25.4.10

Slow Motion

Sobre Nina, lembro de sua generosidade. Certa vez, ela estava naqueles dias. Mas fez questão de me chupar. E não foi um boquete qualquer. Nina me chupou sem se preocupar com as horas. Sem pensar no tempo. Um boquete em slow motion. Sem pressa. Subindo. E descendo. Subindo. E descendo. Centímetro por centímetro. Subindo. E descendo. Devagar. Bem devagar. De olhos fechados. Como se sonhasse. Enquanto eu tremia. E viajava. Pelo infinito. Até explodir e bater a cabeça na cabeceira da cama. Evitando qualquer desperdício, Nina me sugou até o fim. Depois sorriu e deitou a cabeça no travesseiro. Então liguei a TV.

- Caralho – eu disse – que horas são? Já é Serginho Groisman.
- Deve ser uma e tanta – disse Nina.
- Não tenho mais saco pra esse cara.
- 01h43.
- Tudo é certinho, do bem, tudo politicamente correto. Vai tomar no cu.
- Por que você tá comigo?
- Hum?
- Por que você tá comigo? Por que você gosta de mim?
- Porque você faz um boquete slow motion sensacional.
- Nojento.
- Tô brincando.
- Baixo astral.
- Porque você sabe das coisas.
- Que coisas?
- As coisas que eu gosto.
- O que mais?
- Que mais o quê?
- Que mais você gosta em mim?
- Porra, sei lá, gosto da cara que você faz quando tá curtindo alguma coisa, algum filme.
- Como assim?
- A cara que você faz. Você fica sorrindo assim.
- O que mais?
- Porra.
- Sério. Porque você tá comigo?
- Por causa do seu yakisoba.
- Que mais?
- Porque você me apresentou ao cinema argentino.
- Yeah.
- Se bem que também te apresentei aos Smiths.
- To die by your side is such a heavenly way to die.
- Ó, meu pau ainda tá duro.
- Vai ficar aí. Porque eu já vou dormir.
- Eu também. Foda-se o Serginho Groisman.
- E amanhã?
- Amanhã o quê?
- Vamos na praia?
- Sol dos infernos.
- Zoológico?
- Aqueles macacos me deprimem.
- Você não gosta de nada.
- Gosto de você.
- Quer saber por que estou com você?
- Vá pra praia, chame suas amigas.
- Hein, quer saber por que gosto de você?
- Não.
- Por que não?
- Porque não vou acreditar.
- Porra, Paulo, começou com seus peidos?
- Porra, preciso peidar.
- Chegue pra lá, vai, chegue pra lá.
- Eu já tô na ponta da cama.
- Puta que pariu. Você consegue ficar na ponta e no meio ao mesmo tempo.
- Ok, então qualquer dia desses você me troca por um cara magro, que ocupe pouco espaço, que não peide, que tenha o pau grande e que goste de ir à praia, um cara legal de verdade.
- Boa noite, Paulo.
- Deixa eu ficar vendo seu peito.
- O quê?
- Deixa ele à mostra. Pode dormir. Não vou fazer nada. Sou vou ficar olhando.
- Seu tarado.
- Isso. Só vou ficar olhando. Até dormir.
- Obsceno.
- Durma bem, pequena.

11.4.10

Anônimo

Eu estava sozinho. Fazia quatro meses que Nina havia me deixado. Também estava distante. No outro lado do país, para ser exato. Consegui esse emprego. Seriam só alguns meses. Mas pagavam bem. Numa dessas noites, lembrei da geladeira vazia. Passei no mercado. É bom fazer mercado quando se está sozinho. Se não existe mais ninguém, é só você e sua vontade. Nada de arroz, frutas ou temperos. Somente o necessário. Pão, salame, presunto, queijo, vinho, macarrão instantâneo, cinco litros de água mineral, uma lâmpada e biscoitos recheados. Você pensa, o gordo só comia bobagens. Eu estava cagando para a morte. É preciso ter motivos para se preocupar.

Havia essa peitudinha na sessão de congelados. Uma bela fêmea empurrando seu carrinho. Nos mercados, as mulheres parecem mais gostosas. Ou pelo menos doidas para fuder. Eu podia me aproximar e, como quem não quer nada, perguntar, “Sabe dizer se essa lasanha é boa?” Ela diria, “Sim, é uma delícia”. Então trocaríamos algumas frases e iríamos dar uma boa trepada no motel barato mais próximo. Assim, sem levar as compras ou perguntar o nome. Então me aproximei. Peguei uma daquelas lasanhas congeladas e, como quem não quer nada, perguntei, “Sabe dizer se essa lasanha é boa?” Ela disse, “Desculpa, não sei”. E enquanto eu concluía que ser feio não é relativo, é universal, se você é feio, é feio em qualquer canto do país, peguei uma daquelas feijoadas prontas e fui para o caixa.

Peguei a fila para poucos volumes. Na minha frente, só dois caras. Estavam juntos, com o mesmo carrinho. Devia ser um casal de viados. Já estavam colocando suas compras na esteira do caixa. Notei que o carrinho deles estava cheio. Olhei para a placa pendurada, que dizia “Exclusivo para 20 volumes”. Bem, eles podiam dar seus rabos para quem quisessem. Mas eu não sou otário. Então me aproximei.

- Licença – eu disse. E comecei a contar os itens do casal – “1, 2, 3, 4, 5...32”.
- Qual o problema, amigo? – perguntou um deles.
- Não tenho nada contra vocês, rapazes. Vocês podem fazer o que quiser nessa vida, menos passar por esse caixa.
- O que foi que ele disse, Sérgio? – perguntou o outro.
- Eles têm 32 volumes – eu disse à putinha do caixa – Você vai deixar passar?
- Olha, eu só quero ir pra casa – disse a putinha.
- Não tinha ninguém quando a gente chegou, amigo – disse o primeiro.
- É verdade – disse a putinha – não tinha ninguém.
- Puta que pariu – eu disse – Mas tá escrito exclusivo para 20 volumes. EXCLUSIVO. E não preferencial. Vocês têm 32 volumes, caralho.
- Deixa pra lá, Sérgio – disse o outro.
- Não. Nós vamos passar – disse o Sérgio.
- Você tá armado? – perguntei.
- Oi?
- Você tá armado?
- Claro que não.
- Então você não passa.
- Sérgio! – disse o outro.
- E você – eu disse à putinha – pode chamar o gerente, o papa, o delegado ou qualquer alfabetizado para explicar a porra dessa placa pra vocês.
- Sérgio, porra! Vamos pra outro caixa.
- Escute seu companheiro, Sérgio.
- Deixe esse gordo estúpido.
- Assim é melhor. E leva esse queijo frescal pra casa do caralho.

O mercado era próximo do apartamento. Fui caminhando. Durante o caminho, eu também concluía que o respeito por placas também é o mesmo em qualquer parte do país. Parece bobagem, mas essas pequenas coisas me esgotavam. Pelo menos eu estava sozinho, eu pensava. O inferno era só meu. Eu me lembrava de todas as pessoas que eu já havia decepcionado e das que eu frustraria pelo resto da vida. Estar só fazia com que tudo parecesse mais leve. Saía de casa, tomava café na padaria, escrevia lá os textos idiotas, recusava convites e voltava para casa. Ninguém esperava por mim. Eu não esperava por ninguém. Nada de cobranças. Nenhuma expectativa. Nenhuma frustração. Nenhuma palavra de carinho. Também nenhuma palavra perfuro-cortante. Apenas eu e minha vontade. Era bom percorrer aquelas ruas, sem saber onde me encontrava. Como um forasteiro, um estrangeiro, um estranho. Um anônimo. Ninguém importante. A vida como um ônibus coletivo. Milhares de pessoas à minha volta e ninguém conhecia nem o biscoito nem o câncer Paulo Bono. Lembro que quando Nina saiu, disse “Seu futuro é sozinho”. Talvez estivesse certa. Ela só se esquecera de dizer, sozinho e distante. Era melhor assim. Lembro que certa vez, a caminho do trabalho, um cara me perguntou onde ficava tal rua. E foi muito bom dizer, “Desculpa, mas eu não sou daqui”.