7.2.10

As Duas Bucetas de Brotas

Não sei que porra é. Um beijo entre duas mulheres parece sempre mais gostoso do que entre um homem e uma mulher. Pensei nisso o tempo todo a caminho do apartamento de Layla, em Brotas. Pensei bastante. Porque peguei dois ônibus. Não entendo Brotas. O bairro é gigantesco e, ao mesmo tempo, contramão para todos os lados. Quanto a Layla, era uma colega da pós. Marcamos um trabalho juntos. Meu ovo estava coçando porque eu sabia que ela colava velcro e vivia com a namorada.

Toquei a campainha no sétimo andar. A porta se abriu. Era Layla. Vestia uma camiseta de flanela. Cheirosa como sempre. Era um lugar pequeno e colorido. Havia um pôster de O Iluminado na parede da sala. A namorada de Layla estava no sofá, com umas das pernas flexionadas e apoiadas no assento, exatamente como meu tio assiste à Fórmula 1. Layla tratou de fazer as apresentações e sentou ao lado de sua morena, que se chamava Cris. Sentei no outro sofá bem em frente às duas.


- Então você é o fã do Cazuza – disse Cris.
- Não, sou fã do Renato Russo – eu disse.
- Ah, Bono, pensei que fosse do Cazuza – disse Layla.
- Enfim, ambos eram do caralho – disse Cris.

Layla estava um pouco ofegante e com o cabelo assanhado. Cris estava suada. Talvez eu tivesse chegado num mau momento. Ou num bom momento, quem sabe.

- O bom e velho Contreau – eu disse ao perceber de longe a garrafinha sobre a geladeira na cozinha americana.
- Só tem Coca-Cola – disse Cris, me cortando ao meio.
- Bastante gelo então.
- Neguinha, pegue lá – disse Cris para Layla, mostrando quem é que mandava naquela porra.

Mas Layla parecia mesmo mais feminina. Era um tanto doce e frágil. Enquanto Cris tinha a voz firme e até um bigodinho. Talvez tivesse cabelo no sovaco. Devia fazer o papel do macho na hora do vamos ver. Mas Cris sabia como ser sexy e tinha classe. Além disso, eu já tinha ouvido falar que essas bigodudas têm o pinguelo grande e gozam feito loucas. Em questão de segundos, Layla trouxe a Coca-Cola.

- Cris – disse Layla – uma vez Bono me perguntou se eu não preferia trepar com um homem.
- Sério? – perguntou Cris.
- Mais ou menos isso – eu disse.
- O que você tem contra mulher que trepa com mulher? – Cris perguntou enquanto acendia um cigarro.
- Na verdade, nada – eu disse – Pelo contrário. Acho que toda mulher devia experimentar outra mulher. Falo isso do fundo do coração. Afinal, uma xota ainda é a melhor coisa nesse mundo de merda, não acha?
- Que mais? – disse Cris
- Que mais o quê?
- Que mais você queria saber sobre mulheres que trepam com mulheres?
- Bem, pouca coisa – eu disse – Por exemplo, por que esse lance todo com Ana Carolina?
- Qual é o problema? – disse Cris – Você gosta de Cazuza.
- Do Renato Russo.
- Ambos davam o chicote.
- Não é o meu caso.

Percebi que o clima estava esquentando. Layla estava quase no colo de Cris, que lhe acariciava os cabelos. Percebi também que Cris queria comandar a situação. Mas ela esquecia que naquela sala só eu tinha um par de ovos.

- Percebi que você não tira o olho de meu bigode – disse Cris.
- É um belo bigode – eu disse.
- Você deve estar pensando que eu sou pingueluda.
- Tava pensando que você precisa de um barbeador.
- Eu gosto de bigode – disse Layla beijando Cris.
- É verdade, eu tenho um pinguelo é enorme.
- Tenho certeza que é um baita pinguelo.
- Aposto que meu pinguelo é maior que seu pau.
- Aposto que seu pinguelo não jorra leite.
- Neguinha, serve o Contreau pra ele.

Então Layla me trouxe a garrafa e as coisas esquentaram de vez. Layla sentou no colo de Cris, e as duas começaram um lento e delicioso beijo. E vou dizer uma coisa. Um beijo entre duas mulheres com certeza é mais gostoso do que entre um homem e uma mulher. Não sei como essas diabas faziam, mas era um beijo macio e cremoso, as línguas davam voltas, em câmera lenta, e dava um nó assim, e as salivas se misturavam, só aquele beijo safado já valia uma punheta, mas eu queria chupar as duas e ser chupado por elas, fazer o triângulo do amor, dar uma surra de pica nas meninas, colocá-las de quatro, agarrar os cachos de Layla, dar um tapa no rabo de Cris, botar em uma, tirar, botar em outra, meu Deus, eu queria ter duas picas, lascar em dobro, gozar na cara das cachorras e ser feliz. Mas quando Cris já estava alisando a xoxota de Layla, e meu pau já estava pra fora, a campainha tocou. Cris soltou o "puta que pariu" mais elegante que já ouvi em minha vida. Então Layla foi ver quem era pelo olho mágico e voltou nervosa.

- É meu marido!
- Marido? – perguntei.
- Ex-marido! – disse Cris.
- Vá por quarto – disse Layla me empurrando.
- Você não é sapatão, caralho? – eu disse.

Layla me empurrou até o quarto e fechou a porta. Nesse estágio, nem eu nem meu cacete estávamos entendendo mais nada. Sentei na cama e tentei ouvir a conversa. Falavam alguma coisa sobre dinheiro, contas, sapatão, trabalho, sacana, leite, escola e filha. Eu pensei, “filha”, que porra é essa? E de repente começaram os gritos: “MIL REAIS O CARALHO! MIL REAIS O CARALHO!", “É PRA SUA FILHA, PORRA!”. “PRA VOCÊ TORRAR COM ESSE SAPATÃO!”, “POR MIM, VOCÊ ENFIA SEU DINHEIRO NO CU!”, “SÃO OS LIVROS DA SUA FILHA”, “MIL REAIS O CARALHO!”, “POR QUE O QUARTO TÁ FECHADO?”. Foi nessa hora que pensei em pular a janela. Mas esqueci que era o sétimo andar. E logo a porta se abriu. E quem segurava a maçaneta era um baixinho parrudo, invocado e com cara de torcedor do Corínthias.

- QUE PUTARIA É ESSA? – berrou o baixinho.
- Ham? – eu disse.
- QUEM É VOCÊ, PORRA?
- Ham, não sei – respondi, falando a verdade. Naquele instante esqueci meu nome e até quem era minha mãe.
- Esse é Bono, meu colega da pós – disse Layla me salvando – estamos fazendo um trabalho.

O baixinho olhava fixo para mim. Seus olhos pegavam fogo. Seu rosto estava vermelho. Talvez eu pudesse com ele. Mas esses baixinhos parrudos dão trabalho. Ainda mais daquele tipo, corno de sapatão e virado no caralho porque querem tirar mil conto do seu bolso. Eu não teria a menor chance. Então ele se pronunciou.

- VOU DEIXAR UMA COISA BEM CLARA – disse o baixinho – NÃO QUERO PUTARIA QUANDO MINHA FILHA TIVER AQUI.
- Ana Carolina tá com minha mãe, Jorge – disse Layla – mas eu preciso comprar os livros dela.
- MIL REAIS O CARALHO! – berrou o baixinho pela última vez, saindo do quarto.

Depois não ouvi mais nada. Então Layla voltou dizendo que eu podia sair.

- Desculpa, Bono – disse Layla – meu ex aparece de vez em quando pra encher o saco.
- Esquece aquele anão, Cazuza – disse Cris – vamos recomeçar a festa.
- Não sei seu pinguelão, baby, mas meu pau não sobe mais hoje.

Foi mais ou menos por aí que me despedi das meninas e caí fora. Foi uma noite e tanto. Só me restava bater uma punheta. Não digo naquela noite, nem no dia seguinte, nem depois. Precisava me recuperar. Precisava deixar aquele lugar o mais rápido possível. Quem sabe o baixinho parrudo não estava escondido atrás de uma daquelas barracas de cachorro-quente, me esperando com um porrete na mão. Mas eu não fazia idéia de que lado passava o ônibus. Às vezes o bairro de Brotas parece um cenário dessas séries de TV sem fim e cheias de enigmas.

37 comentários:

Ana Paula disse...

Hi, My Buk

"... exatamente como meu tio assiste à Fórmula 1" SENSACIONAL.

"- Não sei seu pinguelão, baby, mas meu pau não sobe mais hoje." RI DEMAIS.

Eu sou fã dos seus diálogos, mas suas reflexões estão me ganhando. Você tá cada dia melhor.

Love,

Sra. Bono.

Rodrigo Carreiro disse...

Grande Bono! Brotas é retiro das piriguetes, cuidado. Só perde pro Cabula, recinto das cabulosas.

Pablo Araújo disse...

Esse é o melhor post desse blog inteiro.
tenho dito.

Erick Moreno disse...

Esse cara sempre me arranca uns puta merdas e umas gargalhadas quando posta aqui.

Fodass, Bono. Como sempre.

Marcos Satoru Kawanami disse...

eu também gosto de sapatão. casei com uma. eu torcia pro Corínthians. ela me fez torcedor do Palmeiras. mas eu a converti ao heterossexualismo. não sei até quando.

desta vez, vc se superou. muito bom.

Ane Brasil disse...

hauhauhauhauhauh!
Bono, só me resta reverenciá-lo: meeeeeeeeeeeeeeeesssssssttttrrrree!
Textículo ducaralho, mermão!
Sorte e saúde pra todos - até pro baixinho enfezado, coitado....

Jesus disse...

tirando a sra Bono, nobre dama que respeito bastante, só tem até agora a garota ane brasil. porra, não gosto de mulher que ri hauhauhauhau...
invoquei.

Guives de Brotas disse...

Brotas é um bairro mágico, só quem mora lá entende. tem varias passagens secretas que vai sair aonde você quiser.

Se precisar de um guia quando for lá, ou até alguém pra te ajudar com as lésbicas, é só ligar.

www.euamobrotas.com.br
hsauhsausaushausauhsa

falow man

Elga Arantes disse...

"- Neguinha, pegue lá – disse Cris para Layla, mostrando quem é que mandava naquela porra.

Mas Layla parecia mesmo mais feminina."

Como assim, parecia MESMO mais feminina? Quer dizer que quem manda é sempre o homem ou algo que se aproxime com as características para o gênero; ou só quando se trata de "naquela porra"?

Tá me cheirando a machismo. É consciente? Aposto que sim... Se bem que ainda luto para acreditar na sua mania de se referir as mulheres como "putinhas" como um vício de linguagem inocente... se bem que a linguagem é um aforma poderosa de disseminação do preconceito... se bem que quem não tem essa consciência, não faz uso da arma e vai apenas escrevendo... se bem que a responsabilidade continua sendo dele...

De qq forma, vc continua sendo um dos melhores... Talvez, mesmo por isso. Por essas coisas, por essa exposição, essa coragem ou esse "to pouco me lixando", na sua forma de escrever.

Um beijo.

Paulo Bono disse...

Moreno
Cara, sou um merda. Preciso pegar aquela cachaça.

Kawanami
Velho, que história. sua vida é sensacional. escreve um livro porra!

Guives
Pois é. Brotas dá em todo lugar.

Elga,
O espalitando é machista, nordestino, ignorante, estupido e flamenguista.

abraço a todos

Fabiano Santana disse...

Brotas poderia ser o set da Fox, cada pedaço uma locação de série diferente. Poderia me dar o endereço dessas suas amigas.

Elga Arantes disse...

Ah, não!!! Tudo menos flamenguista!!!

O resto eu já sabia, confesso...

Davi Caramelo disse...

Respeite brotas rapa!!!

Marcos Satoru Kawanami disse...

tem uma cidade aqui em SP chamada Brotas. o que tem de veado em Brotas...

ah, o que eu mais gosto nas lésbicas é a indumentária. minha mulher continua se vestindo como sapatãozinha: camisa polo, bermudão e tênis de futsal. gosto muito.

Wiskow disse...

Claro que faço a ilustra, velhão.
abração

Jesus disse...

Oi Elga!

Eu odeio o flamengo.

E amo você.

De Tudo de Helena disse...

Huahuahaahuahuahauauh!..só sei fazer isso: hahahahahahahahahaha!!...hehehehehehehehe..:)))

Perna disse...

Vai te fuder Paulo Bono...tu é bom pra caralho...

Mel disse...

Te cagou todo e deixou escapar o lance com as duas putinhas lésbicas... bah, meu, que foda!

Ric Dexter disse...

Esse post merece ser transformado num episódio do "Cilada" com o Bruno Mazzeo. hahahahaha!

Abraço.

Fábio disse...

- Percebi que você não tira o olho de meu bigode – disse Cris.
- É um belo bigode – eu disse.
- Você deve estar pensando que eu sou pingueluda.
- Tava pensando que você precisa de um barbeador.
- Eu gosto de bigode – disse Layla beijando Cris.
- É verdade, eu tenho um pinguelo é enorme.
- Tenho certeza que é um baita pinguelo.
- Aposto que meu pinguelo é maior que seu pau.
- Aposto que seu pinguelo não jorra leite.
- Neguinha, serve o Contreau pra ele.

Caraca! Esse diálogo, foi demais. Me escangalhei de rir.

Abraços.

Caio disse...

Lost, lost!! muito bom!
A melhor analise de todos os tempos sobre brotas !!
ps: eu trabalho em brotas!

Tiago Tenório disse...

Tô com o pessoal, um dos melhores contos que li aqui!

E, repito, lembrou demais o Pedro Juan Gutierrez.

Você é um assombro, porra!

Stephanie disse...

essa Cris entrou pro rol de personagens mais escrotos que já passaram por esse blog. é fato.

e o texto tá ótimo, Bono.

abraço

Paulo Bono disse...

Kawanami,
Meu irmão, já vi que vc e a sua senhora são personagens sensacionais.

Dexter,
Essa série já tem muitas coisas bacanas. deixe quieto.

Caio, você nãop me engana. To ligado que você trabalha em Brotas, mas é de Jequié.

Tenório,
Tô lendo o Trilogia...
Fudendo, man. Simplesmente o cara é foda. Recomendo a todos. Trilogia Suja de Havana, de Pedro Juan Gutierrez.

abraço a todos

Manuella Logrado! disse...

Você se supera a cada dia, Bono. Puta que pariu.
"- Não sei seu pinguelão, baby, mas meu pau não sobe mais hoje."
Tive que soltar uma gargalhada dessas que acordam o vizinho religioso e nada carismático. Abraço.

Allan Robert P. J. disse...

Morei em Brotas, mas nunca tinha visto o bairro sob essa ótica. Morei em Brotas mas não gostava. Mudei. Mas depois desse post já estou arrependido de ter me mudado.
Muito divertido! :)

Marcelo Mendonça disse...

Comigo é na base do beijo

Marcos Satoru Kawanami disse...

Paulo, meu irmão, essa Cris tem uma elegância que só conheci parelha na cidade de Dumont: uma colega de Sala dos Professores, que morava com uma mulher que já tinha duas filhas; até o nome dessa minha colega era ambígüo, chamava-se Lucimar, e pegava mais mulher do que eu na Night, putaquelamerda PORRA!

Mateus Henrique Zanelatti disse...

É Cazuza...Situação doida, meu.
Muito foda esses diálogos.

Marcos Satoru Kawanami disse...

Paulo,

universalidade é o que buscas ao meter buceta no título de tão subida obra literária, e, não satisfeito, ainda meteu 2 bucetas; apesar de parecer mais orthodoxo meter nas bucetas.

isso porque desde Adão a Literatura gira mesmo é em torno da perseguida; senão vejamos: sem a oportuna intervenção de Eva, existiria a Bíblia?

e sem esta, obviamente estaríamos na era da Graça, não haveria Civilização.

a ausência de Civilização implica nenhuma Literatura.

de modo que, por causa da buceta é que existe Literatura.

beto borges disse...

Bono seu filho da puta! Dei tanta risada com essa merda que o meu olho de vidro pulou da cara rolou até a escada a porta tava aberta o caminhão do lixo passou por cima. Agora cê tá me devendo um olho seu corno!

Marcos Satoru Kawanami disse...

dá o olho pro Beto, Paulo!

Paulo Bono disse...

Seu Beto Borges,
Parabéns. A porra do seu comentário foi melhor que o conto.

abraço

Sunflower disse...

Não sei se gosto mais do seu texto ou dos comentários do Marco.

Beijas, Gordo.

Rafaela disse...

Fazia muito tempo que não ria tanto! Ótemo!

Renata Fernandes disse...

Sua forma de escrever prende o leitor de forma extraordinária, e o toque de humor é genial! Cadê o medíocre que vc cita na sua autobiografia? não achei.
Parabéns!