9.6.10

Ei, Galvão, vá tomar no cu

O ano era 2002. A cidade, Feira de Santana. E a bebida, uma dose de gin. No bar, as mesmas caras hipócritas. A diferença eram as bandeirolas verde-amarelas penduradas no teto. Na segunda mesa à minha frente, estavam esses caras. Publicitários de outra agência. Riam e jogavam conversa fora como se tivessem um grande futuro pela frente. Pareciam bons rapazes. Eu havia escutado muitas histórias sobre eles, que eram os inimigos, verdadeiros diabos, da mesma forma como escutamos a vida toda a TV falar sobre os argentinos. Acreditei por um tempo. Mas agora eu não sabia de que lado era o inferno. Eram tempos difíceis. Meus dias em Feira pareciam estar chegando ao fim.

Havia uma putinha na mesa ao lado. Sozinha. Pendurada numa mesma cerveja esse tempo todo. Era razoavelmente feia. Tinha um rosto decadente. Feira de Santana era infestada de putinhas decadentes. Não tanto quanto de ratos. Mas tinha bastante. Mas fazer o quê? Eu também era um publicitário decadente em início de carreira. Levantei e fui até sua mesa.

- Quer que eu te pague uma batata-frita? – perguntei.
- Não sei, estou de regime.
- Ótimo, porque eu tô duro. Que tal a gente sair daqui?
- Você tem carro?
- Não, mas tenho uma garrafa de vinho lá em casa e uma televisão bacana pra gente assistir ao jogo.
- Ok – ela disse – Não quero mesmo ver cara do meu pai hoje.
- Aposto que você é a cara de seu pai.
- Meu pai é um escroto. Vamos embora.

Caminhamos uns 15 minutos e assim que abri a porta, a putinha se assustou um pouco.

- Porra, mas você não tem nem um sofá, cara?
- Calminha aí, Lady Di. Eu disse que tinha uma televisão. Não falei nada sobre sofá.
- Que merda você faz da vida?
- Sou uma espécie de puta.
- Acho que vou pra casa.
- Aposto que seu pai não quer ver sua cara hoje. Senta aí que esse colchãozinho é bacana.

O jogo estava marcado para as três da manhã. Até lá, caímos no vinho e fudemos à vontade. Meti em tudo quanto era buraco. Só não variamos as posições porque meu colchãozinho no chão era fino demais, e aquilo estava acabando com meus joelhos. Num desses intervalos, ela disse, “Meu nome é Liliane”. Eu disse “O meu é Rivaldo”. Ela disse, “Você não quer saber por que meu pai é um escroto?”. E eu disse, “Faz o seguinte, vire de ladinho”. Sei que quando o jogo começou, eu já estava com sono e não havia mais vinho. A partida era difícil e os ingleses abriram o placar. Então Liliane começou “Qual é o Brasil?”, “Eu prefiro o Brasil de amarelo”, “Vai, Brasil, dá um gol, dá um gol, Brasil”, “Por que não coloca Kaká?”. Eu perguntei “No lugar de quem, caralho?”. Ela disse “De Cafu”. E eu disse, cala a boca e chupa aqui pra dar sorte. Parece que funcionou. Porque o Ronaldinho Gaúcho fez uma bela jogada e tocou para Rivaldo empatar o jogo. A madrugada lá fora comemorava. Feira estava feliz. O país estava feliz. Nada é tão bobo e artificial quanto torcedores de copa. Então começaram a falar muita merda na televisão e a deixei no mudo. Assisti assim durante um tempo, numa gostosa sensação de paz. Mas o sono foi virando o jogo, eu não tinha mais forças para fuder e adormecemos.

Acordei quando o sol começava a atacar pela fresta da janela. Olhei para os lados, olhei no banheiro, e Liliane não estava mais lá. Olhei para os lados mais uma vez, olhei de novo por toda a sala oca e minha televisãozinha também havia desaparecido. A putinha havia roubado minha TV de 14 polegadas que eu ainda nem tinha acabado de pagar. Abri as janelas e olhei para a rua. Já estava movimentada. Crianças a caminho da escola e outros que transitavam de bicicleta. Pareciam felizes e motivados. O Brasil devia ter vencido o jogo. Nenhum sinal da cachorra. Uma velha vestida num robe vagabundo que varria a calçada olhou em minha direção. Como se soubesse de alguma coisa. Os feirenses são sempre culpados ou cúmplices. Eu tinha vontade de vomitar. E não era ressaca de vinho. Era aquela cidade. Encardida. Traiçoeira como uma puta decadente. Mas como disse, meus dias naquele entroncamento estavam chegando ao fim. Então fechei a janela. E voltei para o colchãozinho no chão. Por um instante pensei na pobre putinha, sozinha lá fora, com os ratos. E não sei por que, lembrei da Copa de 86, a Lapinha toda enfeitada, e da Copa de 94, de Bebeto e Romário, e pensei que com o tempo as copas vão ficando sem graça.

21 comentários:

Rodrigo Carreiro disse...

É, meu caro Bono... As putinhas são o começo e o fim de tudo. Copa é só um detalhe.

Fabio disse...

Hey Bono.. numa dessa vc ganha uma TV HD nessa copa de uma puta rica!
Essas coisas acontecem assim como os jogos da copa também viram de placar!

;-)

GUIVES disse...

eu lembro desse jogo.

"É JOGO DE COPA DO MUNDO BONO É DIFICILLLLLLL. É JOGO DIFICIL RAPAZ. PORRA. É COPA DO MUNDO. VAI TOMAR NO CU"


*FALTAM 45 HORAS, 38 MINUTOS E 27 SEGUNDOS PARA O INICIO DA COPA.

JuANiTo disse...

Bono,

Tudo tem seu preço!

Abraço

Fábio disse...

Nostalgia.

Era um tempo em que eu realemnte curtia esse lance de Copa do Mundo.
Foi legal ganhar de virada, com um a menos e direito a golaço/cagada do Ronaldinho Gaucho. A Comemoração terminou de varar a madrugada.

2002, bons tempos.

Marcos Satoru Kawanami disse...

"Eu também era um publicitário decadente em início de carreira."

paradoxal como minha anciã adolescência.

ô meu bom baiano, vc já assistiu ao filme "Muito Gelo E Dois Dedos D'água"?

é nóis, fióti, é nóis...


=D
Marcos

Ric Dexter disse...

A foda com essa putinha foi cara. Custou um televisão. Fazer o que, né?

Abraço.

De Tudo de Helena disse...

Se voce vier a Feira de Santana agora, nao a reconhecerá mais. Tem viadutos por toda parte, inclusive, e nunca vi ratos aqui. Diferente de SSA, que ja morei e aí sim, é decandencia, baby..Adoro seus textos, mas venha comer uma puta aqui em Feira agora e vai ver que até elas nao iriam querer mais sua Tv..hehehe...:)

Paulo Bono disse...

Guives,
Copa do Mundo é coisa séria.

Fábio,
Acho que fiquei pelo meio do caminho em 98. Minha copa foi a de 94.

Kawanami,
Não, não vi a película.

Tudo de Helena,
Viaduto? Que chique, porreta, magnífico, elegante, coisa linda de meu Deus. E cuidado, tem rato do seu lado se fazendo de porquinho da índia.
E salve as putas de feira. As pessoas mais honestas da cidade.

grande abraço

Nathaly disse...

"...e pensei que com o tempo as copas vão ficando sem graça."

Acho que nós é que vamos ficando sem graça com o tempo...

Mila disse...

Rato se fazendo de porquinho da india foi genial!!

Mila disse...

Eu tenho vontade de jogar Q-boa em Feira cada vez que ouço falar dela de tanto que eu a acho encardida. E nunca vivi lá.
Quanto a Copa, não quero assumir que ela não tem a mesma graça. Quero me entorpecer junto com o resto do país pelos próximos dias.

Quanto a TV, tudo tem seu preço. [2]

Texto foda, como sempre.

Mwho disse...

Bono,
Pelo título, pensei que a putinha era filha do Galvão Bueno...

A viajante disse...

Sem tv é complicado torcer...teria que assistir num boteco encardido lá na Feira City...
E Millor Fernandes tem uma tese: "O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia."

Jorge Martins disse...

A depender da nega e do estado da TV, a foda saiu em conta.
E discordo veementemente de você quando diz que as putas são as pessoas mais honestas da cidade de Feira. Absurdo. Imoral. Fiquei emputecido com este comentário. Absolutamente nada a ver.
Às vezes você consegue me ofender com as coisas que escreve.
Qualquer pessoa séria sabe: não existe uma alma viva honesta em Feiracity... ;)

abração, man.

Nathalia disse...

"Nada é tão bobo e artificial quanto torcedores de copa." - incrível isso, concordo.

E de qualquer forma, uma tv de 14" nem deveria valer muito em 2002...

Bom texto!

Abraço.

farinhademandioca disse...

Paulo, simplesmente brilhante. Retratou Feira de Santana de uma forma simples e verdadeira. Parabéns!

::Soda Cáustica:: disse...

Feira de Santana, a prinesa do Sertão... o lugar que tem mais viaduto e bairro com nome medonho...

Lília disse...

Texto genial!

Marcos Satoru Kawanami disse...

Galvão, chupa hexa: Portugal será o Campeão!!!

Marcelo Mendonça disse...

A meta dela era o sofá, teria assim deixado a TV.