29.11.09

Eu Precisava Peidar

Acordei com as facadas. O corpo entrevado e as facadas nas costas. Eram os gases. Já não bastavam as crises no rim, volta e meia me vinham esses gases. Presos ao meu corpo. Esmagando as minhas costas. Levantei. Fui para a internet. Havia um e-mail. Uma putinha dizia que queria me entrevistar para um trabalho de faculdade. Foda-se. Com certeza, ela não sentia as malditas facadas. Era sábado. Eu podia ficar na cama. Eu e minha dor. Mas precisava discutir um jingle na casa do Panela. Passei na farmácia e comprei Luftal. Encontrei Seu Edilson no ponto. Vendia seus pasteis gordurosos.

- Paulão, Paulão, Paulão. E o Mengão, Paulão? Parece que agora vai.
- Tomara, Seu Edilson. Tomara.
- Tá com as costas fudida, Paulão?
- Umas dores aí.
- Ah, já tive assim. Quando caí da balaustrada lá na Barra. As puta que me ajudaram.
- Vou lá, Seu Edilson.
- Sério. Se não fosse as puta, eu tava aleijado.

Conheço Panela de longa data. Amigos de infância. Estudamos juntos. Diz ele que hoje é músico. Ele acredita nisso. Isso que é importante. Então quando aparecem esses jingles baratos, Panela me chama para ajudar nas letras. Assim que cheguei, fui direto à cozinha, pegar um copo d'água para tomar o remédio.

- Essa mulher tá enchendo o saco, Bono – disse Panela –, ela disse que quer um jingle mais picante.
- Manda ela sentar em minha pica.

Conversamos um pouco sobre a letra e sobre o ritmo. E enquanto Panela arranhava o jingle no teclado, fiquei vasculhando seus arquivos de sacanagem. A maioria fotos caseiras. Aquilo de sempre. Putinhas arreganhadas e chupando rolas em quartos de motéis baratos. Putinhas amadoras. Caixa do Bradesco, Aluna de Direito da FIB, balconista da C&A. Depois cliquei em outra pasta. Mais uma caralhada de fotos. Mas as meninas pareciam ser mais novas. Menininhas sem peito. Calcinha de algodão. Em poses estáticas. Aquilo eram crianças. Uma delas não parecia ter mais de nove anos. Gelei com aquela porra toda. E senti mais uma pontada de dor em minhas costas.

- Que merda é essa, Panela?
- O quê?
- Essas gurias? Você é algum tipo de pedófilo, caralho?
- Ah, isso foi um cara que me passou.
- Que cara, porra?
- É de Feira. Você não conhece. Mandou no meio de outras aí.
- E o que é que você tá fazendo com essa porra?
- Eu vou deletar, porra. É porque esqueci.

Panela estava branco. E suava. O Luftal demorava de fazer efeito. Olhei mais uma vez para a foto. A menina não tinha nem pentelhos.

- Panela.
- Hum?
- Eu preciso peidar.

Panela riu e voltou para o teclado. Não demoramos muito. Em resumo, tiramos do jingle a parte que falava de paz e repetimos o refrão mais vezes. Ninguém quer saber de paz.

Deixei a casa de Panela antes do meio-dia. Peguei o busu com a esperança de aparecer algum baleiro vendendo Trident. Um chicletinho também ajuda a soltar uns arrotos. Era disso que eu precisava. Peidar ou arrotar. Nada demais. Nada mais humano. Mas vá sair por aí dizendo que está com gases e precisa peidar. “Hi, ele falou peido”, “Bono, você é podre”. Deixa eu dizer uma coisa. Somos todos podres. Até os bonitos. Pelo menos por dentro. Sabe aquela loirinha rica de olhos verdes e pele de bebê? Pois é. Também peida. Pior. Peida e faz cocô. E digo mais. O cheiro não lembra nada Dolce Gabbana. Pensei em Panela. Nos conhecemos na quarta série. Lembro do primeiro dia de aula. Eu disse, você parece o Topo Gigio. Ele disse, e você é gordo. Lembrei do email da putinha que queria me entrevistar. Ela podia ser gostosa, quem sabe. O ônibus chacoalhava sobre as ruas de Salvador. Eu podia sentir as facadas flutuando pelas minhas costas. Lá fora, vi quando um carinha tropeçou e partiu a sandália. Ele olhou para trás, largou as duas sandálias e seguiu em frente, descalço. Eu sempre quis saber como surgiam as sandálias perdidas pela rua.

15.11.09

A Mulher Mais Rabuda da Cidade

Lojas de conveniências, essas dos postos de gasolina, são uma facada. Mas era minha única opção. Já passava de uma da tarde. Sentia fome. É impressão minha ou nessas lojas tudo parece mais gostoso? O mesmo pacote de Bono que tem em qualquer mercado, ali, naquela prateleira, ao lado do Cookies da Nabisco, parece mais gostoso, parece brilhar mais. A diferença é que é o triplo do preço. Eu procurava um sanduíche. Havia um monte deles naquela geladeira. Parecia uma geladeira mágica. Havia os de ricota, mas não sou viado. Peguei um de filé mignon. Fui até a outra geladeira mágica e peguei uma Coca-Cola. Foi quando vi aquela bunda. E meu pau subiu. A mulher tinha uma bunda, que vou lhe dizer. A loira parecia uma daquelas dançarinas do Faustão. Era um chicote grande e matematicamente perfeito. A cavala vestia um jeans apertado, que era possível perceber a calcinha enterrada no fofinho. Fingi olhar o preço do pão de mel só para ver aquele rabo mais de perto. A jumenta pegou um Doritos. Era uma safada. Se ela me desse uma chance, não ia ter muita conversa. Eu falaria logo, de quatro, de quatro, fica logo de quatro, pelo amor de Deus. Mas acho que eu teria bater uma bronha antes. Senão era botar e gozar. Se bem que nem sei se eu conseguiria comer aquela jega. Tanta bunda, tanta carne, esse meu pauzinho de merda talvez nem alcançasse a terra prometida. Pensei até em dar minha Coca-Cola a ela. Quando ela perguntasse, o que é isso? Eu diria, parabéns, você é a mulher mais rabuda da cidade. Foi quando escutei:

- Encosta aí, gordo.

Era um assalto na loja. Um assalto de verdade. Dois caras. Um deles vestia uma camisa do Flamengo, uma camisa antiga, acho que de 95. Estavam armados. Enquanto o outro pegava a grana do caixa, o flamenguista mantinha os clientes e outros funcionários encostados no balcão do cachorro-quente. Sou frouxo como a porra nessas horas. Lembrei de outros assaltos. Pensei que fosse morrer. Até comecei a rezar. Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso, aquele rabo, seja o vosso nome, bundão da porra, meu Deus, Pai nosso que estais, seja feita a vossa, te lasco toda, vagabunda, seja feita a vossa vontade, santificado seja aquele rabo que estava bem na minha frente. Nunca comi e sei que nunca comerei uma mulher daquelas. E se eu pedisse com humildade? Por favor, deixa eu te comer, por favor, por favor, só uma vezinha, na moral, eu meto, tiro e pronto, fica só entre a gente, ninguém vai saber que você deu sua bunda linda e maravilhosa para um gordo feio e asqueroso. Se eu comesse aquele rabo, poderia levar dois tiros nessa minha barriga mole e nojenta, que já teria cumprido meu papel nesse mundo.

- O celular, gordo, passa o celular – disse o flamenguista.

Entreguei meu celular.

- Puta que pariu, pode ficar com essa porra.
- Foi mal, cara. Só tenho esse.

Então os caras terminaram o trabalho. Saíram correndo em direção à Pituba. Eu estava vivo ainda. Aos poucos os ânimos se acalmaram. Só a putinha do caixa ainda estava chorando. A mulher mais rabuda da cidade perdeu o celular, mas pagou seu Doritos e deu o fora. Fui até o caixa. Aproveitei e peguei um Trident. Do verdinho, sabor planta. Um sanduíche, uma Coca-Cola e um Trident. Dava R$ 8,30. Passei o cartão. A chorona disse, desculpa, senhor, mas o cartão não foi autorizado. Era fim de mês. Então dei 1,30 à putinha e levei o chiclete.

1.11.09

Mais do Mesmo

O de sempre. Me arranjaram mais uma entrevista de emprego. Saí uma hora antes. Estava sentado no ponto quando a putinha veio e sentou ao meu lado.

- Oi – ela disse.

Pronto, pensei, vou ser assaltado. Mulheres bonitas não falam comigo assim, do nada.

- Oi – respondi.
- Não tá lembrado de mim? – ela disse

Porra, pensei, nunca me lembro de ninguém.

- Da Academia do Corpo – ela disse – malhamos juntos um tempo. Depois você sumiu.
- Ah, claro, da academia. Me lembro de você.
- Era engraçado, você reclamava de tudo, os aparelhos, até da música, lembra?

Claro, pensei, agora lembro bem de você, gostosa, lembro que bati umas duas em sua homenagem.

- É – eu disse – esse negócio de academia me irrita um pouco.
- Ah, lá vem meu ônibus – ela disse – tchau.
- Tchau.

Quando vi a putinha de costas, subindo no ônibus, lembrei que não bati apenas duas, mas sim umas sete bronhas em sua homenagem.

Logo depois passou o velho Pituba. Não estava cheio. Mas não havia muitas opções. Sentei ao lado de uma mulher sem graça. Mais uma entrevista de emprego. Não custava nada tentar. A não ser o dinheiro do busu. 2,20 para ir. 2,20 para voltar. Se ao menos o cobrador fosse o Vitorinha. Um velho amigo cobrador de ônibus. Ele tinha um esquema com um cartão de estudante. Passava o cartão na máquina e dizia, pode passar, Flamenguinho. Eu só precisava pagar um pouco mais da metade da passagem. Se fosse hoje, por exemplo, eu daria 1,50 e ficaria tudo certo. O esquema era só para os camaradas. O motorista também estava no jogo. Nunca fui muito adepto desses esquemas. Mas é aquela coisa, donos de empresas de ônibus têm mais que se fuder. A mulher ao meu lado, a sem graça, se levantou e tentou abrir a janela. Não conseguiu. Fingi que não vi. Vai que tento abrir a porra da janela e não consigo. Ficaria todo mundo do busu pensando, olha só, que gordo lerdo. Mais adiante entrou um carinha vendendo paçocas e jujubas. Esses caras, os baleiros, quando não há crianças por perto, sempre vêm pro meu lado. Fingi que não o vi. Logo depois chegou meu ponto.

Era um prédio moderno. Bacana. Duas torres e tal. Havia um mal encarado no balcão da recepção. Terno e gravata. “Agência de Comunicação é décimo primeiro, não é campeão?” – perguntei. Ele confirmou com a cabeça. Havia dois carinhas no hall do elevador. Um era office-boy, branco e baixinho. O outro era alto, negro, gordinho e tinha cara de abestalhado. Entramos os três no elevador.

- Você conhece o negão da recepção? – me perguntou o gordinho.
- Não.
- Ele te deixou passar na boa. Pra mim ele pediu meu RG.

O boyzinho com cara de jóquei olhou para trás, sorriu e deixou o elevador no terceiro andar.

- Anotou meu RG e gravou meu rosto numa câmera – disse o gordinho.

Quase mando o gordinho deixar de viadagem e acordar para a vida. Quase digo a ele que o mundo é uma lata lixo repleta de ratos. E que apesar de serem todos ratos, alguns são mais nojentos que os outros, é o caso dos negros, dos gordos, dos viados e dos caolhos. E era isso que as pessoas achavam dele, o viam como um grande e nojento tolete preto de bosta. Quase digo que esse papo de Obama é uma puta balela. Não há nada de novo. A sacanagem continua. Os olhares atravessados continuam. As piadas continuam quando ele sai da sala. Quase que digo que tem pessoas que não fodem com negros por nojo ou princípio. Quase digo que ele era um bandido em potencial não apenas para o porteiro, mas para a copeira, o encanador, a faxineira, o advogado, a publicitária, o engenheiro, o dono do prédio, o dono da rua, o prefeito, o governador e o turista. Se vacilar, até a mãe dele o condenava por ter cabelo ruim. Eu queria dizer para o gordinho que ele não ligasse, mandasse o mundo todo se fuder. Mas como é que não liga, se essa porra dói feito pedra no rim? Quer dizer, nem tanto, mas dói pra caralho.

- É a segunda vez que venho aqui – menti pro gordinho.
- Segunda vez?
- Ontem ele me pediu a carteira e filmou minha cara.
- Ah...
- Entrevista de emprego...
- Ah, tá...
- Essas dinâmica de grupo, a semana toda, sei que não vou passar...
- Pô, boa sorte...

Deixei o elevador no décimo primeiro. Sala 1103. Apertei a campainha. A porta se abriu. Eu disse, boa tarde, a putinha da recepção respondeu. Outra entrevista, pensei, essas coisas cansam.