29.12.10

Aquela última semana de dezembro

Havia uma pequena árvore no quarto. Uma árvore de plástico dessas vagabundas. E as luzes do pisca-pisca me faziam pensar. Aquele foi um ano difícil. Sem emprego, sem dinheiro, batendo a cara nas portas de agências, cada vez mais gordo e me afastando cada vez mais das pessoas. Até que conheci aquela mulher. Seu nome era Nina, e agora ela estava nua e deitada em meus braços.

- Dividi um panetone com minha mãe e depois fui dormir – ela disse sobre seu Natal.
- Odeio panetone – eu disse.
- E você?
- O quê?
- Como foi sua noite?
- O de sempre. Comi e engordei.

Era minha segunda noite com Nina, e ela já tinha a mania de conversar brincando com meus ovos.

- Você participou de algum amigo secreto? – ela disse.
- Esse ano, eu escapei – eu disse.
- Você não gosta?
- Tenho medo de amigo secreto.
- Medo como?
- De tirar alguém que não me dá nem bom dia o ano todo, depois ter que dar presente e abraço, aí não vou querer dar porra nenhuma, e vou deixar o clima chato, essas coisas. Sem falar que quando era pequeno, dei uma bola Chuveirinho e ganhei uma Bíblia.
- Eu nunca participei.
- De quê?
- De amigo secreto.
- Sério?
- Nunca tive oportunidade, sei lá...
- Porra...
- Vamos brincar?
- De quê?
- De amigo secreto.
- Nós dois?
- Sim.
- Como assim?
- Espera, eu tenho papel e caneta.

Nina se levantou e foi até sua bolsa. Enquanto isso, eu admirava as luzes da pequena árvore em sua bunda branca e macia. Depois pulou na cama e escreveu nossos nomes em pedaços de papel. Depois sorriu, dobrou os papéis, sacudiu as mãos e pediu para eu tirar um nome.

- Não vale olhar o meu – ela disse
- Fudeu – eu disse
- Que foi?
- Tirei eu mesmo.
- Me dê que eu sorteio de novo.

Eu disse que Nina tinha peitos lindos?

- Tire de novo – ela disse
- Você que manda
- Ah, meu Deus, dessa vez eu que tirei meu nome.
- Ta foda.
- Mentira, tô brincando.
- Não bagunce a brincadeira...
- Posso começar?
- Pode.
- Lá vai. Meu amigo secreto, acredite, ele é capaz de arrotar no primeiro encontro.
- Porra, já disse que se eu não arrotar, fico todo travado...
- Ele é um gordinho muito escroto e safado...
- Diga logo, sou eu.
- Acertou.

Então Nina saltou novamente da cama e foi até a bolsa. Voltou com um pacote e me entregou.

- Já tinha comprado pra você, seu besta.

Nina me deu uma camisa branca. Estava escrito "Feliz 2004". Ela acertou. Era GG. Me deu também um beijo.

- Sacanagem – eu disse – não comprei nada pra você.
- Bobagem, continua a brincadeira.
- Ok. A minha amiga secreta tem peitos lindos...
- Lá vem ele...
- E ganhou o prêmio revelação de melhor boquete do ano.
- Baixo astral.
- Sério. Eu não sei dar presente. O que você quer ganhar?
- Adivinha?

As luzes de dezembro são os últimos segundos. Por isso os dias parecem mais tristes. Lá fora, as pessoas trocavam os presentes que não deram certo, seguiam cansadas, esperando ansiosamente pelo carnaval. Mas as luzes, sobretudo na última semana de dezembro, enchiam os loucos e os perdedores de esperança. E naquele quarto de motel barato, no centro da cidade, Nina continuava nua e deitada em meus braços.

- Vai fazer o quê no reveillon? – Ela disse
- Te comer – respondi.
- Fale sério.
- Te lascar toda.

13.12.10

Gato só se fode

- Eu já tive um gato, mas joguei fora – disse Guismo puxando o baseado.
- Como assim? – eu disse enquanto tomava um gole do vinho.
- A gente criava um gato aqui, mas não deu muito certo.
- Mas como assim jogou fora, caralho?
- Velho, isso aqui só fedia a merda de gato.
- Por Deus, quem é que joga a porra de um gato fora?
- Você não tá entendendo. Tinha merda até em minha cama.
- Como era o nome do gato?
- Azeite.
- Caralho, Guismo. Você é um merda.

A gente só precisava compor um jingle. Mas nem o pequeno Guismo arranjava uma boa melodia no seu velho violão nem eu conseguia escrever uma letra decente. Então passamos a noite ali, conversando sobre a vida.

- Sabia que eu já comi uma jeguinha? – Guismo disse.
- Uma jeguinha?
- Sim. Nos velhos tempos, em Jequié.
- Na Lapinha, eles também arranjavam um jeito de fuder qualquer coisa.
- Você não vai acreditar, fazia fila pra comer essa jeguinha.
- Eles fudiam melancia...
- A gente botava um banquinho e metia...
- Colchão...
- A jeguinha era quente...
- Bananeira...
- Também já comi bananeira...
- Galinha...
- Ouvi dizer que quando tira a pica, a galinha morre...
- Sei lá...
- Saudade daquele tempo...
- E sabe de uma? Tive um amigo na Lapinha que meteu no cu de um gato.

Enquanto eu enchia mais um copo de vinho, Guismo foi até o computador e trocou Otto por Jorge Ben Jor.

- Tô querendo escrever um blog também – Guismo disse.
- Isso é bom. E daí?
- Daí que depois que saí da faculdade, a única coisa que leio é o Espalitando.
- Como eu disse, você é um merda.
- Tenho algumas histórias, mas não sei por onde começar.
- Pode começar com a história do cara que jogou um gato fora. Isso diz muito sobre a raça humana.
- Sério, preciso de umas dicas.
- Você só precisa ler uns caras bons de verdade.

Foi então que a porta da sala se abriu e entrou essa morena peitudinha com livros e cadernos nos braços.

- Boa noite – disse a peitudinha.
- Bono, essa é Ju, minha prima – disse Guismo – Esse é Bono, da agência.
- Oi, Bono – disse a peitudinha.
- Oi, Ju – eu disse.

Ju passou e foi direto para o quarto. Peitudinha, pernuda e uma boca deliciosa. A verdade é que a prima Ju não se parecia nada com um gremlin.

- Preciso dar uma cagada – eu disse.
- Vá em frente – disse Guismo – primeira porta.

Então entrei no banheiro e mandei ver. Minutos depois estava de volta.

- Como eu ia dizendo – eu disse – vou te emprestar uns livros de um velho que escrevia pra caralho.
- Que é que você tava fazendo?
- Cagando, porra.
- Fala a verdade, você tava batendo uma?
- Ok, você me pegou.
- QUE PORRA É ESSA, BONO?
- Foi mal. É que eu não sabia que sua prima tinha esses peitões.
- Você é um filho da puta desgraçado!
- Vá se fuder. Foi você quem jogou um gato fora.

O resto da noite seguiu no mesmo. Contamos mais algumas histórias e esquecemos o jingle. Já era tarde quando deixei o apartamento de Guismo e Ju. Então peguei um táxi. Taxistas são bons contadores de histórias. Naquela noite, por exemplo, peguei um taxista que disse ter perdido a mãe na mesma semana em que sua filha caçula nasceu.

29.11.10

Jaca, os peitinhos e a galinha

Noite fria. Eu esperava na padaria da esquina. Olhei as horas. Precisava de um cigarro. Se pelo menos eu fumasse. Passavam das dez quando Jaca apareceu. Entrei no carro.

- E a cachaça? – Jaca disse.
- Tá aqui – eu disse.
- Tranquilo, então. Eu trouxe a galinha.
- Que galinha?
- Roque da Lua foi claro. Uma garrafa de cachaça e uma galinha.
- Porra, acho melhor deixar a galinha de fora.
- E o bode?
- Que bode, caralho?
- O bode que enterram em seu quintal?
- Ok. Cadê a galinha?
- Na mala.
- Na mala?
- Lavei o carro hoje.
- A porra vai morrer sufocada.
- Fique tranquilo. A galinha tá na dela.

Jaca era um velho amigo dos tempos de escola. Daqueles meninões idiotas que levava a culpa de tudo. Seu apelido naquele tempo era peitchola, por causa dos seus peitos grandes e pontudos. Ficava puto. Hoje é segurança de loja. Acontece que eu andava numa fase daquelas. Havia deixado a velha agência, e Regina era coisa do passado. Para os diretores de criação, eu não tinha o menor talento. As mulheres pensavam a mesma coisa. Nada dava certo. Sem dinheiro, sem trabalho, só na punheta. Então eu estava por aí, na merda, quando encontrei Jaca. Contei minha situação. Jaca teimou que aquilo devia ser praga de Regina. Macumba, essas coisas. E disse que esse tal Roque da Lua podia me ajudar.

Quando chegamos, convenci Jaca a pegar leve com a galinha. Daríamos uma conferida no terreno. E se fosse necessário, pegaríamos o animal. Parecia um lugar agradável. Só aquele som de tambores que arrepiava os cabelos mais crespos do meu ovo. Havia essa figura no portão de entrada. Negro, alto, jovem. Não sei o que esperava da vida, mas segurava uma vela com as duas mãos.

- Boa noite – disse Jaca – o Roque da Lua está?

O garoto não respondeu. Só olhava para frente. Reto. Ele e a porra da sua vela. Parecia um rapaz determinado. Pelo menos a não dar as boas vindas a Jaca.

- Boa noite, amigo – Jaca insistiu – Eu marquei com Roque da Lua.

Nenhuma resposta. Somente o som dos malditos tambores.

- Esse merda não vai falar nada – eu disse.
- Será que é doente?
- Quero que ele se foda.
- Ô maluco! Tá me ouvindo? EU QUERIA FALAR COM ROQUE DA LUA!
- Vamos sair daqui, caralho!
- Tô quase metendo a porra nesse moleque.
- Cuidado, esses caras manjam de capoeira.

Então surge do nada esse baixinho todo de branco segurando a porra de um cacho de bananas. Pelo jeito que rebolava, eu não tinha mesmo certeza por onde ele ia ingerir aquelas bananas.

- Jaquinha! – disse o mestre das bananas – chegou bem na hora.
- Seu Roque – disse Jaca – o garoto aqui não queria colaborar.
- Ah, esse é Tico-Tico. Tico-Tico tá de castigo. Pra aprender a se comportar.
- Esse é Paulo – disse Jaca – o amigo que lhe falei.
- Ah, o que tá desempregado e não consegue trepar.
- É, tô no cu da cobra – eu disse.
- Vem, vamos entrar, vamos entrar. Tico-Tico, você se comporte.
- Agüente firme, Tico-Tico – eu disse.

Lá dentro, havia esse pátio de terra. Cercado de uma varanda com portas e de algumas árvores. Havia também essa roda de gente. Vestidos de branco. Aquela batucada. “Cadê Roque da Lua?” – Jaca perguntou. O danadinho das bananas desapareceu do nada. Então ficamos por ali como dois imbecis. Volta e meia alguém pulava no meio da roda e arriscava alguns passinhos. Até que veio essa morena. Começou a sambar. Nova, pele escura e os dentes mais brancos da noite. Seu corpo? Bem, digamos que eu saberia o que fazer com seu corpinho num quarto escuro. A moleca dançava. Girava. Levantava a saia, ia até o chão, revelava as pernas e, por milésimos de segundo, sua calcinha. Não é por nada não, mas eu já estava de pau duro.

- Será que ela toca berimbau? – perguntei a Jaca.
- Ham?
- Tá sentindo o quê, porra?
- Calor da porra!

Então aumentaram a batucada e a morena enlouqueceu. Começou a revirar os olhos e a retorcer o corpo. Num desses solavancos, seus peitinhos saltaram da blusa. Como se gritassem por liberdade e quisessem participar da festa. Eram peitinhos firmes, santos e loucos. Eu pensava, por que essas porras parecem mais gostosas quando estão dando santo? Aliás, o santo devia saber que havia um gordo por perto que estava doido pra cair de boca naqueles peitinhos. Eu estava em pânico. Tentava não pensar em sacanagem. Mas só conseguia pensar naquela xoxota em chamas. Nessa hora, algum escroto que gosta de ver o circo pegar fogo soltou uma galinha no meio da roda. Vou dizer uma coisa. Nunca havia visto nada mais inocente do que aquela galinha. Querendo aparecer. Caminhando para o meio da putaria. Balançando a cabeça. No ritmo dos tambores. Pelos olhinhos, estava drogada. Parecia sorrir. Quando a morena a pegou pelo pescoço e ZAP! Passou a faca no animal.

- Puta que pariu – eu disse a Jaca – esquece a galinha.
- O quê?
- Porra, você tá suando pra caralho.
- É o calor, porra.

E adivinhe quem apareceu do nada. Sim, ele mesmo. Roque da Lua. Dessa vez, sem as bananas. Mas com um charuto que não tinha mais tamanho. Dançando, se remexendo e dizendo coisas que eu não conseguia entender.

- O que é que esse porra tá falando? – perguntei a Jaca.
- Não sei. Entendi não sei o quê Paca Capim, Paca Capim, Paca Capim...
- Jaca, você tá branco.
- Dor de cabeça...
- Porra, será que você tá dando santo?
- Eu tô tranquilo.

Enquanto isso a roda pegava fogo. A morena, os peitinhos e Roque da Lua. A galinha perdeu o melhor da festa, fazer o quê? E do nada, Roque da Lua largou o charuto e começou a dar saltos. Grandes saltos. Saltava e girava rapidamente para todos os lados, fazendo o Mestre Yoda em ação parecer uma velha tartaruga manca. Roque da Lua pulava sobre as pessoas na roda, dizendo coisas e dando gargalhadas. E de repente, esse merda veio em minha direção, com os olhos ardentes. Pensei, fudeu. Só deu tempo de pensar isso mesmo, porque logo depois Roque da Lua me empurrou para o lado, apertou os peitos de Jaca e berrou com uma voz fininha “PEITCHOLA! PEITCHOLA! PEITCHOLA!”. Jaca tentou se defender empurrando Roque da Lua, que saltou para trás, dando um desses golpes de capoeira e raspando o pé no queixo do meu amigo.

Três minutos depois, Roque da Lua seguia seu show, enquanto Jaca e eu nos despedíamos de Tico-Tico e entrávamos no carro.

- FOI VOCÊ QUE DISSE! – Jaca berrava
- Vai tomar no cu, Jaca!
- FOI VOCÊ QUE DISSE!
- Como é que eu ia dizer alguma coisa? Eu nem conhecia aquele viado. Você que me trouxe aqui, porra!
- E como é que ele sabia desse negócio de peitchola?
- Sei lá, esses caras sabem tudo da nossa vida.
- Ele me pegou desprevenido.
- Mas você viu aqueles peitinhos?
- Tá amarrado, Jesus é mais forte.

Bem, o que resta contar é que passei um bom tempo ainda sem trabalho e sem mulher. Que Jaca segue sua vida como Segurança. E que a galinha na mala do carro sobreviveu.

7.11.10

White Russian

Podemos chamar de esperança. No fim das contas, todos têm a mesma esperança quando a noite chega: fuder. Mas sabe aquela mulher que não dá pra encarar nem com todos os rótulos de álcool na mente? Pois é. Sou a versão masculina dessa história. Então apenas encosto no balcão do bar e peço uma dose. Fico por ali. Minha esperança sempre dorme mais cedo.

Já estava no segundo copo quando Vega apareceu. Vega e sua autoestima.

- Bebendo o quê, Bono?
- É uma homenagem ao Cara.
- Leite?
- E a loira?
- Alto calibre, hein, Bono?
- A mais gostosa da noite.
- Resolvi da uma encarada.
- Você é um cara durão, Vega.
- Se não tivesse comprado um boné hoje, eu pagava o cachê dela.
- Comprou um quê?
- Um boné. Aí deu uma desequilibrada nas finanças.

Depois Vega saiu por aí. Na esperança. Bem, eu já desisti faz tempo. Então fiquei no meu canto e pedi outra dose. Não importa a música nem o que você bebe. O balcão do bar é uma pista solitária. Eu apenas tentava sobreviver mais uma noite. E observava. Sabia que aquele não era o meu lugar. Não era minha festa. Músicas eletrônicas. Essas que todos fingem gostar, porque vêem nos comerciais da Som Livre, Summer Eltrohits, Hot Party Hits, Big Brother Hits, Big Night Hits Volume 2, essas merdas todas. Incrível como os baianos, por mais pagodeiros que sejam, hoje amam de paixão aquele Black não-sei-o-que-lá pis. Levantam os bracinhos, riem, soltam gritinhos com a sensação do momento, que repete a noite toda, que repete a noite toda, que repete a noite toda, que repe, que repe, que repete a noite toda. Como todos eles. Putinhas, viados, cocô-boys e xixi-girls, gente bonita, com rostos parecidos, que se repetem, todos iguais, com o piscar das luzes.

Então encostou uma putinha no balcão. Moreninha. Faceira. Dessas que não sabem o que beber e gostam de fazer escondido. Minha esperança abriu os olhos e tomou um trago.

- Que é isso? – ela disse.
- É uma homenagem ao Cara.
- Que cara?
- Experimente.
- É leite?
- Você gosta de um leitinho?
- Se enxerga, gordo!

Caiu fora, a malandrinha. Com medo do gordo.

- Não deu, hein, parceria? – disse o garçom enquanto enxugava o balcão.
- Percebeu que ela tem uma covinha no queixo?
- A morena?
- Não, minha pica!
- Vai com calma, chefe.
- Tô mais calmo que você, parceria. Capricha outra dose.

Por uns instantes, prestei atenção ao sacana do DJ. Dizia ele que estava trabalhando. Bem, publicitários dizem a mesma coisa. Foi nessa hora que o velho Ploc Monster apareceu. Ploc e sua mente doentia.

- Que porra é essa, Bono? Leite?
- É a puta que pariu.
- Falar nisso, que porra é aquela que você escreveu de minha mãe no blog?
- Eu podia casar com sua mãe, Ploc.
- Sacanagem da porra...
- Te daria até uma mesada.
- E o bosta do Vega? Disse que não comeu a loira porque já tinha dado 50 conto na porra de um boné.
- 50 conto?
- O bicho tá doido pra fuder. Eu tô na manha. Tô me divertindo. Tô feliz pra caralho. Nem preciso fuder. Eu só queria um boquete. Nem precisava meter. Só uma chupada, com a puta dando uma azunhadinha assim no meu ovo, sabe como é?
- 50 conto num boné é foda.
- E aquela morena?
- Qual?
- A de branco. Êta rabo gostoso.
- Prefiro sua mãe, Ploc.

A noite terminou mais ou menos assim. O final de sempre numa versão remix. Mais duas doses e uma punheta pelo ralo da vida.

21.10.10

21 de Outubro

A morte é punk. Quero dizer, é PA-PUM. Uma tijolada. Um direto no queixo. No máximo três acordes. É ou não é. Mas é incrível como dá tempo de repassar a vida inteira. Se forçar um pouco, consigo lembrar do exato momento que deixei a barriga da minha velha. Mais ou menos quando algum filho da puta deve ter me deixado bater a cabeça. Como se a vida me desse um aviso, olha só, as coisas não vão ser fáceis.

Houve um tempo que eu contava piadas. Faziam rodas para se ouvir aquelas piadas. “Conta a da caganeira!”. Eu era o bobo da corte, o que fazia as menininhas rirem. Afinal, é preciso ter um escudo, alguma compensação quando se é o gordinho da turma. As coisas não foram muito diferentes com o passar do tempo. Mas é assim que funciona. Quando se é gordo, negro, anão, albino, aleijado ou coisa assim, esperam que você conte piadas, seja legal, passe a cola da prova, dê passagem, dê o lugar, faça silêncio, receba o soco, diga obrigado, agüente firme, tenha fé, comporte-se e seja feliz simplesmente por sobreviver com a caridade de quem é gente-bonita e faz o favor de sorrir para você.

Para mim, as coisas vêm ficando piores. Já não bastava ser gordo, cego de um olho, feio, pau pequeno, não saber dirigir e o rim não funcionar muito bem, a careca vem ficando cada vez maior. Agora têm essas verruguinhas. Minúsculas. No ombro, no braço, no pescoço. Apareceu uma na pálpebra. Outro dia, estava conversando com uma putinha, ela estava encarando, eu tive de dizer, “Isso aqui não é uma remela, é uma verruguinha que nasceu um dia desses”. É a vida mandando um lembrete. “Ei, seu gordo, olhe pra você, é melhor ser um cara legal, senão você não vai ter chance”. Mas vou dizer uma coisa. Venho descobrindo que não levo o menor jeito para Jedi. Nina dizia que eu andava na corda bamba. “Você anda no limite”, ela dizia, “Não tem o direito de ser chato, ainda vai acabar sozinho”. Mas, sinceramente, adianta alguma coisa contar piadas? Então vamos em frente. Lá vai o gordo chato na corda bamba. Hoje, prefiro ser aquele que cospe na farofa, que discute na fila e que manda o gerente das Americanas tomar no cu. Esqueçam as flores e os poemas. Creep já não é minha canção favorita. Hoje solto arrotos, escrevo merda e, se precisar, utilizo meu incrível poder mutante de deixar o clima chato. Quem achar incoerência um gordinho não ser tão legal assim, olha o que aprendi a dizer com o tempo: foda-se. Desculpa o clichê, mas nem o velho Cristo agradou a todas as torcidas, e só agradou algumas porque era loiro e de olhos azuis. Eu queria ver alguma procissão se o Cara fosse gordo e se parecesse com o Ed Motta.

Bem, semana passada, não houve carona na saída da nova agência. Caminhei até o ponto. Fazia uma noite bonita. É incrível encontrar no meio da frieza dos edifícios da Tancredo Neves um lugar tão quentinho como aquele ponto de ônibus. Você sabe, arrocha, pagode, ambulantes, essas coisas. Coloquei o fone de ouvido e botei o player no volume máximo. Ramones. Havia uma putinha com o classificador nos braços. Uma coisa. Pensei em puxar conversa, mas ando grilado com essa verruguinha na pálpebra. Então peguei um churrasquinho de gato para passar o tempo. Macio. Melado na farofa. Churrasquinho com Ramones. Classe A. Depois vi o corre-corre e o corpo caído no chão, bem próximo de mim. Sangue. Corre-corre. Pessoas deitando no chão. Confusão no ônibus em frente. Não fiquei para descobrir o que estava acontecendo. Meu busu apareceu logo atrás. Depois fiquei sabendo. O ônibus da frente estava sendo assaltado e sobrou uma bala perdida. O cara se fudeu. É uma sensação estranha saber que estava tão próximo. Lembrei da piada da caganeira. Lembrei dos meus velhos, o Balão Mágico, a ladeira da Lapinha, o título de 87, o disco Dois, os pátios do segundo grau, o porre de vinho, Creep – Sol , Si, Dó, Dó menor, os ratos de Feira, a velha agência, o yakisoba e o boquete de Nina, o velho Buk, os quartos de hotel, a nova agência, a farofa, o churrasquinho, o sangue. A morte é punk. PA-PUM. É ou não é. E estou vivo ainda. Hey, Ho, 33. Let´s go.

22.9.10

A primeira parte daquele filme do Kubrick

Legumes, por exemplo. Legumes nunca foi meu forte. Bastava dizer que eu não queria comer legumes que meu pai dizia que a solução para mim era o exército. Se eu tentasse fugir do banho frio era a mesma coisa. “No exército, você ia aprender a ser homem”, ele dizia. Ok, nunca aprendi a ser homem. Mas pelo que sei, o meu velho também nunca vestiu a farda do exército.

Resisti o quanto pude a essa bobagem de alistamento militar. Mas você sabe, a pátria é uma mãe gentil desde que você esteja com todas as carteirinhas em dia. Então certa vez, numa dessas feijoadas de domingo, fui apresentado ao Tenente Coelho. Bem, Tenente Coelho era tenente do exército. Um cara baixinho com aparência de frágil, mas que tinha um bigodinho sinistro. Expliquei minha situação, e o Tenente Coelho disse que podia me ajudar. Bastava eu aparecer no quartel que ele facilitaria todo o processo.

No dia seguinte, eu estava lá. Na portaria, havia um desses soldadinhos de chumbo. Quando mencionei o nome do Tenente Coelho, ele ordenou que outro soldadinho fosse avisar sobre a minha presença. Logo depois o Tenente Coelho e seu bigodinho estranho apareceram.

- Paulo!
- Tenente Coelho!
- Chegou bem na hora. Você vai falar com o próprio Coronel Torres. Ele vai te ajudar.
- Entendido, Tenente!

Então o Tenente Coelho me levou até um pátio, me pediu que aguardasse e disse que ia falar com o tal Coronel Torres. Olhei em volta. Não havia lugar para sentar. No único banco que havia por perto, estavam sentados alguns recrutinhas. Então me encostei numa pilastra. De repente, ouvi um berro “DESENCOSTA! É VOCÊ QUEM LIMPA?, HEIN, É VOCÊ QUEM LIMPA?”. Era um soldadinho de olhos esbugalhados. Por Deus, pensei que o filho da puta ia puxar o gatilho. Pedi desculpas e me afastei.

Era um pátio grande. Dalí era possível ver uma boa parte do quartel. Vez em quando passava um grupo de recrutinhas pra lá e pra cá, cantando aqueles versinhos pró-guerra de machos valentes e nada originais. Escutei quando um recrutinha pediu ao seu superior para beber água. O superior gritou alguma coisa e apontou para um bebedouro no outro lado do pátio, dizendo que o recrutinha tinha 15 segundos para ir lá beber água. O recrutinha perdeu 5 segundos só tremendo as pernas.

Sempre escutei histórias de humilhações no exército. E sabe de uma? Eu não precisava daquilo. O campo de batalha da adolescência já havia me deixado cicatrizes suficientes para o resto da vida. E toda vez que eu me imaginava vestindo aquela farda, só lembrava da primeira parte daquele filme do Kubrick. E se me obrigassem a fazer flexões ou, sei lá, saltar de paraquedas, comer abóbora, desarmar uma bomba ou comer o rabo de algum sargento? Pior, se me mandassem para a guerra? Será que esses escrotos pensavam que minha vida era de videogame? Ainda falavam sobre ser patriota. Sinceramente, quero que o Brasil se foda e meu pau cresça.

Então os recrutinhas que estavam sentados no banco se levantaram e saíram marchando feito cordeiros. Olhei para o banco. Pensei em sentar. Olhei para o guardinha de olhos esbugalhados. Ele olhava para mim. Eu podia sentir o ódio em seus olhos esbugalhados e seu desejo em meter bala. Antes que o pior acontecesse, o Tenente Coelho apareceu.

- Paulo!
- Tenente Coelho!
- O Coronel Torres já vai lhe atender. Você vai ficar com o resto do grupo.
- Entendido, Tenente!

O Tenente Coelho me levou até o outro lado do quartel e me apresentou a outro soldadinho de chumbo, que me levou para uma sala, onde havia essa fila de jovens. Era uma fila de pobres diabos. Alguns queriam apenas tirar uma porra de uma carteirinha, outros queriam entrar no exército para terem o que comer. Então me mandaram levantar um peso. Já não gostei dessa merda. Depois entrei em outra fila, e mandaram todos ficarem de boca aberta enquanto um doutorzinho lá ia checando os dentes da rapaziada. Logo depois, um soldadinho, gritou “BAIXEM A CALÇA E A CUECA ATÉ OS JOELHOS!”. Aí fudeu. Agora eu ia ter que mostrar meu pistolinha para todos. Podia passar anos e anos, e quando aqueles caras estivessem no inferno de uma trincheira, com tiro vindo de tudo quanto é lado, alguém ainda ia dizer “Porra, você lembra daquele gordo que tinha uma beretinha no meio das pernas? Hahahaha!”. Tenente Coelho de merda. Pistolão de merda. Tudo não passava de uma armadilha. E quando eu já desabotoava as calças, outro soldadinho disse “Você, você, você e você, podem ir pro outro lado!”. Foi por pouco. O tiro passou raspando.

Depois um desses soldadinhos me encaminhou até outra sala. Havia um velho no outro lado da mesa. A plaquinha dizia “C.el Torres”. Um homem grande. De rosto vermelho e quadrado. As medalhinhas em sua farda, seu cabelo branco e sua fisionomia pesada indicavam que ele não estava para brincadeira. Se aquele velho me obrigasse a comer seu rabo, eu estava fudido.

- Paulo.
- Coronel Torres.
- O Tenente Coelho me falou sobre você. Por que quer ser dispensado, filho?
- Sou inábil, Coronel.
- Inábil?
- Tenho escoliose.
- Conheço bons soldados com problemas de coluna, Paulo, bons soldados.
- Sou praticamente cego desse olho, Coronel.
- Isso também não é problema, rapaz.
- Sou capaz de estragar qualquer missão, Coronel. Sério, só faço merda.
- Cuidado com os nomes.
- Desculpa, Coronel.
- Já conheci muitos jovens como você, Paulo. São inteligentes, mas se acham incapazes. O exército podia ser uma solução para você.
- Coronel, eu sou gordo.
- Entendo, filho. Entendo.

Foi então que o Coronel Torres bateu um carimbo, e fiquei livre do valente e honrado exército brasileiro. Depois disso, só foi preciso me apresentar mais uma vez, para jurar a bandeira. Aí tivemos que cantar o hino nacional, aquela coisa toda. Aquela parte, deitado eternamente em berço esplêndido é um versinho bacana. Mas esse papo de verás que um filho teu não foge à luta é besteira. Não foge o caralho.

28.8.10

Maldição

Faz três meses que comprei esse bloquinho de anotações. Disseram, Bono, todo escritor tem um bloquinho de anotações. Bem, até hoje não escrevi porra nenhuma no bloquinho. Agora tem esse concurso. De blogs. Eles pegam os blogs mais votados, uma turma de estrelas avalia, e os melhores podem virar livro. Caí nessa, dá pra acreditar? Logo eu que entrei nesse jogo de blog justamente para escapar das avaliações, observações, opiniões, interrogações e premiações. Queria apenas arrotar algumas bobagens e ficar em paz. Estou cansado. Meu dia já é repleto de concursos. Hoje mesmo apresentei três roteiros.

- Uma merda, Bono.
- Cacete.
- Uma merda, uma merda, uma merda.
- Já entendi, uma bosta.
- Você não é mais o mesmo.
- O mesmo como?
- Não consegue mais escrever. Eu já vinha percebendo.
- Porra, você também percebeu?
- E esses papéis tão fedendo a bacon!
- Pingo de Ouro. Comi de manhã.
- Fedor de bacon da porra.
- Já lavei a mão 8 vezes, você sabe, o cheiro não sai nem com a porra.
- Você é um porco, Bono.
- É, já me disseram.
- E esses textos tão uma porcaria.

Bem, isso não foi nada. A coisa mais fácil desse mundo é me convencer que estou errado, que fiz alguma merda, aliás, que só faço merda. Não sei por que sou assim. Tem essa hipótese de eu ter batido a cabeça quando nasci. Só sei que sou gordo, feio e careca. Praticamente o estereótipo do erro e da inadequação. Não adianta dizer o contrário, nem votar no meu blog. Sou eu, Paulo Bono. Está cravado na alma. Como uma maldição.

De qualquer forma, até os amaldiçoados têm direito de fuder. Então terminei a noite na casa na casa de Tânia. Acho que já falei dela. Sabe fazer umas paradas interessantes com a bunda.

- Pensei que só viesse amanha – ela disse.
- Amanhã o Flamengo joga.
- Não sabia que você vinha. Hoje tô light. Só tem sopa.
- Preferia uma carne macia – eu disse, lhe acariciando o rosto.
- Que cheiro é esse?
- Pingo de Ouro. Comi de manhã. Já lavei a mão 17 vezes, o cheiro não sai nem com a porra.
- Ah, mas você não vai enfiar esse dedo dentro de mim não.
- Tava pensando em enfiar outra coisa.
- Você continua o mesmo, gordinho.
- Bom ouvir isso, pequena. Fala de novo.
- Você continua o mesmo, gordinho.

Então fomos para a cama. Do jeito que ela gosta. Ela ficou de joelhos na cama e com as mãos na parede. Depois fez aquela coisa com a bunda, e caí pra dentro. A noite terminou bem. E quando Tânia se levantou para esquentar a sopa, fui até a mochila, peguei o caderninho de anotações e rabisquei, “A maldição do Pingo de Ouro”.

16.8.10

Sem tempo e Sem palito

Seguinte. Fui comprar palito. Mas tá em em falta.
Então as coisas vão demorar por aqui. Pelo menos um pouco.
Logo, logo as histórias aparecem.
Grande abraço a todos.

Bono

1.8.10

Os moleques da ladeira

Éramos um bando de moleques descendo a ladeira a todo vapor. Podia ser o pedaço de uma porta, de um armário, de um guarda-roupa, qualquer coisa. Levávamos a tábua até o topo da ladeira, sentávamos e depois descíamos com tudo. Os mais corajosos ainda passavam sebo de vela nas tábuas para ganhar mais velocidade. Era preciso calçar as Havaianas nas mãos para servirem de freios.



Nina costumava dizer que meu pior lado era a Lapinha. Bastava eu soltar um peido ou um arroto, e ela dizia, “Tudo que você tem de ruim vem da Lapinha”. Talvez Nina estivesse certa. Por trás dessa minha cara feia, por trás de toda essa gordura, por trás deste monte de merda que sou, está o Largo da Lapinha. E por trás do Largo da Lapinha está a ladeira da Lapinha, onde morei.


Quando você olha, parece o próprio corredor do inferno. Verdade, a Ladeira da Lapinha é um lugar deprimente. De um lado, casinhas antigas e escuras e um beco com mais casinhas, e do outro, até metade da ladeira, um imenso matagal. Sim. Uma ladeira estreita de pedras com casinhas e capim. Um lugar desses que você prefere esquecer que existe. Feio. Miserável. Encardido. Escondido atrás de uma igreja. Com pessoinhas pobres vivendo suas vidas. Mas acredite, eu achava a ladeira o melhor lugar do mundo. Sentia orgulho de viver ali. Bem, quando se tem 7, 8 anos, você não faz idéia que seus tios e tias detestam ir ao seu aniversário porque têm nojo de sua rua e seus amigos.

Lembro que as pessoas da ladeira falavam alto. Falavam praticamente gritando umas com as outras. Eram duas lavadeiras discutindo, uma mãe gritando para o filho sair do mato e ir tomar banho, essas coisas. Havia muitos tipos. Fofoqueiras, viados escandalosos de shortinho na bunda, pais de santo fazendo batucadas, putinhas, putonas, pivetes, malandros, ladrões baratos, bêbados e loucos. Lembro de Luiz Babão, ele era os dois, bêbado e louco. Mas também havia boa gente, boas famílias. E só Deus sabe o quanto aproveitei aqueles anos. Correndo, pulando, caindo, empinando arraia, chutando lata, levando porrada em garrafão, colocando bomba em canos, catando guimbas de cigarro e fingindo que fumava, e chegando em casa com os pés cheios de lodo. Você pode dizer, grandes porra, Bono, você acha que é melhor do que alguém por sujar os pés numa ladeira de merda? Bem, não sei, talvez, tem muito menino amarelo por aí, desses que cresceram jogando Playstation, ping-pong no playground e gude no tapete da sala, e hoje são uns frouxos e escrotos. Mas deixa lá.

Bem, voltando à Ladeira. Lembro que minha avó dizia, “Não ande com os moleques da ladeira”. Acho que minha avó era racista. Os meninos, em sua maioria, eram negros. As exceções eram Batata, que era amarelo; e Lorinho, que era branco e cheio de sardas. Mas Bigu, Lingueta, Vaca, Maradona, Capenga, Lazinho, Ultraseven e Olho de Tandera, esses, para minha avó, eram todos neguinhos. Bem, eu não sabia o que era racismo. Nem tinha idéia do que era ser negro ou branco cheio de sarda, rico ou pobre. O mundo era bem simples.



Aquela época foi a mais pesada para Capenga e sua perna. Então Capenga não podia brincar de escorregar de tábua. Mas não o deixávamos para trás. Capenga ficava na porta de sua casa, atuando como uma espécie guarda de trânsito, regulando o tráfego de tábuas. E para passarmos por ele, era preciso pagar pedágio, que na verdade eram embalagens de cigarro vazias que catávamos pelo caminho. Certa vez, eu estava lá, escorregando de tábua. Paguei meu pedágio, passei por Capenga e desci até o pé da ladeira. Os meninos estavam à minha espera. Juntamos algumas moedas e compramos duas tubaínas e ficamos ali, em frente à casa de Lazinho. Lazinho morava num barraco. Um barraco mesmo, desses que você vê em reportagens sobre a miséria humana, feito de madeira, lona e papelão. E enquanto saboreávamos nossa tubaína de tuti-fruti, dava para escutar os pais de Lazinho discutindo dentro do barraco. Só dava para ouvir os palavrões. Mas de repente, veio um barulho de vidro se quebrando, uma pancada e um grito. Logo depois o pai de Lazinho saiu do barraco e desceu a ladeira correndo. O velho simplesmente havia empurrado a mãe de Lazinho na ribanceira que tinha atrás do barraco. Os vizinhos chegaram, foi aquela gritaria, chama a polícia, chama a ambulância, Lazinho chorando feito a porra, e a velha lá, estirada sobre a terra, toda quebrada e cercada de ratos assustados. Fui correndo contar a história a Capenga, aproveitei e levei sua dose de tubaína.



Dia desses, eu estava com uns amigos num desses rodízios de pizza no shopping. E pensei ter visto o Lingueta passar no lado de fora da pizzaria. Um homem largado, com uma péssima aparência, mal vestido, como se não fizesse parte daquela praça de alimentação. Não tinha certeza se era ele. Estava diferente, de barba, e passou muito rapidamente. Lembrei das palavras de Nina. Talvez ela estivesse errada. Completamente errada. Afinal, o que é um peido ou um arroto? Então voltei para o meu mundo limpo e plano, onde não se coloca negros em outdoors sobre empreendimentos de luxo.

17.7.10

A gostosa e a fera

Quando abri a porta, havia um camaleão parado bem no meio do hall. Isso. Uma porra de um camaleão, dos grandes, como que perdido, bem em frente ao apartamento. Não fazia idéia de como aquele bicho foi parar ali. Por um instante tive a impressão que ele olhava no fundo dos meus olhos. Eu não conhecia seus truques. Então passei me esgueirando pela parede, atento a qualquer movimento, e desci as escadas. Foda-se o cameleão e seu rabo gigante.

Seria um dia cheio. Mandaram eu acompanhar a gravação de um comercial. Faço de tudo para evitar esses trabalhos externos. Você sabe, reuniões, apresentações, gravações. Esse povo é mais receptivo a gente bonita ou, no mínimo, elegante. Só faço atrapalhar. Mas Belchior, o diretor de criação, insistiu.

Era coisa de cinema. Com uma dessas atrizes famosas, diretor renomado, uma grande equipe, muita aparelhagem, luzes, camarim, um puta buffet, essas coisas. Belchior estava de boné. Eu também tentei ir de publicitário criativo, mas não achei a porra do boné e fui de publicitário careca e idiota. Tentei ficar o mais invisível possível. Só não queria fazer nenhuma merda. Então me desviei de todos aqueles cabos e rebatedores e achei um cantinho, um ponto morto que era o meu devido lugar. Então a atriz chegou e o diretor começou o ensaio. A mulher era mesmo uma coisa. Não costumo dar a mínima para essas figuras da TV, mas aquela ali, pessoalmente, merecia uma bela homenagem só pelo par de pernas. As coisas estavam indo bem, mas a mulher começou a engasgar no texto e o tempo estava ultrapassando os 30 segundos. O diretor gritou “Quem escreveu essa porra?”. Gelei. Um filho da puta da equipe apontou para o nosso lado “Ali os meninos do texto”. Belchior tirou o boné, passou a mão na cabeça e colocou o boné novamente. Um boné faz falta nessas horas. Eu só pensava que talvez minha mãe estivesse certa, o fato de eu ter batido a cabeça na hora do parto, talvez eu não soubesse fazer porra nenhuma nessa vida. Belchior e eu nos aproximamos, pegamos o texto e olhamos, olhamos de novo, cortamos algumas palavras e substituímos outras. Nessa hora eu estava bem próximo da atriz. E por um instante tive a impressão que ela olhava bem no fundo dos meus olhos. Talvez estivesse se perguntando, quem deixou esse bicho entrar aqui? E eu com a minha cara de merda e sem boné não sabia o que fazer. “Vamos de novo!”, gritou o diretor. Voltamos para nosso canto e o ensaio recomeçou. As coisas fluíram, o texto também, e a atriz seguia mais gostosa do que nunca. O diretor disse, “Tá ótimo”, e acabou o ensaio.

- Que é que tá achando? – Belchior perguntou baixinho.
- Eu como – respondi baixinho.
- Eu como fácil.
- Tô com uma vontade de peidar do caralho.
- Tá vendo aí, Bono? As coisas estão acontecendo. São esses momentos que fazem a profissão valer a pena. Trabalhar com quem sabe. Isso aqui é uma realização. Depois de hoje eu já podia me aposentar...
- Você acredita que hoje de manhã tinha um camaleão na minha porta?
- O quê?
- Vamos gravar? – berrou o diretor – silêncio, desligue os celulares, silêncio, atenção, silêncio, som, câmera, gravando!

Então começou. E correu tudo bem. Comecei a pensar nas palavras de Belchior. Sobre aquele papo de realização e sonho. Quem diria, Paulo Bono? Logo você, acostumado a jogar na terceira divisão, a escrever cartões de natal, carros de som pro interior, a escrever outdoors provincianos e trabalhar para bandidos em Feira de Santana, logo você, que bateu a cabeça ao nascer, estava agora ali, aproveitando faíscas de sucesso, vendo aquela famosa falar para a câmera palavras que você escreveu num dia qualquer. O diretor disse “Perfeito!”, a gravação terminou e todo mundo bateu palmas. Logo depois começaram uma sessão de fotos e tietagem com a famosa, aquele abraça-abraça, mas como sei da aversão das pessoas a tirar fotos e abraçar gordos, não tentei nada. Belchior ainda ficou por ali, puxando conversa com o diretor, falando de trabalhos, propaganda, piriri-parará, como se quisesse dar o cu. Mas ele estava de boné e eu não. Preferi ir lá para fora e soltar meu peido. Só em não ter feito nenhuma merda, o dia já valeu a pena.

À noite, quando voltei para casa, meu vizinho, o Milton, estava com a porta aberta e largado no sofá.

- E aí, imperador. – eu disse.
- E aí, Paulão.
- Você viu que tinha um camaleão aqui hoje?
- Porra, você viu?
- Como é que aquela porra veio parar aqui?
- Sei lá. Viu o tamanho do rabo?
- E cadê a porra?
- Eu chamei um amigo que cuida desses bicho, e ele levou.
- Como assim?
- Ele veio aí umas nove horas, disse que era um camaleão mesmo, pegou o bicho e levou.
- Você tem um amigo que cuida de camaleão?
- Ele cuida desses bichos aí, camaleão, lagarto, não sei o quê...
- Porra...
- Love ontem salvou a gente hein?
- Golaço. Pra calar aquelas putas – eu disse me afastando.

E enquanto eu abria a porta, fiquei pensando como é que alguém conhece alguém que cuida de camaleão? Eu digo, geralmente você conhece alguém que conserta geladeira, carro, porta, computador, ou um viado que vende prata, um matador de aluguel, uma rezadeira, sei lá. Mas “Ah, eu tenho um amigo que cuida de camaleão”. Para mim isso é novo.

30.6.10

20 minutos

Bem, eu queria um assunto para escrever. Vou falar sobre hoje. Almocei com uns amigos. O pessoal da nova agência e outras figuras. E tinha esse redator, o Nobre. Ele dizia que Prision Break é a melhor série que existe. Para mim, não me diz nada. Na verdade, acho que estas séries cheias de traminhas, fugas, escotilhas e enigmas não passam de enrolação. Eles te enganam o tempo todo. O pessoal passa uma temporada inteira com medo de determinado cara, “Ah, cuidado, aquele é o inimigo picudo”. Na temporada seguinte, você descobre que esse cara não passava de um estagiário, um office-boy de um sub-chefe que tem outro chefe que tem outro chefe de uma puta organização maligna e mundial. Uma putaria da porra. Pura enganação. E esse Nobre, que também é fanático pelo presidente, defendia Prision Break com unhas e dentes, defendendo os personagens, e batia na mesa e gesticulava como um sindicalista, chamando a atenção de todo o restaurante. A discussão só terminou quando perguntei para quem ele daria o cu, Lula ou o viado lá de Prision Break.

Hoje também passei na casa dos velhos. 20 minutos. Os 20 minutos da saudade. Você sabe, aquele tempo que só rola coisas boas, sorrisos e amenidades. Em até 20 minutos até o cachorro parece contente com minha presença, como se também quisesse saber das novidades. Depois disso, só vem cobranças e pauladas. E foram bons 20 minutos. Meu pai perguntou sobre o trabalho, as novidades e contou alguns planos. Enquanto ele falava, eu apenas pensava, caralho, eu tinha que herdar essa careca? Mas não posso ser injusto. A situação dele é pior. Ele me herdou como filho. E às vezes acho que meu velho me acha um merda. Quanto à minha mãe, ela também perguntou sobre a nova agência, se eu estava conseguindo fazer tudo que me pediam, e depois contou as novidades sobre tios, primos e vizinhos. Enquanto ela falava, eu só pensava, caralho, se eu tivesse herdado esses olhos verdes ia comer muita gente.

- Foi no médico? – perguntou meu pai.
- Fui – eu disse – mas o sacana demorou de atender, e eu me piquei.
- Paulo, não pode ser assim – disse minha mãe.
- Você anda muito nervoso – disse meu pai.
- O quê? Ele chega a hora que quer, e eu saio a hora que quero.
- Paulo, meu filho, por que você é assim? – disse minha mãe – será que é porque você deu trabalho pra nascer?
- Puta que pariu, até pra nascer eu dei trabalho?
- Demorou de sair...
- Eu bati a cabeça no parto, foi isso?
- Não, passou da hora, demorou, ia e voltava pro hospital. Acho que é por isso que você é assim.
- Assim como, meu Deus?
- Nervoso – disse meu pai – você anda muito nervoso e impaciente.
- Paulo – disse minha mãe – por que você não procura um profissional, um psicólogo?

Nesse instante, olhei o relógio e vi que já passava dos 20 minutos. Então levantei e até o cachorro começou a latir pro meu lado.

- Tá na minha hora – eu disse.
- Ele agora é assim – disse meu pai – visita de médico.
- Quer iogurte? – perguntou minha mãe.
- Não.
- Quer pão?
- Não.
- Tá precisando de dinheiro?
- Como assim?
- Algum dinheirinho, tá precisando não?
- Que porra é essa? A senhora acha mesmo que não sou capaz de pagar minhas contas, comprar meu iogurte, que eu não vou conseguir, que eu sou um incapaz, é por causa daquele papo de bater a cabeça na hora do parto, não é?
- Quer biscoito? Leve biscoito.

Me despedi dos velhos com um abraço apertado, um beijo na careca e caí fora. Na saída, encontrei o Tuta, um primo de 12 anos que agora dorme em meu antigo quarto.

- Vem cá, seu sacana – eu disse.
- Paulo, você viu o Brasil?
- Brasil uma porra. Eu tô sabendo.
- Hum?
- Você já tá batendo suas punhetas, né?
- Hum?
- Hum uma porra. Tá todo mundo vendo você entrar e sair do banheiro com revista na mão.
...
- Não faça essa cara não. Pode bater sua punheta. Mas seja discreto, seu merda. Eu bati punheta a vida toda e nunca dei mole. Tem que ser profissional. Você achou minhas revistas na gaveta, não foi?
- Hum?
- Hum uma porra, meu irmão, fale a verdade.
- Hum hum
- Ok. Vou te deixar de herança. Mas seja discreto nessa porra.
- Tá.
- Qual sua favorita?
- As trigêmeas.
- Boa.

Quando cheguei em casa, tomei um banho, bebi um copo de Nescau e fui assistir a House. Sim, eu não disse quais as minhas séries? Acho Seinfeld a melhor de todos os tempos. Mas também gosto de House. Isso, sou do time de George Costanza e Gregory House. Imbecis, estúpidos ou desprezíveis, são o que são, e não enganam ninguém.

9.6.10

Ei, Galvão, vá tomar no cu

O ano era 2002. A cidade, Feira de Santana. E a bebida, uma dose de gin. No bar, as mesmas caras hipócritas. A diferença eram as bandeirolas verde-amarelas penduradas no teto. Na segunda mesa à minha frente, estavam esses caras. Publicitários de outra agência. Riam e jogavam conversa fora como se tivessem um grande futuro pela frente. Pareciam bons rapazes. Eu havia escutado muitas histórias sobre eles, que eram os inimigos, verdadeiros diabos, da mesma forma como escutamos a vida toda a TV falar sobre os argentinos. Acreditei por um tempo. Mas agora eu não sabia de que lado era o inferno. Eram tempos difíceis. Meus dias em Feira pareciam estar chegando ao fim.

Havia uma putinha na mesa ao lado. Sozinha. Pendurada numa mesma cerveja esse tempo todo. Era razoavelmente feia. Tinha um rosto decadente. Feira de Santana era infestada de putinhas decadentes. Não tanto quanto de ratos. Mas tinha bastante. Mas fazer o quê? Eu também era um publicitário decadente em início de carreira. Levantei e fui até sua mesa.

- Quer que eu te pague uma batata-frita? – perguntei.
- Não sei, estou de regime.
- Ótimo, porque eu tô duro. Que tal a gente sair daqui?
- Você tem carro?
- Não, mas tenho uma garrafa de vinho lá em casa e uma televisão bacana pra gente assistir ao jogo.
- Ok – ela disse – Não quero mesmo ver cara do meu pai hoje.
- Aposto que você é a cara de seu pai.
- Meu pai é um escroto. Vamos embora.

Caminhamos uns 15 minutos e assim que abri a porta, a putinha se assustou um pouco.

- Porra, mas você não tem nem um sofá, cara?
- Calminha aí, Lady Di. Eu disse que tinha uma televisão. Não falei nada sobre sofá.
- Que merda você faz da vida?
- Sou uma espécie de puta.
- Acho que vou pra casa.
- Aposto que seu pai não quer ver sua cara hoje. Senta aí que esse colchãozinho é bacana.

O jogo estava marcado para as três da manhã. Até lá, caímos no vinho e fudemos à vontade. Meti em tudo quanto era buraco. Só não variamos as posições porque meu colchãozinho no chão era fino demais, e aquilo estava acabando com meus joelhos. Num desses intervalos, ela disse, “Meu nome é Liliane”. Eu disse “O meu é Rivaldo”. Ela disse, “Você não quer saber por que meu pai é um escroto?”. E eu disse, “Faz o seguinte, vire de ladinho”. Sei que quando o jogo começou, eu já estava com sono e não havia mais vinho. A partida era difícil e os ingleses abriram o placar. Então Liliane começou “Qual é o Brasil?”, “Eu prefiro o Brasil de amarelo”, “Vai, Brasil, dá um gol, dá um gol, Brasil”, “Por que não coloca Kaká?”. Eu perguntei “No lugar de quem, caralho?”. Ela disse “De Cafu”. E eu disse, cala a boca e chupa aqui pra dar sorte. Parece que funcionou. Porque o Ronaldinho Gaúcho fez uma bela jogada e tocou para Rivaldo empatar o jogo. A madrugada lá fora comemorava. Feira estava feliz. O país estava feliz. Nada é tão bobo e artificial quanto torcedores de copa. Então começaram a falar muita merda na televisão e a deixei no mudo. Assisti assim durante um tempo, numa gostosa sensação de paz. Mas o sono foi virando o jogo, eu não tinha mais forças para fuder e adormecemos.

Acordei quando o sol começava a atacar pela fresta da janela. Olhei para os lados, olhei no banheiro, e Liliane não estava mais lá. Olhei para os lados mais uma vez, olhei de novo por toda a sala oca e minha televisãozinha também havia desaparecido. A putinha havia roubado minha TV de 14 polegadas que eu ainda nem tinha acabado de pagar. Abri as janelas e olhei para a rua. Já estava movimentada. Crianças a caminho da escola e outros que transitavam de bicicleta. Pareciam felizes e motivados. O Brasil devia ter vencido o jogo. Nenhum sinal da cachorra. Uma velha vestida num robe vagabundo que varria a calçada olhou em minha direção. Como se soubesse de alguma coisa. Os feirenses são sempre culpados ou cúmplices. Eu tinha vontade de vomitar. E não era ressaca de vinho. Era aquela cidade. Encardida. Traiçoeira como uma puta decadente. Mas como disse, meus dias naquele entroncamento estavam chegando ao fim. Então fechei a janela. E voltei para o colchãozinho no chão. Por um instante pensei na pobre putinha, sozinha lá fora, com os ratos. E não sei por que, lembrei da Copa de 86, a Lapinha toda enfeitada, e da Copa de 94, de Bebeto e Romário, e pensei que com o tempo as copas vão ficando sem graça.

23.5.10

A Próxima Página

Eles me chamam de chato. Recebi dois convites para escrever um blog coletivo. Recusei. Fui convocado para uma dessas festas da propaganda. Descartei, é claro. Me convidaram para uma corrida de kart. Nem respondi. Um cara me encontrou numa dessas redes sociais, disse que tinha lido meus textos e gostado, e queria me dar um livro. Pensei em inventar alguma desculpa e me esquivar. Mas ele insistiu, disse que traria o livro na nova agência. Eu disse, então tá, você que sabe. Evito pessoas novas. Novas situações. Para mim, conhecê-las é sempre um desafio. Não sei como me comportar, o que falar nessas horas. Meus dias já trazem desafios suficientes. As contas. O ônibus lotado. A Libertadores. O job na mesa. O próximo conto. Deus, a próxima página é sempre a mais difícil. Eles me chamam de chato. E eu sigo nos meus dias cinza.

Para não dizer que não fiz nada de novo essa semana, fui tentar essa vacina contra a gripe. O posto estava lotado. Uma fila dos infernos. Peguei a senha 238. Então bate aquela dor de cabeça. Mas na minha frente havia uma cavala. Uma morena com um decote sacana e uma bunda redonda socada num jeans. Eu podia apostar que ela malhava aquele rabo todas as manhãs na academia, fazendo aqueles exercícios escrotos. Estava de mãos dadas com seu filho de uns oito anos. Eu era capaz de assumir aquela criança, lhe compraria um Playstation 3 para ele jogar o dia todo enquanto eu enrabava sua mamãe desmarcada no quarto. Mas olhei novamente para a senha. E o horário do almoço já estava chegando ao fim. Então olhei mais uma vez para o corpo da cavala, memorizei aquele instante, deixei a fila e resolvi encarar aquela gripe.

No dia seguinte, estava encarando um job sem graça, escrevendo os títulos mais imbecis, quando a menina deprimida da recepção avisou que havia uma pessoa me aguardando lá fora. Pensei, lá vem merda. Quando cheguei à recepção, havia esse cara com um livro nas mãos.

- Paulo Bono? – ele disse se levantando.
- Ôpa.
- Ricardo Cury. A gente se falou ontem.
- Ah, sim, claro. Que é que manda?
- Conheci seu blog. Virei fã daquela porra.
- Porra, sinto muito.
- Eu leio e fico me perguntando, “Será que essas histórias são reais?”.
- Às vezes me faço a mesma pergunta.
- Eu também tinha um blog, aí peguei os textos e fiz um livro. Queria lhe dar de presente. Pra ver se você se inspira e publica o seu.
- Que bom. Pensei que você fosse um desses viados lunáticos.

Conversamos mais algumas bobagens. Ele disse que também já fora redator, mas perdeu a paciência, largou a propaganda e montou um negócio. Falamos também sobre blogs, sobre a disciplina da escrita, ele contou algumas histórias, e até a menina deprimida da recepção deu uma risadinha. Então nos despedimos, fiquei com o livro e voltei para o job.

À noite, no ônibus, dei um tempo no Chandler e peguei o livro desse Cury. Era um puta livro. Bem editado. Uma capa bacana. Havia uma dedicatória “Espero que você se divirta, como eu me divirto com seu blog”. Bem, o livro é divertido. Ele conta histórias de seu cotidiano, desde a adolescência, sua família, seus amigos e, principalmente, sobre o rock. Descobri que ele havia sido baterista da brincando de deus, umas das melhores bandas de rock que a Bahia já produziu. Contava histórias sensacionais, dos shows, das viagens, e no fim de cada capítulo trazia as capas dos discos, os quais ele fazia referência. Eu sempre quis fazer parte de uma banda de rock. Por isso começava a sentir inveja de suas aventuras. E era um texto leve, solto, agradável e muito bem escrito. Eu me perguntava, será que esse cara não tropeçava diante de cada texto? Será que ele precisava dar uma folheada em O Capitão saiu para o Almoço e Trilogia Suja para se inspirar? Será que ele também não dormia direito se não conseguisse despejar as palavras na tela do computador? Será que ele não suava diante do desafio da próxima página? O título do seu livro? Para Colorir.

11.5.10

Anjos e Vírus

Eu queria escrever sobre o camaleão que encontrei em frente ao apartamento. Mas deu esse problema no computador. Não entendo nada de computadores. Apenas digito as teclas. Então o levei até essa lojinha do bairro, uma espécie de lan house e assistência. A putinha do balcão mascava chiclete e perguntou qual era o problema. Expliquei a situação. Ela fingiu que entendeu e disse que ia chamar o técnico. Eu até já sabia o que o sacana ia falar. Eles sempre perguntam há quanto tempo você tem o computador e dizem que quando chega nesse estado, o melhor é comprar outro, que deve ser vírus, que vai precisar de um tempo para consertar. Tudo faz parte de uma farsa. No fim das contas, ninguém sabe consertar de verdade um computador. Vem um e diz, o problema é na fonte. Você troca a fonte, uma semana depois o problema volta. Vem outro e diz, cara, o problema aqui é de memória. Você aumenta a porra da memória, e uma semana depois está lá a bosta quebrada de novo. “Ah, conheço um cara que manja”. Mentira. Ninguém conserta porra nenhuma.

Eu aguardava o técnico quando avistei, do outro lado da rua, uma figura que há muito tempo não o via. Um coroa esquisito, com cara de retardado, mal vestido e que só anda tomando Coca-Cola. Sempre achei que esse retardado fosse meu anjo da guarda ou coisa assim. Acontece que ele me acompanha desde os tempos da Lapinha. E onde quer que eu trabalhasse, onde quer que eu fosse, lá estava esse cara, no ponto de ônibus, na Fonte Nova, na fila do cinema, sempre com a mesma roupa. Sempre tomando Coca-Cola. Ele andou sumido quando morei em Feira de Santana. Talvez por isso eu tenha me batido com gente da pior espécie e caído em algumas armadilhas. E lá estava ele agora. Com seu pescoço curvado para baixo, em frente à banca de revista e tomando Coca-Cola. Se eu acredito em anjo? Bem, eu não acredito em publicitário e em técnico de informática, mas em anjo eu acredito. Ainda mais daquele naipe. Feio, com cara de bobo e bebedor de Coca-Cola. Esse merda só podia ser meu anjo da guarda. Eu estava justamente desconfiando se ele apenas fingia ser retardado, quando o técnico chegou. Na minha frente, um cabeludo com uma barbicha esquisita. Eu podia apostar que ele estava queimando um lá atrás.

- E aí? – disse o técnico.
- Tá desligando sozinho - eu disse.
- Hum...
- Do nada, ele desliga.
- Tem quanto tempo esse computador?
- 4, 5 anos.
- Vê site pornô?
- Quem não vê?
- Você é parente de Jonas?
- Que porra de Jonas?
- Jonas. Jonas Cabeça?
- Não.
- Porra, você parece com um amigo meu.
- E aí?
- O quê?
- O computador.
- Deve ser vírus.
- E aí?
- Preciso dar uma olhada.
- Sei...
- Vai levar um tempo.
- Me diz uma coisa...
- Hum.
- Você também tá vendo aquele cara ali?
- Hum?
- Do outro lado da rua, tomando Coca-Cola. Você consegue ver?
- É, parece retardado.

Deixei o computador com o técnico em maconha e atravessei a rua, até a banca de revista. Meu anjo ainda tomava sua Coca-Cola. Me aproximei e fiquei do seu lado.Estava concentrado nas capas das revistas populares. Numa delas, dizia “O Luto do Rei”, falava da morte da mãe de Roberto Carlos.

- Que os anjos levem a velha – eu disse.

O retardado não olhou para minha cara.

- Um dia a gente tá vivo, no outro tá morto...
- ...
- O negócio é se apegar ao anjo da guarda...
- ...
- É o seguinte, cara. Pode abrir o jogo.
- ...
- Eu já saquei...
- ...
- Nunca acreditei mesmo nesse negócio de anjo com asa, cachinhos amarelos, aquela viadagem toda, se bem que nem sei direito se você não tem asa, pode tá disfarçando com essa cara de retardado, da mesma forma que isso aí não é Coca-Cola nem aqui no inferno, não acaba nunca. Você me abandonou em Feira, mas tudo bem, já passou. O importante é que você tá por perto agora. Só podia ter sido uma puta providência divina aquela menina no ônibus não ter vomitado em cima de mim. Só queria dizer que agradeço por tudo e continue fazendo seu trabalho.
- HÃUÃ HÃUÃ HUÃ AAHUÃ AHHHUÃÃÃÃÃ AUÃ, IADO!

Meu anjo falou lá qualquer coisa na língua dos anjos e não sei o quê, não sei o quê viado, e saiu puto. Praticamente evaporou.

E a vida seguiu. O maconheiro disse que o problema era vírus. Que formatou a máquina. Que só perdi minha pasta de músicas internacionais, e cobrou 80 conto pelo serviço. O computador ficou bom. Mas ontem deu pau de novo, e só pude terminar esse texto na agência.

25.4.10

Slow Motion

Sobre Nina, lembro de sua generosidade. Certa vez, ela estava naqueles dias. Mas fez questão de me chupar. E não foi um boquete qualquer. Nina me chupou sem se preocupar com as horas. Sem pensar no tempo. Um boquete em slow motion. Sem pressa. Subindo. E descendo. Subindo. E descendo. Centímetro por centímetro. Subindo. E descendo. Devagar. Bem devagar. De olhos fechados. Como se sonhasse. Enquanto eu tremia. E viajava. Pelo infinito. Até explodir e bater a cabeça na cabeceira da cama. Evitando qualquer desperdício, Nina me sugou até o fim. Depois sorriu e deitou a cabeça no travesseiro. Então liguei a TV.

- Caralho – eu disse – que horas são? Já é Serginho Groisman.
- Deve ser uma e tanta – disse Nina.
- Não tenho mais saco pra esse cara.
- 01h43.
- Tudo é certinho, do bem, tudo politicamente correto. Vai tomar no cu.
- Por que você tá comigo?
- Hum?
- Por que você tá comigo? Por que você gosta de mim?
- Porque você faz um boquete slow motion sensacional.
- Nojento.
- Tô brincando.
- Baixo astral.
- Porque você sabe das coisas.
- Que coisas?
- As coisas que eu gosto.
- O que mais?
- Que mais o quê?
- Que mais você gosta em mim?
- Porra, sei lá, gosto da cara que você faz quando tá curtindo alguma coisa, algum filme.
- Como assim?
- A cara que você faz. Você fica sorrindo assim.
- O que mais?
- Porra.
- Sério. Porque você tá comigo?
- Por causa do seu yakisoba.
- Que mais?
- Porque você me apresentou ao cinema argentino.
- Yeah.
- Se bem que também te apresentei aos Smiths.
- To die by your side is such a heavenly way to die.
- Ó, meu pau ainda tá duro.
- Vai ficar aí. Porque eu já vou dormir.
- Eu também. Foda-se o Serginho Groisman.
- E amanhã?
- Amanhã o quê?
- Vamos na praia?
- Sol dos infernos.
- Zoológico?
- Aqueles macacos me deprimem.
- Você não gosta de nada.
- Gosto de você.
- Quer saber por que estou com você?
- Vá pra praia, chame suas amigas.
- Hein, quer saber por que gosto de você?
- Não.
- Por que não?
- Porque não vou acreditar.
- Porra, Paulo, começou com seus peidos?
- Porra, preciso peidar.
- Chegue pra lá, vai, chegue pra lá.
- Eu já tô na ponta da cama.
- Puta que pariu. Você consegue ficar na ponta e no meio ao mesmo tempo.
- Ok, então qualquer dia desses você me troca por um cara magro, que ocupe pouco espaço, que não peide, que tenha o pau grande e que goste de ir à praia, um cara legal de verdade.
- Boa noite, Paulo.
- Deixa eu ficar vendo seu peito.
- O quê?
- Deixa ele à mostra. Pode dormir. Não vou fazer nada. Sou vou ficar olhando.
- Seu tarado.
- Isso. Só vou ficar olhando. Até dormir.
- Obsceno.
- Durma bem, pequena.

11.4.10

Anônimo

Eu estava sozinho. Fazia quatro meses que Nina havia me deixado. Também estava distante. No outro lado do país, para ser exato. Consegui esse emprego. Seriam só alguns meses. Mas pagavam bem. Numa dessas noites, lembrei da geladeira vazia. Passei no mercado. É bom fazer mercado quando se está sozinho. Se não existe mais ninguém, é só você e sua vontade. Nada de arroz, frutas ou temperos. Somente o necessário. Pão, salame, presunto, queijo, vinho, macarrão instantâneo, cinco litros de água mineral, uma lâmpada e biscoitos recheados. Você pensa, o gordo só comia bobagens. Eu estava cagando para a morte. É preciso ter motivos para se preocupar.

Havia essa peitudinha na sessão de congelados. Uma bela fêmea empurrando seu carrinho. Nos mercados, as mulheres parecem mais gostosas. Ou pelo menos doidas para fuder. Eu podia me aproximar e, como quem não quer nada, perguntar, “Sabe dizer se essa lasanha é boa?” Ela diria, “Sim, é uma delícia”. Então trocaríamos algumas frases e iríamos dar uma boa trepada no motel barato mais próximo. Assim, sem levar as compras ou perguntar o nome. Então me aproximei. Peguei uma daquelas lasanhas congeladas e, como quem não quer nada, perguntei, “Sabe dizer se essa lasanha é boa?” Ela disse, “Desculpa, não sei”. E enquanto eu concluía que ser feio não é relativo, é universal, se você é feio, é feio em qualquer canto do país, peguei uma daquelas feijoadas prontas e fui para o caixa.

Peguei a fila para poucos volumes. Na minha frente, só dois caras. Estavam juntos, com o mesmo carrinho. Devia ser um casal de viados. Já estavam colocando suas compras na esteira do caixa. Notei que o carrinho deles estava cheio. Olhei para a placa pendurada, que dizia “Exclusivo para 20 volumes”. Bem, eles podiam dar seus rabos para quem quisessem. Mas eu não sou otário. Então me aproximei.

- Licença – eu disse. E comecei a contar os itens do casal – “1, 2, 3, 4, 5...32”.
- Qual o problema, amigo? – perguntou um deles.
- Não tenho nada contra vocês, rapazes. Vocês podem fazer o que quiser nessa vida, menos passar por esse caixa.
- O que foi que ele disse, Sérgio? – perguntou o outro.
- Eles têm 32 volumes – eu disse à putinha do caixa – Você vai deixar passar?
- Olha, eu só quero ir pra casa – disse a putinha.
- Não tinha ninguém quando a gente chegou, amigo – disse o primeiro.
- É verdade – disse a putinha – não tinha ninguém.
- Puta que pariu – eu disse – Mas tá escrito exclusivo para 20 volumes. EXCLUSIVO. E não preferencial. Vocês têm 32 volumes, caralho.
- Deixa pra lá, Sérgio – disse o outro.
- Não. Nós vamos passar – disse o Sérgio.
- Você tá armado? – perguntei.
- Oi?
- Você tá armado?
- Claro que não.
- Então você não passa.
- Sérgio! – disse o outro.
- E você – eu disse à putinha – pode chamar o gerente, o papa, o delegado ou qualquer alfabetizado para explicar a porra dessa placa pra vocês.
- Sérgio, porra! Vamos pra outro caixa.
- Escute seu companheiro, Sérgio.
- Deixe esse gordo estúpido.
- Assim é melhor. E leva esse queijo frescal pra casa do caralho.

O mercado era próximo do apartamento. Fui caminhando. Durante o caminho, eu também concluía que o respeito por placas também é o mesmo em qualquer parte do país. Parece bobagem, mas essas pequenas coisas me esgotavam. Pelo menos eu estava sozinho, eu pensava. O inferno era só meu. Eu me lembrava de todas as pessoas que eu já havia decepcionado e das que eu frustraria pelo resto da vida. Estar só fazia com que tudo parecesse mais leve. Saía de casa, tomava café na padaria, escrevia lá os textos idiotas, recusava convites e voltava para casa. Ninguém esperava por mim. Eu não esperava por ninguém. Nada de cobranças. Nenhuma expectativa. Nenhuma frustração. Nenhuma palavra de carinho. Também nenhuma palavra perfuro-cortante. Apenas eu e minha vontade. Era bom percorrer aquelas ruas, sem saber onde me encontrava. Como um forasteiro, um estrangeiro, um estranho. Um anônimo. Ninguém importante. A vida como um ônibus coletivo. Milhares de pessoas à minha volta e ninguém conhecia nem o biscoito nem o câncer Paulo Bono. Lembro que quando Nina saiu, disse “Seu futuro é sozinho”. Talvez estivesse certa. Ela só se esquecera de dizer, sozinho e distante. Era melhor assim. Lembro que certa vez, a caminho do trabalho, um cara me perguntou onde ficava tal rua. E foi muito bom dizer, “Desculpa, mas eu não sou daqui”.

28.3.10

Punheteiros

Quentinha só vem arroz. Você pode pedir na Tancredo Neves, na ACM, no Comércio, em Brotas, em Feira de Santana, não adianta. Acho que em qualquer lugar do mundo, quentinha só vem arroz. Deve haver uma espécie de norma padrão das quentinhas. Não importa o que você peça. Carne, frango, peixe, strogonoff, o caralho que for, pelo menos 60% da quentinha é arroz. Uma alternativa são esses restaurantes em quilo. Mas estão cada vez mais caros. Vejo algumas figuras. É preciso estar sentado numa boa grana ou pelo menos não estar muito preocupado com a conta do gás, para pagar 15, 20, 25 conto de almoço todos os dias. Por isso Ploc mandou bem quando descobriu esse lugarzinho.

O lugar é pequeno, simples, mas bem arrumado. Cadeiras e mesas de plástico. A TV ligada nas notícias do futebol. E uma boa comida. Nada de quiche, fricassé ou risoto de salmão. Comida simples. Feijão, arroz, carne, frango, batata frita, saladinha, farofa, essas coisas. Tudo bem temperado. E o melhor, por um preço digno. Além de tudo, o lugar era bem freqüentado. Havia essas putinhas. Toda hora chegava uma putinha diferente. Uma melhor do que a outra. É preciso reconhecer e agradecer esses achados.

- O lugar é bom – eu disse.
- Tô dizendo – disse Ploc – É barato pra caralho. Ó meu prato. 11 reais. Onde é que vou encher o prato desse jeito naquelas porra cara dos inferno da Tancredo Neves e só pagar 11 conto?
- Ali é coisa de maluco – eu disse.
- Falar em maluco, Bono! Você viu o Big Brother? Puta que pariu...
- Já sei, já sei...bati uma bronha!
- Você viu aquela puta?
- Vagabunda! Eu bati uma bronha!
- Fazendo a “bundinha louca”...
- Bundinha maluca...
- Bundinha maluca! Meu cacete subiu na hora.
- Tô dizendo, bati uma bronha.
- A porra da bunda tremia assim, velho, parecia aqueles cachorrinhos que a galera bota no carro e fica com a cabeça balançando assim...
- Você viu que a desgraçada disse que já lambeu do chão?
- Eu vi! Cachorra. Ali sabe fazer, Bono.
- Falar em saber fazer – eu disse – Aquele link que você mandou.
- Do caralho, né?
- Você sabe das coisas.
- Vintage, Bono. Meu negócio é vintage.
- Melhor que essas porra de agora.
- Anos 80. Anos 80 e 70. Você precisa ver meu arquivo. Cicciolina, Nina Hartley, Angélica Bella, só as feras, os franceses, Buttman, tenho todos os clássicos, minha favorita é Cicciolina, tenho a obra completa.
- Esses filmes de agora, você liga, a porra já começa com a mulher chupando a pica do cara, assim, do nada, começa os créditos, logo depois tá a mulher chupando a pica do cara. Chega a ser imbecil.
- É isso. Naquele tempo tinha história.
- Hoje fica só a putinha loira sentada no pau do cara...
- É, é sempre loira...
- Sempre loira. Tudo igual, tudo com a mesma carinha de idiota, com as buceta tudo igual, tudo raspada, e o cara mete ela de quatro, e elas ficam fazendo aquelas carinhas de sempre, oh, yes, oh, yes, fuck me, oh, yes, com a vozinha fina.
- Mas raspadinha é melhor de chupar, Bono...
- Sim, porra. Mas são todas iguais, tudo estilo putinha da Malhação, aquelas menininha tudo igualzinha. Eu como, não tô dizendo que não como, lasco em banda, é porque não me dão mole, mas se der, lasco em banda. Eu tô dizendo que eu prefiro mulher de verdade. Porra, sacanearam a Playboy da Young porque a mulher era cabeluda e não tem a bunda das meninas do Pânico. Eu pensei, então não sei mais o que é mulher! Ela é gostosa. Foi assim que cresci vendo mulher pelada, na revista, ou vendo a empregada de relance, eu via era aquele trianguluzão preto na frente, peito normal, celulite e tudo, então isso ficou na minha cabeça, porra. Por isso eu gostei dessa parada aí...
- Vintage!
- Vintage...
- Você precisa ver meus favoritos. Mais de 300 sites. Tem tudo, ninfeta, amadoras, anã, gordas, albinas, negonas, coroa, hardcore, bondage, bondage eu não curto não, tem grupal, japonesas, aquelas colegiais japonesas, saca?
- Tô ligado.
- Tem desenho animado, tem tudo, mas o carro chefe é vintage.
- Manda essa porra de vintage pra mim.
- Mando, você vai pirar.
- Putinha, putinha, putinha entrando...
- Porra, essa é gostosa, Bono.
- Peitão do caralho...
- Rabo da porra...
- Essa dá o cu.
- Será que lambe do chão?
- Não sei, mas com certeza dá o fofinho.
- Chupa que é uma beleza – disse Ploc enquanto dobrava a manga esquerda da camisa
- Pra que isso?
- Pra eu não esquecer de bater uma punheta.
- E aí, vamo embora?
- Rapidinho, acho que vou pegar um segundo tempo de batata frita.

Realmente o velho Ploc Monster sabe das coisas. Essa de dobrar a camisa é boa. Já esqueci muitas vezes de bater umas bem merecidas. Bom, Ploc só não sabe que eu já bati uma linda bronha em homenagem à senhora sua mãe. Conheci a cora quando ele me chamou para almoçar em sua casa. Uma mulher elegante, bonita, belas pernas, peitos de verdade, bunda de verdade, uma mulher de verdade que certamente tinha uma buceta de verdade. Eu peguei leve, comi pouco. Ela disse “Coma à vontade, Bono” e depois, “Volte sempre, Bono”. À noite, eu só pensava naquele “Volte sempre, Bono”. Bati uma bela de uma punheta embaixo do chuveiro. Pensando na coroa, na mãe de Ploc. Em sua cama. Enquanto Ploc estivesse no curso de inglês. Uma foda quase romântica. Eu chupava seus peitos devagar. Eu dizia, “foi nesses peitos que você deu de mamar a Ploc, foi? Seus peitos são lindos. Eu te amo. E metia devagar. Foi gostoso. E vou dizer uma coisa. Foi uma energia diferente. Foi uma das punhetas mais reais que já bati. Talvez, do outro lado da cidade, a mãe de Ploc tenha sentido até um leve arrepio nos pelos de seu triangulo. Com todo respeito.

14.3.10

Mãozinha! Mãozinha! Mãozinha!

Toda manhã quando chego à agência e alguém me diz “Bom dia, Bono”, eu penso “Deus, me ajuda a marcar ao menos um ponto”.

Agora o pessoal da nova agência inventou esse jogo. Mãozinha. Uma espécie de ping-pong improvisado na mesa da criação. Jogado com as mãos e uma daquelas bolinhas terapêuticas feitas de espuma. Basta dar o horário do almoço que alguém diz, “Mãozinha! Mãozinha! Mãozinha!”. É divertido. Ajuda passar o tempo. As partidas são disputadas e os caras são bons. O melhor deles é um amarelo que trabalha no estúdio. Ele é de Feira de Santana. Deve roubar de algum jeito. Bom, já tentei algumas vezes. Sou o pior da agência. Como já era de se esperar. Não importa contra quem quer que seja. Sempre entro no jogo achando que vou perder. É o que acontece na maioria das vezes. É uma surra atrás da outra. 12 x 7, 12 x 6, 12 x 5 e, não raramente, 6 x 0. As piadas são as mesmas. “O gordo é o mais fraco”, “Venha, Bono, tomar outra surra”, “Vou botar esse gordo pra suar”.

Mas não é apenas a Mãozinha que vem me tirando o fôlego. Tem também esse job. De um laboratório. Para dizer que se trata de um laboratório bonitinho, do bem, da vida, do caralho que for. Cheguei a escrever algumas linhas. Mas não agradaram aos diretores. Nem a mim. Eles dizem “Relaxa, que a idéia chega”. Mas algo me diz que não vou conseguir. O trabalho está em minha mesa há semanas. Está ali, travado, encardido, seboso, fedendo a merda. Já faz parte de mim. É nessas horas que me acho o mais fraco da história. Imagino que todos que vieram antes de mim eram melhores do que eu. E todos que virão serão melhores. Outro dia, no ônibus, vi um maluco falar em equações, novela das oito e até em crise mundial. Com esse papo, ele vendeu 7 tabuadas. Isso mesmo. 7 tabuadas. No ônibus. Meu saque não é lá essas coisas e não sei nenhuma jogada de efeito. Eu jamais conseguiria vender uma tabuada. Mas aposto que aquele maluco venderia dois laboratórios, se quisesse. “Relaxa, que a idéia chega”. Chega porra nenhuma. Esse job tem dormido ao meu lado há duas semanas. Quer dizer, só ele vem dormindo. Porque a insônia me acompanha. Fico pensando, ah, porra, vai ver não sirvo para isso. Talvez não tenha sucesso com tabuadas, mas posso vender frutas, escrever letras de axé ou tentar o serviço público.

“Relaxa, que a idéia chega”. Diretores de criação só servem para fumar maconha e falar merda. Mas nisso eles tinham razão. Eu estava justamente relaxando numa partida de Mãozinha. O elemento de Feira mandou uma paralela escrota e disse “Receba, gordo!”. Não sei como, mas consegui rebater a bola na diagonal e ainda marcar o ponto. Eu disse “Cuidado com sua vida, Amarelo!”. Foi quando a porra da idéia do laboratório chegou.

Naquela tarde não houve tempo nem para uma mijada. Escrevi toda a campanha, os diretores gostaram e salvei a minha pele no último set. Pelo menos ganhei tempo. Eu sabia que viriam outras partidas e mais cedo ou mais tarde, eles me pegariam. Descobririam toda a farsa. O que não demorou muito. Porque a cliente reprovou a porra toda. Achou as peças bonitas e inusitadas. Mas que não era a linha. Disse que não entendeu a parte que dizia “A vida não é um jogo”. VT, rádio, anúncio, outdoor, internet e mala direta. Tudo bola fora. Mais um 6 x 0 no currículo.

8.3.10

Desequilíbrio

Lá vem o gordinho. Da janela, sempre vejo esse gordinho voltar da escola. Tem no máximo uns 12 anos. Deve estar passando por momentos difíceis. Outro dia o vi chegar com a camisa rasgada. Chorando. Agora estava apenas com a cabeça baixa. Chutando uma lata pelo caminho. Lembro bem disso. Não é fácil ser gordo, filho. Tinha vontade de dizer a ele, ao gordinho, que as armadilhas só começam desaparecer quando ele der o primeiro soco. O primeiro soco é peça chave. Tenho pensado demais em dar alguns bons diretos esses dias. Talvez seja o calor. Uma vez, Nina disse que eu estava perdendo o controle. “Você está ficando maluco, Paulo”. Só porque soltei alguns porras, caralhos e merdas enquanto procurava o controle remoto. Realmente essas coisas me tiram do sério. Essas pequenas coisas que impedem que a vida flua tranquilamente. Como não conseguir abrir um pacote de biscoito. Ou não conseguir abrir uma camisinha. Ou alguém cantando atrás de você na fila das Americanas. Ou não encontrar o controle remoto. Ok, assumo a minha estupidez. Mas existem coisas piores. Como ser hipócrita ou gostar de pagode. Além disso, é mais digno que falem, “lá vem o gordo estúpido” do que “lá vem o gordo otário”. Eles só mexem com quem está quieto. Já passei pela sexta-série. Hoje em dia prefiro morder a ser mordido. Dói menos. O problema é que ninguém pode ver um gordinho, que acham que é otário. São os apelidos escrotos. É o lanche que roubam. É o tênis que escondem. É o freela que não pagam. O vendedor que enrola. O médico que se atrasa. O pedreiro que não aparece. São também os crentes que batem na porta. É a operadora de telefonia que cobra 100 reais a mais na fatura. É aquele garçom que se acha esperto.

Outro dia fui almoçar com o pessoal da nova agência. Num desses restaurantes da orla que dizem ter o melhor caranguejo da cidade, como se isso fosse grande coisa. As pessoas da nova agência, elas também me irritam. Estão sempre felizes. Estavam lá, contando piadas, inventando joguinhos e dinâmicas, todas elas sorrindo. Quando resolvi perturbar a paz e perguntar ao garçom se a farofa que acompanhava a moqueca era de dendê. Ele disse que era. Perguntei novamente, ele confirmou que sim. Deve ser a minha cara de gordinho otário, porque logo depois o filho da puta apareceu com um potinho de farofa de manteiga. “Essa porra não é de dendê”, eu disse. O sacana disse, “É, senhor, farofa de dendê”. Eu disse, “Caralho, meu irmão, diga qualquer coisa, mas não insulte minha inteligência, essa porra não é de dendê”. Nessa hora, os felizes da nova agência começaram a dizer que eu reclamava de tudo. Então apareceu outro garçom, e disse que realmente a farofa não era de dendê. Foi quando o primeiro garçom, o filho da puta, olhou pra minha cara, sorriu, fez sinal de positivo, e disse, “Mas essa é da boa!”. É claro que eu disse, “Vai tomar no cu!” Depois até trouxeram uma farofa de dendê. Claro que não comi. Devia estar mijada, no mínimo. Logo depois, os felizes da nova agência começaram aquela conversinha de Natal:

- Pode ser assim não, Bono.
- Que é isso, Bono?
- Por causa de uma farofa?
- Cara, você tá muito nervoso.
- Eu não tô nervoso – eu disse – só cansei de ser o gordinho da escola.
- Você precisa de uma terapia, Bono. É sério.

21.2.10

A Menina que Contava Aviões

É que tem uma época que a gente realmente acredita que tem poderes especiais e que vai mudar a porra do mundo. No meu caso, acho que a culpa foi do George Lucas. Mas enfim, as coisas mudam. A gente muda que nem percebe. Quando dei por mim, já era gordo e careca. E trabalhava numa pequena e decadente agência de Salvador. Para completar, tinha ao meu lado uma mulher que não gostava de cachorros. Eu precisava virar aquele jogo. Imediatamente. É possível chutar o balde e mudar a direção a qualquer momento, em qualquer idade. Mas vou dizer uma coisa. É melhor fazer o que tem de fazer o quanto antes. Caso contrário, corre-se o risco de acostumar-se à infelicidade. Bem, naquele ponto, eu já tinha consciência que não iria muito longe com meus títulos publicitários. Mas precisava recomeçar de alguma forma. Então dei um chute na bunda fria de Regina e decidi passar um tempo só fudendo. Nada de flores nem mãozinhas dadas na fila do cinema. Só queria salvar a minha saúde mental. Só queria gozar. Foi então que conheci algumas mulheres. Muitas delas, loucas. E entre elas, Maria. Branquinha, quase pálida, trabalhava no Banco do Brasil. Enquanto me atendia no caixa, eu lhe contava algumas histórias. Ela ria ansiosamente e parecia cheia de energia. Um dia nós fomos até seu apartamento e trepamos a tarde toda. Maria era meio desengonçada, mas topava tudo e me deixou meter em todos os buracos. Além disso, ela chupava que era uma beleza. Quando terminamos, Maria se levantou e sentou-se, nua, junto à janela. Eu estava esgotado.

- Você é danada, Maria – eu disse – uma branquinha danada.
- Me achei meio desengonçada – ela disse – Nunca fiz isso antes.
- Fuder com um gordo?
- Não. Por trás. Essas coisas.
- Você sabe chupar como ninguém, Maria.
- TAM.
- Eu disse, chupar você sabe. Como ninguém.
- Não, eu disse, TAM. Tá passando um avião da TAM.
- Ah.
- Paulo – ela disse.
- Oi.
- Como foi sua infância?
- Perfeita. Na Lapinha.
- Sabe o que eu fazia quando era criança?
- Hum?
- Ficava contando os aviões que passavam – disse olhando para o céu e encostando o braço e o queixo na janela.
- Legal.
- Legal, nada. Coisa de quem não tinha nada melhor pra fazer.
- Hoje é sábado, né?
- Você disse que adorava os filmes dos Trapalhões?
- Pra caralho.
- Eu nunca assisti nenhum filme dos Trapalhões no cinema. Meu pai não tinha dinheiro. Enquanto as crianças normais brincavam na rua, corriam, tinham bonecas, iam pro shopping, assistiam filmes dos Trapalhões, sabe qual era o meu lazer?
- Rapidinho, posso me limpar com sua calcinha?
- Pode. Sabe qual era o meu lazer?
- Hum?
- Minha mãe me pegava e dizia, vamos passear de ônibus. Era o que o dinheiro dava. Era só a passagem dela. Eu entrava pela frente. Aí a gente pegava Ribeira, que dava uma volta danada pela cidade e pronto. A gente nem descia do ônibus. Rodava, rodava e voltava pra casa. Era meu lazer no domingo.
- Porra, Maria. Agora você me deixou na merda.
- A gente também ia pro zoológico. De vez em quando. Era de graça. Oh, lá vem outro. Gol. Você percebe logo pela cor. Cresci assim, fazendo coisas idiotas. Pra passar o tempo. Decorava nome de carro. Ficava vendo os nomes das cidades nas placas. Colecionava pedras. Conversava com as minhas amigas paredes. Eu dizia, “Oi, tudo bom?”, dando três beijinhos na parede. Mas o que eu mais fazia mesmo era contar os aviões. Eu ficava deitada no quarto, olhando pela janela. Olhando e anotando. Você acredita que eu tinha um caderninho só pra isso?
- Sério. Você me deixou na merda.
- Acho que o que mais passava era Varig. Tinha Varig, Vasp, Transbrasil. Transbrasil era fácil de ver porque a calda era um arco-íris. Hoje passa mais Gol.
- É, a Gol tá retada.
- Fazia tempo que eu não contava aviões – disse Maria com os olhos cheios de lágrimas, mas com um sorriso bobo no rosto.
- O que é que você tá rindo?
- Seu saco. Me lembrou a carinha enrugada de minha avó.
- Dá um beijinho nele, então. Você me deixou na merda, mas se der um beijinho, quem sabe...
- Você é engraçado, Paulo Bono.

Maria foi a mulher mais triste que já conheci. Por um instante, pensei em cuidar dela para sempre. Acontece que eu não era mais um Jedi. E acho que Maria também passava por uma fase importante e só queria gozar. Eu também precisava seguir em frente. Engrossando a casca. Amadurecendo a cabeça do pau e a alma. Não podia retroceder. A vida não era feita de sonhos. Finalmente eu estava aprendendo. Aprendendo aos poucos. Cada dia é uma página. E eu só viria a ler Misto-Quente dois anos depois.

7.2.10

As Duas Bucetas de Brotas

Não sei que porra é. Um beijo entre duas mulheres parece sempre mais gostoso do que entre um homem e uma mulher. Pensei nisso o tempo todo a caminho do apartamento de Layla, em Brotas. Pensei bastante. Porque peguei dois ônibus. Não entendo Brotas. O bairro é gigantesco e, ao mesmo tempo, contramão para todos os lados. Quanto a Layla, era uma colega da pós. Marcamos um trabalho juntos. Meu ovo estava coçando porque eu sabia que ela colava velcro e vivia com a namorada.

Toquei a campainha no sétimo andar. A porta se abriu. Era Layla. Vestia uma camiseta de flanela. Cheirosa como sempre. Era um lugar pequeno e colorido. Havia um pôster de O Iluminado na parede da sala. A namorada de Layla estava no sofá, com umas das pernas flexionadas e apoiadas no assento, exatamente como meu tio assiste à Fórmula 1. Layla tratou de fazer as apresentações e sentou ao lado de sua morena, que se chamava Cris. Sentei no outro sofá bem em frente às duas.


- Então você é o fã do Cazuza – disse Cris.
- Não, sou fã do Renato Russo – eu disse.
- Ah, Bono, pensei que fosse do Cazuza – disse Layla.
- Enfim, ambos eram do caralho – disse Cris.

Layla estava um pouco ofegante e com o cabelo assanhado. Cris estava suada. Talvez eu tivesse chegado num mau momento. Ou num bom momento, quem sabe.

- O bom e velho Contreau – eu disse ao perceber de longe a garrafinha sobre a geladeira na cozinha americana.
- Só tem Coca-Cola – disse Cris, me cortando ao meio.
- Bastante gelo então.
- Neguinha, pegue lá – disse Cris para Layla, mostrando quem é que mandava naquela porra.

Mas Layla parecia mesmo mais feminina. Era um tanto doce e frágil. Enquanto Cris tinha a voz firme e até um bigodinho. Talvez tivesse cabelo no sovaco. Devia fazer o papel do macho na hora do vamos ver. Mas Cris sabia como ser sexy e tinha classe. Além disso, eu já tinha ouvido falar que essas bigodudas têm o pinguelo grande e gozam feito loucas. Em questão de segundos, Layla trouxe a Coca-Cola.

- Cris – disse Layla – uma vez Bono me perguntou se eu não preferia trepar com um homem.
- Sério? – perguntou Cris.
- Mais ou menos isso – eu disse.
- O que você tem contra mulher que trepa com mulher? – Cris perguntou enquanto acendia um cigarro.
- Na verdade, nada – eu disse – Pelo contrário. Acho que toda mulher devia experimentar outra mulher. Falo isso do fundo do coração. Afinal, uma xota ainda é a melhor coisa nesse mundo de merda, não acha?
- Que mais? – disse Cris
- Que mais o quê?
- Que mais você queria saber sobre mulheres que trepam com mulheres?
- Bem, pouca coisa – eu disse – Por exemplo, por que esse lance todo com Ana Carolina?
- Qual é o problema? – disse Cris – Você gosta de Cazuza.
- Do Renato Russo.
- Ambos davam o chicote.
- Não é o meu caso.

Percebi que o clima estava esquentando. Layla estava quase no colo de Cris, que lhe acariciava os cabelos. Percebi também que Cris queria comandar a situação. Mas ela esquecia que naquela sala só eu tinha um par de ovos.

- Percebi que você não tira o olho de meu bigode – disse Cris.
- É um belo bigode – eu disse.
- Você deve estar pensando que eu sou pingueluda.
- Tava pensando que você precisa de um barbeador.
- Eu gosto de bigode – disse Layla beijando Cris.
- É verdade, eu tenho um pinguelo é enorme.
- Tenho certeza que é um baita pinguelo.
- Aposto que meu pinguelo é maior que seu pau.
- Aposto que seu pinguelo não jorra leite.
- Neguinha, serve o Contreau pra ele.

Então Layla me trouxe a garrafa e as coisas esquentaram de vez. Layla sentou no colo de Cris, e as duas começaram um lento e delicioso beijo. E vou dizer uma coisa. Um beijo entre duas mulheres com certeza é mais gostoso do que entre um homem e uma mulher. Não sei como essas diabas faziam, mas era um beijo macio e cremoso, as línguas davam voltas, em câmera lenta, e dava um nó assim, e as salivas se misturavam, só aquele beijo safado já valia uma punheta, mas eu queria chupar as duas e ser chupado por elas, fazer o triângulo do amor, dar uma surra de pica nas meninas, colocá-las de quatro, agarrar os cachos de Layla, dar um tapa no rabo de Cris, botar em uma, tirar, botar em outra, meu Deus, eu queria ter duas picas, lascar em dobro, gozar na cara das cachorras e ser feliz. Mas quando Cris já estava alisando a xoxota de Layla, e meu pau já estava pra fora, a campainha tocou. Cris soltou o "puta que pariu" mais elegante que já ouvi em minha vida. Então Layla foi ver quem era pelo olho mágico e voltou nervosa.

- É meu marido!
- Marido? – perguntei.
- Ex-marido! – disse Cris.
- Vá por quarto – disse Layla me empurrando.
- Você não é sapatão, caralho? – eu disse.

Layla me empurrou até o quarto e fechou a porta. Nesse estágio, nem eu nem meu cacete estávamos entendendo mais nada. Sentei na cama e tentei ouvir a conversa. Falavam alguma coisa sobre dinheiro, contas, sapatão, trabalho, sacana, leite, escola e filha. Eu pensei, “filha”, que porra é essa? E de repente começaram os gritos: “MIL REAIS O CARALHO! MIL REAIS O CARALHO!", “É PRA SUA FILHA, PORRA!”. “PRA VOCÊ TORRAR COM ESSE SAPATÃO!”, “POR MIM, VOCÊ ENFIA SEU DINHEIRO NO CU!”, “SÃO OS LIVROS DA SUA FILHA”, “MIL REAIS O CARALHO!”, “POR QUE O QUARTO TÁ FECHADO?”. Foi nessa hora que pensei em pular a janela. Mas esqueci que era o sétimo andar. E logo a porta se abriu. E quem segurava a maçaneta era um baixinho parrudo, invocado e com cara de torcedor do Corínthias.

- QUE PUTARIA É ESSA? – berrou o baixinho.
- Ham? – eu disse.
- QUEM É VOCÊ, PORRA?
- Ham, não sei – respondi, falando a verdade. Naquele instante esqueci meu nome e até quem era minha mãe.
- Esse é Bono, meu colega da pós – disse Layla me salvando – estamos fazendo um trabalho.

O baixinho olhava fixo para mim. Seus olhos pegavam fogo. Seu rosto estava vermelho. Talvez eu pudesse com ele. Mas esses baixinhos parrudos dão trabalho. Ainda mais daquele tipo, corno de sapatão e virado no caralho porque querem tirar mil conto do seu bolso. Eu não teria a menor chance. Então ele se pronunciou.

- VOU DEIXAR UMA COISA BEM CLARA – disse o baixinho – NÃO QUERO PUTARIA QUANDO MINHA FILHA TIVER AQUI.
- Ana Carolina tá com minha mãe, Jorge – disse Layla – mas eu preciso comprar os livros dela.
- MIL REAIS O CARALHO! – berrou o baixinho pela última vez, saindo do quarto.

Depois não ouvi mais nada. Então Layla voltou dizendo que eu podia sair.

- Desculpa, Bono – disse Layla – meu ex aparece de vez em quando pra encher o saco.
- Esquece aquele anão, Cazuza – disse Cris – vamos recomeçar a festa.
- Não sei seu pinguelão, baby, mas meu pau não sobe mais hoje.

Foi mais ou menos por aí que me despedi das meninas e caí fora. Foi uma noite e tanto. Só me restava bater uma punheta. Não digo naquela noite, nem no dia seguinte, nem depois. Precisava me recuperar. Precisava deixar aquele lugar o mais rápido possível. Quem sabe o baixinho parrudo não estava escondido atrás de uma daquelas barracas de cachorro-quente, me esperando com um porrete na mão. Mas eu não fazia idéia de que lado passava o ônibus. Às vezes o bairro de Brotas parece um cenário dessas séries de TV sem fim e cheias de enigmas.

25.1.10

Nova Temporada

“Sacaninha careca”. Foi a última frase que digitei. Como se fosse a última gota. Depois fui dormir. Estava cansado. Precisava de um tempo. Passar alguns dias sem me preocupar em ter algo a dizer, de preferência algo engraçado. Olha só que merda estou falando agora. Quem diabos eu sou pra achar que tenho algo a dizer? Esse é o problema de um blog. Faz com que um bando de medíocres como eu saiam por aí dizendo tudo que pensam – ou não pensam –, se achando os escritores, os poetas, os sensíveis, os ferinos, os Bukowskis, os críticos, os criativos, os piadistas, os fodões, os desejados. Se achando tão necessários e importantes, acreditando piamente em tudo que dizem por aí naquela seção de comentários. Aí recebo um e-mail de um cara dizendo que escrevo pra caralho e que precisamos marcar pra tomar uma. Por um instante acredito em tudo aquilo e me sinto estupidamente metido e importante. Então vou tomar uma, comer uma pititinga com a turma. É quando todos descobrem que não passo de um completo idiota. Por isso eu precisava desse tempo. Janeiro é um bom mês para se ganhar tempo. Poucos jobs na agência, menos engarrafamentos, aquela letargia embriagante, enquanto tudo segue em seu mesmíssimo lugar: o calor, o sol, os ensaios de verão, a alegria contagiante de tanta gente bonita. Nada para gordos. Nada de novo. Então aparece esse filme, o Avatar. Eu desconfiava, mas falavam em revolução e tal. Fui assistir. Nada demais. Que merda significa revolução? Mas só se fala nisso. No dia seguinte eu estava com o Camaça. Pegava um churrasquinho na Favelinha.

- Você precisa entender, Bono – disse Camaça –, a história do cinema agora se divide em pré e pós-Avatar. É uma revolução, sim.
- Revolução de merda. Uns carinhas azuis que vivem na floresta e lutam contra o homem. Vai tomar no cu. Essa historia os Smurfs já contavam.
- Só o que presta é seu blog. Você é o sabichão. Só você tem história original. Tudo repetido também naquela porra. A putinha do caixa, a putinha da recepção, a putinha do não sei o quê.
- Sabe o que lembrei agora?
- Hum.
- Daquele episódio dos Smurfs. Que o Papai Smurf levava a turma pra uma caverna, eu acho, aí era longe pra porra, e todo hora a galera perguntava, falta muito, Papai Smurf?
- Smurfs era do caralho.
- “Falta muito, Papai Smurf?” Porra, sempre lembro desse.
- As aventuras de Cacá. Também era de fuder.
- Porra, sei a musiquinha até hoje.

O churrasquinho da Favelinha é meio deprimente. Mas é barato. Pagamos a conta e já estávamos de saída.

- Você viu em 3D? Experiência do caralho.
- Vi, mas não vi.
- Como assim?
- Eu não enxergo desse olho. E esse negócio de 3D só funciona com os dois olhos. Eu não sabia. Aí ficava o cinema todo lá fazendo caras e bocas, curtindo a porra do 3D, e eu que nem um idiota sem entender nada. Depois fingi que também tava vendo, tipo, esquivando assim a cabeça, tentando alcançar os bichos.
- Porra, você não enxerga desse olho.
- Não.
- Nada?
- Nada, caralho.
- Gordo, careca, pobre e cego.
- E pau pequeno também...
- Você tem que se matar, desgraça.
- Já pensei nisso.

Nessa hora, passou devagar pelo estacionamento um careca de moto. Ele deu uma buzinada, jogou um cartão na minha direção, e disse, quero lhe fotografar. Depois acelerou. Peguei o cartão, e estava escrito “Viny Castro. Nu Artístico”. Camaça começou a ri.

- Que viadagem é essa? – eu disse.
- Achou, hein, Bono!
- Só pode ser sacanagem.
- Aí, pode ser a capa de seu livro, porra.
- Vá se fuder.
- Sério. Você nu, mostrando o rabo, com os contos escritos nas costas.
- Eu e sua mãe.
- Porra, é sério.
- Ela de quatro e eu metendo.
- Mostrando esse cofrão. Eu só não ia comprar essa porra.
- Sacana careca.