14.12.09

Moisés

Os carequinhas estão sempre por ali. Correndo. Brincando. Ou apenas sentados, esperando. O prédio está cheio deles. O prédio me parece mais triste e sem vida do que os próprios carequinhas. E agora colocaram essa árvore em frente aos elevadores. Uma árvore de natal. No lugar das bolas coloridas são esses cartõezinhos. E em cada cartão há o nome de um carequinha. Não que eu seja insensível. Apenas sou como a grande maioria dos seres-humanos. Sou preguiçoso, não tenho dinheiro, não tenho tempo nem cabeça para esse papo de solidariedade. Mas dessa vez entrei no jogo e peguei um cartão. Escolhi um que estava no lado de trás da árvore. Aposto que eles colocam os carequinhas mais bonitinhos e amáveis na frente. Não, não venha me dizer que a discriminação tira férias no natal.

Moisés Lima Sena. 7 anos. É o que dizia no cartão. Pensei no que o tal Moisés gostaria de ganhar. Brinquedo. Ele tinha razão. Brincar é umas das coisas boas da vida. Pensei em algo que Moisés pudesse brincar sozinho, na sua, para matar o tempo e agüentar o tranco. Então comprei um desses mini-games. De futebol. 40 conto. Achei caro. Mas era um mini-game bacana, da Nintendo. E também era meu primeiro ato de solidariedade do ano. Tinha que fazer bonito.

A festa de Natal dos carequinhas era na própria clínica, que funciona no lobby do prédio. Uma festinha animada, cheia de carequinhas, todos muito parecidos. Faziam uma ciranda. Tinha um palhaço no meio. Música da Xuxa. Havia até uma carequinha vestida de bailarina. A putinha do balcão me apontou quem era o Moisés. O moleque devia mesmo ser parada dura, o tipo anti-social. Não brincava com os outros carequinhas. Estava sentado ao lado da mãe.

- E aí, cara – perguntei – você que é o Moisés?

Moisés não respondeu porra nenhuma. Olhou para mim e para a mãe. A mãe era gostosinha. Mas parecia cansada.

- Acho que você não é o Moisés – eu disse – Você tem cara de professor Xavier. Acertei?
- Diga seu nome, Moisés – disse a mãe – diz a ele que você é o Moisés, diga.

Moisés olhou para mim, riu e cochichou alguma coisa no ouvido da mãe. O pequeno skinhead já estava me sacaneando, e eu já estava de saco cheio. Então lhe entreguei o presente, a mãe agradeceu, eu peguei um pãozinho e um guaraná e saí dali. No mesmo dia, o Camaça, que trabalha no estúdio da nova agência, disse que também deu para um carequinha um mini-game, de futebol, da Nintendo. E que só pagou 9,90 nas Americanas.

Mas eu não podia reclamar. Foi um bom ano. O Flamengo sagrou-se o primeiro Hexacampeão brasileiro de futebol masculino. E eu continuo por aqui, fingindo ser redator. Mas entrei na nova agência. Uma boa agência. Boa até demais. Com esse tipo gente alegre demais e cheia de energia, que fica inventando joguinhos. Agora inventaram esse amigo secreto e inimigo secreto. Tirei um cara que confessou curtir esse lance da putinha mijar na cara dele. Devo ganhar um disco de pagode, um panetone ou uma camisa do Vasco. Sei que vou me fuder nessa história. Gordo só se fode, mesmo no natal.

Por em falar em natal, hoje, quando deixei a agência, avistei Moisés e sua mãe na lanchonete. Quer dizer, Moisés estava lanchando. A mãe estava em pé, de frente para a rua, de braços cruzados. Olhava as luzes de natal. Talvez estivesse se perguntando o que eu sempre me pergunto todo natal. Será que estarei vivo no próximo natal? Enquanto isso Moisés brincava com o copo de Coca-Cola. Nenhum sinal do mini-game. Sacaninha careca.

O Espalitando vai dar um tempo.
No mais, feliz natal a todos. E que em 2010 dê tudo certo.