21.2.10

A Menina que Contava Aviões

É que tem uma época que a gente realmente acredita que tem poderes especiais e que vai mudar a porra do mundo. No meu caso, acho que a culpa foi do George Lucas. Mas enfim, as coisas mudam. A gente muda que nem percebe. Quando dei por mim, já era gordo e careca. E trabalhava numa pequena e decadente agência de Salvador. Para completar, tinha ao meu lado uma mulher que não gostava de cachorros. Eu precisava virar aquele jogo. Imediatamente. É possível chutar o balde e mudar a direção a qualquer momento, em qualquer idade. Mas vou dizer uma coisa. É melhor fazer o que tem de fazer o quanto antes. Caso contrário, corre-se o risco de acostumar-se à infelicidade. Bem, naquele ponto, eu já tinha consciência que não iria muito longe com meus títulos publicitários. Mas precisava recomeçar de alguma forma. Então dei um chute na bunda fria de Regina e decidi passar um tempo só fudendo. Nada de flores nem mãozinhas dadas na fila do cinema. Só queria salvar a minha saúde mental. Só queria gozar. Foi então que conheci algumas mulheres. Muitas delas, loucas. E entre elas, Maria. Branquinha, quase pálida, trabalhava no Banco do Brasil. Enquanto me atendia no caixa, eu lhe contava algumas histórias. Ela ria ansiosamente e parecia cheia de energia. Um dia nós fomos até seu apartamento e trepamos a tarde toda. Maria era meio desengonçada, mas topava tudo e me deixou meter em todos os buracos. Além disso, ela chupava que era uma beleza. Quando terminamos, Maria se levantou e sentou-se, nua, junto à janela. Eu estava esgotado.

- Você é danada, Maria – eu disse – uma branquinha danada.
- Me achei meio desengonçada – ela disse – Nunca fiz isso antes.
- Fuder com um gordo?
- Não. Por trás. Essas coisas.
- Você sabe chupar como ninguém, Maria.
- TAM.
- Eu disse, chupar você sabe. Como ninguém.
- Não, eu disse, TAM. Tá passando um avião da TAM.
- Ah.
- Paulo – ela disse.
- Oi.
- Como foi sua infância?
- Perfeita. Na Lapinha.
- Sabe o que eu fazia quando era criança?
- Hum?
- Ficava contando os aviões que passavam – disse olhando para o céu e encostando o braço e o queixo na janela.
- Legal.
- Legal, nada. Coisa de quem não tinha nada melhor pra fazer.
- Hoje é sábado, né?
- Você disse que adorava os filmes dos Trapalhões?
- Pra caralho.
- Eu nunca assisti nenhum filme dos Trapalhões no cinema. Meu pai não tinha dinheiro. Enquanto as crianças normais brincavam na rua, corriam, tinham bonecas, iam pro shopping, assistiam filmes dos Trapalhões, sabe qual era o meu lazer?
- Rapidinho, posso me limpar com sua calcinha?
- Pode. Sabe qual era o meu lazer?
- Hum?
- Minha mãe me pegava e dizia, vamos passear de ônibus. Era o que o dinheiro dava. Era só a passagem dela. Eu entrava pela frente. Aí a gente pegava Ribeira, que dava uma volta danada pela cidade e pronto. A gente nem descia do ônibus. Rodava, rodava e voltava pra casa. Era meu lazer no domingo.
- Porra, Maria. Agora você me deixou na merda.
- A gente também ia pro zoológico. De vez em quando. Era de graça. Oh, lá vem outro. Gol. Você percebe logo pela cor. Cresci assim, fazendo coisas idiotas. Pra passar o tempo. Decorava nome de carro. Ficava vendo os nomes das cidades nas placas. Colecionava pedras. Conversava com as minhas amigas paredes. Eu dizia, “Oi, tudo bom?”, dando três beijinhos na parede. Mas o que eu mais fazia mesmo era contar os aviões. Eu ficava deitada no quarto, olhando pela janela. Olhando e anotando. Você acredita que eu tinha um caderninho só pra isso?
- Sério. Você me deixou na merda.
- Acho que o que mais passava era Varig. Tinha Varig, Vasp, Transbrasil. Transbrasil era fácil de ver porque a calda era um arco-íris. Hoje passa mais Gol.
- É, a Gol tá retada.
- Fazia tempo que eu não contava aviões – disse Maria com os olhos cheios de lágrimas, mas com um sorriso bobo no rosto.
- O que é que você tá rindo?
- Seu saco. Me lembrou a carinha enrugada de minha avó.
- Dá um beijinho nele, então. Você me deixou na merda, mas se der um beijinho, quem sabe...
- Você é engraçado, Paulo Bono.

Maria foi a mulher mais triste que já conheci. Por um instante, pensei em cuidar dela para sempre. Acontece que eu não era mais um Jedi. E acho que Maria também passava por uma fase importante e só queria gozar. Eu também precisava seguir em frente. Engrossando a casca. Amadurecendo a cabeça do pau e a alma. Não podia retroceder. A vida não era feita de sonhos. Finalmente eu estava aprendendo. Aprendendo aos poucos. Cada dia é uma página. E eu só viria a ler Misto-Quente dois anos depois.

7.2.10

As Duas Bucetas de Brotas

Não sei que porra é. Um beijo entre duas mulheres parece sempre mais gostoso do que entre um homem e uma mulher. Pensei nisso o tempo todo a caminho do apartamento de Layla, em Brotas. Pensei bastante. Porque peguei dois ônibus. Não entendo Brotas. O bairro é gigantesco e, ao mesmo tempo, contramão para todos os lados. Quanto a Layla, era uma colega da pós. Marcamos um trabalho juntos. Meu ovo estava coçando porque eu sabia que ela colava velcro e vivia com a namorada.

Toquei a campainha no sétimo andar. A porta se abriu. Era Layla. Vestia uma camiseta de flanela. Cheirosa como sempre. Era um lugar pequeno e colorido. Havia um pôster de O Iluminado na parede da sala. A namorada de Layla estava no sofá, com umas das pernas flexionadas e apoiadas no assento, exatamente como meu tio assiste à Fórmula 1. Layla tratou de fazer as apresentações e sentou ao lado de sua morena, que se chamava Cris. Sentei no outro sofá bem em frente às duas.


- Então você é o fã do Cazuza – disse Cris.
- Não, sou fã do Renato Russo – eu disse.
- Ah, Bono, pensei que fosse do Cazuza – disse Layla.
- Enfim, ambos eram do caralho – disse Cris.

Layla estava um pouco ofegante e com o cabelo assanhado. Cris estava suada. Talvez eu tivesse chegado num mau momento. Ou num bom momento, quem sabe.

- O bom e velho Contreau – eu disse ao perceber de longe a garrafinha sobre a geladeira na cozinha americana.
- Só tem Coca-Cola – disse Cris, me cortando ao meio.
- Bastante gelo então.
- Neguinha, pegue lá – disse Cris para Layla, mostrando quem é que mandava naquela porra.

Mas Layla parecia mesmo mais feminina. Era um tanto doce e frágil. Enquanto Cris tinha a voz firme e até um bigodinho. Talvez tivesse cabelo no sovaco. Devia fazer o papel do macho na hora do vamos ver. Mas Cris sabia como ser sexy e tinha classe. Além disso, eu já tinha ouvido falar que essas bigodudas têm o pinguelo grande e gozam feito loucas. Em questão de segundos, Layla trouxe a Coca-Cola.

- Cris – disse Layla – uma vez Bono me perguntou se eu não preferia trepar com um homem.
- Sério? – perguntou Cris.
- Mais ou menos isso – eu disse.
- O que você tem contra mulher que trepa com mulher? – Cris perguntou enquanto acendia um cigarro.
- Na verdade, nada – eu disse – Pelo contrário. Acho que toda mulher devia experimentar outra mulher. Falo isso do fundo do coração. Afinal, uma xota ainda é a melhor coisa nesse mundo de merda, não acha?
- Que mais? – disse Cris
- Que mais o quê?
- Que mais você queria saber sobre mulheres que trepam com mulheres?
- Bem, pouca coisa – eu disse – Por exemplo, por que esse lance todo com Ana Carolina?
- Qual é o problema? – disse Cris – Você gosta de Cazuza.
- Do Renato Russo.
- Ambos davam o chicote.
- Não é o meu caso.

Percebi que o clima estava esquentando. Layla estava quase no colo de Cris, que lhe acariciava os cabelos. Percebi também que Cris queria comandar a situação. Mas ela esquecia que naquela sala só eu tinha um par de ovos.

- Percebi que você não tira o olho de meu bigode – disse Cris.
- É um belo bigode – eu disse.
- Você deve estar pensando que eu sou pingueluda.
- Tava pensando que você precisa de um barbeador.
- Eu gosto de bigode – disse Layla beijando Cris.
- É verdade, eu tenho um pinguelo é enorme.
- Tenho certeza que é um baita pinguelo.
- Aposto que meu pinguelo é maior que seu pau.
- Aposto que seu pinguelo não jorra leite.
- Neguinha, serve o Contreau pra ele.

Então Layla me trouxe a garrafa e as coisas esquentaram de vez. Layla sentou no colo de Cris, e as duas começaram um lento e delicioso beijo. E vou dizer uma coisa. Um beijo entre duas mulheres com certeza é mais gostoso do que entre um homem e uma mulher. Não sei como essas diabas faziam, mas era um beijo macio e cremoso, as línguas davam voltas, em câmera lenta, e dava um nó assim, e as salivas se misturavam, só aquele beijo safado já valia uma punheta, mas eu queria chupar as duas e ser chupado por elas, fazer o triângulo do amor, dar uma surra de pica nas meninas, colocá-las de quatro, agarrar os cachos de Layla, dar um tapa no rabo de Cris, botar em uma, tirar, botar em outra, meu Deus, eu queria ter duas picas, lascar em dobro, gozar na cara das cachorras e ser feliz. Mas quando Cris já estava alisando a xoxota de Layla, e meu pau já estava pra fora, a campainha tocou. Cris soltou o "puta que pariu" mais elegante que já ouvi em minha vida. Então Layla foi ver quem era pelo olho mágico e voltou nervosa.

- É meu marido!
- Marido? – perguntei.
- Ex-marido! – disse Cris.
- Vá por quarto – disse Layla me empurrando.
- Você não é sapatão, caralho? – eu disse.

Layla me empurrou até o quarto e fechou a porta. Nesse estágio, nem eu nem meu cacete estávamos entendendo mais nada. Sentei na cama e tentei ouvir a conversa. Falavam alguma coisa sobre dinheiro, contas, sapatão, trabalho, sacana, leite, escola e filha. Eu pensei, “filha”, que porra é essa? E de repente começaram os gritos: “MIL REAIS O CARALHO! MIL REAIS O CARALHO!", “É PRA SUA FILHA, PORRA!”. “PRA VOCÊ TORRAR COM ESSE SAPATÃO!”, “POR MIM, VOCÊ ENFIA SEU DINHEIRO NO CU!”, “SÃO OS LIVROS DA SUA FILHA”, “MIL REAIS O CARALHO!”, “POR QUE O QUARTO TÁ FECHADO?”. Foi nessa hora que pensei em pular a janela. Mas esqueci que era o sétimo andar. E logo a porta se abriu. E quem segurava a maçaneta era um baixinho parrudo, invocado e com cara de torcedor do Corínthias.

- QUE PUTARIA É ESSA? – berrou o baixinho.
- Ham? – eu disse.
- QUEM É VOCÊ, PORRA?
- Ham, não sei – respondi, falando a verdade. Naquele instante esqueci meu nome e até quem era minha mãe.
- Esse é Bono, meu colega da pós – disse Layla me salvando – estamos fazendo um trabalho.

O baixinho olhava fixo para mim. Seus olhos pegavam fogo. Seu rosto estava vermelho. Talvez eu pudesse com ele. Mas esses baixinhos parrudos dão trabalho. Ainda mais daquele tipo, corno de sapatão e virado no caralho porque querem tirar mil conto do seu bolso. Eu não teria a menor chance. Então ele se pronunciou.

- VOU DEIXAR UMA COISA BEM CLARA – disse o baixinho – NÃO QUERO PUTARIA QUANDO MINHA FILHA TIVER AQUI.
- Ana Carolina tá com minha mãe, Jorge – disse Layla – mas eu preciso comprar os livros dela.
- MIL REAIS O CARALHO! – berrou o baixinho pela última vez, saindo do quarto.

Depois não ouvi mais nada. Então Layla voltou dizendo que eu podia sair.

- Desculpa, Bono – disse Layla – meu ex aparece de vez em quando pra encher o saco.
- Esquece aquele anão, Cazuza – disse Cris – vamos recomeçar a festa.
- Não sei seu pinguelão, baby, mas meu pau não sobe mais hoje.

Foi mais ou menos por aí que me despedi das meninas e caí fora. Foi uma noite e tanto. Só me restava bater uma punheta. Não digo naquela noite, nem no dia seguinte, nem depois. Precisava me recuperar. Precisava deixar aquele lugar o mais rápido possível. Quem sabe o baixinho parrudo não estava escondido atrás de uma daquelas barracas de cachorro-quente, me esperando com um porrete na mão. Mas eu não fazia idéia de que lado passava o ônibus. Às vezes o bairro de Brotas parece um cenário dessas séries de TV sem fim e cheias de enigmas.