29.11.10

Jaca, os peitinhos e a galinha

Noite fria. Eu esperava na padaria da esquina. Olhei as horas. Precisava de um cigarro. Se pelo menos eu fumasse. Passavam das dez quando Jaca apareceu. Entrei no carro.

- E a cachaça? – Jaca disse.
- Tá aqui – eu disse.
- Tranquilo, então. Eu trouxe a galinha.
- Que galinha?
- Roque da Lua foi claro. Uma garrafa de cachaça e uma galinha.
- Porra, acho melhor deixar a galinha de fora.
- E o bode?
- Que bode, caralho?
- O bode que enterram em seu quintal?
- Ok. Cadê a galinha?
- Na mala.
- Na mala?
- Lavei o carro hoje.
- A porra vai morrer sufocada.
- Fique tranquilo. A galinha tá na dela.

Jaca era um velho amigo dos tempos de escola. Daqueles meninões idiotas que levava a culpa de tudo. Seu apelido naquele tempo era peitchola, por causa dos seus peitos grandes e pontudos. Ficava puto. Hoje é segurança de loja. Acontece que eu andava numa fase daquelas. Havia deixado a velha agência, e Regina era coisa do passado. Para os diretores de criação, eu não tinha o menor talento. As mulheres pensavam a mesma coisa. Nada dava certo. Sem dinheiro, sem trabalho, só na punheta. Então eu estava por aí, na merda, quando encontrei Jaca. Contei minha situação. Jaca teimou que aquilo devia ser praga de Regina. Macumba, essas coisas. E disse que esse tal Roque da Lua podia me ajudar.

Quando chegamos, convenci Jaca a pegar leve com a galinha. Daríamos uma conferida no terreno. E se fosse necessário, pegaríamos o animal. Parecia um lugar agradável. Só aquele som de tambores que arrepiava os cabelos mais crespos do meu ovo. Havia essa figura no portão de entrada. Negro, alto, jovem. Não sei o que esperava da vida, mas segurava uma vela com as duas mãos.

- Boa noite – disse Jaca – o Roque da Lua está?

O garoto não respondeu. Só olhava para frente. Reto. Ele e a porra da sua vela. Parecia um rapaz determinado. Pelo menos a não dar as boas vindas a Jaca.

- Boa noite, amigo – Jaca insistiu – Eu marquei com Roque da Lua.

Nenhuma resposta. Somente o som dos malditos tambores.

- Esse merda não vai falar nada – eu disse.
- Será que é doente?
- Quero que ele se foda.
- Ô maluco! Tá me ouvindo? EU QUERIA FALAR COM ROQUE DA LUA!
- Vamos sair daqui, caralho!
- Tô quase metendo a porra nesse moleque.
- Cuidado, esses caras manjam de capoeira.

Então surge do nada esse baixinho todo de branco segurando a porra de um cacho de bananas. Pelo jeito que rebolava, eu não tinha mesmo certeza por onde ele ia ingerir aquelas bananas.

- Jaquinha! – disse o mestre das bananas – chegou bem na hora.
- Seu Roque – disse Jaca – o garoto aqui não queria colaborar.
- Ah, esse é Tico-Tico. Tico-Tico tá de castigo. Pra aprender a se comportar.
- Esse é Paulo – disse Jaca – o amigo que lhe falei.
- Ah, o que tá desempregado e não consegue trepar.
- É, tô no cu da cobra – eu disse.
- Vem, vamos entrar, vamos entrar. Tico-Tico, você se comporte.
- Agüente firme, Tico-Tico – eu disse.

Lá dentro, havia esse pátio de terra. Cercado de uma varanda com portas e de algumas árvores. Havia também essa roda de gente. Vestidos de branco. Aquela batucada. “Cadê Roque da Lua?” – Jaca perguntou. O danadinho das bananas desapareceu do nada. Então ficamos por ali como dois imbecis. Volta e meia alguém pulava no meio da roda e arriscava alguns passinhos. Até que veio essa morena. Começou a sambar. Nova, pele escura e os dentes mais brancos da noite. Seu corpo? Bem, digamos que eu saberia o que fazer com seu corpinho num quarto escuro. A moleca dançava. Girava. Levantava a saia, ia até o chão, revelava as pernas e, por milésimos de segundo, sua calcinha. Não é por nada não, mas eu já estava de pau duro.

- Será que ela toca berimbau? – perguntei a Jaca.
- Ham?
- Tá sentindo o quê, porra?
- Calor da porra!

Então aumentaram a batucada e a morena enlouqueceu. Começou a revirar os olhos e a retorcer o corpo. Num desses solavancos, seus peitinhos saltaram da blusa. Como se gritassem por liberdade e quisessem participar da festa. Eram peitinhos firmes, santos e loucos. Eu pensava, por que essas porras parecem mais gostosas quando estão dando santo? Aliás, o santo devia saber que havia um gordo por perto que estava doido pra cair de boca naqueles peitinhos. Eu estava em pânico. Tentava não pensar em sacanagem. Mas só conseguia pensar naquela xoxota em chamas. Nessa hora, algum escroto que gosta de ver o circo pegar fogo soltou uma galinha no meio da roda. Vou dizer uma coisa. Nunca havia visto nada mais inocente do que aquela galinha. Querendo aparecer. Caminhando para o meio da putaria. Balançando a cabeça. No ritmo dos tambores. Pelos olhinhos, estava drogada. Parecia sorrir. Quando a morena a pegou pelo pescoço e ZAP! Passou a faca no animal.

- Puta que pariu – eu disse a Jaca – esquece a galinha.
- O quê?
- Porra, você tá suando pra caralho.
- É o calor, porra.

E adivinhe quem apareceu do nada. Sim, ele mesmo. Roque da Lua. Dessa vez, sem as bananas. Mas com um charuto que não tinha mais tamanho. Dançando, se remexendo e dizendo coisas que eu não conseguia entender.

- O que é que esse porra tá falando? – perguntei a Jaca.
- Não sei. Entendi não sei o quê Paca Capim, Paca Capim, Paca Capim...
- Jaca, você tá branco.
- Dor de cabeça...
- Porra, será que você tá dando santo?
- Eu tô tranquilo.

Enquanto isso a roda pegava fogo. A morena, os peitinhos e Roque da Lua. A galinha perdeu o melhor da festa, fazer o quê? E do nada, Roque da Lua largou o charuto e começou a dar saltos. Grandes saltos. Saltava e girava rapidamente para todos os lados, fazendo o Mestre Yoda em ação parecer uma velha tartaruga manca. Roque da Lua pulava sobre as pessoas na roda, dizendo coisas e dando gargalhadas. E de repente, esse merda veio em minha direção, com os olhos ardentes. Pensei, fudeu. Só deu tempo de pensar isso mesmo, porque logo depois Roque da Lua me empurrou para o lado, apertou os peitos de Jaca e berrou com uma voz fininha “PEITCHOLA! PEITCHOLA! PEITCHOLA!”. Jaca tentou se defender empurrando Roque da Lua, que saltou para trás, dando um desses golpes de capoeira e raspando o pé no queixo do meu amigo.

Três minutos depois, Roque da Lua seguia seu show, enquanto Jaca e eu nos despedíamos de Tico-Tico e entrávamos no carro.

- FOI VOCÊ QUE DISSE! – Jaca berrava
- Vai tomar no cu, Jaca!
- FOI VOCÊ QUE DISSE!
- Como é que eu ia dizer alguma coisa? Eu nem conhecia aquele viado. Você que me trouxe aqui, porra!
- E como é que ele sabia desse negócio de peitchola?
- Sei lá, esses caras sabem tudo da nossa vida.
- Ele me pegou desprevenido.
- Mas você viu aqueles peitinhos?
- Tá amarrado, Jesus é mais forte.

Bem, o que resta contar é que passei um bom tempo ainda sem trabalho e sem mulher. Que Jaca segue sua vida como Segurança. E que a galinha na mala do carro sobreviveu.

26 comentários:

Vai de Táxi! disse...

Paulo,
sensacional. Adorei. Esse ta no Top. Vi a cena inteira na minha cabeça.

"- Cuidado, esses caras manjam de capoeira."
isso é verdade, eles sempre manjam uns golpes de capoeira.

E a morena, aaaa posso até imaginar a morena dando santo lá com um peitinho de fora. :D
Não tem como não olhar.

Sunflower disse...

Meu pai tem os dois pés no terreiro. Macumbeiro de pai e mãe e o sonho da vida dele é levar sua primogênita, a querida que vos fala, para o terreiro porque o bff dele ( seu pai de santo) disse que eu tenho um poder da porrar. Sou ignorante, mas não tanto, sei por exemplo que não sei quase porra nenhuma nessa vida, mas do pouco que sei é que evito o terreiro a todo custo porque das poucas coisas que tenho certeza é que vou ficar tal qual esse nega no terreiro.

beijas

Anônimo disse...

Um dos melhores, com certeza. Do caralho!
Esse lance de peitchola aí deve ter sido algum amigo de vcs que desencarnou e voltou pra sacanear, ehehehehehehe...

Amoêdo

Marcos Satoru Kawanami disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulo Bono disse...

Taxista,
Pena que caopeira não combina com gordo. Aliás, o que é que combina?

Sunflower,
Nem fale da nega do terreiro.

Amoêdo,
Esse lance do peicthola foi umas das mais inacreditáveis que já vi.

Marcos,
Me cado de medo dessa porra.

JuANiTo disse...

Porra, Bono.
Tenta uma sessão espiríta que é mais litgh. Porém, não haverá peitinhos, e é melhor não levar Jaca pra não rolar peitcholas! hahhhaaue

Nathaly disse...

Bono, sou tua fã. Vc é o cara! Bjos

Alvarêz Dewïzqe disse...

Merda... Quer dizer, o conto foi de primeira. Merda foi que me lembrei de uma louca que levei pra casa uma vez, de madrugada, e quando achei que ia comer a maluca começou a revirar os olhos, mudar a voz e dizer umas paradas muito sinistras. De repente ela caiu pra trás feito uma tábua, e apagou. Mano, apavorei, achei que tinha morrido. Botei em cima do carrinho de mão e ia jogando num matagal quando um casal de primos passou de carro "Que foi isso? Que foi isso?". Contei a história pra eles e eles resolveram levar 'o corpo' para um hospital, colocaram dentro do carro e foram embora. O que deu disso tudo eu não sei, nem fui atrás pra saber. Macumba é foda.

Jesus disse...

tico-tico é o cara!

Vitorsemc disse...

Porra Paulo, escreve um livro cara. É a solução pra sua falta de grana. Não conheço uma pessoa que leia essa porra e não ache do caralho.

Parabéns pelo texto. Muito bom.

Edu disse...

Cara, me conta uma coisa: como é que vc conseguiu não cair no chão e rolar de rir?!

Só de imaginar a cena eu quase fiz isso...

Mto bom!

Abs

menina fê disse...

putz, e saiu de lá sem conseguir levantar o pau, quero dizer: a moral???

triste fim da galinha. rsrsrsrs



a-do-ro teus textos!!!

abçs, querido.

leo disse...

Muito bom... a particpação especial da falecida galinha no show da morena dos peitinhos foi impagável.

Paulo Bono disse...

Juanito,
Essas sessões espiritas também rola paradas estranhas.

Nathaly,
Apareça sempre.

Dewïzqe,
Seu porra. Sacanagem vir aqui e contar uma história melhor que a minha.

Jesus,
Tico-Tico é um merda.

abraço a todos

Paulo Bono disse...

Vitor,
Estou pensando nisso. Falta tempo e talento.

Edu,
Esqueci de dizer isso. Ri depois. Mas na hora eu estava em pânico.

Menina fê,
Nem macumba me ajuda.

Leo,
Galinha imbecil.


abraço a todos

Marcos Satoru Kawanami disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Inácio França disse...

Que conto/crônica/sei-lá-o-quê arretado, meu velho Bono.

Muito bom.

Fábio disse...

Engraçado demais. Muito bom mesmo.

Abraços

De Tudo de Helena disse...

Huahuahauhauhuaha..encosto escroto! Muito bom!

Paulo Bono disse...

Inácio,
Sei lá também, chapa. Mas apareça sempre.

Fábio,
Valeu, parceiro

Helena,
Bote escroto nisso.

abraço a todos

Pimenta disse...

Ai Bono, desculpa,mas eu rí.
Acho que tu conseguiu fazer pior que eu.
Cara, nem macumba salva...
bjos

Mwho disse...

Bono,
Acho que isso não foi ficção...

Fabrício Romano disse...

Na editora em que eu trabalhava, na hora do café, um cara disse que chupava três bananas por dia. É claro que ele tentou consertar depois, com laranjas, mas ninguém se lembra dessa parte. Lembrei disso.

Fábio Souza disse...

Essa estória de peitchola!!!!! deve ter deixado o cara traumatizado ein???????

Abração Primo

Pablo Araújo disse...

Do caralho. Um dos melhores cara. Abço.

Simone disse...

Estou recomendando o blog!