe esses cursos que ensinam a mexer nas ferramentas do Corel Draw e do Photoshop e o cara sai do curso com um cartão de visitas em papel vergê dizendo que é designer? Pois é. Fiz um desses e um dia vi no mural esse anúncio com uma vaga para estágio em computação gráfica. O bom é que não falavam nada sobre boa aparência. Quando cheguei lá descobri que era uma gráfica de etiquetas e conversei com esse barbudo dos dentes amarelos.

- Nosso negócio é etiquetas – ele disse.
- Parece interessante – eu disse.
- Você vai ficar na computação.
- E o salário?
- Por enquanto é estágio. Dou vale-transporte.
- Não tem salário?
- Tá bom, garoto. Gostei de você. Te dou vale e almoço.
- Fechado.

A tal gráfica funcionava em um bairro distante, numa rua esquecida, numa casa velha e desbotada. Minha sala ficava nos fundos. Um cubículo onde mal cabiam duas cadeiras, dois computadores 386, uma impressora e um ventilador. O lugar se encaixava no meu perfil profissional. Escondido, esquecido, longe das vitrines, dos olhares e sorrisos, bem distante das relações públicas. Enfim, eu tinha um emprego. Meu trabalho era fazer a arte das etiquetas. Não dava para criar muita coisa, já que a maioria dos clientes eram lojas de informática que só precisavam dessas etiquetazinhas que servem como lacre de garantia. Então descobri que na verdade meu trabalho era imprimir as etiquetas, que saíam da impressora em alta velocidade e era preciso enrolá-las rapidamente formando um rolo compacto e organizado. Esse era o problema. Atividades manuais também nunca foram o meu forte. De repente, lá estava a impressora trabalhando a todo vapor, e eu derrubando os rolos, pisando e amassando aquele mar de etiquetas pelo chão. “PUTA QUE PARIU!” – gritava o supervisor – “O ESTAGIÁRIO COTÓ ERA MAIS RÁPIDO QUE VOCÊ, GORDO!”. Passei longos três dias nessa guerra, cultivando a certeza que tinha um sério problema de coordenação motora quando no quarto dia, bateram na porta para dizer que o almoço havia chegado. Sentávamos todos numa pequena mesa de madeira. Na quentinha estava escrito “Paulo / Lasanha”. Aquilo podia salvar o meu dia. Mas quando abri a quentinha descobri o ineditismo de uma lasanha feita com quitute. Isso mesmo. Mandaram para mim uma porra de uma lasanha seca e massuda recheada com aquela carne sebosa e processada que a gente comia quando era pequeno. Por Deus, fiquei deprimido e pensei em matar todos eles. Por Deus, desde esse dia, nunca mais pedi lasanha em quentinha. Então me levantei, não me despedi de ninguém e voltei o caminho todo no ônibus pensando numa nova desculpa para os meus velhos.

Naquela mesma noite o telefone tocou. Era a Cris, uma amiga dos tempos de escola que agora estava morando em Feira de Santana.

- Arranjou emprego? – ela disse
- As coisas tão difíceis.
- Tô numa agência de propaganda.
- Legal.
- Eles tão precisando de redator. É isso que você faz?
- O que é que faz um redator?
- Acho que redige, né?
- O pior é que eu sempre me fudi em redação.
- Tão pagando 350.
- Foda-se. Não custa tentar.

5.6.11

Peitudas jogadoras de boliche

Ed conheceu essa putinha no ônibus. Vinte e pouco, belas pernas, pés maravilhosos. Suas cantadas eram as mesmas dos tempos de solteiro. Um dia tinha que dar certo. Convenceu a putinha a descer do ônibus, e pegaram um táxi para o motel mais próximo. Chegando lá, Ed ligou o som, dividiram uma lata de refrigerante e ficaram um bom tempo apenas conversando. Depois Ed olhou as horas. Passavam das três da tarde. Trocaram alguns amassos e a putinha pediu para Ed meter. Ele disse que queria apenas comer os pés dela. “Comer o meu pé?” – ela disse. Então Ed se agachou e começou a beijar e lamber aqueles pés. Depois juntou os dois pezinhos e começou a meter bem no meio deles, como se fosse uma espanhola, mas ao invés dos peitos, era com os pés. Depois que Ed gozou, a putinha perguntou se ele era louco. Ed disse que tudo começou quando ele tinha 11 anos e se escondia embaixo da cama. Ficava observando os pés e tornozelos de suas tias, até que um dia sua tia descobriu e...

O interfone tocou. Fui atender. Era o Milton, meu vizinho, perguntando se havia faltado água no apartamento. Abri a torneira. Sem água. Apareci na janela. Milton e todos os outros homens do prédio estavam lá embaixo mexendo nos canos, que dizer, uns mexiam nos canos, outros ficavam apenas com as mãos na cintura e dando opinião. Não tenho paciência para essas coisas. Eu não desceria para ficar ali com aqueles caras. Não é do meu feitio. Esperaria pela água o tempo que ela quisesse.

Voltei ao computador. Desisti da história de Ed. Queria escrever sobre sexo. Mas queria algo mais punk. Esse negócio de tesão por pés é modelo standard, você vê eles falarem o tempo todo na TV. Então vamos lá, vamos falar de um homem que acabou de vomitar no seu casamento, mandou a esposa para a puta que pariu e resolveu chutar o balde. Precisamos de um nome. Vamos de Jota. Isso, Jota. Jota cansou do papai-mamãe, de quatro, papai-mamãe, de quatro. Tinha 40 anos e queria agora comer todas as espécies de bucetas existentes no universo, queria o kama-sutra em realidade aumentada, queria gozar no fundo do poço. Trepou com gorda, anã, albina, velha, caolha, aleijada, topou chicote, vela quente e soco na cara. Até que nesse dia Jota chamou uma puta de elite. Dessas lindas, limpinhas, sabia até falar inglês. Jota não conversava muito. Botou um DVD do Pink Floyd, abriu uma garrafa de uísque e logo começou a lascar a puta. Como aceitou pagar 400 conto, meteu em tudo que era buraco. Depois a puta disse que ia no banheiro lavar o rosto e fazer xixi. Foi aí que Jota mandou ela mijar na cara dele. “Você curte essas coisas, cara?” – ela disse. Então Jota deitou no meio da sala e ordenou que a puta mandasse a boa chuva dourada. Assim ela fez. E Jota gostou de sentir aquele mijo cair sobre seu rosto. “Quentinho!” – ele dizia – “Ai, quentinho! Que gostoso!”. Quando a puta acabou o serviço, Jota disse “agora, caga”. “QUE PORRA SEU MALUCO!” – ela gritou – “Mais 100 conto pra eu ver seu cocô de puta universitária!” – ele disse. Então Jota deitou novamente entre as pernas da puta enquanto ela fazia força e disse “caga, minha linda”. Jota esperou ansiosamente. Mas quando viu aquele cuzinho rosa se abrir e a tripinha de merda saindo, saindo devagar, ele desistiu e gritou “SAAAAAAAIIIIII, PUTA!!!”, empurrando a puta, que caiu sobre a garrafa de uísque e largou seu cocô na própria perna. Jota xingava feito um louco. A puta, suja de merda e sangue, pegou o casco de vidro e...

A campainha tocou. Fui atender. Era Seu Rubens.

- PAULO, VOCÊ TEM FÓSFOROS?
- Te arranjei 2 caixas essa semana, Seu Rubens.
- EU FUMO DEMAIS! EU FUMO DEMAIS!

Arranjei os fósforos de Seu Rubens e voltei ao computador. Não sabia mais como terminar a história. Talvez reescrevesse de novo. Talvez tirasse a parte da puta caindo sobre a garrafa. Então desisti, como sempre. Resolvi dormir e deitei na cama. Antes bati uma punheta. Nada demais. Pensei em algo mais leve, natural. Mulheres peitudas nuas jogando boliche. Imaginei essas putinhas nuas, carregando aquelas bolas pesadas, com seus peitões balançando e pulando alegremente só porque derrubaram quatro pinos.

13.5.11

Sem título

Eu precisava espalhar mais algumas tomadas pela casa. Então chamei esse eletricista, Seu Raimundo. Acontece que o velho só chegou depois das onze. De qualquer forma, expliquei onde ficariam as novas tomadas e saí para resolver outras coisas. Cortar o cabelo, comprar a comida do peixe, passar no mercado e na casa lotérica. Mas o atraso de Seu Raimundo me fez perder praticamente toda a manhã. Parece que esses caras, pedreiros, pintores, eletricistas, encanadores, têm problema com horários. É universal. Bem, toda classe tem seu câncer, sua pose.

Outro dia mostrei a uma amiga um comercial que escrevi, um puta comercial com atriz famosa e tudo, e ela disse que achou bem normal. Foi como um chute no saco. Teve também o dia que mostrei a minha mãe um anúncio que ajudei a criar e que saiu numa grande revista. Era um anúncio legal, tinha conceito, essas coisas. E ela perguntou se eu só tinha escrito aquela frasezinha lá em cima. Me senti um merda. Oh, Senhor, minha mãe não sabia como era difícil escrever, pensar, criar um título. Não fazia idéia de como um bom título podia salvar o mundo. E assim a vida segue. Gente por aí salvando vidas, procurando a cura da AIDS, construindo arranha-céus, restaurando livros, pintando quadros, colando tijolos, varrendo a cidade, enquanto a gente fica tuitando por aí que já passa das nove e ainda estamos na agência, fechando anúncio e comendo pizza. Isso para dizer que nossa barra é pesada, mas claro, também para compartilhar com os amigos como somos criativos e trabalhamos com TV, modelos, atrizes, jingles e outdoors. Por Deus, chegamos a ser pegajosos. A verdade é que minha mãe e o mundo, exceto nós mesmos, estão cagando para aquele anúncio premiado. Pelo menos nunca comi ninguém por dizer que sou publicitário. Além do mais, criamos o que o cliente deseja vender e o consumidor precisa entender. O que há de genial nisso? Se amo minha profissão? É o que eu sempre quis fazer. Mas vou dizer uma coisa, é um só trabalho, cara. Só um trabalho, como outro qualquer, que pede um descanso aos sábados e domingos.

Por falar nisso, não deu tempo de cortar o cabelo, mas pelo menos Seu Raimundo eletricista terminou o serviço. Dei uma conferida e disse:

- Tenho impressão que aquela tomada tá torta.
- É só impressão – disse Seu Raimundo
- Tudo bem. Agora me diga uma coisa, o senhor ama seu trabalho?
- Que jeito? Tenho que pagar as contas.

Pobre Seu Raimundo. Será que alguém ia curtir se ele dissesse lá no Facebook “Sábado de sol, e eu aqui colocando tomadas na casa de um gordo maldito!”? No mais, já passa da meia noite, não achei um título criativo pra esse texto e não consigo dormir olhando para aquela tomada torta.

27.4.11

Os vermes do pântano

Eles voltaram a reprisar Seinfeld nas noites de sexta. Então eu estava lá, acompanhando um episódio dos bons, aquele que eles apostam quem consegue ficar mais tempo sem bater uma punheta. Quando o telefone tocou.

- Alô?
- Bono, é o Pará.
- Diga, índio.
- Preciso de erva.
- Acontece que eu não fumo.
- Eu sei. É que a massa tá em falta. Tô ligando pra todo mundo.
- Cara, eu tô assistindo Seinfeld.
- Porra de Seinfeld! Não conhece ninguém pra me arranjar uma lenha? A patota da Lapinha? Do Queimadinho? Os ciganos? Os duendes de Brotas? Cadê a turma do mato? Dos bueiros? Cadê os vermes do pântano?
- Por que você não planta sua porra?
- E aquele cara, o Miro?
- Tá em cana.
- E o Procóia?
- Overdose.
- O Gangrena?
- Virou evangélico.
- E aquele maluco, do show de Otto?
- Valdemort?
- Isso.
- Bem, talvez ele possa te ajudar. O problema é que ele é meio cismado.
- Cismado de cu é rola. Vamos lá.

Conheci o Pará numa pequena roda de palitinho à cachaça. Parecia aquele cara do filme Um Morto muito Louco. Seu lema é viver até a última ponta. Bem, não deixa de ser uma boa filosofia.

Liguei para o Valdemort e falei do que se tratava. Meia hora depois, Pará e eu estávamos pelas bandas de Itinga, mais precisamente batendo na porta de Valdemort.

- Haja o que houver, não fique encarando ele – eu disse.
- Encarando como?

A esposa de Valdemort nos recebeu e disse para que esperássemos na sala. Havia esse garoto de uns 10 anos jogando vídeo-game. Ele parou de jogar e ficou olhando para as nossas caras de merda.

- Tá jogando o quê, campeão? – Pará disse ao garoto.
- Você também quer o cigarro de meu pai?
- O quê?
- Meu pai não deixa eu pegar o cigarro dele.
- Quantos anos você tem, guri? – perguntei.
- Ele disse que quando eu crescer, eu vou comprar o meu.

Então Valdemort apareceu com seus olhos alucinados e mandou o garoto ir para o quarto. Fiz as apresentações. O negócio tinha que ser rápido.

- Tenho boldo, açúcar, docinho, drops, o que você quiser – disse Valdemort.
- Hoje vou ficar só orégano – disse Pará.
- Que porra vocês tão falando? – eu disse.
- Então você é do Pará? – disse Valdemort – Torce pra quem, Caprichoso ou Garantido?
- Isso é Amazônia. Sou de Belém. Não tem nada a ver uma coisa com a outra.
- Você tá me encarando? – perguntou Valdemort
- Como assim?
- NÃO GOSTO DE HOMEM ME ENCARANDO! – disse Valdemort se levantando.
- Puta merda – eu disse.
- Eu não tô encarando ninguém. Só quero um pouco de lenha.
- VÁ PROCURAR UMA LENHA PRA SENTAR EM BELÉM, NO ACRE, NA CASA DO CARALHO!
- Calma, Valdemort – eu disse.
- BONO, LEVE SEU AMIGO DAQUI! VOCÊ SABE QUE EU TENHO UMA ARMA! EU TENHO UMA ARMA, VOCÊ SABE DISSO!

Logo depois, Pará e eu já estávamos fazendo o caminho de volta.

- Você também ficou encarando o cara – eu disse.
- Encarando como, porra?
- E aquele guri?
- É pra falar com ele olhando pra parede? Maluco dos infernos.
- O guri é um vermezinho.
- Preciso urgente de um beck...
- Eu também pensava que aquele negócio do boi garantido era no Pará.
- Amazonas.
- Sei lá, tudo a mesma coisa.
- Mesma coisa, a minha pica.

10.4.11

As loucuras do Dr. Rubens

Eu havia acabado de inventar esse negócio de escrever um blog. É aquela coisa, quando se está desempregado, você precisa inventar algumas pílulas para não enlouquecer. De qualquer forma, eu estava lá, encarando a tela em branco do computador, tentando me lembrar de alguma história, mas não conseguia digitar duas linhas que valessem à pena. Foi quando bateram na porta. Fui atender. Era Seu Rubens.

- Fósforos, Seu Rubens? – perguntei.
- CADÊ ROSÁLIA?
- Não faço a menor idéia, Seu Rubens. Já procurou em sua cozinha?
- CADÊ ROSÁLIA, MINHA ESPOSA AMADA?
- Eu tô ocupado agora, Seu Rubens. Se quiser, eu tenho fósforos.
- EU SEI QUE ELA TÁ AÍ DENTRO, SEU SAFADO! CADÊ ROSÁLIA!?!?

Para entender esta cena, preciso primeiro contar a história de Seu Rubens. Eu conhecia o velho há mais de 20 anos. Naquela época era um advogado sério, cheio de estilo. Andava por aí com sua pasta e sua gravata. Até que um dia, Seu Rubens subiu na sacada de um prédio e disse que estava a fim de pular. Gritava alguma coisa sobre leis, carros e prostitutas, e queria acabar com tudo. Não lembro quem foi, mas algum mensageiro da paz tirou Seu Rubens lá de cima. Tempo depois, disseram que o problema não eram as putas, o caso é que Seu Rubens sofria de esquizofrenia. Bem, já havia me deparado com um desses tipos antes, nos tempos da Lapinha, o Fred Maluco. O cara simplesmente desenhava submarinos enormes na parede, cheios de equações matemáticas de trás para frente. E fazia discursos ensandecidos, chegava a mencionar a bomba atômica. Porra, eu me cagava de medo do Fred Maluco. Mas Seu Rubens era diferente. Ficava apenas andando por aí, detonando carteiras de cigarro e pedindo dinheiro para comprar sorvete ou Coca-Cola. De vez em quando dava alguns ataques, se por acaso se esquecesse de tomar os remédios. Já vi Seu Rubens quebrar o balcão de uma farmácia, rolar uma ladeira metendo a porra num traveco, jogar sua aposentadoria pela janela, vender suas cuecas para outro doido, chorar feito criança por causa de um gato, dar um soco num vira-lata e tentar pular de um prédio pelo menos mais duas vezes. E certa vez, Seu Rubens baixou as calças na frente de duas beatas evangélicas, afirmando que seu pau estava possuído. No mais, o velho era amigo de todos no bairro. Ele também tinha mania de bater nas portas para pedir fósforos. Mas não era o caso dessa vez. - Fósforos, Seu Rubens? – perguntei.

- CADÊ ROSÁLIA?
- Não faço a menor idéia, Seu Rubens. Já procurou em sua cozinha?
- CADÊ ROSÁLIA, MINHA ESPOSA AMADA?
- Eu tô ocupado agora, Seu Rubens. Se quiser, eu tenho fósforos.
- EU SEI QUE ELA TÁ AÍ DENTRO, SEU SAFADO! CADÊ ROSÁLIA!?!?
- O senhor tomou seu remédio?
- VOCÊ TÁ COMENDO ROSÁLIA, PAULO? VOCÊ TÁ COMENDO ROSÁLIA?
- Um amigo não come a mulher do outro, Seu Rubens. Esqueceu?
- COMO É QUE VOCÊ FAZ ISSO COMIGO? NÃO COMA ROSÁLIA NÃO!
- Fique tranquilo. Ela deve ter ido no mercado.
- TENHA CONSCIÊNCIA! TENHA CONSCIÊNCIA! EU SOU DOENTE!
- Ou então ela fugiu com o chinês, Seu Rubens.
- CHINÊS?
- Abra o olho, Seu Rubens.
- CHINÊS?
- Aquele que vende panela.
- CHINÊS?
- Diz ele que tem o pau maior que o seu.
- MENTIRA! É MENTIRA!
- Agora chega, Seu Rubens. Vai querer o fósforo?
- CADÊ ROSÁLIA? EU VOU TE MATAR! EU VOU TE MATAR!

Foi quando Seu Rubens lançou o braço e me acertou um meio soco no nariz. Pegou de raspão, mas forte o suficiente para eu perder o equilíbrio e me bater na parede. Bem, eu não queria brigar com Seu Rubens, e o velho era louco. Eu estava perdido. Então escutei a voz de um anjo.

- RUBENS!? CADÊ VOCÊ, RUBENS!?
- É ROSÁLIA! ROSÁLIA CHEGOU!

Seu Rubens saiu sem se despedir. Pude escutar a velha dizendo que estava na farmácia. Fechei a porta e fui ao banheiro. Me olhei no espelho. O nariz sangrava um pouco. Mas o que incomodava era uma puta vontade de espirrar. Lavei o rosto e decidi dar uma cagada. Fiquei ali pensando naquilo tudo. Tentei imaginar Seu Rubens e Dona Rosália trepando. Depois pensei que eu precisava era de um emprego de verdade, precisava de dinheiro. Talvez um dia escrevesse alguma coisa sobre Seu Rubens. Vontade de espirrar. E não espirrava.

No dia seguinte, logo na manhã seguinte, eu saía para mais uma entrevista de emprego que provavelmente eu seria reprovado. E encontrei Seu Rubens na esquina.

- ME DÁ UMA MOEDA, PAULO, PRA EU COMPRAR SORVETE?
- Hoje não vai dar, Seu Rubens. Tô liso.
- ENTÃO TOMA 2 REAIS PRA VOCÊ!
- Não precisa, Seu Rubens.
- EU FAÇO QUESTÃO, PAULO. TOMA 2 REAIS.
- Vou aceitar porque a coisa tá feia.
- TOMA MEU CARTÃO. MEU CARTÃO!

Seu Rubens me deu um cartão de visitas e depois saiu distribuindo para todos na rua. Estava escrito: Dr. Pedro F. Rubens. Advogado. Com o número da OAB e aquele símbolo da justiça, uma balançazinha. Um cartão mal recortado com impressão vagabunda.

17.3.11

4 Amigos

Agora eles estão fazendo campanha pelo beijo gay nas novelas. Acontece que também nunca vi um gordo chupando a boca de uma mocinha. Aliás, existem gordos na TV? Ah, claro, alguém tem que fazer o papel de idiota. Sacanear gordo é permitido. Ainda não é crime. Outro dia um filho da puta veio com esse papo, “Gordo que é feliz, não se preocupa com o que come”. Confesso que me faria feliz ter comido mais gente nessa vida. Pelo menos sou homem. Mulheres gordas sofrem mais. De qualquer forma, adquiri certa blindagem contra essa coisa toda. Como se a gordura do meu corpo tivesse se transformado com o tempo em calos sujos e grosseiros. Estou cansado e alcancei uma curva da vida que simplesmente não preciso nem quero me preocupar. Já não ando mais pelos pátios do segundo grau. Já não preciso vestir a camisa por dentro da calça. Já não espero agarrar uma buceta num sábado à noite. Também não penso em fazer novela nem saltar de bung jump. Saúde? Sei que um dia eu morro. Problema mesmo só quando as calças não fecham mais.

Hoje almocei com os caras. Num desses rodízios de pizza de shopping. Aquele inferno. Preferia uma maniçoba numa mesa de plástico ou coisa assim. Mas fui voto vencido. Encarei o rodízio apenas pelo prazer de almoçar com a turma. Camaça, Ploc Monster, Belchior e eu. Éramos apenas quatro amigos tentando esquecer as cobranças, o trânsito, as picuinhas, as mesas de jobs, a insanidade das horas, experimentando um pouco de lucidez com fatias de queijo e boas risadas. A gente sempre ri nesses encontros. Me lembra as conversas dos tempos da Lapinha. Bobagens, piadas de duplo de sentido, rimas rápidas, xoxotas, e cada um relembrando os pontos fracos do outro, passagens antigas, clássicas, cômicas e ridículas, como o dia em que eu ameacei quebrar a agência se colocassem na web um vídeo em que eu aparecia jogando Mãozinha ou quando um viado coroa passou a noite querendo pegar no pau do Camaça durante uma festa. Bem, estávamos lá atacando as pizzas, eu invariavelmente reclamando que a putinha não trazia minha Coca-Cola quando apareceu essa garota. Que personalidade. Uma cadeirante atravessando as mesas, pedindo passagem aos garçons e atrapalhando o almoço daquela gente bípede e bonita, guiando sua cadeira até chegar a nossa mesa.

- Licença – ela disse – você é Paulo Bono?

Eu nunca havia sido abordado por uma cadeirante. Não fazia idéia de como responder.

- É, esse é meu defeito – eu disse.
- Reconheci pela foto no blog e...
- É, acho que eu tinha mais cabelo...
- Meu nome é Lorena, só queria dizer que adoro seus textos.
- Ah, obrigado, Lorena. Tem coisas bem melhores por aí.
- E aí, tudo bem?
- Mais ou menos. Só tão passando atum.
- É verdade. Bem, é isso.
- Tudo bem então, Lorena.

E lá se foi a garota com sua cadeira fazendo o caminho de volta.

- Aí, Bono – disse Camaça – Vai meter na aleijadinha.
- Peitinho bonito da porra – disse Belchior
- Já fica na altura do bola-gato, Bono – disse Ploc.
- Eu comeria fácil – eu disse – mas não diga nada pra sua mãe, Ploc.

Depois a putinha trouxe minha Coca-Cola, matamos mais algumas fatias de atum e pagamos a conta. Na hora de sair, passamos pela garota. Como sempre, não sabia se cumprimentava ou não. Ela acenou e apenas respondi. Parecia uma garota esperta. Onde arranjava tempo e paciência para ler as merdas que escrevo? Tendo que encarar diariamente todos aqueles malditos sorrisinhos de pena. Tendo ela mesma que sorrir para a vida o tempo todo e ser agradecida por aquela cadeira. Sem poder xingar e ter seus acessos de ódio. Cadeirantes se fodem. Mulheres cadeirantes se fodem ainda mais. Mas a pequena Lorena também já devia ter adquirido seus calos. Era bonita, a moleca. Eu lascaria toda, com cadeira de rodas e tudo. Se ela também não fudesse com gordo? Foda-se. Tirasse uma foto, fizesse uma carteirinha e entrasse para o clube.

20.2.11

Jardim do Amigo

Lembrei do meu cachorro. Dizem que parece comigo. Ainda mais depois da porrada que levou na cabeça. Ficou um pouco nervoso. Ele também anda torto e travado quando não consegue cagar. Velho Huck. Pelo menos ainda enxerga bem e seus rins funcionam.



Dizem que um ano equivale a sete anos na vida de um cachorro. O negócio é quando você envelhece sete anos em um dia. Bati na porta da clínica logo cedo, com Huck em meus braços, enrolado numa toalha desbotada. “Tá morto”, disse o doutor de animais.

O Grande Huck não teve muita chance. Só dois dias antes descobrimos que seu coração era uma latinha velha. Agora estava ali naquela mesa. Ou pelo menos o que sobrou dele. Apenas um corpinho. Um corpinho de quatro patas. Com os olhinhos arregalados. Vida de merda. Já disse que chorei como uma mulherzinha assistindo aquela porra daquele filme Marley & Eu? Mas não era hora para sentimentalismos. Liguei para minha irmã e dei a notícia. Ela chorava como uma irmã caçula. Minha velha estava sedada. Eram as verdadeiras donas do cachorro. Só podiam mesmo estar afundadas na merda para contar comigo para alguma coisa. Na maior parte do tempo sou o inútil da família. Huck também se fudeu por ter que contar comigo. Perguntei ao doutor qual era o procedimento. Ele falou sobre uma espécie de cemitério de animais e me passou o endereço. Liguei para um velho amigo que trabalhava por ali. “Cabrito, preciso de sua ajuda”. Enquanto Cabrito não chegava, restaram apenas Huck e eu naquela sala. Então lembrei do cara do gás. De Huck botando o coitado parar correr as escadas com o bujão nas costas. Lembrei também que já saí muitas vezes com Huck para ver se tinha chance com alguma putinha sensível que gostasse de cachorros. Mas a minha cara fudida não ajudava, nem as reações de violência gratuita de Huck perante a quem passasse na rua. Sempre me identifiquei com esse cachorro. Poodles só são queridos por quem não tem alternativa, por quem é obrigado a gostar e pronto. Tentei fechar seus olhos, não consegui. Nessa hora, o doutor entrou e me ofereceu uma caixa de papelão. Era uma caixa pequena. Embalei Huck como uma carcaçazinha torta e inútil. Cabrito apareceu e nos mandamos.

O lugar era longe, pelas bandas de Lauro de Freitas. Mas é incrível como há momentos na vida que você percebe que não há mais sentido para pressa. No meio do caminho ainda pensei, aí, filho da puta, não estava procurando uma história para contar na porra de seu blog?

Era um lugar agradável. Jardim do Amigo. Bom nome. A putinha da recepção me recebeu com uns papéis para preencher. Nome do cachorro, data de nascimento, falecimento, causa da morte, nome dos donos, essas coisas. 200 conto era o valor do serviço. Fiquei devendo mais essa a Cabrito. Só na hora de assinar os papéis percebi que meu braço estava sujo de merda. Então apareceu um garoto e pegou Huck. Enquanto isso, fui ao banheiro e lavei as mãos. Lavei também o rosto. Me olhei no espelho. Eu parecia mais feio do que nunca. E mais careca também. Depois a putinha perguntou se eu gostaria de acompanhar o sepultamento. Bem, fui criado na Lapinha e sempre vou até o fim. “Paulão, só não vou com você porque fico na merda”, disse Cabrito. “Tudo bem, amigo”, eu disse.

Então o garoto me mostrou Huck em uma nova caixa. Bem melhor do que eu havia embalado. Huck estava coberto por um tecido fino. Tinha os olhos fechados. Parecia calmo e relaxado, finalmente. Então segui o garoto até o local. Digamos que foi uma cerimônia simples. O garoto ajustou Huck no lugar certo e começou a jogar a terra. Fazia um sol dos infernos. Eu olhava em volta. Havia dezenas de lápides. Bingo, Lupi, Kate, Thomás, Rhanna, Xuxa, Max, Ricky, Lady, Lennon, Nick, Michel, Black, Thalia, Magali. Havia a algumas lápides maiores, com frases e bonequinhos estúpidos de enfeite. Pensei que talvez pudesse voltar outro dia e escrever na lápide de Huck: “O cachorro que botava pra fuder” e talvez colocasse um escudo do Flamengo, quem sabe.

- Como é seu nome? – perguntei ao garoto que terminava seu trabalho.
- Valdir.
- Caralho, Valdir. Você não fica na merda com esses cachorros?
- A gente acostuma. O senhor quer ficar mais um pouco?
- Que nada. Vamos sair daqui que esse sol tá foda.

Assim que entrei no carro de Cabrito, liguei para minha irmã. Para dizer que Huck estava bem na fita. Que era um lugar limpo, sério e digno. E que o nome era Jardim do Amigo.

O restante do dia passou rápido. Cheguei atrasado na agência. Participei de três reuniões. Uma delas com cliente. Nunca me sinto à vontade com clientes. Essa turma prefere conversar com gente fina e elegante. Depois escrevi alguns títulos, que o filho da puta do diretor de criação disse que precisavam de mais molho, e a maioria era mesmo de se jogar no lixo. Então escrevi mais alguns títulos, olhei a caixa de emails, caminhei até o ponto, comi amendoim japonês no ônibus, cheguei em casa, abri o chuveiro e chorei.

25.1.11

Movimento civil contra os doutores

A consulta era às 14h10. Tudo bem, a gente sabe que essa história de hora marcada não existe. Mesmo assim cheguei 15 minutos antes. Só havia a putinha da recepção e um velhote. Entreguei os documentos e assinei uns papéis.

- Tem quantos em minha frente? – perguntei.
- O senhor é o segundo – respondeu a putinha.
- Qual o seu nome?
- Jaqueline.
- Ok, Jaque. Vamos ser francos um com o outro. Eu vou ser atendido às 14h10?
- Pra falar a verdade, acho que não. Doutor Jorge Luiz ainda não voltou do almoço.

Tento evitar os médicos. Acontece que o meu rim não me deixa em paz. Volta e meia sinto aquele peso aqui do lado. A dor só perde para o medo de sentir outra crise de pedra no rim. Por isso marquei com o excelentíssimo. Mas pelo jeito, ele ainda estava atendendo seu filé com molho madeira.

Logo chegaram outros pacientes. A maioria eram velhos preocupados com seus testículos. Chegaram também essa madame e seu filho. Ela não era nem nova, nem velha. Nem feia, nem bonita. Mas eu comeria. O garoto era apenas um meninão idiota dos seus 18 anos falando ao celular. “Mais tarde eu tô no tênis, aparece lá pra me ver” – dizia ele. Escutei também quando a tal madame disse à Jaqueline que não precisava da carteira do plano porque eram parentes do médico.

14h20 e nada do bonitão. A pequena Jaque tentou colocar um pouco de diversão em nossas vidas e ligou a TV. Passava uma novela de Glória Peres. Meu ovo parecia que ia explodir. Mas as velhotas estavam adorando. De repente, entrou aquela musiquinha do plantão e começaram a falar das enchentes no Rio. “Grava a novela pra mim, que eu tô na rua” – dizia a madame ao celular, perdendo o número atualizado de mortes. Eram imagens terríveis. De vidas destroçadas, minúsculas e impotentes. Uma velha perdeu seu cachorro nas águas. Uma cena de derrubar exércitos. Onde estavam as grandes invenções? Onde estavam os grandes homens? Então Deus apareceu. De jaleco branco. Sim, o próprio Doutor Jorge Luiz de barriga cheia. Cumprimentou a madame e, com toda sua misericórdia, pediu para que Jaqueline deixasse entrar o primeiro paciente.

Eu seria o próximo. Chegaria na agência apenas uma hora atrasado. Mas a imagem daquele cachorro sendo levado pelas águas sem saber que porra estava acontecendo me deixou na merda. Cachorros não têm idéia do que fazemos com o mundo. Cachorros não votam nem usam jalecos. Lembrei do meu cachorro. Dizem que parece comigo. Ainda mais depois da porrada que levou na cabeça. Ficou um pouco nervoso. Ele também anda torto e travado quando não consegue cagar. Velho Huck. Pelo menos ainda enxerga bem e seus rins funcionam.

Meus pensamentos mudaram de cor quando escutei a voz da putinha Jaque, “Bruno Paulo, consultório 01”. E o meninão idiota e sua mãe se levantaram. Meu pai costuma dizer que ando nervoso e sem paciência. Então mantive a serenidade.

- Que putaria é essa, Jaque?
- Desculpa, aqui no sistema você era o segundo, mas...
- Eu vou trabalhar e aquele filho da puta vai jogar tênis.
- Quer saber a verdade?
- Só existe a verdade entre nós.
- A verdade é que Dr. Jorge Luiz chama na ordem que ele quer.
- Jaque, me dá esse caralho dessa guia.

Então peguei a guia do plano, rasguei e joguei no lixo. Saí sem despedir da pequena Jaqueline. Caminhei pelo corredor assobiando uma canção qualquer e esperei o elevador. Eram quase três da tarde quando atravessei a rua e segui meu caminho. Com meus pensamentos destrutivos, minha mesa cheia de jobs, minha intolerância, minhas neuroses, com a contratação do Ronaldinho Gaúcho, minhas contas, meu rim e tudo mais que provavelmente me fariam esquecer de fazer qualquer doação para as vítimas das chuvas.

10.1.11

Fiapos de ano novo

O ano começou e eu estava surdo. O ouvido parecia entupido. Você podia me dizer os maiores desaforos, eu não escutaria porra nenhuma. Então procurei essa médica. “Seu problema é cera” – ela disse – “Tem um acúmulo grande de cera em seu ouvido". Depois ela fez lá uma lavagem que desenterrou do meu ouvido verdadeiras esculturas de cera. Pareciam aquelas frutas cristalizadas. Pensei, porra, era só o que me faltava. Então ela olhou para minha cara fudida e disse, “Você tem sorte de ter uma bela membrana auditiva”. Como se isso fosse me deixar razoavelmente mais feliz. Bem, foi assim que comecei 2011. Quer dizer, além disso rodei o shopping à procura de uma bermuda, mas não encontrei nada para meu tamanho. Pensei, foda-se. Pelo menos tenho uma bela membrana auditiva. Sempre me premiaram com essas pequenas compensações, esses fiapos de sorte, “Ah, Bono é feio, mas é um cara legal”, “É careca, mas é honesto”, “Pô, ele é gordo, mas tem uma puta membrana auditiva”.

Falam em renovar as energias, mas comecei o ano cansado, extremamente cansado. Janeiro está novinho em folha, mas minha alma é uma sucata com dores no rim e pedras de cera no ouvido. As pessoas, digo as pessoas jovens de verdade, elas estão por aí mudando suas rotinas, aproveitando o sol, realizando projetos, trocando o emprego e a cor do cabelo, estão iniciando regimes e comprando uma capa nova para seus Iphones, e eu sigo no meu canto, parado, estagnado, sufocando as horas e escutando canções dos anos 80. Como estão as coisas? Vou continuar dizendo, sem novidades. Aliás, já ia me esquecendo, acertei em cheio a quadra da mega-sena da virada. Em um bolão com os amigos, mas com os números que marquei. 52 conto para cada. Não comi ninguém com essa grana, mas deu para comemorarmos num rodízio de sushi. Bem, o que posso dizer? Sei que não é justo, mas ainda tenho sorte.