1.8.10

Os moleques da ladeira

Éramos um bando de moleques descendo a ladeira a todo vapor. Podia ser o pedaço de uma porta, de um armário, de um guarda-roupa, qualquer coisa. Levávamos a tábua até o topo da ladeira, sentávamos e depois descíamos com tudo. Os mais corajosos ainda passavam sebo de vela nas tábuas para ganhar mais velocidade. Era preciso calçar as Havaianas nas mãos para servirem de freios.



Nina costumava dizer que meu pior lado era a Lapinha. Bastava eu soltar um peido ou um arroto, e ela dizia, “Tudo que você tem de ruim vem da Lapinha”. Talvez Nina estivesse certa. Por trás dessa minha cara feia, por trás de toda essa gordura, por trás deste monte de merda que sou, está o Largo da Lapinha. E por trás do Largo da Lapinha está a ladeira da Lapinha, onde morei.


Quando você olha, parece o próprio corredor do inferno. Verdade, a Ladeira da Lapinha é um lugar deprimente. De um lado, casinhas antigas e escuras e um beco com mais casinhas, e do outro, até metade da ladeira, um imenso matagal. Sim. Uma ladeira estreita de pedras com casinhas e capim. Um lugar desses que você prefere esquecer que existe. Feio. Miserável. Encardido. Escondido atrás de uma igreja. Com pessoinhas pobres vivendo suas vidas. Mas acredite, eu achava a ladeira o melhor lugar do mundo. Sentia orgulho de viver ali. Bem, quando se tem 7, 8 anos, você não faz idéia que seus tios e tias detestam ir ao seu aniversário porque têm nojo de sua rua e seus amigos.

Lembro que as pessoas da ladeira falavam alto. Falavam praticamente gritando umas com as outras. Eram duas lavadeiras discutindo, uma mãe gritando para o filho sair do mato e ir tomar banho, essas coisas. Havia muitos tipos. Fofoqueiras, viados escandalosos de shortinho na bunda, pais de santo fazendo batucadas, putinhas, putonas, pivetes, malandros, ladrões baratos, bêbados e loucos. Lembro de Luiz Babão, ele era os dois, bêbado e louco. Mas também havia boa gente, boas famílias. E só Deus sabe o quanto aproveitei aqueles anos. Correndo, pulando, caindo, empinando arraia, chutando lata, levando porrada em garrafão, colocando bomba em canos, catando guimbas de cigarro e fingindo que fumava, e chegando em casa com os pés cheios de lodo. Você pode dizer, grandes porra, Bono, você acha que é melhor do que alguém por sujar os pés numa ladeira de merda? Bem, não sei, talvez, tem muito menino amarelo por aí, desses que cresceram jogando Playstation, ping-pong no playground e gude no tapete da sala, e hoje são uns frouxos e escrotos. Mas deixa lá.

Bem, voltando à Ladeira. Lembro que minha avó dizia, “Não ande com os moleques da ladeira”. Acho que minha avó era racista. Os meninos, em sua maioria, eram negros. As exceções eram Batata, que era amarelo; e Lorinho, que era branco e cheio de sardas. Mas Bigu, Lingueta, Vaca, Maradona, Capenga, Lazinho, Ultraseven e Olho de Tandera, esses, para minha avó, eram todos neguinhos. Bem, eu não sabia o que era racismo. Nem tinha idéia do que era ser negro ou branco cheio de sarda, rico ou pobre. O mundo era bem simples.



Aquela época foi a mais pesada para Capenga e sua perna. Então Capenga não podia brincar de escorregar de tábua. Mas não o deixávamos para trás. Capenga ficava na porta de sua casa, atuando como uma espécie guarda de trânsito, regulando o tráfego de tábuas. E para passarmos por ele, era preciso pagar pedágio, que na verdade eram embalagens de cigarro vazias que catávamos pelo caminho. Certa vez, eu estava lá, escorregando de tábua. Paguei meu pedágio, passei por Capenga e desci até o pé da ladeira. Os meninos estavam à minha espera. Juntamos algumas moedas e compramos duas tubaínas e ficamos ali, em frente à casa de Lazinho. Lazinho morava num barraco. Um barraco mesmo, desses que você vê em reportagens sobre a miséria humana, feito de madeira, lona e papelão. E enquanto saboreávamos nossa tubaína de tuti-fruti, dava para escutar os pais de Lazinho discutindo dentro do barraco. Só dava para ouvir os palavrões. Mas de repente, veio um barulho de vidro se quebrando, uma pancada e um grito. Logo depois o pai de Lazinho saiu do barraco e desceu a ladeira correndo. O velho simplesmente havia empurrado a mãe de Lazinho na ribanceira que tinha atrás do barraco. Os vizinhos chegaram, foi aquela gritaria, chama a polícia, chama a ambulância, Lazinho chorando feito a porra, e a velha lá, estirada sobre a terra, toda quebrada e cercada de ratos assustados. Fui correndo contar a história a Capenga, aproveitei e levei sua dose de tubaína.



Dia desses, eu estava com uns amigos num desses rodízios de pizza no shopping. E pensei ter visto o Lingueta passar no lado de fora da pizzaria. Um homem largado, com uma péssima aparência, mal vestido, como se não fizesse parte daquela praça de alimentação. Não tinha certeza se era ele. Estava diferente, de barba, e passou muito rapidamente. Lembrei das palavras de Nina. Talvez ela estivesse errada. Completamente errada. Afinal, o que é um peido ou um arroto? Então voltei para o meu mundo limpo e plano, onde não se coloca negros em outdoors sobre empreendimentos de luxo.

21 comentários:

Mwho disse...

Bono,
Grande texto!!!

JuANiTo disse...

Isso sim era infância. A última que prestou. Até o meio do anos 90.

Como era bom ser feliz por tão pouco.

Tem uma múscia que diz assim, acho que dos Racionais MCs. Adaptando: "Vc sai da Lapinha. Mas a Lapinha não sai de você". haahhahahueh

Abraço

Fabiano Santana disse...

Já vi negros em empreendimentos de luxo sim, lembra aquele em Mussurunga 3014? Ou aquele outro 1/2 quarto com banheiro comunitário no Vale da Muriçoca. Porra Bono, vc nunca mais mandou um Salmo para relfetir! Abraços

Marcelo Mendonça disse...

saudades do tempo em que o mundo era meu bairro, que as metas poucas e estavam todas ao meu alcance. Mas aí eu vi que o mundo era muito maior... e que eu quero tudo.

A viajante disse...

A infância é mesmo diferente pra cada um...qdo lembro da minha, me vejo liderando as brincadeiras, cozinhando no quintal, fazendo bolo de mentirinha...muito bom seu texto!!

Paulo Bono disse...

Mwho e Viajante,

Valeu. Gosto mesmo de contar sobre a Lapinha.

Juanito,
Não ouço os Racionais. Mas a Lapinha realmente não sai de mim.

Fabiano,
Tô sem tempo pra salmos, meu amigo.

Mendonça,
Já já vou postar aqui sua obra.

grande abraço

Marcos Satoru Kawanami disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mila disse...

Cara, preciso dizer quanto eu adoro o q vc escreve?
Super me identifiquei com esse texto. Vim de periperi e considero que muito do meu melhor floresceu lá.
E como me maltrata saber hoje o que é racismo, a falta q me faz daquela época q eu nem sabia q existia.

Vitor disse...

Cara, grande texto.

Não sou de perder tempo elogiando blog dos outros... mas depois de ler tudo que você escreveu, não tive escolha. O elogio ficou entalado na garganta.

Meus parabéns. Você é gordo, feio, pobre e publicitário, mas é genial.

Nerso disse...

Difudê!

Carina disse...

Porra... quase chorei. Bono, você é foda! Adoro como você consegue colocar todo seu lado humano pra fora sem medo. É isso aê!

Paulo Bono disse...

Kawanami,
Verdade, o humor é uma boa ferramenta.

Mila,
Quem nasce em Periperi, assim como na Lapinha, tá preparado pra vida, penso eu.

Vitor,
Esqueceu de dizer que sou careca.

Nerso,
Você por aqui, cumpadi?
Apareça mais vezes. Vou querer meu tênis.

Carina,
Meu lado humano? Porra, tipo, eu tenho outro lado?

abraço a todos

::Soda Cáustica:: disse...

A infância na Lapinha é mil vezes melhor que a do Horto Florestal

Jesus disse...

bono,

vc é um artista!

marcada a champanhe semanal?

Mateus Henrique Zanelatti disse...

Dúvida: Na faculdade de publicidade, tem, dentro de alguma matéria, alguma coisa que fale, ou cite, mesmo que meio indiretamente, que "tipo" de pessoas são ideais para o tipo, ou classe de propaganda?
.
.
.
Bacanudo esse texto. Bem forte.

Abraço!

Paulo Bono disse...

Soda,
A Lapinha é foda.

Jesus,
Eu nasci na Lapinha, meu negócio é cachaça.

Zanelatti
Boa pergunta. Acho que não só a faculdade de propaganda, como também a de arquitetura e engenharia. São esses tipos que não querem associar tal tipo de gente com seu empreendimento. E digo mais, pelo jeito qualquer faculdade ensina isso. Pq até os consumidores são preconceituosos até o talo.

grande abraço

Fabrício Romano disse...

Tivemos uma infância bem parecida, parceiro. Bom era roubar amora, jogar três-dentro-três-fora, mamãe da rua, chinelo pra fazer o gol da linha e garrafa pro taco. Também perdi contato com a molecada da quebrada e agora como em fast food de shopping. Que diabo seríamos hoje sem os livros e as chances que tivemos? A vida é loka. Belo texto. Grande abraço.

Anônimo disse...

"Quando eu morrer me enterre na Lapinha,
Quando eu morrer me enterre na Lapinha
Calça, culote, palitó almofadinha
Calça, culote, palitó almofadinha".

Risos. Gordinho, vc é melhor que queijo com goiabada... Melhor que pipoca e guaraná... Melhor que champagne e caviar.

Muito mais que bom toda sua escrita.
Bjos na alma,
Sofia

Paulo Bono disse...

Romano,
Não sei como é "Mamãe na rua", mas realmente, nossa infância são muito parecida, sobretudo nas traves de chinelos.
É, tive alguma sorte também. Tem importantes nesse jogo.

Sofia,
Valeu o beijo na alma. Mas troco o queijo com goiabada por um mousse de chocolate.

grande abraço

Aristides disse...

Bono,sempre passeio pelo blog,ri pra caralho e fiz divulgação geral ao ler as duas bucetas de brotas,gosto muito da forma como você narra os fatos e falar da infância é incrível,comento com meus filhos e eles ficam viajando sobre brincar de garrafão,barra-bandeira,bandido e polícia,jogar bola na chuva(pelo menos isto eles fazem),etc...Esta fase é a base de tudo,foda hoje ser diferente,mas enfim,é a vida,ao menos aos meus dou total liberdade,espero que eles extraiam o sumo.A Próposito,li e gostei bastante sobre sua simpatia ao SANTA CRUZ FUTEBOL CLUBE,valeu cara!

Paulo Bono disse...

Aristides,
É verdade, é uma coisa ficar comparando tempos de infância, "Ah, no meu tempo era melhor...e tal". Mas que era melhor, isso era.
E o lance é que eu quero que o Sport se foda, e tenho grandes amigos torcedores do Santinha.

grande abraço