29.12.10

Aquela última semana de dezembro

Havia uma pequena árvore no quarto. Uma árvore de plástico dessas vagabundas. E as luzes do pisca-pisca me faziam pensar. Aquele foi um ano difícil. Sem emprego, sem dinheiro, batendo a cara nas portas de agências, cada vez mais gordo e me afastando cada vez mais das pessoas. Até que conheci aquela mulher. Seu nome era Nina, e agora ela estava nua e deitada em meus braços.

- Dividi um panetone com minha mãe e depois fui dormir – ela disse sobre seu Natal.
- Odeio panetone – eu disse.
- E você?
- O quê?
- Como foi sua noite?
- O de sempre. Comi e engordei.

Era minha segunda noite com Nina, e ela já tinha a mania de conversar brincando com meus ovos.

- Você participou de algum amigo secreto? – ela disse.
- Esse ano, eu escapei – eu disse.
- Você não gosta?
- Tenho medo de amigo secreto.
- Medo como?
- De tirar alguém que não me dá nem bom dia o ano todo, depois ter que dar presente e abraço, aí não vou querer dar porra nenhuma, e vou deixar o clima chato, essas coisas. Sem falar que quando era pequeno, dei uma bola Chuveirinho e ganhei uma Bíblia.
- Eu nunca participei.
- De quê?
- De amigo secreto.
- Sério?
- Nunca tive oportunidade, sei lá...
- Porra...
- Vamos brincar?
- De quê?
- De amigo secreto.
- Nós dois?
- Sim.
- Como assim?
- Espera, eu tenho papel e caneta.

Nina se levantou e foi até sua bolsa. Enquanto isso, eu admirava as luzes da pequena árvore em sua bunda branca e macia. Depois pulou na cama e escreveu nossos nomes em pedaços de papel. Depois sorriu, dobrou os papéis, sacudiu as mãos e pediu para eu tirar um nome.

- Não vale olhar o meu – ela disse
- Fudeu – eu disse
- Que foi?
- Tirei eu mesmo.
- Me dê que eu sorteio de novo.

Eu disse que Nina tinha peitos lindos?

- Tire de novo – ela disse
- Você que manda
- Ah, meu Deus, dessa vez eu que tirei meu nome.
- Ta foda.
- Mentira, tô brincando.
- Não bagunce a brincadeira...
- Posso começar?
- Pode.
- Lá vai. Meu amigo secreto, acredite, ele é capaz de arrotar no primeiro encontro.
- Porra, já disse que se eu não arrotar, fico todo travado...
- Ele é um gordinho muito escroto e safado...
- Diga logo, sou eu.
- Acertou.

Então Nina saltou novamente da cama e foi até a bolsa. Voltou com um pacote e me entregou.

- Já tinha comprado pra você, seu besta.

Nina me deu uma camisa branca. Estava escrito "Feliz 2004". Ela acertou. Era GG. Me deu também um beijo.

- Sacanagem – eu disse – não comprei nada pra você.
- Bobagem, continua a brincadeira.
- Ok. A minha amiga secreta tem peitos lindos...
- Lá vem ele...
- E ganhou o prêmio revelação de melhor boquete do ano.
- Baixo astral.
- Sério. Eu não sei dar presente. O que você quer ganhar?
- Adivinha?

As luzes de dezembro são os últimos segundos. Por isso os dias parecem mais tristes. Lá fora, as pessoas trocavam os presentes que não deram certo, seguiam cansadas, esperando ansiosamente pelo carnaval. Mas as luzes, sobretudo na última semana de dezembro, enchiam os loucos e os perdedores de esperança. E naquele quarto de motel barato, no centro da cidade, Nina continuava nua e deitada em meus braços.

- Vai fazer o quê no reveillon? – Ela disse
- Te comer – respondi.
- Fale sério.
- Te lascar toda.

13.12.10

Gato só se fode

- Eu já tive um gato, mas joguei fora – disse Guismo puxando o baseado.
- Como assim? – eu disse enquanto tomava um gole do vinho.
- A gente criava um gato aqui, mas não deu muito certo.
- Mas como assim jogou fora, caralho?
- Velho, isso aqui só fedia a merda de gato.
- Por Deus, quem é que joga a porra de um gato fora?
- Você não tá entendendo. Tinha merda até em minha cama.
- Como era o nome do gato?
- Azeite.
- Caralho, Guismo. Você é um merda.

A gente só precisava compor um jingle. Mas nem o pequeno Guismo arranjava uma boa melodia no seu velho violão nem eu conseguia escrever uma letra decente. Então passamos a noite ali, conversando sobre a vida.

- Sabia que eu já comi uma jeguinha? – Guismo disse.
- Uma jeguinha?
- Sim. Nos velhos tempos, em Jequié.
- Na Lapinha, eles também arranjavam um jeito de fuder qualquer coisa.
- Você não vai acreditar, fazia fila pra comer essa jeguinha.
- Eles fudiam melancia...
- A gente botava um banquinho e metia...
- Colchão...
- A jeguinha era quente...
- Bananeira...
- Também já comi bananeira...
- Galinha...
- Ouvi dizer que quando tira a pica, a galinha morre...
- Sei lá...
- Saudade daquele tempo...
- E sabe de uma? Tive um amigo na Lapinha que meteu no cu de um gato.

Enquanto eu enchia mais um copo de vinho, Guismo foi até o computador e trocou Otto por Jorge Ben Jor.

- Tô querendo escrever um blog também – Guismo disse.
- Isso é bom. E daí?
- Daí que depois que saí da faculdade, a única coisa que leio é o Espalitando.
- Como eu disse, você é um merda.
- Tenho algumas histórias, mas não sei por onde começar.
- Pode começar com a história do cara que jogou um gato fora. Isso diz muito sobre a raça humana.
- Sério, preciso de umas dicas.
- Você só precisa ler uns caras bons de verdade.

Foi então que a porta da sala se abriu e entrou essa morena peitudinha com livros e cadernos nos braços.

- Boa noite – disse a peitudinha.
- Bono, essa é Ju, minha prima – disse Guismo – Esse é Bono, da agência.
- Oi, Bono – disse a peitudinha.
- Oi, Ju – eu disse.

Ju passou e foi direto para o quarto. Peitudinha, pernuda e uma boca deliciosa. A verdade é que a prima Ju não se parecia nada com um gremlin.

- Preciso dar uma cagada – eu disse.
- Vá em frente – disse Guismo – primeira porta.

Então entrei no banheiro e mandei ver. Minutos depois estava de volta.

- Como eu ia dizendo – eu disse – vou te emprestar uns livros de um velho que escrevia pra caralho.
- Que é que você tava fazendo?
- Cagando, porra.
- Fala a verdade, você tava batendo uma?
- Ok, você me pegou.
- QUE PORRA É ESSA, BONO?
- Foi mal. É que eu não sabia que sua prima tinha esses peitões.
- Você é um filho da puta desgraçado!
- Vá se fuder. Foi você quem jogou um gato fora.

O resto da noite seguiu no mesmo. Contamos mais algumas histórias e esquecemos o jingle. Já era tarde quando deixei o apartamento de Guismo e Ju. Então peguei um táxi. Taxistas são bons contadores de histórias. Naquela noite, por exemplo, peguei um taxista que disse ter perdido a mãe na mesma semana em que sua filha caçula nasceu.