25.1.10

Nova Temporada

“Sacaninha careca”. Foi a última frase que digitei. Como se fosse a última gota. Depois fui dormir. Estava cansado. Precisava de um tempo. Passar alguns dias sem me preocupar em ter algo a dizer, de preferência algo engraçado. Olha só que merda estou falando agora. Quem diabos eu sou pra achar que tenho algo a dizer? Esse é o problema de um blog. Faz com que um bando de medíocres como eu saiam por aí dizendo tudo que pensam – ou não pensam –, se achando os escritores, os poetas, os sensíveis, os ferinos, os Bukowskis, os críticos, os criativos, os piadistas, os fodões, os desejados. Se achando tão necessários e importantes, acreditando piamente em tudo que dizem por aí naquela seção de comentários. Aí recebo um e-mail de um cara dizendo que escrevo pra caralho e que precisamos marcar pra tomar uma. Por um instante acredito em tudo aquilo e me sinto estupidamente metido e importante. Então vou tomar uma, comer uma pititinga com a turma. É quando todos descobrem que não passo de um completo idiota. Por isso eu precisava desse tempo. Janeiro é um bom mês para se ganhar tempo. Poucos jobs na agência, menos engarrafamentos, aquela letargia embriagante, enquanto tudo segue em seu mesmíssimo lugar: o calor, o sol, os ensaios de verão, a alegria contagiante de tanta gente bonita. Nada para gordos. Nada de novo. Então aparece esse filme, o Avatar. Eu desconfiava, mas falavam em revolução e tal. Fui assistir. Nada demais. Que merda significa revolução? Mas só se fala nisso. No dia seguinte eu estava com o Camaça. Pegava um churrasquinho na Favelinha.

- Você precisa entender, Bono – disse Camaça –, a história do cinema agora se divide em pré e pós-Avatar. É uma revolução, sim.
- Revolução de merda. Uns carinhas azuis que vivem na floresta e lutam contra o homem. Vai tomar no cu. Essa historia os Smurfs já contavam.
- Só o que presta é seu blog. Você é o sabichão. Só você tem história original. Tudo repetido também naquela porra. A putinha do caixa, a putinha da recepção, a putinha do não sei o quê.
- Sabe o que lembrei agora?
- Hum.
- Daquele episódio dos Smurfs. Que o Papai Smurf levava a turma pra uma caverna, eu acho, aí era longe pra porra, e todo hora a galera perguntava, falta muito, Papai Smurf?
- Smurfs era do caralho.
- “Falta muito, Papai Smurf?” Porra, sempre lembro desse.
- As aventuras de Cacá. Também era de fuder.
- Porra, sei a musiquinha até hoje.

O churrasquinho da Favelinha é meio deprimente. Mas é barato. Pagamos a conta e já estávamos de saída.

- Você viu em 3D? Experiência do caralho.
- Vi, mas não vi.
- Como assim?
- Eu não enxergo desse olho. E esse negócio de 3D só funciona com os dois olhos. Eu não sabia. Aí ficava o cinema todo lá fazendo caras e bocas, curtindo a porra do 3D, e eu que nem um idiota sem entender nada. Depois fingi que também tava vendo, tipo, esquivando assim a cabeça, tentando alcançar os bichos.
- Porra, você não enxerga desse olho.
- Não.
- Nada?
- Nada, caralho.
- Gordo, careca, pobre e cego.
- E pau pequeno também...
- Você tem que se matar, desgraça.
- Já pensei nisso.

Nessa hora, passou devagar pelo estacionamento um careca de moto. Ele deu uma buzinada, jogou um cartão na minha direção, e disse, quero lhe fotografar. Depois acelerou. Peguei o cartão, e estava escrito “Viny Castro. Nu Artístico”. Camaça começou a ri.

- Que viadagem é essa? – eu disse.
- Achou, hein, Bono!
- Só pode ser sacanagem.
- Aí, pode ser a capa de seu livro, porra.
- Vá se fuder.
- Sério. Você nu, mostrando o rabo, com os contos escritos nas costas.
- Eu e sua mãe.
- Porra, é sério.
- Ela de quatro e eu metendo.
- Mostrando esse cofrão. Eu só não ia comprar essa porra.
- Sacana careca.