22.9.10

A primeira parte daquele filme do Kubrick

Legumes, por exemplo. Legumes nunca foi meu forte. Bastava dizer que eu não queria comer legumes que meu pai dizia que a solução para mim era o exército. Se eu tentasse fugir do banho frio era a mesma coisa. “No exército, você ia aprender a ser homem”, ele dizia. Ok, nunca aprendi a ser homem. Mas pelo que sei, o meu velho também nunca vestiu a farda do exército.

Resisti o quanto pude a essa bobagem de alistamento militar. Mas você sabe, a pátria é uma mãe gentil desde que você esteja com todas as carteirinhas em dia. Então certa vez, numa dessas feijoadas de domingo, fui apresentado ao Tenente Coelho. Bem, Tenente Coelho era tenente do exército. Um cara baixinho com aparência de frágil, mas que tinha um bigodinho sinistro. Expliquei minha situação, e o Tenente Coelho disse que podia me ajudar. Bastava eu aparecer no quartel que ele facilitaria todo o processo.

No dia seguinte, eu estava lá. Na portaria, havia um desses soldadinhos de chumbo. Quando mencionei o nome do Tenente Coelho, ele ordenou que outro soldadinho fosse avisar sobre a minha presença. Logo depois o Tenente Coelho e seu bigodinho estranho apareceram.

- Paulo!
- Tenente Coelho!
- Chegou bem na hora. Você vai falar com o próprio Coronel Torres. Ele vai te ajudar.
- Entendido, Tenente!

Então o Tenente Coelho me levou até um pátio, me pediu que aguardasse e disse que ia falar com o tal Coronel Torres. Olhei em volta. Não havia lugar para sentar. No único banco que havia por perto, estavam sentados alguns recrutinhas. Então me encostei numa pilastra. De repente, ouvi um berro “DESENCOSTA! É VOCÊ QUEM LIMPA?, HEIN, É VOCÊ QUEM LIMPA?”. Era um soldadinho de olhos esbugalhados. Por Deus, pensei que o filho da puta ia puxar o gatilho. Pedi desculpas e me afastei.

Era um pátio grande. Dalí era possível ver uma boa parte do quartel. Vez em quando passava um grupo de recrutinhas pra lá e pra cá, cantando aqueles versinhos pró-guerra de machos valentes e nada originais. Escutei quando um recrutinha pediu ao seu superior para beber água. O superior gritou alguma coisa e apontou para um bebedouro no outro lado do pátio, dizendo que o recrutinha tinha 15 segundos para ir lá beber água. O recrutinha perdeu 5 segundos só tremendo as pernas.

Sempre escutei histórias de humilhações no exército. E sabe de uma? Eu não precisava daquilo. O campo de batalha da adolescência já havia me deixado cicatrizes suficientes para o resto da vida. E toda vez que eu me imaginava vestindo aquela farda, só lembrava da primeira parte daquele filme do Kubrick. E se me obrigassem a fazer flexões ou, sei lá, saltar de paraquedas, comer abóbora, desarmar uma bomba ou comer o rabo de algum sargento? Pior, se me mandassem para a guerra? Será que esses escrotos pensavam que minha vida era de videogame? Ainda falavam sobre ser patriota. Sinceramente, quero que o Brasil se foda e meu pau cresça.

Então os recrutinhas que estavam sentados no banco se levantaram e saíram marchando feito cordeiros. Olhei para o banco. Pensei em sentar. Olhei para o guardinha de olhos esbugalhados. Ele olhava para mim. Eu podia sentir o ódio em seus olhos esbugalhados e seu desejo em meter bala. Antes que o pior acontecesse, o Tenente Coelho apareceu.

- Paulo!
- Tenente Coelho!
- O Coronel Torres já vai lhe atender. Você vai ficar com o resto do grupo.
- Entendido, Tenente!

O Tenente Coelho me levou até o outro lado do quartel e me apresentou a outro soldadinho de chumbo, que me levou para uma sala, onde havia essa fila de jovens. Era uma fila de pobres diabos. Alguns queriam apenas tirar uma porra de uma carteirinha, outros queriam entrar no exército para terem o que comer. Então me mandaram levantar um peso. Já não gostei dessa merda. Depois entrei em outra fila, e mandaram todos ficarem de boca aberta enquanto um doutorzinho lá ia checando os dentes da rapaziada. Logo depois, um soldadinho, gritou “BAIXEM A CALÇA E A CUECA ATÉ OS JOELHOS!”. Aí fudeu. Agora eu ia ter que mostrar meu pistolinha para todos. Podia passar anos e anos, e quando aqueles caras estivessem no inferno de uma trincheira, com tiro vindo de tudo quanto é lado, alguém ainda ia dizer “Porra, você lembra daquele gordo que tinha uma beretinha no meio das pernas? Hahahaha!”. Tenente Coelho de merda. Pistolão de merda. Tudo não passava de uma armadilha. E quando eu já desabotoava as calças, outro soldadinho disse “Você, você, você e você, podem ir pro outro lado!”. Foi por pouco. O tiro passou raspando.

Depois um desses soldadinhos me encaminhou até outra sala. Havia um velho no outro lado da mesa. A plaquinha dizia “C.el Torres”. Um homem grande. De rosto vermelho e quadrado. As medalhinhas em sua farda, seu cabelo branco e sua fisionomia pesada indicavam que ele não estava para brincadeira. Se aquele velho me obrigasse a comer seu rabo, eu estava fudido.

- Paulo.
- Coronel Torres.
- O Tenente Coelho me falou sobre você. Por que quer ser dispensado, filho?
- Sou inábil, Coronel.
- Inábil?
- Tenho escoliose.
- Conheço bons soldados com problemas de coluna, Paulo, bons soldados.
- Sou praticamente cego desse olho, Coronel.
- Isso também não é problema, rapaz.
- Sou capaz de estragar qualquer missão, Coronel. Sério, só faço merda.
- Cuidado com os nomes.
- Desculpa, Coronel.
- Já conheci muitos jovens como você, Paulo. São inteligentes, mas se acham incapazes. O exército podia ser uma solução para você.
- Coronel, eu sou gordo.
- Entendo, filho. Entendo.

Foi então que o Coronel Torres bateu um carimbo, e fiquei livre do valente e honrado exército brasileiro. Depois disso, só foi preciso me apresentar mais uma vez, para jurar a bandeira. Aí tivemos que cantar o hino nacional, aquela coisa toda. Aquela parte, deitado eternamente em berço esplêndido é um versinho bacana. Mas esse papo de verás que um filho teu não foge à luta é besteira. Não foge o caralho.