14.3.10

Mãozinha! Mãozinha! Mãozinha!

Toda manhã quando chego à agência e alguém me diz “Bom dia, Bono”, eu penso “Deus, me ajuda a marcar ao menos um ponto”.

Agora o pessoal da nova agência inventou esse jogo. Mãozinha. Uma espécie de ping-pong improvisado na mesa da criação. Jogado com as mãos e uma daquelas bolinhas terapêuticas feitas de espuma. Basta dar o horário do almoço que alguém diz, “Mãozinha! Mãozinha! Mãozinha!”. É divertido. Ajuda passar o tempo. As partidas são disputadas e os caras são bons. O melhor deles é um amarelo que trabalha no estúdio. Ele é de Feira de Santana. Deve roubar de algum jeito. Bom, já tentei algumas vezes. Sou o pior da agência. Como já era de se esperar. Não importa contra quem quer que seja. Sempre entro no jogo achando que vou perder. É o que acontece na maioria das vezes. É uma surra atrás da outra. 12 x 7, 12 x 6, 12 x 5 e, não raramente, 6 x 0. As piadas são as mesmas. “O gordo é o mais fraco”, “Venha, Bono, tomar outra surra”, “Vou botar esse gordo pra suar”.

Mas não é apenas a Mãozinha que vem me tirando o fôlego. Tem também esse job. De um laboratório. Para dizer que se trata de um laboratório bonitinho, do bem, da vida, do caralho que for. Cheguei a escrever algumas linhas. Mas não agradaram aos diretores. Nem a mim. Eles dizem “Relaxa, que a idéia chega”. Mas algo me diz que não vou conseguir. O trabalho está em minha mesa há semanas. Está ali, travado, encardido, seboso, fedendo a merda. Já faz parte de mim. É nessas horas que me acho o mais fraco da história. Imagino que todos que vieram antes de mim eram melhores do que eu. E todos que virão serão melhores. Outro dia, no ônibus, vi um maluco falar em equações, novela das oito e até em crise mundial. Com esse papo, ele vendeu 7 tabuadas. Isso mesmo. 7 tabuadas. No ônibus. Meu saque não é lá essas coisas e não sei nenhuma jogada de efeito. Eu jamais conseguiria vender uma tabuada. Mas aposto que aquele maluco venderia dois laboratórios, se quisesse. “Relaxa, que a idéia chega”. Chega porra nenhuma. Esse job tem dormido ao meu lado há duas semanas. Quer dizer, só ele vem dormindo. Porque a insônia me acompanha. Fico pensando, ah, porra, vai ver não sirvo para isso. Talvez não tenha sucesso com tabuadas, mas posso vender frutas, escrever letras de axé ou tentar o serviço público.

“Relaxa, que a idéia chega”. Diretores de criação só servem para fumar maconha e falar merda. Mas nisso eles tinham razão. Eu estava justamente relaxando numa partida de Mãozinha. O elemento de Feira mandou uma paralela escrota e disse “Receba, gordo!”. Não sei como, mas consegui rebater a bola na diagonal e ainda marcar o ponto. Eu disse “Cuidado com sua vida, Amarelo!”. Foi quando a porra da idéia do laboratório chegou.

Naquela tarde não houve tempo nem para uma mijada. Escrevi toda a campanha, os diretores gostaram e salvei a minha pele no último set. Pelo menos ganhei tempo. Eu sabia que viriam outras partidas e mais cedo ou mais tarde, eles me pegariam. Descobririam toda a farsa. O que não demorou muito. Porque a cliente reprovou a porra toda. Achou as peças bonitas e inusitadas. Mas que não era a linha. Disse que não entendeu a parte que dizia “A vida não é um jogo”. VT, rádio, anúncio, outdoor, internet e mala direta. Tudo bola fora. Mais um 6 x 0 no currículo.

29 comentários:

Rodrigo disse...

clientes são uns bostas. aposto que queria aumentar o logotipo e tomar todo o espaço. filhos da puta

Marcus Gusmão disse...

Os clientes nunca têm razão.

Mwho disse...

Bono,
Ainda bem que a vida não é um jogo!!!

Davi Caramelo disse...

Today you will get 12x0, for celebrate this new post.

Marcos Satoru Kawanami disse...

Pauno Bono,

relaxa, que a idéia chega.

o que me impreciona é que tu inventa tudo isso, arre égua!

mas desta vez a crônica esteve triste, gosto do teu lado gozado, sem duplo sentido... O.o


=D
Marcos

Guives disse...

Vc é o mais fraco mesmo no maozinha mesmo. É ruim d+, uma carniça, não ganha de ninguém.

hahahahahahahahaa

Se prepara, eu to preparado.
12h tem mais. Maozinha, maozinha, maozinha...

Ana Paula disse...

Hi, my Buk

A amarga melancolia de Paulo Bono é foda, adoro.

Mas, campeão, no jogo da vida, às vezes, um único e decisivo ponto basta pra fazer com que sua carreira seja um sucesso. Não importa quantas bolas foram fora, não interessa o quanto se ache uma farsa.

Esse foi meu caso. Há seis anos marquei O ponto e só por causa desse ponto certeiro, continuo ganhando prêmios maravilhosos.

Love,

Sra. Bono

Lusca disse...

Queria ver suas letras de axé.

Jesus disse...

bono, seu romântico.

você é o melhor, cara.

Carina disse...

Eu tenho até medo de te elogiar, porque vc parece ser um cara muito bravo que não gosta nem de receber elogio. Não vai me xingar de putinha não, viu? Mas adoro os seus textos de verdade e me identifico muito com algumas coisas, principalmente quando o tema é insegurança.
Parabéns pelo trabalho!

Camilo Lobo disse...

Porra, massa.
Eventualmente passo aqui e acho seu blog sensacional.

êa.

Emanuele Cordioli disse...

Tudo bola fora??
Desperdicio...

ô Doh...

Lília disse...

Relaxa que se tudo der errado, vc vende uma duzia de tabuadas! ahahah

Fábio disse...

Que merda, empatia quase total dessa vez.

Abraços.

Careca disse...

Bono, o cara da tabuada é bom mesmo.:)

Carlos Vin disse...

hehehe... Manda o cliente tomar no cu (ah se isso fosse possivel, seria bom demais.. um dia eu faço isso)

Paulo Bono disse...

Kawanami,
Cara, eu até gosto da parte triste.

Guives,
Tô pegando a manha. e vc virando freguês.

Paula,
Você é um belo ponto.

Lusca,
Não tenho talento pra axé. Os caras se superam a cada ano.

Carina,
Não tô bravo com você.

abraço a todos

Tico Marinho disse...

Muito bacana o texto!
Vou falar o que vc já deve tá cansado de ouvir, aí quem sabe você se irrita e escreve mais um daqueles dos bons.
"Parabéns, você escreve muito bem!"

Lucas disse...

Talvez uma mãozinha ajude. Um tapa.

Fabiano Santana disse...

Mãozinha, reflete muito bem nosso dia-a-dia, temos que abrir mão das coisas, sacou? abrir a mão, mãozinha. Hehehehe!

Poliana Paiva disse...

eu tenho vontade de fazer essas versões prós hits internacionais, bora?

Daniel Pfaender disse...

não esconda o jogo, um dia você chega a Diretor de Criação!

Bruno disse...

Daí o cliente mandou fazer uma porcaria com crianças sorrindo (criança cativa o cliente, criança cria vínculo), meteu a logo em verde (verde é esperança, verde é saúde) na página inteira e achou que tava abafando.

É foda.

Paulo Bono disse...

Pfaender,
Errou feio, mano. Jamais. Não tenho capacidade nem paciência pra tal.

Bruno,
Já vi que vc saca das coisas.

Marcelo Mendonça disse...

criaçāo tem dessas!
Gostei do layout por aqui!
abraço Bono!

::Soda Cáustica:: disse...

Bono e desde quando cliente entende de título? Vc já reparou que as ideias mais imbecis sao aprovadas? O que vc me diz, por exemplo do slogan do Boston Medical Group (aquele do homem broxa): "Sexo é vida"? Certamente a culpa é dos Atendimentos.

Elga Arantes disse...

Quem sabe cafetão? Daria certo, tenho certeza.

Sunflower disse...

vivendo e aprendendo a jogar ou a roubar, né?

Beijas

Camila Reis disse...

cara, gostei mto do seu blog, vc escreve bem e tem um pensamento mto coerente com o meu, apesar de q tem mto mais pessimismo...

boa sorte aí ;-)

bjs!