17.7.10

A gostosa e a fera

Quando abri a porta, havia um camaleão parado bem no meio do hall. Isso. Uma porra de um camaleão, dos grandes, como que perdido, bem em frente ao apartamento. Não fazia idéia de como aquele bicho foi parar ali. Por um instante tive a impressão que ele olhava no fundo dos meus olhos. Eu não conhecia seus truques. Então passei me esgueirando pela parede, atento a qualquer movimento, e desci as escadas. Foda-se o cameleão e seu rabo gigante.

Seria um dia cheio. Mandaram eu acompanhar a gravação de um comercial. Faço de tudo para evitar esses trabalhos externos. Você sabe, reuniões, apresentações, gravações. Esse povo é mais receptivo a gente bonita ou, no mínimo, elegante. Só faço atrapalhar. Mas Belchior, o diretor de criação, insistiu.

Era coisa de cinema. Com uma dessas atrizes famosas, diretor renomado, uma grande equipe, muita aparelhagem, luzes, camarim, um puta buffet, essas coisas. Belchior estava de boné. Eu também tentei ir de publicitário criativo, mas não achei a porra do boné e fui de publicitário careca e idiota. Tentei ficar o mais invisível possível. Só não queria fazer nenhuma merda. Então me desviei de todos aqueles cabos e rebatedores e achei um cantinho, um ponto morto que era o meu devido lugar. Então a atriz chegou e o diretor começou o ensaio. A mulher era mesmo uma coisa. Não costumo dar a mínima para essas figuras da TV, mas aquela ali, pessoalmente, merecia uma bela homenagem só pelo par de pernas. As coisas estavam indo bem, mas a mulher começou a engasgar no texto e o tempo estava ultrapassando os 30 segundos. O diretor gritou “Quem escreveu essa porra?”. Gelei. Um filho da puta da equipe apontou para o nosso lado “Ali os meninos do texto”. Belchior tirou o boné, passou a mão na cabeça e colocou o boné novamente. Um boné faz falta nessas horas. Eu só pensava que talvez minha mãe estivesse certa, o fato de eu ter batido a cabeça na hora do parto, talvez eu não soubesse fazer porra nenhuma nessa vida. Belchior e eu nos aproximamos, pegamos o texto e olhamos, olhamos de novo, cortamos algumas palavras e substituímos outras. Nessa hora eu estava bem próximo da atriz. E por um instante tive a impressão que ela olhava bem no fundo dos meus olhos. Talvez estivesse se perguntando, quem deixou esse bicho entrar aqui? E eu com a minha cara de merda e sem boné não sabia o que fazer. “Vamos de novo!”, gritou o diretor. Voltamos para nosso canto e o ensaio recomeçou. As coisas fluíram, o texto também, e a atriz seguia mais gostosa do que nunca. O diretor disse, “Tá ótimo”, e acabou o ensaio.

- Que é que tá achando? – Belchior perguntou baixinho.
- Eu como – respondi baixinho.
- Eu como fácil.
- Tô com uma vontade de peidar do caralho.
- Tá vendo aí, Bono? As coisas estão acontecendo. São esses momentos que fazem a profissão valer a pena. Trabalhar com quem sabe. Isso aqui é uma realização. Depois de hoje eu já podia me aposentar...
- Você acredita que hoje de manhã tinha um camaleão na minha porta?
- O quê?
- Vamos gravar? – berrou o diretor – silêncio, desligue os celulares, silêncio, atenção, silêncio, som, câmera, gravando!

Então começou. E correu tudo bem. Comecei a pensar nas palavras de Belchior. Sobre aquele papo de realização e sonho. Quem diria, Paulo Bono? Logo você, acostumado a jogar na terceira divisão, a escrever cartões de natal, carros de som pro interior, a escrever outdoors provincianos e trabalhar para bandidos em Feira de Santana, logo você, que bateu a cabeça ao nascer, estava agora ali, aproveitando faíscas de sucesso, vendo aquela famosa falar para a câmera palavras que você escreveu num dia qualquer. O diretor disse “Perfeito!”, a gravação terminou e todo mundo bateu palmas. Logo depois começaram uma sessão de fotos e tietagem com a famosa, aquele abraça-abraça, mas como sei da aversão das pessoas a tirar fotos e abraçar gordos, não tentei nada. Belchior ainda ficou por ali, puxando conversa com o diretor, falando de trabalhos, propaganda, piriri-parará, como se quisesse dar o cu. Mas ele estava de boné e eu não. Preferi ir lá para fora e soltar meu peido. Só em não ter feito nenhuma merda, o dia já valeu a pena.

À noite, quando voltei para casa, meu vizinho, o Milton, estava com a porta aberta e largado no sofá.

- E aí, imperador. – eu disse.
- E aí, Paulão.
- Você viu que tinha um camaleão aqui hoje?
- Porra, você viu?
- Como é que aquela porra veio parar aqui?
- Sei lá. Viu o tamanho do rabo?
- E cadê a porra?
- Eu chamei um amigo que cuida desses bicho, e ele levou.
- Como assim?
- Ele veio aí umas nove horas, disse que era um camaleão mesmo, pegou o bicho e levou.
- Você tem um amigo que cuida de camaleão?
- Ele cuida desses bichos aí, camaleão, lagarto, não sei o quê...
- Porra...
- Love ontem salvou a gente hein?
- Golaço. Pra calar aquelas putas – eu disse me afastando.

E enquanto eu abria a porta, fiquei pensando como é que alguém conhece alguém que cuida de camaleão? Eu digo, geralmente você conhece alguém que conserta geladeira, carro, porta, computador, ou um viado que vende prata, um matador de aluguel, uma rezadeira, sei lá. Mas “Ah, eu tenho um amigo que cuida de camaleão”. Para mim isso é novo.

20 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...

ué, Bono, eu cuido de perereca: se aparecer uma aí, me manda por SEDEX-10.

boné, mó perobagem; só proque o Spielberg começou a usar na era glacial, virou moda entre os viadinhos que querem dar uma de intelectual despojado.

trabalho externo é comigo mesmo, não gosto de escritório; meu sonho de menino era ser carteiro, minha mochila era igual a sacola de carteiro, no tempo em que todos usavam as mochilas de duas alças nas costas; eu tinha ambição na vida.

abraço fraterno
Marcos

Rodrigo Carreiro disse...

Mais um grande texto, bono!
Palmas! E sem boné, por favor porra

corujinha disse...

Vai ver que o camaleão trouxe sorte.

::Soda Cáustica:: disse...

o cara de boné é Nelsão?

Carina disse...

passei mal de rir!

Anônimo disse...

Ehehehehehe. Muito bom velho, do caralho.

Amoêdo

Paulo Bono disse...

Kawanami,
Já eu prefiro ficar na agência, ficar no meu canto.

Carreiro,
Pra um cara feio como eu, boné pode ajudar. O problema é o calor.

Soda,
Nelsão? Claro que não.

abraço

Davi Caramelo disse...

Hahahahaha! Caralho! Viado que vende prata, diretor de criação Belchior. Vc tá impossível!

Guives disse...

Esse Camaleão, foi um sinal bono, o mesmo que a gaivota na turbina do avião, acho que vc não deveria ter ido trabalhar esse dia. Mas, como você é um Bacharel, um Diplomata, um Embaixador, você foi.

EU conheço um caa que tem uma agencia de "modelos". Jequié Models. Só as melhores.

Ana disse...

Aaaah eu fiquei curiosa para saber quem era a atriz... Conta!!!!

Que legal um camaleao. Eu tambem ia querer um para mim, só para colocar ele em tudo que era lugar e ver se ele mudava mesmo de cor. Hehehe

Parabens pelo texto. Excelente como sempre!

Mateus Henrique Zanelatti disse...

Bono, seu pilantra. Acho que na verdade você acabou comendo a atriz gostosa. Conta a verdade!

"Eu não conhecia seus truques. Então passei me esgueirando pela parede, atento a qualquer movimento..." Ahaha, cara prevenido!
.
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"Isso não é literatura", isso é a vida como ela é.


Parabéns pelo comercial, parabéns pelo sucesso.

Abração!!

Marcelo Mendonça disse...

Quem é a famosa gostosa?

Anônimo disse...

"Foi por medo de aviãooo, que segurei pela primeira vez na sua mãooo..."

Daniel Pfaender disse...

Boné, cigarro, mola maluca, palito de dente, caneta de botão... nessas horas vale tudo pra manter as mãos ocupadas (opa!)em público, não é? Maldita hiperatividade!

O Nicholas Cage vê iguanas naquele filme, Bad Lieutenant, mas tem muito da heroína ali também... você viu um camaleão. Tem ouvido muito David Bowie? rsrsrs

abraços!

Stephane Matos disse...

Caramba! O seu texto me fez rir muito...
Eu pensei a mesma coisa quando li que ele conhecia um cara que cuidava de camaleão... hahahahaha
Seus textos são muito gostosos de se ler... bem diretos, sem frescura.
Parabéns!

Paulo Bono disse...

Ana e Mendonça,
Com certeza, a atriz não gostaria de ver seu nome num blog como esse.

Guives,
Você que é um engenheiro, uma autarquia, um verdadeiro bacharel.

Zanelatti,
Não comi, mas bati uma.

Pfaender,
Como não fumo, o palito de dente também me salva nessas horas.
O Cage está bem pra caralho nesse filme. E sim, o Bowie está em minha playlist.

abraço

Jesus disse...

paulo inácio bono da silva... dominando as massas!!!
truques de camaleão.
é um danado!

Elga Arantes disse...

Meus amigos e contatos espoRRádicos, estão todos fazendo sucesso... amiga repórter deslanchando aceleradamente, vc escrevendo pra celebridade, prima atriz... e a palhaça, aqui,fazendo malabarismo em sala de aula, de 7h às 17 h 30. Somos todos artistas... chique, mesmo!!

Agora, sobre boné, minha opinião é mais preconceituosa. Digo sempre que se vc chega em um lugar e mais de 40% das pessoas estiverem usando boné, corre é fria...

Beijão!

Rafa Cruz disse...

Tratador de Camaleões. Daqui a pouco esse curso surge em alguma universidade nesse país!

menina fê disse...

bono,
camaleão? eu pegaria com a mão e teria certeza que ele tem mais medo de mim do que eu dele! rsrs

agora, a gostosa... não gosto das estrelas... gosto das que brilham sem muito holofote! rsrsrsrs

bjs da menina fê*


p.s.: amo teus textos!!!!!!!!!!