30.6.10

20 minutos

Bem, eu queria um assunto para escrever. Vou falar sobre hoje. Almocei com uns amigos. O pessoal da nova agência e outras figuras. E tinha esse redator, o Nobre. Ele dizia que Prision Break é a melhor série que existe. Para mim, não me diz nada. Na verdade, acho que estas séries cheias de traminhas, fugas, escotilhas e enigmas não passam de enrolação. Eles te enganam o tempo todo. O pessoal passa uma temporada inteira com medo de determinado cara, “Ah, cuidado, aquele é o inimigo picudo”. Na temporada seguinte, você descobre que esse cara não passava de um estagiário, um office-boy de um sub-chefe que tem outro chefe que tem outro chefe de uma puta organização maligna e mundial. Uma putaria da porra. Pura enganação. E esse Nobre, que também é fanático pelo presidente, defendia Prision Break com unhas e dentes, defendendo os personagens, e batia na mesa e gesticulava como um sindicalista, chamando a atenção de todo o restaurante. A discussão só terminou quando perguntei para quem ele daria o cu, Lula ou o viado lá de Prision Break.

Hoje também passei na casa dos velhos. 20 minutos. Os 20 minutos da saudade. Você sabe, aquele tempo que só rola coisas boas, sorrisos e amenidades. Em até 20 minutos até o cachorro parece contente com minha presença, como se também quisesse saber das novidades. Depois disso, só vem cobranças e pauladas. E foram bons 20 minutos. Meu pai perguntou sobre o trabalho, as novidades e contou alguns planos. Enquanto ele falava, eu apenas pensava, caralho, eu tinha que herdar essa careca? Mas não posso ser injusto. A situação dele é pior. Ele me herdou como filho. E às vezes acho que meu velho me acha um merda. Quanto à minha mãe, ela também perguntou sobre a nova agência, se eu estava conseguindo fazer tudo que me pediam, e depois contou as novidades sobre tios, primos e vizinhos. Enquanto ela falava, eu só pensava, caralho, se eu tivesse herdado esses olhos verdes ia comer muita gente.

- Foi no médico? – perguntou meu pai.
- Fui – eu disse – mas o sacana demorou de atender, e eu me piquei.
- Paulo, não pode ser assim – disse minha mãe.
- Você anda muito nervoso – disse meu pai.
- O quê? Ele chega a hora que quer, e eu saio a hora que quero.
- Paulo, meu filho, por que você é assim? – disse minha mãe – será que é porque você deu trabalho pra nascer?
- Puta que pariu, até pra nascer eu dei trabalho?
- Demorou de sair...
- Eu bati a cabeça no parto, foi isso?
- Não, passou da hora, demorou, ia e voltava pro hospital. Acho que é por isso que você é assim.
- Assim como, meu Deus?
- Nervoso – disse meu pai – você anda muito nervoso e impaciente.
- Paulo – disse minha mãe – por que você não procura um profissional, um psicólogo?

Nesse instante, olhei o relógio e vi que já passava dos 20 minutos. Então levantei e até o cachorro começou a latir pro meu lado.

- Tá na minha hora – eu disse.
- Ele agora é assim – disse meu pai – visita de médico.
- Quer iogurte? – perguntou minha mãe.
- Não.
- Quer pão?
- Não.
- Tá precisando de dinheiro?
- Como assim?
- Algum dinheirinho, tá precisando não?
- Que porra é essa? A senhora acha mesmo que não sou capaz de pagar minhas contas, comprar meu iogurte, que eu não vou conseguir, que eu sou um incapaz, é por causa daquele papo de bater a cabeça na hora do parto, não é?
- Quer biscoito? Leve biscoito.

Me despedi dos velhos com um abraço apertado, um beijo na careca e caí fora. Na saída, encontrei o Tuta, um primo de 12 anos que agora dorme em meu antigo quarto.

- Vem cá, seu sacana – eu disse.
- Paulo, você viu o Brasil?
- Brasil uma porra. Eu tô sabendo.
- Hum?
- Você já tá batendo suas punhetas, né?
- Hum?
- Hum uma porra. Tá todo mundo vendo você entrar e sair do banheiro com revista na mão.
...
- Não faça essa cara não. Pode bater sua punheta. Mas seja discreto, seu merda. Eu bati punheta a vida toda e nunca dei mole. Tem que ser profissional. Você achou minhas revistas na gaveta, não foi?
- Hum?
- Hum uma porra, meu irmão, fale a verdade.
- Hum hum
- Ok. Vou te deixar de herança. Mas seja discreto nessa porra.
- Tá.
- Qual sua favorita?
- As trigêmeas.
- Boa.

Quando cheguei em casa, tomei um banho, bebi um copo de Nescau e fui assistir a House. Sim, eu não disse quais as minhas séries? Acho Seinfeld a melhor de todos os tempos. Mas também gosto de House. Isso, sou do time de George Costanza e Gregory House. Imbecis, estúpidos ou desprezíveis, são o que são, e não enganam ninguém.

9.6.10

Ei, Galvão, vá tomar no cu

O ano era 2002. A cidade, Feira de Santana. E a bebida, uma dose de gin. No bar, as mesmas caras hipócritas. A diferença eram as bandeirolas verde-amarelas penduradas no teto. Na segunda mesa à minha frente, estavam esses caras. Publicitários de outra agência. Riam e jogavam conversa fora como se tivessem um grande futuro pela frente. Pareciam bons rapazes. Eu havia escutado muitas histórias sobre eles, que eram os inimigos, verdadeiros diabos, da mesma forma como escutamos a vida toda a TV falar sobre os argentinos. Acreditei por um tempo. Mas agora eu não sabia de que lado era o inferno. Eram tempos difíceis. Meus dias em Feira pareciam estar chegando ao fim.

Havia uma putinha na mesa ao lado. Sozinha. Pendurada numa mesma cerveja esse tempo todo. Era razoavelmente feia. Tinha um rosto decadente. Feira de Santana era infestada de putinhas decadentes. Não tanto quanto de ratos. Mas tinha bastante. Mas fazer o quê? Eu também era um publicitário decadente em início de carreira. Levantei e fui até sua mesa.

- Quer que eu te pague uma batata-frita? – perguntei.
- Não sei, estou de regime.
- Ótimo, porque eu tô duro. Que tal a gente sair daqui?
- Você tem carro?
- Não, mas tenho uma garrafa de vinho lá em casa e uma televisão bacana pra gente assistir ao jogo.
- Ok – ela disse – Não quero mesmo ver cara do meu pai hoje.
- Aposto que você é a cara de seu pai.
- Meu pai é um escroto. Vamos embora.

Caminhamos uns 15 minutos e assim que abri a porta, a putinha se assustou um pouco.

- Porra, mas você não tem nem um sofá, cara?
- Calminha aí, Lady Di. Eu disse que tinha uma televisão. Não falei nada sobre sofá.
- Que merda você faz da vida?
- Sou uma espécie de puta.
- Acho que vou pra casa.
- Aposto que seu pai não quer ver sua cara hoje. Senta aí que esse colchãozinho é bacana.

O jogo estava marcado para as três da manhã. Até lá, caímos no vinho e fudemos à vontade. Meti em tudo quanto era buraco. Só não variamos as posições porque meu colchãozinho no chão era fino demais, e aquilo estava acabando com meus joelhos. Num desses intervalos, ela disse, “Meu nome é Liliane”. Eu disse “O meu é Rivaldo”. Ela disse, “Você não quer saber por que meu pai é um escroto?”. E eu disse, “Faz o seguinte, vire de ladinho”. Sei que quando o jogo começou, eu já estava com sono e não havia mais vinho. A partida era difícil e os ingleses abriram o placar. Então Liliane começou “Qual é o Brasil?”, “Eu prefiro o Brasil de amarelo”, “Vai, Brasil, dá um gol, dá um gol, Brasil”, “Por que não coloca Kaká?”. Eu perguntei “No lugar de quem, caralho?”. Ela disse “De Cafu”. E eu disse, cala a boca e chupa aqui pra dar sorte. Parece que funcionou. Porque o Ronaldinho Gaúcho fez uma bela jogada e tocou para Rivaldo empatar o jogo. A madrugada lá fora comemorava. Feira estava feliz. O país estava feliz. Nada é tão bobo e artificial quanto torcedores de copa. Então começaram a falar muita merda na televisão e a deixei no mudo. Assisti assim durante um tempo, numa gostosa sensação de paz. Mas o sono foi virando o jogo, eu não tinha mais forças para fuder e adormecemos.

Acordei quando o sol começava a atacar pela fresta da janela. Olhei para os lados, olhei no banheiro, e Liliane não estava mais lá. Olhei para os lados mais uma vez, olhei de novo por toda a sala oca e minha televisãozinha também havia desaparecido. A putinha havia roubado minha TV de 14 polegadas que eu ainda nem tinha acabado de pagar. Abri as janelas e olhei para a rua. Já estava movimentada. Crianças a caminho da escola e outros que transitavam de bicicleta. Pareciam felizes e motivados. O Brasil devia ter vencido o jogo. Nenhum sinal da cachorra. Uma velha vestida num robe vagabundo que varria a calçada olhou em minha direção. Como se soubesse de alguma coisa. Os feirenses são sempre culpados ou cúmplices. Eu tinha vontade de vomitar. E não era ressaca de vinho. Era aquela cidade. Encardida. Traiçoeira como uma puta decadente. Mas como disse, meus dias naquele entroncamento estavam chegando ao fim. Então fechei a janela. E voltei para o colchãozinho no chão. Por um instante pensei na pobre putinha, sozinha lá fora, com os ratos. E não sei por que, lembrei da Copa de 86, a Lapinha toda enfeitada, e da Copa de 94, de Bebeto e Romário, e pensei que com o tempo as copas vão ficando sem graça.