21.10.10

21 de Outubro

A morte é punk. Quero dizer, é PA-PUM. Uma tijolada. Um direto no queixo. No máximo três acordes. É ou não é. Mas é incrível como dá tempo de repassar a vida inteira. Se forçar um pouco, consigo lembrar do exato momento que deixei a barriga da minha velha. Mais ou menos quando algum filho da puta deve ter me deixado bater a cabeça. Como se a vida me desse um aviso, olha só, as coisas não vão ser fáceis.

Houve um tempo que eu contava piadas. Faziam rodas para se ouvir aquelas piadas. “Conta a da caganeira!”. Eu era o bobo da corte, o que fazia as menininhas rirem. Afinal, é preciso ter um escudo, alguma compensação quando se é o gordinho da turma. As coisas não foram muito diferentes com o passar do tempo. Mas é assim que funciona. Quando se é gordo, negro, anão, albino, aleijado ou coisa assim, esperam que você conte piadas, seja legal, passe a cola da prova, dê passagem, dê o lugar, faça silêncio, receba o soco, diga obrigado, agüente firme, tenha fé, comporte-se e seja feliz simplesmente por sobreviver com a caridade de quem é gente-bonita e faz o favor de sorrir para você.

Para mim, as coisas vêm ficando piores. Já não bastava ser gordo, cego de um olho, feio, pau pequeno, não saber dirigir e o rim não funcionar muito bem, a careca vem ficando cada vez maior. Agora têm essas verruguinhas. Minúsculas. No ombro, no braço, no pescoço. Apareceu uma na pálpebra. Outro dia, estava conversando com uma putinha, ela estava encarando, eu tive de dizer, “Isso aqui não é uma remela, é uma verruguinha que nasceu um dia desses”. É a vida mandando um lembrete. “Ei, seu gordo, olhe pra você, é melhor ser um cara legal, senão você não vai ter chance”. Mas vou dizer uma coisa. Venho descobrindo que não levo o menor jeito para Jedi. Nina dizia que eu andava na corda bamba. “Você anda no limite”, ela dizia, “Não tem o direito de ser chato, ainda vai acabar sozinho”. Mas, sinceramente, adianta alguma coisa contar piadas? Então vamos em frente. Lá vai o gordo chato na corda bamba. Hoje, prefiro ser aquele que cospe na farofa, que discute na fila e que manda o gerente das Americanas tomar no cu. Esqueçam as flores e os poemas. Creep já não é minha canção favorita. Hoje solto arrotos, escrevo merda e, se precisar, utilizo meu incrível poder mutante de deixar o clima chato. Quem achar incoerência um gordinho não ser tão legal assim, olha o que aprendi a dizer com o tempo: foda-se. Desculpa o clichê, mas nem o velho Cristo agradou a todas as torcidas, e só agradou algumas porque era loiro e de olhos azuis. Eu queria ver alguma procissão se o Cara fosse gordo e se parecesse com o Ed Motta.

Bem, semana passada, não houve carona na saída da nova agência. Caminhei até o ponto. Fazia uma noite bonita. É incrível encontrar no meio da frieza dos edifícios da Tancredo Neves um lugar tão quentinho como aquele ponto de ônibus. Você sabe, arrocha, pagode, ambulantes, essas coisas. Coloquei o fone de ouvido e botei o player no volume máximo. Ramones. Havia uma putinha com o classificador nos braços. Uma coisa. Pensei em puxar conversa, mas ando grilado com essa verruguinha na pálpebra. Então peguei um churrasquinho de gato para passar o tempo. Macio. Melado na farofa. Churrasquinho com Ramones. Classe A. Depois vi o corre-corre e o corpo caído no chão, bem próximo de mim. Sangue. Corre-corre. Pessoas deitando no chão. Confusão no ônibus em frente. Não fiquei para descobrir o que estava acontecendo. Meu busu apareceu logo atrás. Depois fiquei sabendo. O ônibus da frente estava sendo assaltado e sobrou uma bala perdida. O cara se fudeu. É uma sensação estranha saber que estava tão próximo. Lembrei da piada da caganeira. Lembrei dos meus velhos, o Balão Mágico, a ladeira da Lapinha, o título de 87, o disco Dois, os pátios do segundo grau, o porre de vinho, Creep – Sol , Si, Dó, Dó menor, os ratos de Feira, a velha agência, o yakisoba e o boquete de Nina, o velho Buk, os quartos de hotel, a nova agência, a farofa, o churrasquinho, o sangue. A morte é punk. PA-PUM. É ou não é. E estou vivo ainda. Hey, Ho, 33. Let´s go.