28.8.10

Maldição

Faz três meses que comprei esse bloquinho de anotações. Disseram, Bono, todo escritor tem um bloquinho de anotações. Bem, até hoje não escrevi porra nenhuma no bloquinho. Agora tem esse concurso. De blogs. Eles pegam os blogs mais votados, uma turma de estrelas avalia, e os melhores podem virar livro. Caí nessa, dá pra acreditar? Logo eu que entrei nesse jogo de blog justamente para escapar das avaliações, observações, opiniões, interrogações e premiações. Queria apenas arrotar algumas bobagens e ficar em paz. Estou cansado. Meu dia já é repleto de concursos. Hoje mesmo apresentei três roteiros.

- Uma merda, Bono.
- Cacete.
- Uma merda, uma merda, uma merda.
- Já entendi, uma bosta.
- Você não é mais o mesmo.
- O mesmo como?
- Não consegue mais escrever. Eu já vinha percebendo.
- Porra, você também percebeu?
- E esses papéis tão fedendo a bacon!
- Pingo de Ouro. Comi de manhã.
- Fedor de bacon da porra.
- Já lavei a mão 8 vezes, você sabe, o cheiro não sai nem com a porra.
- Você é um porco, Bono.
- É, já me disseram.
- E esses textos tão uma porcaria.

Bem, isso não foi nada. A coisa mais fácil desse mundo é me convencer que estou errado, que fiz alguma merda, aliás, que só faço merda. Não sei por que sou assim. Tem essa hipótese de eu ter batido a cabeça quando nasci. Só sei que sou gordo, feio e careca. Praticamente o estereótipo do erro e da inadequação. Não adianta dizer o contrário, nem votar no meu blog. Sou eu, Paulo Bono. Está cravado na alma. Como uma maldição.

De qualquer forma, até os amaldiçoados têm direito de fuder. Então terminei a noite na casa na casa de Tânia. Acho que já falei dela. Sabe fazer umas paradas interessantes com a bunda.

- Pensei que só viesse amanha – ela disse.
- Amanhã o Flamengo joga.
- Não sabia que você vinha. Hoje tô light. Só tem sopa.
- Preferia uma carne macia – eu disse, lhe acariciando o rosto.
- Que cheiro é esse?
- Pingo de Ouro. Comi de manhã. Já lavei a mão 17 vezes, o cheiro não sai nem com a porra.
- Ah, mas você não vai enfiar esse dedo dentro de mim não.
- Tava pensando em enfiar outra coisa.
- Você continua o mesmo, gordinho.
- Bom ouvir isso, pequena. Fala de novo.
- Você continua o mesmo, gordinho.

Então fomos para a cama. Do jeito que ela gosta. Ela ficou de joelhos na cama e com as mãos na parede. Depois fez aquela coisa com a bunda, e caí pra dentro. A noite terminou bem. E quando Tânia se levantou para esquentar a sopa, fui até a mochila, peguei o caderninho de anotações e rabisquei, “A maldição do Pingo de Ouro”.

16.8.10

Sem tempo e Sem palito

Seguinte. Fui comprar palito. Mas tá em em falta.
Então as coisas vão demorar por aqui. Pelo menos um pouco.
Logo, logo as histórias aparecem.
Grande abraço a todos.

Bono

1.8.10

Os moleques da ladeira

Éramos um bando de moleques descendo a ladeira a todo vapor. Podia ser o pedaço de uma porta, de um armário, de um guarda-roupa, qualquer coisa. Levávamos a tábua até o topo da ladeira, sentávamos e depois descíamos com tudo. Os mais corajosos ainda passavam sebo de vela nas tábuas para ganhar mais velocidade. Era preciso calçar as Havaianas nas mãos para servirem de freios.



Nina costumava dizer que meu pior lado era a Lapinha. Bastava eu soltar um peido ou um arroto, e ela dizia, “Tudo que você tem de ruim vem da Lapinha”. Talvez Nina estivesse certa. Por trás dessa minha cara feia, por trás de toda essa gordura, por trás deste monte de merda que sou, está o Largo da Lapinha. E por trás do Largo da Lapinha está a ladeira da Lapinha, onde morei.


Quando você olha, parece o próprio corredor do inferno. Verdade, a Ladeira da Lapinha é um lugar deprimente. De um lado, casinhas antigas e escuras e um beco com mais casinhas, e do outro, até metade da ladeira, um imenso matagal. Sim. Uma ladeira estreita de pedras com casinhas e capim. Um lugar desses que você prefere esquecer que existe. Feio. Miserável. Encardido. Escondido atrás de uma igreja. Com pessoinhas pobres vivendo suas vidas. Mas acredite, eu achava a ladeira o melhor lugar do mundo. Sentia orgulho de viver ali. Bem, quando se tem 7, 8 anos, você não faz idéia que seus tios e tias detestam ir ao seu aniversário porque têm nojo de sua rua e seus amigos.

Lembro que as pessoas da ladeira falavam alto. Falavam praticamente gritando umas com as outras. Eram duas lavadeiras discutindo, uma mãe gritando para o filho sair do mato e ir tomar banho, essas coisas. Havia muitos tipos. Fofoqueiras, viados escandalosos de shortinho na bunda, pais de santo fazendo batucadas, putinhas, putonas, pivetes, malandros, ladrões baratos, bêbados e loucos. Lembro de Luiz Babão, ele era os dois, bêbado e louco. Mas também havia boa gente, boas famílias. E só Deus sabe o quanto aproveitei aqueles anos. Correndo, pulando, caindo, empinando arraia, chutando lata, levando porrada em garrafão, colocando bomba em canos, catando guimbas de cigarro e fingindo que fumava, e chegando em casa com os pés cheios de lodo. Você pode dizer, grandes porra, Bono, você acha que é melhor do que alguém por sujar os pés numa ladeira de merda? Bem, não sei, talvez, tem muito menino amarelo por aí, desses que cresceram jogando Playstation, ping-pong no playground e gude no tapete da sala, e hoje são uns frouxos e escrotos. Mas deixa lá.

Bem, voltando à Ladeira. Lembro que minha avó dizia, “Não ande com os moleques da ladeira”. Acho que minha avó era racista. Os meninos, em sua maioria, eram negros. As exceções eram Batata, que era amarelo; e Lorinho, que era branco e cheio de sardas. Mas Bigu, Lingueta, Vaca, Maradona, Capenga, Lazinho, Ultraseven e Olho de Tandera, esses, para minha avó, eram todos neguinhos. Bem, eu não sabia o que era racismo. Nem tinha idéia do que era ser negro ou branco cheio de sarda, rico ou pobre. O mundo era bem simples.



Aquela época foi a mais pesada para Capenga e sua perna. Então Capenga não podia brincar de escorregar de tábua. Mas não o deixávamos para trás. Capenga ficava na porta de sua casa, atuando como uma espécie guarda de trânsito, regulando o tráfego de tábuas. E para passarmos por ele, era preciso pagar pedágio, que na verdade eram embalagens de cigarro vazias que catávamos pelo caminho. Certa vez, eu estava lá, escorregando de tábua. Paguei meu pedágio, passei por Capenga e desci até o pé da ladeira. Os meninos estavam à minha espera. Juntamos algumas moedas e compramos duas tubaínas e ficamos ali, em frente à casa de Lazinho. Lazinho morava num barraco. Um barraco mesmo, desses que você vê em reportagens sobre a miséria humana, feito de madeira, lona e papelão. E enquanto saboreávamos nossa tubaína de tuti-fruti, dava para escutar os pais de Lazinho discutindo dentro do barraco. Só dava para ouvir os palavrões. Mas de repente, veio um barulho de vidro se quebrando, uma pancada e um grito. Logo depois o pai de Lazinho saiu do barraco e desceu a ladeira correndo. O velho simplesmente havia empurrado a mãe de Lazinho na ribanceira que tinha atrás do barraco. Os vizinhos chegaram, foi aquela gritaria, chama a polícia, chama a ambulância, Lazinho chorando feito a porra, e a velha lá, estirada sobre a terra, toda quebrada e cercada de ratos assustados. Fui correndo contar a história a Capenga, aproveitei e levei sua dose de tubaína.



Dia desses, eu estava com uns amigos num desses rodízios de pizza no shopping. E pensei ter visto o Lingueta passar no lado de fora da pizzaria. Um homem largado, com uma péssima aparência, mal vestido, como se não fizesse parte daquela praça de alimentação. Não tinha certeza se era ele. Estava diferente, de barba, e passou muito rapidamente. Lembrei das palavras de Nina. Talvez ela estivesse errada. Completamente errada. Afinal, o que é um peido ou um arroto? Então voltei para o meu mundo limpo e plano, onde não se coloca negros em outdoors sobre empreendimentos de luxo.