18.10.09

Uma Porra de Soja

O ar-condicionado da agência, quebrado. Eu trabalhava os mesmos títulos. Os mesmos clientes. Era sexta-feira em Salvador. Eu não vestia branco. Nem dançaria pagode quando a noite chegasse. Mas esperava dar meio dia. Para bater um gigantesco prato de caruru, vatapá, entupido de farofa de dendê. Quando o telefone tocou. Era o Man.

- E aí, Man – eu atendi.
- E esse almoço, man?
- Tava pensando no de sempre. Lá em Dona Irene. Aquele vatapá fudendo.
- Paty Guaraná achou um lugar novo.
- Detesto esse lance de lugar novo.
- Vamos lá, man. A gente bota o papo em dia.
- Como é o nome dessa porra?
- Acho que é Açafrão, man.
- Açafrão?
- Gergelim. Acho que é Gergelim. Relaxe, man. A gente te pega aí.
- Merda.

Espinafre. Era o nome do lugar. Bem no meio do Rio Vermelho. Onde toda loucura pode acontecer. Para chegar ao local, você tinha que subir uma escadaria de pedras. No meio de uma mata. Mata mesmo. Araras, bicho preguiça, lobo guará, plantas alucinógenas, essas coisas. Lá dentro, tudo em tons pastéis, tudo zen, como eles dizem. No buffet, só havia folhas, raízes, grãos, essas palhaçadas. Botei no prato uma porra de soja, a única coisa que me parecia comestível. O cara que pesava os pratos, ele usava uma bata e tinha uma tatuagem na testa, olhou para mim com aquela cara, "seja bem-vindo, homem obeso, nós temos a salvação para você". Filho da puta.

Sentamos à mesa.

- Porra, Paty – eu disse –, comida vegetariana é foda.
- Pense que isso vai lhe fazer bem, Bono.
- O que é isso aí, man?
- Sei lá. Uma porra lá de soja.
- Olha só, tem até musiquinha – disse Paty.
- Enya – disse Man.
- Quando a gente tava subindo, vocês viram a cara da galera que tava descendo? Pareciam dopados. Em transe. Como se fossem zumbis.
- Vocês tão sentido esse cheirinho? – disse Paty – Acho que é sândalo.
- Sândalo o caralho – eu disse – aposto que eles colocam alguma porra na comida.
- Não começa não, Bono – disse Paty.
- Eu lembro que eu só estudava ouvindo Enya, man. Segundo grau. Bons tempos, man.
- É sério – eu disse –, olhe ao redor, Paty. Aqui só tem porra-louca. Olha aquele carinha, a barba cheia de trança.
- Mas tem umas gatas aqui, man.
- Esquece. Tudo com cabelo no suvaco.
- Gente, vamos pedir alguma coisa pra beber – disse Paty.

Então veio o garçom. Um velho de cabelo grande e branco. Tinha uns sete colares pendurados no pescoço. E acho que também tinha os olhos vermelhos.

- Eu quero um suco de abacaxi com hortelã – disse Paty.
- Suco de laranja, man.
- Uma Coca-Cola, só gelo.
- Não temos refrigerantes, senhor.
- Porra, só tem suco?
- Perfeito, sucos e chás.
- Porra, me vê um suco de limão.
- Perfeito.
- Não precisa colocar nada dentro. Só quero o suquinho mesmo, na manha.
- Perfeito.

Assim que o pajé saiu, continuamos a conversa.

- E esse feriadão, man?
- Eu tô branca demais, preciso de uma praia – disse Paty.
- Vou ficar em casa – eu disse.
- Porra de ficar em casa, man. Vamos pra Chapada.
- É uma boa – disse Paty.
- Porra de Chapada.
- Man, tem cada trilha de fuder.
- Porra de trilha. Eu sou algum sacana?
- Não adianta, Man – disse Paty – Bono não gosta de nada.
- Mas vale à pena, man. A gente encontra cada cachoeira do caralho.

Foi nessa hora que o Gandalf chegou com as nossas garapas.

- Sim, e depois? – perguntei a Man.
- Depois o quê, man?
- Depois da cachoeira, cacete, faz o quê?
- Depois volta pra pousada, Bono! – disse Paty!
- Esse é o problema. Você anda, anda, anda, escala, desce, pula, se fode todo pra encontrar uma porra de uma cachoeira. Grandes merdas. Mas vamos dizer que é uma cachoeira fudendo, linda, essa porra toda. Aí você toma banho na sua cachoeira, beleza, aí depois tem que andar tudo de novo, voltar a porra toda, se fuder tudo de novo. O saldo é negativo. Se por acaso, depois da cachoeira, viesse uma porra de um helicóptero, me pegasse e me levasse de volta pra pousada, tudo bem. Mas não, tem que andar tudo de novo. Pra ficar a noite toda passando Hipoglós no rabo, com a perna pra cima e você...porra, um duende!
- Hum?
- Um duende, porra. Eu vi um duende. Correndo ali fora!
- Ok, nada de Chapada – disse Paty.
- Eu não tô entendendo nada, man. Você quer dizer que tem duende na Chapada?
- Porra, eu quero dizer que aquele velho sacizeiro desgraçado não botou açúcar na porra do meu suco, mas botou alguma porra, algum pozinho maldito, porque eu vi uma merda de um gnomo, um hobbit, sei lá, passar ali fora, correndo, caralho.
- Pra variar, é Bono botando defeito no restaurante.
- Mas você falou a verdade, man. Eu sempre levo Hipoglós quando vou pra Chapada, senão me fodo, uma perna roça na outra aí...

Paty Guaraná e Man continuaram falando sobre as opções do feriadão na Bahia. Falaram mais da Chapada, da praia de Jauá, de uma Choppada em Sauípe. Nada me interessava. Exceto a preferência pelo acarajé e vatapá, acho que não tenho nada da Bahia. Não tenho essa alegria toda. E meu feriadão seria apenas mais um sábado, um domingo e uma segunda. Talvez eu pegasse um filme. Se desse sorte, poderia comer alguém. Era isso que eu queria fazer no feriadão. Porra de Chapada. Eu queria escalar uma bucetuda. Uma mulher com a buceta bem grande para eu subir e descer.

Assim que terminamos de comer, fomos pagar a conta. Era numa espécie de cabana. Cheia de souvenirs, incensos, mandalas, não-sei-o-que-lá dos ventos e panfletos. Vários panfletos de massagens, óleos e bruxarias. A porra de soja deu 16 conto. Essa turma é louca, mas é esperta. Viva a natureza e dinheiro no bolso. Com 16 conto, eu batia dois pratos de caruru em Dona Irene.

- Confesse, Bono – disse Paty – tá se sentindo mais leve?
- Acho que ainda peso meus 120 quilos.
- EU VI, EU VI, EU VI, MAN!
- Viu o quê, menino? – disse Paty
- O duende. Eu vi o duende, man!
- Até você, Man? – disse Paty.
- Tem umas orelhinhas assim, né man? – perguntei.
- Umas orelhinhas de ponta, man. Ele é pequenininho. Correu ali pro canto.
- Tinha um shortinho vermelho?
- Acho que era roxo, um shortinho roxo, man.

5.10.09

Meu Pau é Flamengo

1987. Um ano importante. Foi quando bati minha primeira punheta. Eu era apenas um gordinho de dez anos descobrindo os grandes prazeres da vida. Como correr pelo Largo da Lapinha. Jogar bola com os amigos. Passar a mão nas menininhas. Torcer pelo Flamengo. Foi a primeira vez que vi, conscientemente, o Flamengo ganhar um campeonato. Aquele time era demais. Zé Carlos, Jorginho, Leandro, Edinho, Leonardo, Andrade, Ailton, Zinho, Renato Gaucho, Bebeto e, o melhor de todos os tempos, o velho Zico. Lembro até que ganhei no bafo a figurinha de Jorginho, a última que faltava para completar o meu álbum de figurinhas. Se hoje ainda me resta algum resquício de autoestima, devo isso aquele ano, 87, quando o Flamengo sagrou-se o primeiro tetracampeão brasileiro.

Por isso não pensei duas vezes quando conheci essa putinha, a Janine. Ela trabalhava no arquivo de uma produtora de vídeo, onde passei um tempo dando uma de roteirista. Janine era feia, é verdade, mas tinha duas super bolotas de peitos que deixavam qualquer cacete duro. Conversamos vez ou outra, mas foi na festinha de fim de ano, que tomamos umas taças de vinho e nos conhecemos melhor.

- O vídeo de natal ficou lindo, Bono.
- Obrigado, Janine. Mas eu só escrevi os diálogos.
- Só não entendi aquela parte que você critica o panetone.
- Engraçado, como você fala a letra T.
- Sou pernambucana, ainda não perdi o sotaque.
- Pernambucana? Eu conheço uns caras de Recife.
- Acho que já tô tonta, Bono.
- Bons amigos, torcedores do Santa Cruz.
- Eu torço pro Sport.
- Porra, Janine, pro Sport?
- É sério. Pra mim, chega de vinho.
- Mas você sabe que o Flamengo é o verdadeiro campeão de 87?!
- Não, não sei. Não entendo nada de futebol. Digo que sou Sport por causa de meu pai.
- Janine.
- Hum.
- Vamos pra casa de minha avó? Ela tá viajando.
- Bono, eu acabei de sair de um relacionamento, você é...
- Lá tem um corredor bem grande. Você vai gostar.
- Corredor?

Tomamos mais um gole de vinho e deixamos a festinha. Entramos num táxi e fomos para a casa de minha avó, onde fui direto ao assunto.

- Tira a roupa.
- Poxa, é grande mesmo o corredor.
- Tira a roupa.
- Vá com calma, Bono, eu também tô a fim, mas tô tonta e...
- Tira a roupa, porra.

Janine tirou a roupa. Eu já planejava fazer uma espanhola supersônica, mas fiquei ali durante um tempo olhando para aqueles peitões mágicos.

- Agora corra – eu disse.
- O quê?
- Corra.
- Como assim, Bono?
- AGORA CORRA, PUTA, CORRA!

Foi quando bateu o desespero na cara de Janine e ela correu em direção à cozinha. Eu sempre quis ver uma peituda correndo alucinada por um corredor gigante. Então tirei a roupa e fui atrás dela. Encontrei Janine agachada, soluçando atrás da mesa. E com a cabeça do meu pau, dei três cutucadas em sua cabeça, e disse baixinho:

- Quer dizer que você é Sport?

Como eu disse, 87 foi um ano importante. Desses que a gente leva como referência para o resto da vida. Já foi até final de minha senha bancária. Eu sei, 87 ficou bem para trás. Já não vivo na Lapinha. Já não consigo jogar bola. Já não tenho amigos para jogar bola. E as menininhas já não querem saber de mim. Por isso me revolto e não aceito quando uns filhos da puta desinformados insistem em dizer por aí que o campeão brasileiro de 87 foi o Sport Recife, arrancando a única coisa boa que ainda me resta daquele ano e que está costurado no meu peito. Por isso naquela noite fiz questão de meter no rabo de Janine. Por isso meti com força. Por isso puxei seu cabelo e disse, 87 É NOSSO, SUA PUTA, 87 É DO MENGÃO. E só não enfiei meus ovos naquele rabo porque tive humildade em gol. Depois ela veio com aquele papo, você é louco, Bono. E eu disse, e se você falar mal do Zico, eu juro que como seu ouvido.