28.3.10

Punheteiros

Quentinha só vem arroz. Você pode pedir na Tancredo Neves, na ACM, no Comércio, em Brotas, em Feira de Santana, não adianta. Acho que em qualquer lugar do mundo, quentinha só vem arroz. Deve haver uma espécie de norma padrão das quentinhas. Não importa o que você peça. Carne, frango, peixe, strogonoff, o caralho que for, pelo menos 60% da quentinha é arroz. Uma alternativa são esses restaurantes em quilo. Mas estão cada vez mais caros. Vejo algumas figuras. É preciso estar sentado numa boa grana ou pelo menos não estar muito preocupado com a conta do gás, para pagar 15, 20, 25 conto de almoço todos os dias. Por isso Ploc mandou bem quando descobriu esse lugarzinho.

O lugar é pequeno, simples, mas bem arrumado. Cadeiras e mesas de plástico. A TV ligada nas notícias do futebol. E uma boa comida. Nada de quiche, fricassé ou risoto de salmão. Comida simples. Feijão, arroz, carne, frango, batata frita, saladinha, farofa, essas coisas. Tudo bem temperado. E o melhor, por um preço digno. Além de tudo, o lugar era bem freqüentado. Havia essas putinhas. Toda hora chegava uma putinha diferente. Uma melhor do que a outra. É preciso reconhecer e agradecer esses achados.

- O lugar é bom – eu disse.
- Tô dizendo – disse Ploc – É barato pra caralho. Ó meu prato. 11 reais. Onde é que vou encher o prato desse jeito naquelas porra cara dos inferno da Tancredo Neves e só pagar 11 conto?
- Ali é coisa de maluco – eu disse.
- Falar em maluco, Bono! Você viu o Big Brother? Puta que pariu...
- Já sei, já sei...bati uma bronha!
- Você viu aquela puta?
- Vagabunda! Eu bati uma bronha!
- Fazendo a “bundinha louca”...
- Bundinha maluca...
- Bundinha maluca! Meu cacete subiu na hora.
- Tô dizendo, bati uma bronha.
- A porra da bunda tremia assim, velho, parecia aqueles cachorrinhos que a galera bota no carro e fica com a cabeça balançando assim...
- Você viu que a desgraçada disse que já lambeu do chão?
- Eu vi! Cachorra. Ali sabe fazer, Bono.
- Falar em saber fazer – eu disse – Aquele link que você mandou.
- Do caralho, né?
- Você sabe das coisas.
- Vintage, Bono. Meu negócio é vintage.
- Melhor que essas porra de agora.
- Anos 80. Anos 80 e 70. Você precisa ver meu arquivo. Cicciolina, Nina Hartley, Angélica Bella, só as feras, os franceses, Buttman, tenho todos os clássicos, minha favorita é Cicciolina, tenho a obra completa.
- Esses filmes de agora, você liga, a porra já começa com a mulher chupando a pica do cara, assim, do nada, começa os créditos, logo depois tá a mulher chupando a pica do cara. Chega a ser imbecil.
- É isso. Naquele tempo tinha história.
- Hoje fica só a putinha loira sentada no pau do cara...
- É, é sempre loira...
- Sempre loira. Tudo igual, tudo com a mesma carinha de idiota, com as buceta tudo igual, tudo raspada, e o cara mete ela de quatro, e elas ficam fazendo aquelas carinhas de sempre, oh, yes, oh, yes, fuck me, oh, yes, com a vozinha fina.
- Mas raspadinha é melhor de chupar, Bono...
- Sim, porra. Mas são todas iguais, tudo estilo putinha da Malhação, aquelas menininha tudo igualzinha. Eu como, não tô dizendo que não como, lasco em banda, é porque não me dão mole, mas se der, lasco em banda. Eu tô dizendo que eu prefiro mulher de verdade. Porra, sacanearam a Playboy da Young porque a mulher era cabeluda e não tem a bunda das meninas do Pânico. Eu pensei, então não sei mais o que é mulher! Ela é gostosa. Foi assim que cresci vendo mulher pelada, na revista, ou vendo a empregada de relance, eu via era aquele trianguluzão preto na frente, peito normal, celulite e tudo, então isso ficou na minha cabeça, porra. Por isso eu gostei dessa parada aí...
- Vintage!
- Vintage...
- Você precisa ver meus favoritos. Mais de 300 sites. Tem tudo, ninfeta, amadoras, anã, gordas, albinas, negonas, coroa, hardcore, bondage, bondage eu não curto não, tem grupal, japonesas, aquelas colegiais japonesas, saca?
- Tô ligado.
- Tem desenho animado, tem tudo, mas o carro chefe é vintage.
- Manda essa porra de vintage pra mim.
- Mando, você vai pirar.
- Putinha, putinha, putinha entrando...
- Porra, essa é gostosa, Bono.
- Peitão do caralho...
- Rabo da porra...
- Essa dá o cu.
- Será que lambe do chão?
- Não sei, mas com certeza dá o fofinho.
- Chupa que é uma beleza – disse Ploc enquanto dobrava a manga esquerda da camisa
- Pra que isso?
- Pra eu não esquecer de bater uma punheta.
- E aí, vamo embora?
- Rapidinho, acho que vou pegar um segundo tempo de batata frita.

Realmente o velho Ploc Monster sabe das coisas. Essa de dobrar a camisa é boa. Já esqueci muitas vezes de bater umas bem merecidas. Bom, Ploc só não sabe que eu já bati uma linda bronha em homenagem à senhora sua mãe. Conheci a cora quando ele me chamou para almoçar em sua casa. Uma mulher elegante, bonita, belas pernas, peitos de verdade, bunda de verdade, uma mulher de verdade que certamente tinha uma buceta de verdade. Eu peguei leve, comi pouco. Ela disse “Coma à vontade, Bono” e depois, “Volte sempre, Bono”. À noite, eu só pensava naquele “Volte sempre, Bono”. Bati uma bela de uma punheta embaixo do chuveiro. Pensando na coroa, na mãe de Ploc. Em sua cama. Enquanto Ploc estivesse no curso de inglês. Uma foda quase romântica. Eu chupava seus peitos devagar. Eu dizia, “foi nesses peitos que você deu de mamar a Ploc, foi? Seus peitos são lindos. Eu te amo. E metia devagar. Foi gostoso. E vou dizer uma coisa. Foi uma energia diferente. Foi uma das punhetas mais reais que já bati. Talvez, do outro lado da cidade, a mãe de Ploc tenha sentido até um leve arrepio nos pelos de seu triangulo. Com todo respeito.

14.3.10

Mãozinha! Mãozinha! Mãozinha!

Toda manhã quando chego à agência e alguém me diz “Bom dia, Bono”, eu penso “Deus, me ajuda a marcar ao menos um ponto”.

Agora o pessoal da nova agência inventou esse jogo. Mãozinha. Uma espécie de ping-pong improvisado na mesa da criação. Jogado com as mãos e uma daquelas bolinhas terapêuticas feitas de espuma. Basta dar o horário do almoço que alguém diz, “Mãozinha! Mãozinha! Mãozinha!”. É divertido. Ajuda passar o tempo. As partidas são disputadas e os caras são bons. O melhor deles é um amarelo que trabalha no estúdio. Ele é de Feira de Santana. Deve roubar de algum jeito. Bom, já tentei algumas vezes. Sou o pior da agência. Como já era de se esperar. Não importa contra quem quer que seja. Sempre entro no jogo achando que vou perder. É o que acontece na maioria das vezes. É uma surra atrás da outra. 12 x 7, 12 x 6, 12 x 5 e, não raramente, 6 x 0. As piadas são as mesmas. “O gordo é o mais fraco”, “Venha, Bono, tomar outra surra”, “Vou botar esse gordo pra suar”.

Mas não é apenas a Mãozinha que vem me tirando o fôlego. Tem também esse job. De um laboratório. Para dizer que se trata de um laboratório bonitinho, do bem, da vida, do caralho que for. Cheguei a escrever algumas linhas. Mas não agradaram aos diretores. Nem a mim. Eles dizem “Relaxa, que a idéia chega”. Mas algo me diz que não vou conseguir. O trabalho está em minha mesa há semanas. Está ali, travado, encardido, seboso, fedendo a merda. Já faz parte de mim. É nessas horas que me acho o mais fraco da história. Imagino que todos que vieram antes de mim eram melhores do que eu. E todos que virão serão melhores. Outro dia, no ônibus, vi um maluco falar em equações, novela das oito e até em crise mundial. Com esse papo, ele vendeu 7 tabuadas. Isso mesmo. 7 tabuadas. No ônibus. Meu saque não é lá essas coisas e não sei nenhuma jogada de efeito. Eu jamais conseguiria vender uma tabuada. Mas aposto que aquele maluco venderia dois laboratórios, se quisesse. “Relaxa, que a idéia chega”. Chega porra nenhuma. Esse job tem dormido ao meu lado há duas semanas. Quer dizer, só ele vem dormindo. Porque a insônia me acompanha. Fico pensando, ah, porra, vai ver não sirvo para isso. Talvez não tenha sucesso com tabuadas, mas posso vender frutas, escrever letras de axé ou tentar o serviço público.

“Relaxa, que a idéia chega”. Diretores de criação só servem para fumar maconha e falar merda. Mas nisso eles tinham razão. Eu estava justamente relaxando numa partida de Mãozinha. O elemento de Feira mandou uma paralela escrota e disse “Receba, gordo!”. Não sei como, mas consegui rebater a bola na diagonal e ainda marcar o ponto. Eu disse “Cuidado com sua vida, Amarelo!”. Foi quando a porra da idéia do laboratório chegou.

Naquela tarde não houve tempo nem para uma mijada. Escrevi toda a campanha, os diretores gostaram e salvei a minha pele no último set. Pelo menos ganhei tempo. Eu sabia que viriam outras partidas e mais cedo ou mais tarde, eles me pegariam. Descobririam toda a farsa. O que não demorou muito. Porque a cliente reprovou a porra toda. Achou as peças bonitas e inusitadas. Mas que não era a linha. Disse que não entendeu a parte que dizia “A vida não é um jogo”. VT, rádio, anúncio, outdoor, internet e mala direta. Tudo bola fora. Mais um 6 x 0 no currículo.

8.3.10

Desequilíbrio

Lá vem o gordinho. Da janela, sempre vejo esse gordinho voltar da escola. Tem no máximo uns 12 anos. Deve estar passando por momentos difíceis. Outro dia o vi chegar com a camisa rasgada. Chorando. Agora estava apenas com a cabeça baixa. Chutando uma lata pelo caminho. Lembro bem disso. Não é fácil ser gordo, filho. Tinha vontade de dizer a ele, ao gordinho, que as armadilhas só começam desaparecer quando ele der o primeiro soco. O primeiro soco é peça chave. Tenho pensado demais em dar alguns bons diretos esses dias. Talvez seja o calor. Uma vez, Nina disse que eu estava perdendo o controle. “Você está ficando maluco, Paulo”. Só porque soltei alguns porras, caralhos e merdas enquanto procurava o controle remoto. Realmente essas coisas me tiram do sério. Essas pequenas coisas que impedem que a vida flua tranquilamente. Como não conseguir abrir um pacote de biscoito. Ou não conseguir abrir uma camisinha. Ou alguém cantando atrás de você na fila das Americanas. Ou não encontrar o controle remoto. Ok, assumo a minha estupidez. Mas existem coisas piores. Como ser hipócrita ou gostar de pagode. Além disso, é mais digno que falem, “lá vem o gordo estúpido” do que “lá vem o gordo otário”. Eles só mexem com quem está quieto. Já passei pela sexta-série. Hoje em dia prefiro morder a ser mordido. Dói menos. O problema é que ninguém pode ver um gordinho, que acham que é otário. São os apelidos escrotos. É o lanche que roubam. É o tênis que escondem. É o freela que não pagam. O vendedor que enrola. O médico que se atrasa. O pedreiro que não aparece. São também os crentes que batem na porta. É a operadora de telefonia que cobra 100 reais a mais na fatura. É aquele garçom que se acha esperto.

Outro dia fui almoçar com o pessoal da nova agência. Num desses restaurantes da orla que dizem ter o melhor caranguejo da cidade, como se isso fosse grande coisa. As pessoas da nova agência, elas também me irritam. Estão sempre felizes. Estavam lá, contando piadas, inventando joguinhos e dinâmicas, todas elas sorrindo. Quando resolvi perturbar a paz e perguntar ao garçom se a farofa que acompanhava a moqueca era de dendê. Ele disse que era. Perguntei novamente, ele confirmou que sim. Deve ser a minha cara de gordinho otário, porque logo depois o filho da puta apareceu com um potinho de farofa de manteiga. “Essa porra não é de dendê”, eu disse. O sacana disse, “É, senhor, farofa de dendê”. Eu disse, “Caralho, meu irmão, diga qualquer coisa, mas não insulte minha inteligência, essa porra não é de dendê”. Nessa hora, os felizes da nova agência começaram a dizer que eu reclamava de tudo. Então apareceu outro garçom, e disse que realmente a farofa não era de dendê. Foi quando o primeiro garçom, o filho da puta, olhou pra minha cara, sorriu, fez sinal de positivo, e disse, “Mas essa é da boa!”. É claro que eu disse, “Vai tomar no cu!” Depois até trouxeram uma farofa de dendê. Claro que não comi. Devia estar mijada, no mínimo. Logo depois, os felizes da nova agência começaram aquela conversinha de Natal:

- Pode ser assim não, Bono.
- Que é isso, Bono?
- Por causa de uma farofa?
- Cara, você tá muito nervoso.
- Eu não tô nervoso – eu disse – só cansei de ser o gordinho da escola.
- Você precisa de uma terapia, Bono. É sério.