11.4.10

Anônimo

Eu estava sozinho. Fazia quatro meses que Nina havia me deixado. Também estava distante. No outro lado do país, para ser exato. Consegui esse emprego. Seriam só alguns meses. Mas pagavam bem. Numa dessas noites, lembrei da geladeira vazia. Passei no mercado. É bom fazer mercado quando se está sozinho. Se não existe mais ninguém, é só você e sua vontade. Nada de arroz, frutas ou temperos. Somente o necessário. Pão, salame, presunto, queijo, vinho, macarrão instantâneo, cinco litros de água mineral, uma lâmpada e biscoitos recheados. Você pensa, o gordo só comia bobagens. Eu estava cagando para a morte. É preciso ter motivos para se preocupar.

Havia essa peitudinha na sessão de congelados. Uma bela fêmea empurrando seu carrinho. Nos mercados, as mulheres parecem mais gostosas. Ou pelo menos doidas para fuder. Eu podia me aproximar e, como quem não quer nada, perguntar, “Sabe dizer se essa lasanha é boa?” Ela diria, “Sim, é uma delícia”. Então trocaríamos algumas frases e iríamos dar uma boa trepada no motel barato mais próximo. Assim, sem levar as compras ou perguntar o nome. Então me aproximei. Peguei uma daquelas lasanhas congeladas e, como quem não quer nada, perguntei, “Sabe dizer se essa lasanha é boa?” Ela disse, “Desculpa, não sei”. E enquanto eu concluía que ser feio não é relativo, é universal, se você é feio, é feio em qualquer canto do país, peguei uma daquelas feijoadas prontas e fui para o caixa.

Peguei a fila para poucos volumes. Na minha frente, só dois caras. Estavam juntos, com o mesmo carrinho. Devia ser um casal de viados. Já estavam colocando suas compras na esteira do caixa. Notei que o carrinho deles estava cheio. Olhei para a placa pendurada, que dizia “Exclusivo para 20 volumes”. Bem, eles podiam dar seus rabos para quem quisessem. Mas eu não sou otário. Então me aproximei.

- Licença – eu disse. E comecei a contar os itens do casal – “1, 2, 3, 4, 5...32”.
- Qual o problema, amigo? – perguntou um deles.
- Não tenho nada contra vocês, rapazes. Vocês podem fazer o que quiser nessa vida, menos passar por esse caixa.
- O que foi que ele disse, Sérgio? – perguntou o outro.
- Eles têm 32 volumes – eu disse à putinha do caixa – Você vai deixar passar?
- Olha, eu só quero ir pra casa – disse a putinha.
- Não tinha ninguém quando a gente chegou, amigo – disse o primeiro.
- É verdade – disse a putinha – não tinha ninguém.
- Puta que pariu – eu disse – Mas tá escrito exclusivo para 20 volumes. EXCLUSIVO. E não preferencial. Vocês têm 32 volumes, caralho.
- Deixa pra lá, Sérgio – disse o outro.
- Não. Nós vamos passar – disse o Sérgio.
- Você tá armado? – perguntei.
- Oi?
- Você tá armado?
- Claro que não.
- Então você não passa.
- Sérgio! – disse o outro.
- E você – eu disse à putinha – pode chamar o gerente, o papa, o delegado ou qualquer alfabetizado para explicar a porra dessa placa pra vocês.
- Sérgio, porra! Vamos pra outro caixa.
- Escute seu companheiro, Sérgio.
- Deixe esse gordo estúpido.
- Assim é melhor. E leva esse queijo frescal pra casa do caralho.

O mercado era próximo do apartamento. Fui caminhando. Durante o caminho, eu também concluía que o respeito por placas também é o mesmo em qualquer parte do país. Parece bobagem, mas essas pequenas coisas me esgotavam. Pelo menos eu estava sozinho, eu pensava. O inferno era só meu. Eu me lembrava de todas as pessoas que eu já havia decepcionado e das que eu frustraria pelo resto da vida. Estar só fazia com que tudo parecesse mais leve. Saía de casa, tomava café na padaria, escrevia lá os textos idiotas, recusava convites e voltava para casa. Ninguém esperava por mim. Eu não esperava por ninguém. Nada de cobranças. Nenhuma expectativa. Nenhuma frustração. Nenhuma palavra de carinho. Também nenhuma palavra perfuro-cortante. Apenas eu e minha vontade. Era bom percorrer aquelas ruas, sem saber onde me encontrava. Como um forasteiro, um estrangeiro, um estranho. Um anônimo. Ninguém importante. A vida como um ônibus coletivo. Milhares de pessoas à minha volta e ninguém conhecia nem o biscoito nem o câncer Paulo Bono. Lembro que quando Nina saiu, disse “Seu futuro é sozinho”. Talvez estivesse certa. Ela só se esquecera de dizer, sozinho e distante. Era melhor assim. Lembro que certa vez, a caminho do trabalho, um cara me perguntou onde ficava tal rua. E foi muito bom dizer, “Desculpa, mas eu não sou daqui”.

28 comentários:

Marcos Carneiro disse...

Massa, Bono. Realmente as vezes é melhor ficar sozinho msm.

ST

Mila disse...

Estou assim, sozinha e distante. Mas continua na minha cidade. E ver que eu, apesar de levantar essa bandeira, não me sinto bem nessa roupa de "sozinha" me faz me sentir um peixe fora d'agua.
Vc escreve bem pra porra, já disse.
Parabéns mais uma vez.

Guives disse...

tsc... Só por que era um casal de gays, que vc fez isso. Se fosse eu... dava um murro em sua cara.

hehehehehe.
:D

E ai Mila, ta sozinha? fique assim não. :D qualquer coisa é só ligar.

Jesus disse...

bono, eu também me sinto muito sozinho no mundo. não sei o que tenho de errado, ou se tudo é que está errado. tenho um ramster, mas mesmo assim sinto falta de conversar de vez em quando. Sim, tem os prós e os contras. Acho que o negócio é administrar o impulso do suicídio ao passo em que tenho que conter também a euforia de alguns momentos de liberdade+libertinagem. esse texto foi bastante esclarecedor e ajudou muito mesmo. obrigado. a solidão é uma poeira leve.
acho que preciso conversar mais. e ao mesmo tempo odeio as pessoas que não param de falar.
os supermercados estão cheios de pessoas estúpidas como também as ruas e os estúdios de fotografia.
preciso começar a escrever um diário.
abraço paulo bono.
obrigado e desculpe qualquer coisa.

Saulo disse...

Du caralho, Paulo Bono! Só estou receoso porque tenho comparado queijo frescal, mas sem o sérgio, vou com minha senhora mesmo. Mas du caralho este conto. Prepara a porra do livro para mim editar, seu viado.

abração

Saulo.

Fábio disse...

Muito bom.

Por que toda mulher que trabalho no caixa de supermercado é baranga?
Nunca entendi isso, acho que não são feias, mas depois de meses sentadas ali devem ir se metamorfoseando... Se lá. Deve ser o trampo escroto do cacete que acaba com elas.
Ou é um caso de feiura relativa, fora da cadeirinha apertada devem ser até pegáveis.

Abraços.

Marcos Satoru Kawanami disse...

Paulo,

convida-me pra jantar!

o cardápio está excelente: Male Junk Food

esse modismo de comida saudável é pra quem não tem fé, quem acha que a vida é só esta merda aqui.

mas, no lugar do vinho, pode ser Tubaína?

pode deixar que eu levo as moças: duas caboclas ancudas tá bom, né?



=D
Marcos

Rodrigo Carreiro disse...

a solidão é mais solidão nas cidades grandes.
porreta, bono

pevê disse...

Massa, Bono.
Comprarei o seu livro com prazer.
Mas cuidado com o mim que é editor.

corujinha disse...

Engraçado que há pouco tempo eu postei no meu blog um texto entitulado "sozinha e longe de casa".
Eu queria muito estar assim.

Anônimo disse...

o sentimental bono. beijão, Joana.

Mwho disse...

Bono,
Não rolou sexo neste texto e, mesmo assim, foi legal! Acho que podia baixar a censura para 16 anos!!!

A viajante disse...

Viver só não é 'o'problema. Comer só é que é muito chato. Comidas congeladas, sanduiches, refrigerantes...isso tudo engorda e não preenche. Nem o estômago, nem a alma. Por isso que viajo, em suas histórias! Um abraço.

Lari disse...

Só o meu comentário não foi aceito... good! =/

Paulo Bono disse...

Mwho,
Eu não como ninguém, e você fica feliz?

Lari,
Perdão, mas a besta aqui apagou sem querer alguns comentários. E o seu foi junto. Se puder repetir, massa.

abraço

Shirley de Queiroz disse...

Nada a ver com o post (que foi ótimo). Mas você já assistiu Toy Story 2? Tem um cara, o "homem-galinha", que toda vez que vejo penso - esse é o Bono do blog. É que você se descreve como ele - gordo, careca e sozinho... rsss

Anônimo disse...

Bono vc é casado?! solteiro?!
hahahahahahaha

Paulo Bono disse...

Shirley,
Toy Story é sensacional.
E sim, o careca parece comigo. Ele só é mais simpatico.

Anônimo
Sim, tem uma nega que me aguenta.
hahahahahahahahahahahah

Elga Arantes disse...

Agora, não precisa abrir a geladeira só para pensar.

Gente, esse seu pseudo-complexo de inferioridade é genial! Golpe de mestre, rsrs...

O vinho era tinto?

Beijos.

Fabio Herculano disse...

Hey Bono, relaxa cara, esse negocio de solidão é bom, acho que devemos fazer tudo o que queremos inclusive ficar sozinho!

Eu levo sempre meu pirralho de um ano no mercado, coloco ele no carrinho dou um pão de queijo pra ele faço as compras, as minas vem de nhenhenhe pro muleque e ainda passo pelo caixa preferencial!

Afinal, ele existe pra isso né!? ;-D

Abraços!

Lari disse...

Tranquilo, Bono. Deixa o comentário pro próximo porque eu já nem me lembro mais o que escrevi. rs

Eu nem sabia que tu tinha twitter, fiquei mó empolgada com isso! Pelo menos agora não vou ter que esperar 15 dias...

Beijão!

Fabiano Santana disse...

Bono, acho que na verdade vc saiu com esses 2 viados para dar uma. Essa sua solidão despertou a biba que há dentro de vc.

Abraços!

Ric Dexter disse...

Estar sozinho é ter certeza de quem é o próximo a lavar os pratos...

Abraço.

Mateus Henrique Zanelatti disse...

Cada um vive como quer, né? Ou vive conforme a vida, eim?
.
.
.
Bom mesmo é comprar vinho no mercado, sem compromisso.

Abraço velho!

Marcelo Mendonça disse...

Eles estavam armados... um com o outro.

Fabiana Farias disse...

O inferno era só meu.

Sempre quando termino de ler um texto seu, penso: esse cara é um escritor pronto.

Rodrigo disse...

bono !

muito bom mesmo !!!

vida longa as suas letras !

abs

César disse...

Nós temos um ser sozinho e um ser coletivo que passam a vida se dilacerando.