23.5.10

A Próxima Página

Eles me chamam de chato. Recebi dois convites para escrever um blog coletivo. Recusei. Fui convocado para uma dessas festas da propaganda. Descartei, é claro. Me convidaram para uma corrida de kart. Nem respondi. Um cara me encontrou numa dessas redes sociais, disse que tinha lido meus textos e gostado, e queria me dar um livro. Pensei em inventar alguma desculpa e me esquivar. Mas ele insistiu, disse que traria o livro na nova agência. Eu disse, então tá, você que sabe. Evito pessoas novas. Novas situações. Para mim, conhecê-las é sempre um desafio. Não sei como me comportar, o que falar nessas horas. Meus dias já trazem desafios suficientes. As contas. O ônibus lotado. A Libertadores. O job na mesa. O próximo conto. Deus, a próxima página é sempre a mais difícil. Eles me chamam de chato. E eu sigo nos meus dias cinza.

Para não dizer que não fiz nada de novo essa semana, fui tentar essa vacina contra a gripe. O posto estava lotado. Uma fila dos infernos. Peguei a senha 238. Então bate aquela dor de cabeça. Mas na minha frente havia uma cavala. Uma morena com um decote sacana e uma bunda redonda socada num jeans. Eu podia apostar que ela malhava aquele rabo todas as manhãs na academia, fazendo aqueles exercícios escrotos. Estava de mãos dadas com seu filho de uns oito anos. Eu era capaz de assumir aquela criança, lhe compraria um Playstation 3 para ele jogar o dia todo enquanto eu enrabava sua mamãe desmarcada no quarto. Mas olhei novamente para a senha. E o horário do almoço já estava chegando ao fim. Então olhei mais uma vez para o corpo da cavala, memorizei aquele instante, deixei a fila e resolvi encarar aquela gripe.

No dia seguinte, estava encarando um job sem graça, escrevendo os títulos mais imbecis, quando a menina deprimida da recepção avisou que havia uma pessoa me aguardando lá fora. Pensei, lá vem merda. Quando cheguei à recepção, havia esse cara com um livro nas mãos.

- Paulo Bono? – ele disse se levantando.
- Ôpa.
- Ricardo Cury. A gente se falou ontem.
- Ah, sim, claro. Que é que manda?
- Conheci seu blog. Virei fã daquela porra.
- Porra, sinto muito.
- Eu leio e fico me perguntando, “Será que essas histórias são reais?”.
- Às vezes me faço a mesma pergunta.
- Eu também tinha um blog, aí peguei os textos e fiz um livro. Queria lhe dar de presente. Pra ver se você se inspira e publica o seu.
- Que bom. Pensei que você fosse um desses viados lunáticos.

Conversamos mais algumas bobagens. Ele disse que também já fora redator, mas perdeu a paciência, largou a propaganda e montou um negócio. Falamos também sobre blogs, sobre a disciplina da escrita, ele contou algumas histórias, e até a menina deprimida da recepção deu uma risadinha. Então nos despedimos, fiquei com o livro e voltei para o job.

À noite, no ônibus, dei um tempo no Chandler e peguei o livro desse Cury. Era um puta livro. Bem editado. Uma capa bacana. Havia uma dedicatória “Espero que você se divirta, como eu me divirto com seu blog”. Bem, o livro é divertido. Ele conta histórias de seu cotidiano, desde a adolescência, sua família, seus amigos e, principalmente, sobre o rock. Descobri que ele havia sido baterista da brincando de deus, umas das melhores bandas de rock que a Bahia já produziu. Contava histórias sensacionais, dos shows, das viagens, e no fim de cada capítulo trazia as capas dos discos, os quais ele fazia referência. Eu sempre quis fazer parte de uma banda de rock. Por isso começava a sentir inveja de suas aventuras. E era um texto leve, solto, agradável e muito bem escrito. Eu me perguntava, será que esse cara não tropeçava diante de cada texto? Será que ele precisava dar uma folheada em O Capitão saiu para o Almoço e Trilogia Suja para se inspirar? Será que ele também não dormia direito se não conseguisse despejar as palavras na tela do computador? Será que ele não suava diante do desafio da próxima página? O título do seu livro? Para Colorir.

11.5.10

Anjos e Vírus

Eu queria escrever sobre o camaleão que encontrei em frente ao apartamento. Mas deu esse problema no computador. Não entendo nada de computadores. Apenas digito as teclas. Então o levei até essa lojinha do bairro, uma espécie de lan house e assistência. A putinha do balcão mascava chiclete e perguntou qual era o problema. Expliquei a situação. Ela fingiu que entendeu e disse que ia chamar o técnico. Eu até já sabia o que o sacana ia falar. Eles sempre perguntam há quanto tempo você tem o computador e dizem que quando chega nesse estado, o melhor é comprar outro, que deve ser vírus, que vai precisar de um tempo para consertar. Tudo faz parte de uma farsa. No fim das contas, ninguém sabe consertar de verdade um computador. Vem um e diz, o problema é na fonte. Você troca a fonte, uma semana depois o problema volta. Vem outro e diz, cara, o problema aqui é de memória. Você aumenta a porra da memória, e uma semana depois está lá a bosta quebrada de novo. “Ah, conheço um cara que manja”. Mentira. Ninguém conserta porra nenhuma.

Eu aguardava o técnico quando avistei, do outro lado da rua, uma figura que há muito tempo não o via. Um coroa esquisito, com cara de retardado, mal vestido e que só anda tomando Coca-Cola. Sempre achei que esse retardado fosse meu anjo da guarda ou coisa assim. Acontece que ele me acompanha desde os tempos da Lapinha. E onde quer que eu trabalhasse, onde quer que eu fosse, lá estava esse cara, no ponto de ônibus, na Fonte Nova, na fila do cinema, sempre com a mesma roupa. Sempre tomando Coca-Cola. Ele andou sumido quando morei em Feira de Santana. Talvez por isso eu tenha me batido com gente da pior espécie e caído em algumas armadilhas. E lá estava ele agora. Com seu pescoço curvado para baixo, em frente à banca de revista e tomando Coca-Cola. Se eu acredito em anjo? Bem, eu não acredito em publicitário e em técnico de informática, mas em anjo eu acredito. Ainda mais daquele naipe. Feio, com cara de bobo e bebedor de Coca-Cola. Esse merda só podia ser meu anjo da guarda. Eu estava justamente desconfiando se ele apenas fingia ser retardado, quando o técnico chegou. Na minha frente, um cabeludo com uma barbicha esquisita. Eu podia apostar que ele estava queimando um lá atrás.

- E aí? – disse o técnico.
- Tá desligando sozinho - eu disse.
- Hum...
- Do nada, ele desliga.
- Tem quanto tempo esse computador?
- 4, 5 anos.
- Vê site pornô?
- Quem não vê?
- Você é parente de Jonas?
- Que porra de Jonas?
- Jonas. Jonas Cabeça?
- Não.
- Porra, você parece com um amigo meu.
- E aí?
- O quê?
- O computador.
- Deve ser vírus.
- E aí?
- Preciso dar uma olhada.
- Sei...
- Vai levar um tempo.
- Me diz uma coisa...
- Hum.
- Você também tá vendo aquele cara ali?
- Hum?
- Do outro lado da rua, tomando Coca-Cola. Você consegue ver?
- É, parece retardado.

Deixei o computador com o técnico em maconha e atravessei a rua, até a banca de revista. Meu anjo ainda tomava sua Coca-Cola. Me aproximei e fiquei do seu lado.Estava concentrado nas capas das revistas populares. Numa delas, dizia “O Luto do Rei”, falava da morte da mãe de Roberto Carlos.

- Que os anjos levem a velha – eu disse.

O retardado não olhou para minha cara.

- Um dia a gente tá vivo, no outro tá morto...
- ...
- O negócio é se apegar ao anjo da guarda...
- ...
- É o seguinte, cara. Pode abrir o jogo.
- ...
- Eu já saquei...
- ...
- Nunca acreditei mesmo nesse negócio de anjo com asa, cachinhos amarelos, aquela viadagem toda, se bem que nem sei direito se você não tem asa, pode tá disfarçando com essa cara de retardado, da mesma forma que isso aí não é Coca-Cola nem aqui no inferno, não acaba nunca. Você me abandonou em Feira, mas tudo bem, já passou. O importante é que você tá por perto agora. Só podia ter sido uma puta providência divina aquela menina no ônibus não ter vomitado em cima de mim. Só queria dizer que agradeço por tudo e continue fazendo seu trabalho.
- HÃUÃ HÃUÃ HUÃ AAHUÃ AHHHUÃÃÃÃÃ AUÃ, IADO!

Meu anjo falou lá qualquer coisa na língua dos anjos e não sei o quê, não sei o quê viado, e saiu puto. Praticamente evaporou.

E a vida seguiu. O maconheiro disse que o problema era vírus. Que formatou a máquina. Que só perdi minha pasta de músicas internacionais, e cobrou 80 conto pelo serviço. O computador ficou bom. Mas ontem deu pau de novo, e só pude terminar esse texto na agência.